terça-feira, 30 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Já chega!
Alexandre Homem Cristo escreve hoje no «Observador» um texto interessante sobre a forma como o politicamente correcto tem alterado os heróis da nossa infância. Aqui fica um excerto: «Basta uma breve pesquisa pela internet para constatar que, ao longo dos anos, têm sido dezenas as alterações às histórias de banda desenhada e aos filmes infantis, variando consoante o país onde são publicadas. O Lucky Luke deixou de fumar, trocando o cigarro na boca por uma palha. Os irmãos Dalton, os seus eternos inimigos, nunca mais foram alvejados pelos tiros dos revólveres. Nas aventuras do Pato Donald no Oeste, as armas deixaram de ser apontadas a outras personagens, e só se apontam dedos em forma de pistolas. Nas suas aventuras na África negra, os indígenas trocaram os dentes afiados por um sorriso perfeito e, claro, deixaram de ser canibais. O Tio Patinhas viu a sua aventura na América banida porque os índios eram demasiado semelhantes entre si (o que foi visto como uma forma de racismo). E o Capitão Haddock, veterano marinheiro, alcoólico temperamental e parceiro de aventuras de Tintim, deixou de beber.» Já chega de politicamente correcto!
sábado, 27 de dezembro de 2014
Barulho por quase nada
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
A noite mais longa
Os europeus cedo viram neste momento a representação de uma morte que anunciava um renascimento. Considerando os tempos difíceis que temos vivido, é natural que façamos uma analogia política. Este paralelo, aliás, não é novo. Recorde-se, por exemplo, o início da peça “Ricardo III”, de Shakespeare, que começa por referir “o Inverno do nosso descontentamento” transformado em “Verão glorioso” pelo Sol.
Escreveu o saudoso Jean Mabire, profundo conhecedor das tradições europeias e ciente da sua actualidade: “O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno. A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo. Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.”
Nesta época de escuridão, guardemos a esperança no regresso da luz. Feliz Natal.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Da despolitização
Alexandre Franco de Sá
in "Metamorfose do Poder".
domingo, 21 de dezembro de 2014
Solstício de Inverno
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Café para hoje
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
O último refúgio do homem livre
Para os eternos crentes na técnica, o livro em papel tem os dias contados e em breve será substituído por suportes digitais cada vez mais avançados e em permanente alteração. Convém recordar que semelhante vaticínio nada tem de novo e que, historicamente, falhou pura e simplesmente. Dos vários exemplos a apontar, pensemos nos que garantiam que a fotografia iria matar a pintura, naqueles que viam no cinema o substituto do teatro, ou nos que previam com certeza o fim da rádio com o advento da “caixa que mudou mundo”. Recentemente, os mesmos também vêem na Internet o fim da televisão e não só. Obviamente que as formas de comunicação e expressão se adaptam, mas um novo meio não dita necessariamente o desaparecimento de outros.
Naturalmente que um livro não é bom só por si. Basta entrar numa livraria para se ver a quantidade de lixo que é publicado hoje. No entanto, a leitura de um livro, para além do contacto com o objecto, é um processo completo, que demora tempo e pode ser faseado. Algo que contrasta com este tempo em que a informação se quer instantânea e descartável.
A este propósito, numa entrevista recente, o filósofo francês Alain de Benoist afirmou que “o maior risco para o homem de hoje é adoptar um comportamento tecnomorfo que asfixia pouco a pouco aquilo que nele há de propriamente humano”. Assim, podemos questionar se, nesta era dita digital, o livro será o último refúgio do homem livre. Não será o único e muito provavelmente não será o último, mas é um óptimo refúgio, acessível e necessário.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
O fim da nossa Idade
Assim se fala mal português
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
O irmão de Salazar
Este título parece uma figura de estilo, mas não é. Segundo um jornal considerado “de referência” na nossa praça, é uma verdadeira descoberta. Na última edição da revista do semanário “Expresso”, há uma peça dedicada ao que comiam os ditadores. Por entre os apetites de Estaline, Kim il-Sung, Ceausescu, entre outros, a jornalista diz-nos que o Presidente do Conselho de Ministros português adorava sardinhas. Isto porque, segundo ela, era um “prato que lhe lembrava a sua infância pobre e os tempos em que tinha que partilhar uma única sardinha com o irmão”. É caso para dizer que o disparate não tem limites. A ignorância histórica está de tal forma generalizada que passa incólume em meios de comunicação social que deviam ter um cuidado mínimo com o que é publicado. Mas concedamos o benefício da dúvida, talvez o objectivo fosse tornar a história mais apetitosa...
sábado, 13 de dezembro de 2014
Sociedade da desinformação
Os tempos em que vivemos são amiúde considerados pelos bem-pensantes como a “era da informação”. Infelizmente, esta designação pomposa está longe de corresponder à realidade.
A Internet mudou consideravelmente o panorama, como a televisão o havia feito décadas atrás, mas este acesso generalizado a uma multiplicidade de conteúdos não significou necessariamente uma elevação cultural da população. Muito pelo contrário. A vaga digital trouxe muitas vantagens de comunicação, mas agravou o imediatismo. Não é por acaso que por tantas vezes ouçamos a expressão “vi na Internet”. De facto, o verbo utilizado está correcto, dado que se “viu” mas não se “leu”. Assim, há uma falha natural na compreensão à qual acresce a dificuldade inerente à velocidade estonteante a que tudo se passa. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma simplificação da linguagem. Não me refiro apenas à escrita abreviada, que dispensa acentuação e aceita erros ortográficos, mas a uma redução brutal do vocabulário utilizado.
Este processo de embrutecimento em curso é ainda mais chocante porque coincide com uma época onde, perante a extraordinária facilidade de acesso a tanta informação valiosa, a maioria continua a preferir – bem conduzia a tal, claro está – conteúdos em linha ou televisionados que representam o que de mais baixo há na sociedade.
