quarta-feira, 5 de março de 2014

“O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas”

Riccardo Marchi é um historiador italiano radicado em Portugal que se tem dedicado ao estudo das direitas radicais na democracia portuguesa. Desde 2008 que é investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em 2010 organizou o colóquio “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas”, onde participaram Rui Ramos, Jaime Nogueira Pinto, Henrique Raposo, Ernesto Castro Leal, José Pedro Zúquete, entre outros. As comunicações desse colóquio foram agora reunidas num livro essencial para compreender o estado e o futuro das direitas no nosso país. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição de «O Diabo» de 18 de Fevereiro de 2013.

Riccardo Marchi, Fátima Bonifácio e Rui Ramos
no colóquio "As raízes profundas não gelam?", em 2010

Qual foi o objectivo do colóquio que deu origem a este livro?
Quando em 2005 iniciei as minhas investigações de doutoramento acerca das direitas radicais no fim do Estado Novo – tese publicada nos dois livros “Folhas Ultras” (ICS, 2009) e “Império Nação Revolução” (Leya, 2009) –, senti a falta, na minha revisão bibliográfica, de obras de conjunto sobre o tema das direitas em Portugal que pudessem servir-me para enquadrar o meu objecto de estudo. Este género de bibliografia já está presente, há anos, nos outros países da Europa Ocidental: não falo apenas de trabalhos seminais como “La Droite en France”, de René Remond (1954), mas de uma grande variedade de análises historiográficas e politológicas de conjuntos que foram publicadas ao longo dos anos nos diferentes países sobre os percursos das direitas autóctones, sobre as suas diferentes matrizes doutrinárias, as suas evoluções, as estratégias, as convergências, as divergências, os legados que deixaram nos actores políticos que ocupam actualmente este espaço político.

Em Portugal não havia tais trabalhos?
Em Portugal havia muito e bom trabalho já feito sobre a primeira metade do século XX, inclusive o Estado Novo, menos sobre a segunda metade do século passado. Mas sobretudo faltava – e falta – uma reflexão diacrónica sobre as direitas portuguesas na contemporaneidade. Uma obra deste género é assaz complexa a fruto de muitos anos de investigação e reflexão madura, razão pela qual, quando em 2010 iniciei este projecto editorial, o meu intuito era mais limitado: reunir alguns colegas com trabalho sólido sobre diferentes experiências das direitas portuguesas desde o miguelismo até aos nosso dias para propor uma série de reflexões que contribuam à análise de longo período das direitas em Portugal. Como é óbvio e como é costume dizer-se nestas circunstâncias, não se trata de por uma palavra fim à investigação sobre este tema, mas de participar ao debate historiográfico – segundo Rui Ramos ainda incipiente – sobre as direitas em Portugal.

Ao falar de direitas significa que não há uma direita?Sem dúvida. A existência de direitas plurais, muito diferentes entre elas é um dado empírico. Há umas direitas contra-revolucionárias e umas direitas herdeiras das revoluções dos século XVIII e XIX, umas direitas monárquicas e umas direitas republicanas, há umas direitas profundamente influenciadas pelas revoluções nacionais dos anos 20 e 30 do século XX e umas direitas que se opuseram determinantemente aos fascismos; há umas direitas católicas anti-conciliares e uma direitas laicas que pouco se interessam com a dimensão religiosa; há umas direitas que, face à crise de Europa, procuraram soluções no tempo (indo às raízes mais profundas do Velho Continente) e há umas direitas que procuraram estas soluções no espaço (olhando além-Atlântico). Face a esta diversidade – aqui só sumariamente esboçada – utilizar o termo Direita no singular vicia a análise logo a partida, pressupondo que há uma tradição única a partir da qual é possível traçar um ‘fil rouge’ determinístico. O livro quis evitar este determinismo e apostar muito mais na diversidade que resulta sempre mais fecunda quando se pretende realçar as características profundas de determinados fenómenos para avaliar quanto e como estas características permaneceram ao longo do tempo.




