sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os homens da mala

Há uns tempos jantei com um antigo colega de curso que está agora num gabinete ministerial. Devo dizer que não tem filiação partidária e que foi escolhido pela competência demonstrada nas funções desempenhadas anteriormente. Não o faço em sua defesa, porque de tal não precisa, mas apenas para registar, com agrado, que nem todos os que chegam a lugares de topo são meros ‘boys’, que conseguiram um tacho devido ao cartão do partido.

Ao falarmos, inevitavelmente, sobre a situação política do País, nomeadamente sobre a vinda da ‘troika’ e dos seus ditames, contou-me que nas ocasiões em que esteve reunido na presença desses “homens da mala”, como lhes chamou, ficou profundamente incomodado. Disse-me que eram indivíduos cinzentos, técnicos frios com uma postura distante, nos quais notou algum desprezo pelos responsáveis nacionais, a quem não reconheciam qualquer autoridade.

Se há algo que partilho com este amigo é o amor por Portugal e, por isso, compreendi naturalmente o que sentia e a razão por que decidiu contar-me tais experiências.

Para além das justificações de ordem económica, financeira, mas também política, há aqui uma intolerável submissão a emissários estrangeiros, que reflecte bem o estatuto de protectorado a que nos entregámos.

Temos seguramente muitas culpas no cartório no que respeita à actual situação do País, mas que esta humilhação sirva para despertar o orgulho em ser português, pelo menos naqueles em que ainda corre sangue nas veias.

Pode ser que assim deixemos de ter gestores de uma empresa em processo de recuperação e passemos a ter homens de Estado, cuja prioridade seja o interesse nacional e não a “retoma” ou os “mercados”. Verdadeiros líderes que mandem os “homens da mala” embora, de vez.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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