Para além do prazer de surfar as ondas digitais da Internet está um oceano de conhecimento no qual é necessário mergulhar. Esta viagem às profundezas do saber constitui um crescimento interior, uma formação no sentido literal do termo.
Este é um caminho que apenas pode ser feito pela leitura de livros, pela sua selecção, pela construção de uma biblioteca pessoal que reflicta todo o trabalho estrutural de edificação interior.
Apenas pela leitura, pelo conhecimento e pela reflexão conseguiremos resistir à ditadura mediática e à imposição da mediocridade que nos torna prisioneiros da fraqueza. Sem livros nunca seremos livres.
A Internet mudou consideravelmente o panorama, como a televisão o havia feito décadas atrás, mas este acesso generalizado a uma multiplicidade de conteúdos não significou necessariamente uma elevação cultural da população. Muito pelo contrário. A vaga digital trouxe muitas vantagens de comunicação, mas agravou o imediatismo. Não é por acaso que por tantas vezes ouçamos a expressão “vi na Internet”. De facto, o verbo utilizado está correcto, dado que se “viu” mas não se “leu”. Assim, há uma falha natural na compreensão à qual acresce a dificuldade inerente à velocidade estonteante a que tudo se passa. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma simplificação da linguagem. Não me refiro apenas à escrita abreviada, que dispensa acentuação e aceita erros ortográficos, mas a uma redução brutal do vocabulário utilizado.
Este processo de embrutecimento em curso é ainda mais chocante porque coincide com uma época onde, perante a extraordinária facilidade de acesso a tanta informação valiosa, a maioria continua a preferir – bem conduzia a tal, claro está – conteúdos em linha ou televisionados que representam o que de mais baixo há na sociedade.
Para além do prazer de surfar as ondas digitais da Internet está um oceano de conhecimento no qual é necessário mergulhar. Esta viagem às profundezas do saber constitui um crescimento interior, uma formação no sentido literal do termo.
Este é um caminho que apenas pode ser feito pela leitura de livros, pela sua selecção, pela construção de uma biblioteca pessoal que reflicta todo o trabalho estrutural de edificação interior.
Apenas pela leitura, pelo conhecimento e pela reflexão conseguiremos resistir à ditadura mediática e à imposição da mediocridade que nos torna prisioneiros da fraqueza. Sem livros nunca seremos livres.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
A praga dos caixotes de vidro...
Outono no Jardim das Amoreiras
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
Rainer Maria Rilke
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Jorge Luis Borges merecia uma homenagem digna
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Os escritores têm casos de consciência?
«Céline aparece à janela.
- Entre, entre...
Trepo até à casa por uma subida muito íngreme.
- Ah! Sim, o caso de consciência. Venha, sente-se a esta mesa. Não, não fique aí; temos um papagaio, e faz um monte de porcarias por todo o lado.
Limpa a mesa e atira as sujidades pela janela. Depois senta-se numa poltrona, em contraluz.
- Casos de consciência? Saí da escola primária e fiz o meu bacharelato a trabalhar. Tive treze patrões antes da minha primeira parte do bacharelato, em 1913, e todos eles me puseram no olho da rua por eu pensar de mais no latim e na geometria. Na altura não tínhamos outro problema além deste: comer. Para haver casos de consciência, problemas sexuais, complexos (não lhes chamávamos assim), tem de haver ócios. Bourget, esse, levantava-os, e Gyp também; a grande literatura psicológica, pois então! Mas os pobres não tinham tempo. O meu pai era correspondente na Phénix, a companhia de seguros. Morreu, tive que ganhar os meus tostões. Eu e a minha mãe íamos a pé desde a rua de Babylone, onde morávamos, até à loja onde ela vendia rendas antigas, na rua de Provence; e se eu dissesse à mamã: “tenho um caso de consciência!”, ter-me-ia respondido: “Vai-te daqui, meu doido!” Mas olhe, mais tarde fui substituir um colega no Havre, e tratei de um canceroso. Ele delirava, com um delírio de operário de antes de 14. Levantava-se da cama a berrar: “O que é que eu estou a fazer aqui? Nada! Não tarda que a polícia apareça!” Para ele, imobilidade era o mesmo que ser calaceiro, logo, prisão. Era o seu caso de consciência. Desde há 1500 anos, a sociedade não fazia mais do que pedir às pessoas duas coisas: aos homens que não fossem cobardes, às mulheres que não fossem putas. A seguir, tudo se complicou: o tipo corajoso, descobriu-se que também era um merdas. Comparo isto à feira de Neuilly. Antes de 14 só ia desde o cais do Sena até à Rotunda da Défense; fechava-se os olhos ao que se passava: até tinha piada. Agora espalhou-se por toda a França. Somos olhados, somos perscrutados: “Meu caro, isso não se faz! Vai mas é olhar para as mamas da tua mãe!” Naquela altura dizia-se: “Ah! Meu porco! Estás a olhar para onde?” E pespegava-se com um tabefe no miúdo. O complexo desaparecia.
Sim, tive que lutar com o meu pai porque eu queria mudar de classe. Mas não se tratava de um caso de consciência. Pensava ele que eu ia meter-me em desgraças. Quanto à minha mãe, o seu ideal era ver-me subir, mas não tão alto: “Se conseguisses ser encarregado das compras num grande armazém!” Não imagina a radical severidade que reinava nos hábitos da gente simples: “Quem rouba um cesto rouba um cento, e acaba por assassinar a mãe”, era o que eu ouvia todos os dias. Ravachol, Hervé eram vadios, o bando de Bonnot também. Pelo contrário, quando as clientes que nada faziam saíam da loja, a minha mãe dizia: “Estas senhoras têm grandes responsabilidades!” Eu ia fazer entregas até Meudon, perto daqui, e a minha mãe corria a empenhar os brincos por vinte francos. Não tenho, no entanto, queixas a fazer. Queixas de quê? O ócio e o dinheiro é que complicam tudo.
