sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Portugal: uma nação com futuro


É habitual fazer-se no final do ano uma revista dos principais acontecimentos, um exercício que nos deve levar a reflectir sobre o futuro. É também esta a época propícia a promessas para um novo tempo, a decisões de mudança. É o tempo de acreditarmos que nem tudo está perdido e que podemos alterar o curso da nossa vida. Por isso, Janeiro, o primeiro mês do ano, deve o seu nome a Jano, o deus dos inícios e fins para os romanos. Impõe-se, assim, uma análise do passado recente de Portugal. Não para entrar no coro catastrofista que parece ter tomado conta do País, nem no clube das esperanças vãs de promessas eleitoralistas, mas que descubra na atitude recente dos portugueses o espírito de um povo que outrora venceu ventos e tempestades e descobriu o mundo. As estações do ano fazem também parte da vida, por isso sabemos que a seguir ao Inverno chega a Primavera. Portugal tem futuro.


O nosso país é filho da Reconquista. Essa força motriz fundacional preservou a nossa independência ao longo dos séculos. É importante que a tenhamos presente nos tempos difíceis que atravessamos. É a esperança que nos trouxe, enquanto nação, ao século XXI e que nos assegurará o futuro. Sabemos que podemos mudar de direcção e evitar o declínio do nosso país, da nossa gente. Mas, como diz o povo, “as coisas não caem do céu”...

Crise
A crise económico-financeira abateu-se sobre Portugal, tendo-se vindo a alastrar a cada vez mais países, pondo em causa um modelo de desenvolvimento e afectando directamente as famílias, que sentiram na pele os efeitos das chamadas medidas de austeridade e contenção. Saindo do economês, essa novilíngua tão em voga nos dias que correm, os portugueses sofreram cortes nos salários e nas pensões, ao mesmo tempo que foram confrontados com um aumento generalizado dos preços. As falências multiplicaram-se, o desemprego subiu em flecha, a emigração voltou a ser a solução para cada vez mais pessoas e o nível de vida baixou.
No entanto, esta crise, contrariamente ao que certos “iluminados” nos querem fazer crer, não é apenas económica. É, sobretudo, política.
Escreveu Camões que “o fraco rei faz fraca a forte gente”. E como o temos visto na História recente de Portugal. Um país que se hipotecou ao estrangeiro a troco de uns cobres, que engordaram uma classe política subserviente, sem qualquer sentido nacional.

Soberania
A soberania nacional voltou ao debate público. Se bem que a soberania política pouco mais seja que uma ficção, hoje em dia, quando estamos sujeitos à União Europeia e, pior, aos desmandos dos ditos “mercados internacionais”, sob as fiscalizações periódicas dos técnicos da ‘troika’ que nos comanda, a soberania não se resume a esse aspecto.
A cultura é um dos pilares da soberania e talvez por isso tem sido paulatinamente delapidada. Um valor fundamental é a língua portuguesa e a sua afirmação no mundo. Ora, neste caso, com o disparate do famigerado Acordo Ortográfico, tudo indica que se repita o que aconteceu no passado, ficando Portugal a falar – ou melhor, a escrever – sozinho, depois de uma cedência incompreensível.
O poder da lusofonia e a área de influência geopolítica de Portugal não dependem de um acordo ortográfico, que ainda por cima se revelou bastante prejudicial.
Também a nível interno o caos ortográfico apenas veio agravar o mau estado da educação no nosso país, comprometendo a formação dos mais jovens.
Outro aspecto, muito importante e a não descurar, é o descontentamento que se vive nas forças de segurança. Estas são um pilar do Estado e quando assistimos à manifestação das polícias em frente à Assembleia da República e ao mal estar nas Forças Armadas não podemos ficar descansados.
Ainda assim, o facto de a soberania voltar a ser um assunto discutido na praça pública demonstra um reconhecimento da sua importância. Não é a primeira vez na História que nos vimos privados da nossa soberania. Não devemos, por isso, aceitar passivamente a actual situação como uma finalidade. Devemos, pelo contrário, entendê-la como uma motivação para uma restauração.

