quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A nossa cidade

A notícia de que o icónico Cinema Londres, na Av. de Roma, em Lisboa, vai dar lugar a uma loja de produtos chineses provocou o protesto de moradores do bairro e alguma mobilização popular.

Impõe-se aqui dizer que é um local que me diz directamente respeito. Há um lado pessoal nesta transformação que me incomoda bastante. Recordo-me de, em criança, ir à Pastelaria Roma, mesmo ao lado do cinema. Era um ponto de encontro por excelência naquela zona, que nem pela sua dimensão perdia as virtudes de café de vizinhança. A Roma foi ocupada, há uns bons anos, por uma conhecida cadeia de ‘fast-food’ e a magia do local, naturalmente, desapareceu. Já o Londres resistiu por mais algum tempo, mas a crise e os novos hábitos têm vindo a condenar os cinemas clássicos da capital.

Este não é um exercício de lamechice nostálgica. É um exemplo que conheço, que vivi, que senti. Mas casos como este há por toda a cidade. Em vez de um café de bairro passámos a ter hambúrgueres a metro como em qualquer lugar do mundo e em vez de um cinema vamos ter agora um ponto de venda de produtos importados do outro lado do globo.

Dirão os bem-pensantes do costume que é a “mundialização”, o “mercado global”, como se tal fosse positivo. Não é. Trata-se de um processo de uniformização que descaracteriza o nosso ‘habitat’ – com que nos identificamos –, que o torna mais impessoal e corrói o sentimento particular de comunidade local.

Houve quem criticasse tais lamentos dizendo que quem chora hoje pelo Londres não lá foi no passado recente, quando mais necessitava de espectadores para sobreviver. Não é uma crítica sem sentido, mas não invalida a sua defesa actual.

Este é um exemplo do que acontece por todo o País diariamente. Infelizmente, só sentimos a nossa cidade quando a vemos desaparecer. Que nos sirva de lição! Se não queremos viver numa cidade dos outros, nivelada por modas estrangeiras, cabe-nos manter viva a nossa cidade.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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