Durante a guerra fiquei inválido a 75%, fiz a segunda parte do bacharelato em 1918, e depois de acabar o meu curso casei-me com a filha do director da Escola de Medicina de Rennes. Fui médico na Sociedade das Nações, levei uma vida palaciana enquanto ia estudando epidemiologia. Mas as coisas não corriam bem. Divorciei-me, ainda sem caso de consciência. Fiz medicina popular e escrevi a Viagem para pagar um apartamento. A medicina tornou-se difícil. Pensava-se isto: “É um escritor, não acredito que se mantenha actualizado.” Comecei então a trabalhar nos dispensários de Clichy, Bezons, Sartrouville... Foi muito duro.
Eu cá fui o mais tanso dos franceses... Ficaram-me com tudo quanto eu tinha e lixaram-me os manuscritos, deitaram-nos todos pela retrete abaixo. Fui um anjinho.
De tudo isto só me resta uma sensação de desgosto. Tenho uma filha com 35 anos, e o meu genro detesta-me; tenho cinco netos e nunca os vi. Mas está tudo bem. Desgostos, isso sim, desgostos. E tudo o resto, os casos de consciência, são masturbações. Gide já tratou disso como deve ser.»
in «Arts», 14/11/1956. (Trad. port. de Alberto Nunes Sampaio, in “O Cão de Deus”, Hiena Editora, 1995)
- Entre, entre...
Trepo até à casa por uma subida muito íngreme.
- Ah! Sim, o caso de consciência. Venha, sente-se a esta mesa. Não, não fique aí; temos um papagaio, e faz um monte de porcarias por todo o lado.
Limpa a mesa e atira as sujidades pela janela. Depois senta-se numa poltrona, em contraluz.
- Casos de consciência? Saí da escola primária e fiz o meu bacharelato a trabalhar. Tive treze patrões antes da minha primeira parte do bacharelato, em 1913, e todos eles me puseram no olho da rua por eu pensar de mais no latim e na geometria. Na altura não tínhamos outro problema além deste: comer. Para haver casos de consciência, problemas sexuais, complexos (não lhes chamávamos assim), tem de haver ócios. Bourget, esse, levantava-os, e Gyp também; a grande literatura psicológica, pois então! Mas os pobres não tinham tempo. O meu pai era correspondente na Phénix, a companhia de seguros. Morreu, tive que ganhar os meus tostões. Eu e a minha mãe íamos a pé desde a rua de Babylone, onde morávamos, até à loja onde ela vendia rendas antigas, na rua de Provence; e se eu dissesse à mamã: “tenho um caso de consciência!”, ter-me-ia respondido: “Vai-te daqui, meu doido!” Mas olhe, mais tarde fui substituir um colega no Havre, e tratei de um canceroso. Ele delirava, com um delírio de operário de antes de 14. Levantava-se da cama a berrar: “O que é que eu estou a fazer aqui? Nada! Não tarda que a polícia apareça!” Para ele, imobilidade era o mesmo que ser calaceiro, logo, prisão. Era o seu caso de consciência. Desde há 1500 anos, a sociedade não fazia mais do que pedir às pessoas duas coisas: aos homens que não fossem cobardes, às mulheres que não fossem putas. A seguir, tudo se complicou: o tipo corajoso, descobriu-se que também era um merdas. Comparo isto à feira de Neuilly. Antes de 14 só ia desde o cais do Sena até à Rotunda da Défense; fechava-se os olhos ao que se passava: até tinha piada. Agora espalhou-se por toda a França. Somos olhados, somos perscrutados: “Meu caro, isso não se faz! Vai mas é olhar para as mamas da tua mãe!” Naquela altura dizia-se: “Ah! Meu porco! Estás a olhar para onde?” E pespegava-se com um tabefe no miúdo. O complexo desaparecia.
Sim, tive que lutar com o meu pai porque eu queria mudar de classe. Mas não se tratava de um caso de consciência. Pensava ele que eu ia meter-me em desgraças. Quanto à minha mãe, o seu ideal era ver-me subir, mas não tão alto: “Se conseguisses ser encarregado das compras num grande armazém!” Não imagina a radical severidade que reinava nos hábitos da gente simples: “Quem rouba um cesto rouba um cento, e acaba por assassinar a mãe”, era o que eu ouvia todos os dias. Ravachol, Hervé eram vadios, o bando de Bonnot também. Pelo contrário, quando as clientes que nada faziam saíam da loja, a minha mãe dizia: “Estas senhoras têm grandes responsabilidades!” Eu ia fazer entregas até Meudon, perto daqui, e a minha mãe corria a empenhar os brincos por vinte francos. Não tenho, no entanto, queixas a fazer. Queixas de quê? O ócio e o dinheiro é que complicam tudo.
Durante a guerra fiquei inválido a 75%, fiz a segunda parte do bacharelato em 1918, e depois de acabar o meu curso casei-me com a filha do director da Escola de Medicina de Rennes. Fui médico na Sociedade das Nações, levei uma vida palaciana enquanto ia estudando epidemiologia. Mas as coisas não corriam bem. Divorciei-me, ainda sem caso de consciência. Fiz medicina popular e escrevi a Viagem para pagar um apartamento. A medicina tornou-se difícil. Pensava-se isto: “É um escritor, não acredito que se mantenha actualizado.” Comecei então a trabalhar nos dispensários de Clichy, Bezons, Sartrouville... Foi muito duro.
Eu cá fui o mais tanso dos franceses... Ficaram-me com tudo quanto eu tinha e lixaram-me os manuscritos, deitaram-nos todos pela retrete abaixo. Fui um anjinho.
