terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Impressões suíças (V): Uma pastelaria portuguesa, com certeza


Depois de ir até Berna e passar por Lausanne, verificando que, apesar das diferenças entre cantões, com as suas diferentes regras, há um padrão suíço, voltámos a Genebra.

Há uma coisa que não deixamos de reparar – a forte presença portuguesa. Das mercearias com produtos nacionais aos talhos, passando pelos cafés e pelos quiosques, onde é possível encontrar a imprensa cor-de-rosa com as últimas coscuvilhices do ‘jet-set’ português, e até por livrarias portuguesas.

Em Genebra entrámos numa pastelaria que podia ser em qualquer terra portuguesa. A rapariga que nos atendeu era simpática, com o seu sotaque nortenho perguntou-nos se não queríamos pastéis de nata com os cafés. “São feitos por nós, tal como o bolo-rei”, garantiu-nos. Há uma sensação agradável de encontrarmos a nossa terra e a nossa gente noutras paragens – uma ligação inexplicável.

Almoçamos com Miguel Rocha, segurança que está no país há dois anos. Uma sanduíche e uma bebida num sítio de refeições rápidas custa mais de dez euros. Os preços são altíssimos. Para se ter uma ideia, um café num estabelecimento vulgar custa 3,5 francos, cerca de 2,90 euros! É por isso que Miguel diz que “até ganha bem” para os padrões portugueses, mas que tem muitos encargos. Mesmo assim gosta de viver na Suíça e não pensa regressar a Portugal tão cedo. Mas avisa quem quiser ir para lá, que “as coisas não são fáceis”. Segundo ele, é preciso trabalhar muito e cumprir as regras. “Quem não aguenta o primeiro ano, dificilmente volta” e ele próprio diz que só resistiu porque teve ajuda de outros portugueses que conhecia, apesar de não se relacionar muito com a comunidade nacional. “A maioria só fala do Ronaldo e adora vir para a rua festejar as vitórias da selecção de futebol. Não tenho paciência para a bola, prefiro os desportos de Inverno e aqui estou no sítio certo”, desabafa. Mas a visão que os suíços têm dos portugueses é essa? Miguel diz que são vistos como um povo trabalhador, mas que normalmente os associam a profissões consideradas menores, mesmo havendo muitos que subiram na vida.

Nem de propósito, à saída do restaurante cumprimentamos o dono, um turco que casou com uma portuguesa e que nos fala na nossa língua. Ao mesmo tempo, um dos empregados, suíço, diz-nos que esteve uma semana de férias em Lisboa, “a terra de Luís Vaz de Camões”, nas suas palavras. Ficámos pasmados e orgulhosos.

Um presente de Natal da Biblioteca Nacional


domingo, 29 de dezembro de 2013

Continua o caos ortográfico...

Nos 149 anos do «Diário de Notícias», Zeinal Bava foi o director convidado numa edição especial, em grande formato e com 80 páginas. Mas houve um pormenor que não me escapou. O «DN» há algum tempo que decidiu converter-se apressadamente ao famigerado Acordo Ortográfico (AO) e contribuir para o caos que se instalou no nosso país.

Folheando esta edição, vemos que vários colunistas, como Paulo Baldaia, Alberto Gonçalves, ou Gonçalo M. Tavares, recusam o AO e aos seus textos segue-se a seguinte frase: "Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico". Filipe La Féria fez ainda melhor, terminando o seu artigo com o seguinte post scriptum: "O artigo foi escrito em Português antigo (sic). No Teatro Politeama nem os bailarinos russos aderiram ao Acordo Ortográfico."

O texto de Jaime Nogueira Pinto, autor que recusa o AO nos seus livros, aparece semi-acordizado. Tanto lemos "protecionismo" como "Março". Ficamos sem saber qual a vontade do autor...

Já os jornalistas - e conheço alguns... - só escrevem assim porque são obrigados.

Conclusão: o caos está instalado e caso houvesse liberdade de escolha o Português acordizado seria residual.