Partir
A emigração atingiu níveis preocupantes, com números impressionantes que ultrapassam os dos anos 60 do século passado. É no estrangeiro que principalmente a geração mais nova procura e encontra trabalho. São jovens com formação que saem todos os dias em busca do que o actual sistema não lhes proporciona. E não é só a crise que lhes abre a porta, ouvimos o primeiro-ministro afirmar que a emigração é uma oportunidade.
Parece a solução fácil e imediata para os preocupantes números do desemprego que comprometem os governantes, mas é uma atitude derrotista de quem faltou aos seus.
No entanto, vemos que os portugueses que partem vingam lá fora. É um sinal de que conseguimos quando queremos, pressionados pelas circunstâncias, e que o mesmo fenómeno se pode passar dentro de portas.

Bloqueados
No que respeita ao sistema político, é evidente que este se encontra bloqueado. Os partidos pouco mudaram desde o 25 de Abril de 1974. Foram deixando pelo caminho as convicções ideológicas e perdendo militância. Os cidadão foram-se sentido cada vez menos representados e por isso aumentam os protestos de rua e a abstenção eleitoral. As tentativas de criação de novas forças políticas não passam de aventuras românticas que normalmente morrem na praia.
Portugal é o país do extremo-centro, onde os políticos são criados nos viveiros das juventudes partidárias e governar passou a ser como gerir uma grande empresa. Há muitos que não governam, antes se governam, numa estranha cumplicidade entre a política e o mundo dos negócios e das negociatas, dos conhecidos e dos conhecimentos, dos interesses, quase sempre próprios.
Para piorar, há um sentimento generalizado de que os políticos beneficiam de um estatuto de impunidade e que nunca são penalizados, mesmo quando infringem a lei, apesar de algumas condenações. É o reflexo de uma Justiça que também se afastou do cidadão comum e que parece apenas ser para quem tem possibilidade para pagar elevadas custas judiciais e aos advogados mais conhecidos da praça.

Indecisão
Vivemos tempos de indecisão e de insegurança. Quando as instituições falham, é difícil acreditar no País.
As manifestações de rua, as greves e demais protestos, mostraram um descontentamento generalizado. Claro está que muitos apenas querem que tudo fique como antes e muitas destas acções são orquestradas pelas esquerdas, sempre ansiosas por manipular o povo. Mas cada vez mais pessoas descrêem no actual sistema partidário e nas promessas de milagres daqueles que nunca ocuparam o poder, nem fizeram nada para melhorar o estado do País.
Por outro lado, vimos como na adversidade muitos souberam “dar a volta”. Não esperaram por subsídios ou por “ajudas externas”, como fez o Governo. É uma faísca para atear a chama da mudança. Uma chama viva que nos ilumine um novo caminho.
Porque é preciso estar entre a espada e a parede para tomar decisões arriscadas, mas que nos podem salvar a vida.

Triste fado?
Há sempre quem assegure que o declínio é o triste fado nacional e que regurgite recorrentemente o discurso da inviabilidade de Portugal. Há mesmo quem declare a morte da Pátria e a apresente como solução! Também aqui não há novidade e, se olharmos para trás, temos vários exemplos desta trágica profecia que, felizmente, nunca se concretizou.
Na conclusão do seu último livro, intitulado “Portugal: Ascensão e Queda”, Jaime Nogueira Pinto afirma: “Num mundo globalizado e com uma cultura cosmopolita de movimento e mudança, os portugueses têm seculares vantagens competitivas: do cosmopolitismo, identificado por Pessoa como característica nacional, à capacidade de resposta aos grandes desafios identificada por Jorge Dias. Subimos sempre que os acontecimentos, a necessidade e os ideais nos chamam para aventuras e empresas ousadas, afundamo-nos quando ‘fracos reis’ nos condenam a papéis medíocres de imitadores e espectadores servis de modas e glórias alheias”.
É a hora de sermos portugueses!

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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