De tudo isto só me resta uma sensação de desgosto. Tenho uma filha com 35 anos, e o meu genro detesta-me; tenho cinco netos e nunca os vi. Mas está tudo bem. Desgostos, isso sim, desgostos. E tudo o resto, os casos de consciência, são masturbações. Gide já tratou disso como deve ser.»
in «Arts», 14/11/1956. (Trad. port. de Alberto Nunes Sampaio, in “O Cão de Deus”, Hiena Editora, 1995)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Futuro presente
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Crónica dos bons (?) malandros...
![]() |
| Mário Soares depois de visitar José Sócrates em Évora: «São uns malandros que estão a combater um homem exemplar.» |
Julgamentos
A detenção de um antigo primeiro-ministro suspeito da prática de vários crimes é inédita no nosso país. Não adianta recordar como o desgoverno de José Sócrates tanto contribuiu para afundar ainda mais Portugal. Foi um político que não deixou saudades, mas que insistia em estar sempre presente na vida política nacional, ainda que à distância. Um auto-proclamado gigante da moralidade que, pelos vistos, pode ter pés de barro...
Muitos alegram-se de o ver sujeito a um longo interrogatório, como se as suspeitas confirmassem a prática dos crimes. Para estes, ver Sócrates nesta situação é a sentença final do julgamento popular que há muito haviam feito. Não é. A procissão ainda vai no adro, como se costuma dizer, e devemos aguardar atenta e pacientemente.
Por muito benéfica que a queda do “menino de ouro do PS” – como o classificou a sua biógrafa – seja para os outros partidos, é impossível ver este caso como isolado.
Da mesma forma que o desmoronar do Grupo Espírito Santo não foi um mero problema de gestão bancária, os actos ilícitos de Sócrates – a confirmarem-se – não são uma questão pessoal ou pontual. Fazem parte de um sistema que está podre. São mais uma pedra que cai deste regime que está a ruir. Um problema estrutural que leva atrás de si o País e prejudica gravemente a vida dos portugueses.
São exactamente os culpados pelo estado deplorável a que chegámos, à total descredibilização das instituições políticas que hipotecaram Portugal, que importa julgar.
Esse, sim, deve ser um julgamento popular. Uma tomada de posição de um povo que está farto de ser vilipendiado e que tenha a coragem e a força de recuperar uma nação milenar. Portugueses decididos a não trocar o mesmo pelo mesmo, ou pelo semelhante. O fim da escolha do “menos mau”.
Nessa mudança tão necessária, mas que continua adiada (por quanto tempo?), a única sentença é retomar Portugal.
Muitos alegram-se de o ver sujeito a um longo interrogatório, como se as suspeitas confirmassem a prática dos crimes. Para estes, ver Sócrates nesta situação é a sentença final do julgamento popular que há muito haviam feito. Não é. A procissão ainda vai no adro, como se costuma dizer, e devemos aguardar atenta e pacientemente.
Por muito benéfica que a queda do “menino de ouro do PS” – como o classificou a sua biógrafa – seja para os outros partidos, é impossível ver este caso como isolado.
Da mesma forma que o desmoronar do Grupo Espírito Santo não foi um mero problema de gestão bancária, os actos ilícitos de Sócrates – a confirmarem-se – não são uma questão pessoal ou pontual. Fazem parte de um sistema que está podre. São mais uma pedra que cai deste regime que está a ruir. Um problema estrutural que leva atrás de si o País e prejudica gravemente a vida dos portugueses.
São exactamente os culpados pelo estado deplorável a que chegámos, à total descredibilização das instituições políticas que hipotecaram Portugal, que importa julgar.
Esse, sim, deve ser um julgamento popular. Uma tomada de posição de um povo que está farto de ser vilipendiado e que tenha a coragem e a força de recuperar uma nação milenar. Portugueses decididos a não trocar o mesmo pelo mesmo, ou pelo semelhante. O fim da escolha do “menos mau”.
Nessa mudança tão necessária, mas que continua adiada (por quanto tempo?), a única sentença é retomar Portugal.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
Blade Runner sem Ridley Scott
Afinal, Ridley Scott não vai realizar a sequela de "Blade Runner", mas será produtor do filme. Aguardemos...
Segundo a revista «Variety»: «When “The Martian” wraps later this winter, Scott already has a fair idea what he’ll be doing next, though it likely won’t be the much-anticipated “Blade Runner” sequel he developed with the original film’s co-screenwriter, Hampton Fancher. “We talked at length about what it could be, and came up with a pretty strong three-act storyline, and it all makes sense in terms of how it relates to the first one,” says Scott, who adds that fans can expect to see Harrison Ford back in the saddle as the futuristic gumshoe Rick Deckard. “Harrison is very much part of this one, but really it’s about finding him; he comes in in the third act.” Per Scott, that Alcon Entertainment production should go before the cameras within the next year, but with someone else directing (he’ll produce).»
terça-feira, 25 de novembro de 2014
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Igualdade de tratamento
Não estou de acordo com a prisão do motorista. Sócrates deve ser tratado como qualquer cidadão.
Os outros
Sócrates ficou em prisão preventiva. E os outros? O advogado foi o menos afectado da Trindade, ao empresário nem os Santos valeram e o motorista não conseguiu passar a Perna.
domingo, 23 de novembro de 2014
Marquês
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
O labirinto
Operação Labirinto foi o nome escolhido para a investigação de uma rede de relacionamentos dentro do Estado que conseguia luvas para a atribuição dos chamados “vistos dourados”. O escândalo atingiu, até agora, vários “altos quadros” da Administração Pública, incluindo o director de uma polícia, e provocou a demissão do ministro da Administração Interna.
Não cabe agora discutir se a Autorização de Residência para Investimento, que data de 2012, é uma boa medida. Não considero que seja, mas não é este caso que a torna má. A questão é muito mais profunda e complexa, tem que ver com a identidade nacional.
