segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Da palavra "urbanização"


«Há palavras que aparecem como vírus num meio propício, alastrando à maneira de epidemia, irritando ou estimulando pela novidade; criam noções sintéticas que influem na maneira de ver; – depois atenua-se a sua virulência e a pouco e pouco quási se destituem de sentido…

Lembro-me, por exemplo, da palavra vitamina que provocou uma pequena revolução nas noções da dietética, e que, impressa sobre qualquer lata de conservas, introduziu uma nota inesperada de mistério na alimentação da gente, dando lugar a série de crendices fantasiosas. – Recordo-me então de quando surgiu o aerodinamismo ao qual se sujeitou a forma de todos os objectos industrializados, desde o avião bombardeiro ao simples cabo de guarda-chuva ou à asa de qualquer cafeteira. – Tivemos o “sex-appeal” prestigioso, vocábulo estrangeiro destinado a provocar certas perturbações… magnéticas, de origem cine-astral, – vocábulo em breve desbancado por outros termos da última hora…

Enfim, creio que também a palavra urbanização participa destes efeitos de novidade mais ou menos excitantes. Urbanização, urbanismo, urbanologia, urbanista, etc. – a sua novidade está apenas no nome, que as respectivas funções existem desde que há civilização.»

Raul Lino
in “Quatro palavras sobre urbanização” (1945).

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