quarta-feira, 26 de março de 2014

Drieu La Rochelle inédito

Há escritores cujo talento inegável não os deixa morrer. Mesmo com muitos entraves e tentativas de “esquecimento”, Pierre Drieu La Rochelle continua presente no panorama literário francês. É bom lê-lo, é melhor regressar à sua obra, mas redescobri-lo em cinquenta páginas de textos inéditos é uma experiência privilegiada, que este mês nos chega através de uma revista de referência.


A «Revue des Deux Mondes» [Revista dos Dois Mundos] é uma revista mensal literária e de cultura com uma longevidade impressionante, sendo uma das publicações periódicas mais antigas de França. Foi fundada em 1829, por François Buloz, com o objectivo de estabelecer uma relação entre a França e os outros países europeus, mas em especial com o Estados Unidos da América, ou seja, entre o Velho Mundo e o Novo Mundo. Tendo passado naturalmente por várias alterações, continua a ocupar um lugar cimeiro entre as revistas culturais francesas de referência. Felizmente, esta é uma publicação que é possível encontrar à venda em Portugal, poupando-nos os excessivos portes de envio.

O forte da edição de Março são os textos inéditos de Pierre Drieu la Rochelle, escritor francês que foi por muitos condenado à lista dos “malditos”, pelas suas ideias políticas. No entanto, o seu extraordinário talento conseguiu derrubar muitas barreiras e ultrapassar a intolerância dos que se consideram donos da verdade. Talvez por isso é que só há dois anos a sua obra foi publicada na prestigiada biblioteca da Pléiade. Dúvidas restassem, o editorial deste número reconhece-o como “uma personagem lendária da literatura do século XX”. Mais, considera-o “um sismógrafo do seu tempo”, essencial, por isso, para melhor compreendermos o grande sismo europeu que foi a Primeira Guerra Mundial. Assim, os inéditos escolhidos têm como foco a guerra de 1914-1918 e abarcam vários registos, desde as notas pessoais ou o esboço para uma ficção, à poesia e à troca epistolar com os seus amigos Jean e André Boyer e uma carta a Jean Paulhan. Mas o destaque vai para o texto “A minha concepção metafísica da guerra”, onde Drieu concebe a guerra como um movimento, um choque de movimentos contrários” e “a paz perpétua como função da senilidade humana”.

Ainda nesta edição, podemos ler a grande entrevista com o Patriarca Bechara Boutros Raï sobre a noite que cai sobre os cristãos do Oriente, para além de outros artigos e das habituais críticas de cinema, música e discos, bem como as notas de leitura de vários livros recém-publicados.

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