O que agora está em causa é saber se esta operação policial mostra que, afinal, a Justiça funciona e chega ao topo da pirâmide. Será que chega?
Infelizmente, casos anteriores semelhantes demonstraram que, depois do espalhafato mediático, pouco ou nada se altera. Pelo contrário, agrava-se o sentimento generalizado de que os poderosos são impunes.
Mas não será que esta tentação popular em ver no Estado policial o garante da honestidade dos governantes a maior prova de que é a própria estrutura que está corrompida? E será que é assim que é possível resolver um problema desta ordem?
Como derrotar o monstro e regressar? Há quem queira ver nesta operação a coragem de Teseu que derrotou o Minotauro. Não se iludam.
No actual sistema não há heróis e a besta e o dédalo confundem-se. A corrupção é o próprio labirinto e muitos ficam presos nas redes que criaram.
Será que não conseguiremos sair? Haverá uma Ariadne que nos dê um novelo de fio para que consigamos encontrar o caminho de volta?
O combate à corrupção começa em cada um de nós, porque se trata de uma doença da comunidade que nos afecta a todos. A resposta está nos valores imateriais que nos devem guiar, está na verticalidade perante princípios, nunca num caso de polícia.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
Não cabe agora discutir se a Autorização de Residência para Investimento, que data de 2012, é uma boa medida. Não considero que seja, mas não é este caso que a torna má. A questão é muito mais profunda e complexa, tem que ver com a identidade nacional.
O que agora está em causa é saber se esta operação policial mostra que, afinal, a Justiça funciona e chega ao topo da pirâmide. Será que chega?
Infelizmente, casos anteriores semelhantes demonstraram que, depois do espalhafato mediático, pouco ou nada se altera. Pelo contrário, agrava-se o sentimento generalizado de que os poderosos são impunes.
Mas não será que esta tentação popular em ver no Estado policial o garante da honestidade dos governantes a maior prova de que é a própria estrutura que está corrompida? E será que é assim que é possível resolver um problema desta ordem?
Como derrotar o monstro e regressar? Há quem queira ver nesta operação a coragem de Teseu que derrotou o Minotauro. Não se iludam.
No actual sistema não há heróis e a besta e o dédalo confundem-se. A corrupção é o próprio labirinto e muitos ficam presos nas redes que criaram.
Será que não conseguiremos sair? Haverá uma Ariadne que nos dê um novelo de fio para que consigamos encontrar o caminho de volta?
O combate à corrupção começa em cada um de nós, porque se trata de uma doença da comunidade que nos afecta a todos. A resposta está nos valores imateriais que nos devem guiar, está na verticalidade perante princípios, nunca num caso de polícia.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
terça-feira, 18 de novembro de 2014
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
A força da máquina
Há uns anos, ouvi um estrangeiro afirmar que Portugal era “o país à mesa”, numa tentativa de caricaturar a forma como os portugueses escolhem as refeições para ter reuniões de trabalho ou encontros importantes. Como seria de esperar, o indivíduo apenas conseguiu o que pretendia num almoço e, rendido ao nosso hábito e também à nossa gastronomia, voltou para casa a saber que o seu estúpido preconceito não passava disso mesmo. Recordo-me sempre deste episódio cada vez que, à mesa, por mais banal ou informal que seja a conversa, obtenho informações importantes.
Vem isto a propósito de um jantar onde falei com uma pessoa que recentemente decidiu tornar-se militante de um dos maiores partidos portugueses. Conhecedor de algumas das suas posições, incompatíveis com o actual regime, questionei-o sobre as razões da sua decisão. Disse-me que o sistema partidário português está viciado e que só é possível “fazer política” dentro de um dos “grandes”. Era um entrismo individual, com objectivos políticos e que chocavam com a passividade que encontrou no seio dos que o acolheram.
Devido à sua formação e experiência, integrou rapidamente um grupo de trabalho com antigos militantes, mas a experiência não correu bem. Trabalhou bastante, elaborando várias propostas de lei, mas cedo se apercebeu de que era o único a fazê-lo. O resultado foi a estranheza e a consequente hostilização dos seus novos “companheiros de luta”. O argumento mais utilizado por estes nem era a discordância com o que ele apresentava, mas o mero facto de serem militantes há mais tempo. Esta antiguidade de posto, por si só, devia garantir-lhes a sucessão natural de cargos até ao almejado lugar elegível numa lista eleitoral.
Perante tal cenário, limitei-me a comentar que tais “militantes” passivos encaravam a vida partidária como uma escada rolante que os leva até ao topo e na qual é não preciso qualquer esforço, porque esse cabe à força da máquina.
Vem isto a propósito de um jantar onde falei com uma pessoa que recentemente decidiu tornar-se militante de um dos maiores partidos portugueses. Conhecedor de algumas das suas posições, incompatíveis com o actual regime, questionei-o sobre as razões da sua decisão. Disse-me que o sistema partidário português está viciado e que só é possível “fazer política” dentro de um dos “grandes”. Era um entrismo individual, com objectivos políticos e que chocavam com a passividade que encontrou no seio dos que o acolheram.
Devido à sua formação e experiência, integrou rapidamente um grupo de trabalho com antigos militantes, mas a experiência não correu bem. Trabalhou bastante, elaborando várias propostas de lei, mas cedo se apercebeu de que era o único a fazê-lo. O resultado foi a estranheza e a consequente hostilização dos seus novos “companheiros de luta”. O argumento mais utilizado por estes nem era a discordância com o que ele apresentava, mas o mero facto de serem militantes há mais tempo. Esta antiguidade de posto, por si só, devia garantir-lhes a sucessão natural de cargos até ao almejado lugar elegível numa lista eleitoral.
