sábado, 15 de março de 2014

Um gato enroscado ao sol

Raul Lino descrevia a Casa do Cipreste, em Sintra, como “a casa como um gato enroscado ao sol” e, se olharmos para a planta, assim parece. Mas depois de a sentirmos, no seu calor e aconchego, percebemos que a descrição não se referia apenas ao desenho. Apreciador da obra do arquitecto da Casa Portuguesa, foi com grande satisfação que a visitei, muito bem guiado e acompanhado.


O primeiro desenho do conjunto data de 1907 e a construção da casa teve início em 1912. A propriedade, numa das vertentes do Castelo dos Mouros, era designada por “Pedreira”, em memória de uma anterior actividade extractiva no local. Esta particularidade, alertaram-me, faz desta habitação “a casa menos húmida de Sintra”. Martinho Pimentel, o bisneto de Raul Lino, recebeu-nos com grande hospitalidade, depois de tocarmos o sino à porta da rua. É bom saber que a casa continua na família.

Depois de apreciarmos alguns pormenores no pátio da entrada, vimos o local de trabalho do genial arquitecto, onde desenhou vários dos seus projectos. De seguida entrámos na casa de habitação e falámos sobre a importância da porta, algo que Raul Lino salientava. Uma vez no interior do lar, fizemos um percurso completo, tentando reparar em todos os pormenores cuidados. Há uma curiosidade interessante, o chão de cada divisão é diferente, marcando claramente a passagem de um espaço para o outro.


Ao fundo de um corredor, somos parados pela vista extraordinária daquela terra mágica. À esquerda, a sala octogonal, onde Raul Lino se reunia com as importantes figuras intelectuais do seu tempo e onde agora, quase um século depois, eu, o Rodrigo Sobral Cunha, o Pedro Sinde, o Manuel Gandra e o Martinho Pimentel, descendente do arquitecto, nos sentámos para uma conversa sobre a casa e a obra de Raul Lino, onde não faltaram o chá e os ‘scones’. À direita, uma sala de refeições com uma acústica impressionante, cujos efeitos em nós são indescritíveis.


Descemos até à parte traseira e olhámos a forma harmoniosa como a casa se funde com a vertente rochosa. Passeámos pelo jardim e espreitámos o poço que dá para o reservatório de água. Mas já se fazia tarde, como sempre, e tivemos que partir – que desenroscar-nos. Ficou tanto por ver, ficou tanto por contar. Ficou a promessa de regressarmos a uma casa onde nos sentimos em casa.

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