quinta-feira, 6 de março de 2014

Persistir no erro

A oposição ao famigerado Acordo Ortográfico tem sido transversal na sociedade portuguesa. Uma causa que mobiliza cidadãos das mais variadas sensibilidades políticas, que conseguiram levar o assunto à Assembleia da República na semana passada. Mais, conseguiram chegar a diversos deputados que também são contra este crime lesa-língua e que o procuraram denunciar nos seus grupos parlamentares.

No entanto, a barreira entre a vontade popular e aqueles que a devem representar existe. Há, de facto, um bloco central que segura um Estado estático.

Os partidos da coligação governamental podiam não só ter apoiado os seus deputados que tão bem alertaram para a situação de caos que o (des)Acordo tem criado, como conseguir um entendimento com outros deputados e outros grupos parlamentares, esquecendo diferenças de cor política pela preservação de um património que é de todos nós. Mas não, preferiram persistir no erro, ignorando todas as razões apresentadas e devidamente fundamentadas.

O que aconteceu demonstra bem que os “governantes” de hoje em dia pouco mais são que “funcionários de manutenção”. Mais preocupados com a gestão dos números de forma a agradar aos credores internacionais, são incapazes de marcar a diferença, deixando passar uma oportunidade de ouro para uma decisão de afirmação política em prol de Portugal.

Perder uma batalha não significa perder a guerra. A luta contra o Acordo Ortográfico continua e nunca podemos baixar os braços.

Por fim, aos ignorantes ou desonestos que usam Fernando Pessoa em defesa deste Acordo, recorde-se uma afirmação do nosso poeta sobre a reforma de 1911: “A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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