Perante tal cenário, limitei-me a comentar que tais “militantes” passivos encaravam a vida partidária como uma escada rolante que os leva até ao topo e na qual é não preciso qualquer esforço, porque esse cabe à força da máquina.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
A História em frases feitas
“O livro de citações é dos géneros literários mais antigos”, diz-nos o autor de “500 frases que mudaram a nossa História”, um livro muito útil que nos recorda frases bem conhecidas, explicando-as e enquadrando-as historicamente, bem como algumas mal atribuídas, desfazendo enganos.
João Ferreira é jornalista e historiador, o que o torna um excelente autor de obras de História divulgativa, como “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”, “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo”, ou “Frases Que Fizeram a História de Portugal”, em co-autoria com Ferreira Fernandes. Este é um género habitualmente menosprezado pelos auto-proclamados “especialistas”, mas o seu sucesso editorial prova que contribui bastante para satisfazer a curiosidade histórica do público em geral. A História divulgativa baseia-se na investigação académica e é um género fundamentado, que se dirige a um leque mais abrangente de leitores. Como afirmou João Ferreira em entrevista a O DIABO: “Quando estou a preparar estes livros de História divulgativa uso o resultado de muitos trabalhos feitos por investigadores universitários que trazem perspectivas originais sobre a História e que servem de matéria-prima para a divulgação.”
O aspecto mais curioso desta obra é o capítulo “Afinal, quem disse isto?”, dedicado às falsas citações ou frases mal atribuídas. Dos vários casos, há exemplo de um bem conhecido e português: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” A frase é geralmente atribuída ao futuro marquês de Pombal, perante a destruição de Lisboa pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. No entanto, o autor explica que, quando o rei D. José perguntou ao seu núcleo de conselheiros o que fazer perante tamanha devastação, a resposta – segundo o historiador Veríssimo Serrão – foi-lhe dada, não por Sebastião José de Carvalho e Melo, mas por D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos.”
Infelizmente, a obra segue o famigerado Acordo Ortográfico de 1990, algo que apenas a empobrece. Nunca é demais recordar autores e editoras desta má decisão, porque esta é uma questão fundamental que está longe de estar encerrada.
Apesar da ortografia acordizada, este é um livro bem feito e bem organizado, com um índice de todas as citações. Um daqueles volumes aos quais recorremos amiúde, tanto para verificar o que já sabemos normalmente através de lugares-comuns, ao mesmo tempo que obtemos um enquadramento histórico, como descobrir frases marcantes que não conhecíamos ou que atribuíamos ao autor errado. Porque, como escreveu o brasileiro João Guimarães Rosa, citado no livro, “o homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”.
João Ferreira é jornalista e historiador, o que o torna um excelente autor de obras de História divulgativa, como “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”, “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo”, ou “Frases Que Fizeram a História de Portugal”, em co-autoria com Ferreira Fernandes. Este é um género habitualmente menosprezado pelos auto-proclamados “especialistas”, mas o seu sucesso editorial prova que contribui bastante para satisfazer a curiosidade histórica do público em geral. A História divulgativa baseia-se na investigação académica e é um género fundamentado, que se dirige a um leque mais abrangente de leitores. Como afirmou João Ferreira em entrevista a O DIABO: “Quando estou a preparar estes livros de História divulgativa uso o resultado de muitos trabalhos feitos por investigadores universitários que trazem perspectivas originais sobre a História e que servem de matéria-prima para a divulgação.”
O aspecto mais curioso desta obra é o capítulo “Afinal, quem disse isto?”, dedicado às falsas citações ou frases mal atribuídas. Dos vários casos, há exemplo de um bem conhecido e português: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” A frase é geralmente atribuída ao futuro marquês de Pombal, perante a destruição de Lisboa pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. No entanto, o autor explica que, quando o rei D. José perguntou ao seu núcleo de conselheiros o que fazer perante tamanha devastação, a resposta – segundo o historiador Veríssimo Serrão – foi-lhe dada, não por Sebastião José de Carvalho e Melo, mas por D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos.”
Infelizmente, a obra segue o famigerado Acordo Ortográfico de 1990, algo que apenas a empobrece. Nunca é demais recordar autores e editoras desta má decisão, porque esta é uma questão fundamental que está longe de estar encerrada.
Apesar da ortografia acordizada, este é um livro bem feito e bem organizado, com um índice de todas as citações. Um daqueles volumes aos quais recorremos amiúde, tanto para verificar o que já sabemos normalmente através de lugares-comuns, ao mesmo tempo que obtemos um enquadramento histórico, como descobrir frases marcantes que não conhecíamos ou que atribuíamos ao autor errado. Porque, como escreveu o brasileiro João Guimarães Rosa, citado no livro, “o homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Quando a Europa dominava o mundo
Como explica o director da revista no editorial, “a superioridade adquirida pelos europeus no que respeita a técnicas náuticas e de armamento, as novas possibilidades abertas pelo desenvolvimento industrial e a explosão demográfica que o velho continente conheceu no século XIX explicam naturalmente hegemonia que pode estabelecer na maior parte do mundo”. Defendido inicialmente pelos progressistas como “missão civilizadora”, o “colonialismo” passou a ser visto, após a Segunda Guerra Mundial, como um “crime” e uma “exploração de outros povos”. Em pleno século XXI, interessa relançar um debate informado sobre a presença europeia no mundo neste período, tal é o objectivo desta edição.
Como seria de esperar, a ênfase é dada à presença francesa, com artigos sobre a Argélia, Marrocos, ou a Indochina. Outros países europeus também merecem atenção, como a Inglaterra, a Alemanha, a Holanda e a Bélgica, a propósito do Congo de Leopoldo II.
