quinta-feira, 13 de março de 2014

Leituras fundamentais

Na era dos consumidores e dos “clientes”, cada vez mais os pais deixam os filhos na escola como se deixassem o carro na oficina para uma revisão. Reconhecendo a importância dos estabelecimentos de ensino na formação das crianças, não podemos – não devemos – esquecer que os valores fundamentais se transmitem em casa, no seio da família.

Mantenho um hábito que infelizmente se tem vindo a perder, leio aos meus filhos antes de eles adormecerem. Ao contrário do que possa parecer, em especial aos anestesiados pela (des)cultura do ‘zapping’, não são momentos enfadonhos. Pelo contrário, os meus filhos preferem-nos à televisão, o que é já o primeiro indício de que é possível escapar à ditadura mediática.

Não só a leitura é importante, como mais importante é o que se lê. Agora estamos a ler a “Ilíada”, na versão da Sá da Costa, “contada às crianças e ao povo”. A minha filha prefere naturalmente Helena e os seus curiosos olhos azuis reluzem quando se fala na “mais bonita, a mais elegante, a mais graciosa e, ainda, a mais rica das mulheres gregas”. Já a preferência do meu filho, mais velho, vai para Aquiles, “o glorioso Aquiles, detentor de vitórias e de troféus inumeráveis”. A beleza e a nobreza, o espírito trágico e a coragem, assim se começam a passar valores fundamentais que as teorias uniformizadoras pretendem apagar.

Por vezes eles lêem partes, outras vezes leio-lhes passagens da versão original, explicando que ali estão as nossas raízes profundas. Como afirma Frederico Lourenço na introdução da sua tradução, “Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultural ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo”.

Mas já está escolhida a próxima leitura fundamental, são “Os Lusíadas” adaptados por António Manuel Couto Viana e ilustrados por Lima de Freitas para a colecção “Clássicos Juvenis Verbo”.

O amor pela leitura e pelos clássicos, um testemunho essencial que devemos passar às gerações futuras.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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