quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O gesto da discórdia

O ambiente político que se vive em França é de insatisfação geral com as medidas do socialista François Hollande. Nesta contestação, há um gesto que está a ser usado como símbolo de protesto, mas há quem assegure que se trata de uma forma de anti-semitismo. Na origem da polémica está o comediante Dieudonné, que enfrenta ameaças de novos processos judiciais e arrisca o encerramento do seu teatro. O humor tem limites?

Dieudonné
Dieudonné M’bala M’bala, comediante de origem franco-camaronesa, notabilizou-se no início dos anos 90 do século passado ao fazer humor com os estereótipos raciais, em conjunto com o comediante judeu Élie Semoun. Também se envolveu na política, concorrendo em Dreux contra a Frente Nacional francesa, partido que à época considerava racista. Tornou-se gradualmente um artista conhecido, fazendo vários espectáculos, aparições televisivas e sendo actor em filmes, como em “Astérix e Obélix: Missão Cleópatra”, de 2002.

No entanto, considerando que a sátira não tem limites, fez uma paródia sobre um “colono israelita nazi”, no final de 2003. Foi o início do ostracismo. Vários críticos consideraram que ele tinha passado os limites, mas Dieudonné nunca se desculpou. Pelo contrário, afirmou que tal como ridicularizava o extremismo islâmico, podia fazer o mesmo com o sionismo e com o que lhe apetecesse. Mas a comparação de pouco lhe serviu e começaram os processos judiciais, o cancelamento de espectáculos e o afastamento dos principais meios de comunicação social.

A partir dessa altura, Dieudonné começa a aproximar-se de várias figuras da extrema-direita francesa, incluindo Jean-Marie Le Pen, então presidente da FN, historiadores revisionistas, defensores da causa palestinas, entre outros. Os seus críticos dizem que se tornou “obcecado com os judeus”, mas Dieudonné sempre afirmou que não é anti-semita, mas anti-sionista.

Aliás, foi sob essa premissa que se candidatou à presidência francesa em 2007 e, depois, com a “Lista Anti-Sionista”, ao Parlamento Europeu, em 2009, ficando muito longe de ser eleito.

Impossibilitado de actuar na maior parte das salas de espectáculos francesas, Dieudonné arrendou o Theâtre de la main d’or, em Paris, que está normalmente esgotado. Também a ‘internet’ é um meio onde este comediante se tornou bastante popular. Conseguindo quebrar a censura, ainda que banido dos ‘media’, Dieudonné transformou-se para muitos franceses um símbolo de resistência anti-sistema e de denúncia da actual classe política.

Meter uma ‘quenelle’
Uma ‘quenelle’ é um prato francês que tem uma forma que lembra um grande supositório. Por isso, existe a expressão “meter uma ‘quenelle’ em alguém”, normalmente acompanhada de um gesto, cujo mais semelhante em Portugal será o manguito. Aliás, o significado de protesto é o mesmo.

Dieudonné popularizou o gesto, fazendo-o com o braço esticado para baixo. Por isso, foi acusado de fazer uma “saudação nazi invertida”. Mas o comediante sempre recusou que o fosse. Pelo contrário, afirmou que se trata de um gesto anti-sistema e que a ‘quenelle’ tinha “ganho vida própria”.

Estudantes fazem a 'quenelle' junto ao ministro do Interior, Manuel Valls
De facto, o fenómeno tornou-se viral nas redes sociais. Começaram a multiplicar-se as fotografias de pessoas a fazerem o gesto nos mais variados sítios. O caso que suscitou mais polémica foi o dos estudantes que fizeram a ‘quenelle’ junto ao ministro do Interior, Manuel Valls. Mas houve outros casos badalados, como fotografias de militares, bombeiros, celebridades, ou o do Astérix e Obélix que o fizeram junto a uns visitantes do Parc Astérix. Recentemente, o jogador francês de futebol Nicolas Anelka fez a ‘quenelle’ durante um jogo para celebrar um golo.

A moda pegou e quanto mais as autoridades tentam reprimir, mais o gesto se torna comum. Como um desafio ao governo com o qual não estão de acordo. A reacção das autoridades tem sido a de perseguição, com a ameaça do ministro Manuel Valls de impedir, por todas as vias legais, os espectáculos ou demonstrações públicas de Dieudonné que considere “ofensivas para a memória das vítimas do Holocausto”.

Ainda que para alguns tenha uma carga anti-semita, a ‘quenelle’ ultrapassou esse significado tornando-se um gesto da discórdia em França e uma grande dor de cabeça para Hollande e o seu Executivo socialista. A polémica está para durar.

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