E Portugal? A pergunta não faz apenas sentido por sermos portugueses, mas pelo papel de relevo que o nosso país teve neste processo. Não há um artigo específico sobre Portugal, o que é pena, mas as referências à presença lusa são muitas. Desde a nossa participação na Exposição Colonial Internacional de 1931, em Paris, à disputa com os ingleses em África, que entre nós ficou conhecida como a questão do “Mapa cor-de-rosa”, no artigo “As fronteiras africanas”, que é ilustrado com um relevo da captura de Gungunhana, em Moçambique. Já no artigo sobre as Índias holandesas, é dito que foram os portugueses, “grandes navegadores, os primeiros a abrir à Europa as portas da Ásia”, no século XVI, e é traçada a diferença entre a presença portuguesa e holandesa. O desenvolvimento do território que constitui a actual Indonésia obedeceu à lógica do capitalismo. Segundo escreve Philippe Raggi, “ao contrário dos portugueses, os holandeses nunca se interessaram pela cultura dos povos com os quais entraram em contacto”. Razões de sobra para Portugal não ter sido esquecido e merecer um artigo próprio.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Quem é Orson Welles?
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| John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich |
«Um dos efeitos mais perversos da banalização televisiva do cinema, escandalosamente arredado dos horários nobres, é o esvaziamento da sua história. E o consequente ataque a qualquer sensibilidade cinéfila - porque a cinefilia começa na consciência de que o cinema tem uma história.
Há dias, tivemos mais um exemplo das singularidades dessa história e da sua dinâmica, não como uma linha recta de significação unívoca, mas sim uma paisagem de muitos cruzamentos e ziguezagues. Assim, de acordo com um artigo do New York Times (28 out.), o derradeiro filme de Orson Welles, The Other Side of the Wind, poderá, finalmente, ser visto em 2015.
Infelizmente, vivemos um tempo em que qualquer banalidade dita por um concorrente da Casa dos Segredos adquire maior ressonância mediática que uma notícia em torno do nome de Orson Welles... A atrevida ignorância da cultura televisiva dominante poderá mesmo insinuar a pergunta letal: mas, afinal, quem é Orson Welles?»
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Outro lado
Na semana passada, depois de ver um filme baseado em factos reais sobre uma polémica investigação jornalística nos Estados Unidos da América, não resisti a ironizar com o tempo que era dado ao jornalista para escrever, pesquisar, viajar e a compreensão do editor e director durante todo o seu trabalho. O “filme” real dos jornais não é, infelizmente, assim. Pelo contrário, a pressão é muita e o tempo é pouco. Estas são, provavelmente, dificuldades de que a maior parte dos leitores se apercebe.
No entanto, há outro lado que passa habitualmente despercebido. Refiro-me aos processos judiciais contra jornalistas e responsáveis por órgãos de comunicação social.
A este propósito, falei há dias com um colega de profissão que foi responsável por um título marcante da Imprensa portuguesa, entretanto desaparecido, que me disse que, a determinada altura, tinha simultaneamente 47 processos judiciais contra si! Para além do número inacreditável, que só por si implicava uma gestão complicada, nem todos eram em Lisboa, o que o obrigava, quase semanalmente, a deslocações demoradas e dispendiosas.
É óbvio que na Imprensa também se cometem crimes e, quando tal acontece, os culpados devem ser condenados. Mas, na maioria dos casos, os processos que se arrastam durante anos e que enchem os tribunais servem para gastar tempo e dinheiro e não para resolver em tempo útil as questões.
Naturalmente que esta é uma generalização, porque há casos e casos, mas o que não faz sentido é preferir apresentar queixa contra um jornal ou um jornalista em vez de usar mecanismos como o direito de resposta. Talvez assim aconteça porque, para muitos, o que interessa não é a reposição da verdade ou a rectificação da notícia, mas uma tentativa de vingança ou de intimidação. Nestas situações não estamos perante uma forma correcta de recorrer à Justiça. Mas esse é ainda outro lado...
No entanto, há outro lado que passa habitualmente despercebido. Refiro-me aos processos judiciais contra jornalistas e responsáveis por órgãos de comunicação social.
A este propósito, falei há dias com um colega de profissão que foi responsável por um título marcante da Imprensa portuguesa, entretanto desaparecido, que me disse que, a determinada altura, tinha simultaneamente 47 processos judiciais contra si! Para além do número inacreditável, que só por si implicava uma gestão complicada, nem todos eram em Lisboa, o que o obrigava, quase semanalmente, a deslocações demoradas e dispendiosas.
É óbvio que na Imprensa também se cometem crimes e, quando tal acontece, os culpados devem ser condenados. Mas, na maioria dos casos, os processos que se arrastam durante anos e que enchem os tribunais servem para gastar tempo e dinheiro e não para resolver em tempo útil as questões.
Naturalmente que esta é uma generalização, porque há casos e casos, mas o que não faz sentido é preferir apresentar queixa contra um jornal ou um jornalista em vez de usar mecanismos como o direito de resposta. Talvez assim aconteça porque, para muitos, o que interessa não é a reposição da verdade ou a rectificação da notícia, mas uma tentativa de vingança ou de intimidação. Nestas situações não estamos perante uma forma correcta de recorrer à Justiça. Mas esse é ainda outro lado...
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
O livro que está a agitar a França
A mais recente obra do polemista Éric Zemmour é um fenómeno literário de vendas e está a agitar as águas da política francesa. À direita é vista como um alerta para o estado a que chegou o país. À esquerda é vista como um perigoso ensaio catastrofista que pode “alimentar a extrema-direita”. “O Suicídio Francês” promete não deixar ninguém indiferente.
Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.
Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.
O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.
Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.
Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.
O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Tempos...
domingo, 26 de outubro de 2014
Frase do dia
“O problema dos jornalistas não é de modo algum o que criticam e investigam, mas sim o que omitem sobre determinados líderes e o acriticismo com que brindam determinadas causas”
Helena Matos
in “Observador”
Helena Matos
in “Observador”
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Terroristas
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Da natureza deste regime
domingo, 12 de outubro de 2014
Frase do dia
«O abraço de Soares a Isaltino é a parte visível, ostentatória, do sussurro que por aí vai e já me chegou aos ouvidos: o de que os tribunais estão a ser muito severos com os Varas e as Maria de Lurdes.»