A associação das direitas ao Estado Novo ainda subsiste?
Não há dúvida que afirmar-se de direita em Portugal leva o próprio interlocutor a associar imediatamente esta posição com conceitos como salazarista, autoritário, de duvidoso ‘pedigree’ democrático. É um reflexo natural vista a relativa proximidade histórica do regime autoritário. Contudo, diria que, nos últimos anos, o fenómeno mais interessante é a associação constante das direitas não tanto ao Estado Novo mas sim ao neoliberalismo. O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas. Os dois conceitos tornaram-se praticamente sinónimos: direita é neoliberalismo.

Isso faz algum sentido?
Estes géneros de associações mais que “fazer ou não fazer sentido”, são pouco úteis para a análise científica porque os conceitos, usados e abusados na polémica política, acabam por perder a sua capacidade heurística. O termo “neoliberal” sofreu esta degradação. Na área governamental da democracia portuguesa, as direitas são acusadas de ter traído as respectivas matrizes social-democrata e democrata-cristã para se tornarem neoliberais; as esquerdas são acusadas de ter traído a matriz socialista para actuar políticas neoliberais e de estar prestes a traí-la novamente para fazer mais do mesmo; as esquerdas radicais tentadas de aproximações aos socialistas são acusadas de desvios neoliberais; o FMI é neoliberal, a União Europeia é neoliberal. Mário Soares, que fez entrar o FMI em Portugal em 1977 e Portugal na CEE em 1986, é o paladino do anti-neoliberalismo. Quando com um rótulo se pretende explicar tudo, arrisca-se a não explicar nada.

O que também aconteceu com a associação ao Estado Novo...
A associação entre Direitas e Estado Novo sofreu do mesmo limite: de instrumento útil para perceber parte da cultura política das direitas na democracia portuguesa, tornou-se muitas vezes uma perspectiva incapacitante, inadequada para se compreender em profundidade outras matrizes ideológicas, outros percursos, outras estratégias presentes nas direitas a partir de 1974 e que determinaram a sua evolução muito mais que o legado estadonovista.

Não acha que a associação das direitas aos “fascismos” é um ataque fácil das esquerdas?
Associar as direitas actuais aos fascismos dos anos 30 é um ataque tão fácil como associar as esquerdas actuais aos regimes comunistas pré-1989.  É tão fácil que até se tornou banal, pouco útil, sem sentido de tal forma que, mesmo na polémica política mais simplista, já não é tão comum que um actor político das direitas seja apelidado de “fascista”, exactamente porque sendo genuinamente outra coisa, quer em termos de doutrina, quer em termos de ‘praxis’, nada resulta mais fácil para o visado que refutar esta acusação com as mais veementes atestações de antifascismo. Eu não falaria de um “ataque fácil” das esquerdas às direitas através do rótulo de “fascista”, mas destacaria, pelo contrário, um fenómeno diferente: as esquerdas à esquerda dos socialistas perceberam há muito a inutilidade da acusação de fascismo dirigida à direita e escolheram outros rótulos como o já referido “neoliberal”, apesar de a carga simbólica ser claramente menos pesada. A partir dos socialistas para a direita, pelo contrário, não me parece que haja uma corrida à atribuição de rótulos difamantes para levar ataques fáceis. Parece-me, ao invés, que há uma proliferação de atribuições mútuas de patentes democráticas, para sublinhar a legitimidade na alternância ao poder face aos perigos provenientes dos sectores julgados alheios ao arco democrático: assim, na esquerda temos uma distinção entre a “esquerda democrática” e as outras (radicais, comunistas); na direita temos uma distinção entre a “direita democrática” e a outras (extremas, populistas). Os “democráticos” de direita e de esquerda legitimam-se mutuamente face aos “outros”: esta evidência portuguesa está perfeitamente integrada no panorama da política europeia. Permita-me concluir com uma nota: não deixa de ser interessante a preocupação subjacente à sua pergunta acerca do “ataque fácil” sofrido pela direita actual através do rótulo de “fascista”. Nos anos 30, o ataque fácil – e insuportável – para um fascista era o ser acusado de não passar de “um homem de direita”.

Qual o futuro das direitas em Portugal?
Quanto mais estudamos a polimorfia das direitas na História portuguesa, mais nos damos conta do processo de homogeneização e conformismo ao pensamento dominante que sofreram nos últimos anos. Nada leva a crer que este processo seja destinado a reverter no curto prazo, o que não implica entraves para a gestão do Poder. Muito pelo contrário.

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