José Manuel Fernandes
in «Observador»
José Manuel Fernandes
in «Observador»
sábado, 11 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Portugueses do Império
Tenho a honra e o privilégio de ter conhecido, privado e ter como amigos vários dos últimos Homens de um Império que foi nosso. Combatentes dispostos a fazer o sacrifício maior – o da própria vida – por todos nós, por Portugal. São a brisa depois da tempestade. O último sopro de uma memória que se apaga. Uma estirpe que contrasta com aqueles que actualmente nos desgovernam, mas que mostra que há, no nosso povo, uma chama que cresce quando a Pátria chama.
Recordei-me deles na morte do Comandante Alpoim Calvão, herói nacional que uns quantos – os do costume – preferem “esquecer”, incomodados com o seu carácter e grandeza.
Um homem que nunca baixou os braços e que não ficou “parado no tempo”. Como escreveu a esse propósito Jaime Nogueira Pinto no “Observador”: “É difícil para as gerações que vieram depois da Guerra e do Império compreender o ‘ethos’, a vida e o sentido da vida de homens como Alpoim Calvão. São, somos, de ‘outro país’, o que não quer dizer que não entendamos e que até possamos gostar deste. Calvão não era um ‘prisioneiro do passado’. Aí há 10 anos, em 2004, decidiu arrancar para a Guiné-Bissau com uma empresa destinada a empregar os seus antigos fuzileiros ou os seus descendentes. Fê-lo com outro combatente de África, o Francisco Van Uden, naquele espírito – também às vezes incompreensível para estranhos – de que os que gostávamos de África, não éramos necessariamente colonialistas opressores: gostávamos daquelas pessoas e daquelas terras. E continuámos ou voltámos a gostar quando de ‘nossas’ passaram a ser ‘deles’.”
A sua saída dos Jerónimos, altar da pátria imperial, levado por fuzileiros, recordava uma nau que se lança mais uma vez à aventura no mar das boinas azuis que o saudavam no exterior, em frente ao Tejo de onde saíram os nossos navegadores para dar novos mundos ao mundo, foi marcante. Os heróis não morrem.
Recordei-me deles na morte do Comandante Alpoim Calvão, herói nacional que uns quantos – os do costume – preferem “esquecer”, incomodados com o seu carácter e grandeza.
Um homem que nunca baixou os braços e que não ficou “parado no tempo”. Como escreveu a esse propósito Jaime Nogueira Pinto no “Observador”: “É difícil para as gerações que vieram depois da Guerra e do Império compreender o ‘ethos’, a vida e o sentido da vida de homens como Alpoim Calvão. São, somos, de ‘outro país’, o que não quer dizer que não entendamos e que até possamos gostar deste. Calvão não era um ‘prisioneiro do passado’. Aí há 10 anos, em 2004, decidiu arrancar para a Guiné-Bissau com uma empresa destinada a empregar os seus antigos fuzileiros ou os seus descendentes. Fê-lo com outro combatente de África, o Francisco Van Uden, naquele espírito – também às vezes incompreensível para estranhos – de que os que gostávamos de África, não éramos necessariamente colonialistas opressores: gostávamos daquelas pessoas e daquelas terras. E continuámos ou voltámos a gostar quando de ‘nossas’ passaram a ser ‘deles’.”
A sua saída dos Jerónimos, altar da pátria imperial, levado por fuzileiros, recordava uma nau que se lança mais uma vez à aventura no mar das boinas azuis que o saudavam no exterior, em frente ao Tejo de onde saíram os nossos navegadores para dar novos mundos ao mundo, foi marcante. Os heróis não morrem.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Aceitar o inaceitável
terça-feira, 7 de outubro de 2014
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Do carácter
Os ciclos eleitorais habituaram-nos a que os candidatos prometem o que não podem, ou não tencionam, cumprir. Como vale tudo para vencer e a seriedade deixou de ser uma qualidade para se tornar um argumento descartável, uma vez chegados ao poleiro, aqueles que garantiram tudo fazer pelo “interesse nacional” – outro chavão tão em voga no discurso político actual – justificam-se com a “alteração das circunstâncias” e cedem aos interesses próprios, seja do seu partido, seja dos grandes grupos económico-financeiros que os suportam.
Não é assim de estranhar que, em especial no “centrão”, em nome da seriedade, a mais recente jogada de ‘marketing’ é afirmar-se contra os “interesses”, nestes tempos em que a promiscuidade entre a política e os negócios é cada vez mais notória. Mas será hoje possível a quem ocupa altos cargos governativos um espírito altruísta e uma atitude desinteressada? Será o carácter compatível com os “interesses” que contaminam a política?
Como escreveu Jean Giono, no seu maravilhoso “O Homem que Plantava Árvores”: “Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”
De facto, nesta era da baixa política não há pessoas assim. É de homens com carácter que precisamos para conduzir os destinos da Nação.
Não é assim de estranhar que, em especial no “centrão”, em nome da seriedade, a mais recente jogada de ‘marketing’ é afirmar-se contra os “interesses”, nestes tempos em que a promiscuidade entre a política e os negócios é cada vez mais notória. Mas será hoje possível a quem ocupa altos cargos governativos um espírito altruísta e uma atitude desinteressada? Será o carácter compatível com os “interesses” que contaminam a política?
Como escreveu Jean Giono, no seu maravilhoso “O Homem que Plantava Árvores”: “Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”
De facto, nesta era da baixa política não há pessoas assim. É de homens com carácter que precisamos para conduzir os destinos da Nação.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Os bustos e as bestas
Sempre que estes polícias do pensamento regurgitam a verborreia habitual, lembro-me do que escreveu Julien Freund: “as sentinelas do antifascismo são a doença da Europa decadente.”
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