Um pensamento de Agustina


Leio no «Público» que recentemente foi lançado pela Babel, na colecção Contemplações, o “Caderno de Significados” reúne cerca de noventa pequenos textos de Agustina Bessa-Luís. Alguns desses “pensamentos que Agustina esquecia pelas gavetas da casa” são citados na peça e há um, de 1980, que não resisto a partilhar: “A democracia acaba em fachada sonsa de uma pequena festa oligárquica.”

sábado, 28 de dezembro de 2013

Impressões suíças (IV): Almoçar no “Restaurant da Luz”

Depois de visitar Gruyères, apreciar a belíssima vila típica coberta de neve, entrar no castelo bem preservado e ir ao Museu H. R. Giger, o artista suíço-alemão conhecido pelos seus desenhos biomecânicos e, principalmente, por ser o criador do monstro de “Alien”, o filme de Ridley Scott, pelo qual recebeu um Óscar, vamos Bulle.

Nesta pequena localidade, onde vivem muitos portugueses, espera-nos um almoço no “Restaurant da Luz”. Fica mesmo ao lado da Casa do Benfica, local com óptimas instalações onde se reúne a comunidade portuguesa. Entramos e cumprimentam-nos em português. O café, a cerveja, o vinho, entre outros são de marcas nacionais. Na parede há um quadro com a imagem do estádio que dá o nome ao restaurante. A televisão, sintonizada num canal português, transmite um daqueles habituais programas da manhã que prende a atenção de alguma clientela.

Sentamo-nos à mesa de José António, figura conhecida e reconhecida na terra. É originário de uma aldeia perto da Guarda, mas vive na Suíça há cerca de 20 anos. Diz-nos que as coisas mudaram muito. Tem o seu negócio e a sua família bem estabelecidos, mas tudo o que tem conseguiu com muito trabalho. “Aqui é assim”, constata. Para além dos afazeres profissionais, é conhecido por ajudar muitos portugueses que lá vivem e os que chegam. “Muitos não sabem para onde vêm”, garante-nos. Segundo ele, a vida não está fácil e a crise também vai chegar à Suíça. Conta-nos que muitos portugueses que lá se estabeleceram vingaram na vida, mas sempre com muito esforço, porque “as coisas não caiem do céu”.

Mas há um grupo de que nunca se fala, o dos portugueses que perderam o emprego ou não o conseguem. Alguns vivem das ajudas estatais, mas “os suíços não gostam disso”, diz-nos José António. Aliás, “estão a acabar com isso”, o que o levou a ele e à mulher a pedir a nacionalidade suíça. “É uma garantia e nós sempre contribuímos com os nossos impostos aqui”. Mesmo assim, diz-nos que nunca serão vistos como nacionais, “por causa do nome no passaporte”. Aliás, um apelido português é um entrave para um recém-chegado que queira arranjar casa ou trabalho sem conhecimentos prévios.

A Suíça já não é o que era. O país tem cerca de um quarto de população emigrante e há uma preocupação crescente em recambiar os que não trabalham. “Aconteceu a vários portugueses”, diz-nos. Por isso, aconselha a quem queira ir para lá que conheça alguém que o ajude a estabelecer-se. “Quem quiser vir para viver de subsídios, mais vale ficar em Portugal”, avisa.

Mesmo com a nova conjuntura, diz que ainda é possível ter uma boa vida na Suíça, país ao qual está agradecido e onde criou os filhos, que não tencionam voltar para Portugal.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Impressões suíças (III): Lamas e não vacas!


Viajar pelas estradas suíças é apreciar uma paisagem natural deslumbrante, polvilhada de pequenas localidades com uma arquitectura típica, que nos recordam automaticamente as decorações criadas para os comboios eléctricos que faziam as delícias das crianças, antes da chegada dos videojogos.

Algo que se nota rapidamente é que não há baldios e quase todo o território arável está aproveitado. Para além da agricultura, a pecuária é outro sector a não desprezar. Apesar disso, não eram visíveis as famosas vacas suíças. “Não é altura de estarem cá fora, está frio”, explicam-nos. Mas vemos outro animal que nos deixa perplexos. Nesta região montanhosa europeia vemos lamas! Caroline, uma franco-suíça, diz-nos que se tornou moda e por isso não é raro ver aqui estes representantes da fauna sul-americana. Mas não são tratados como animais exóticos. Dão-se bem com o clima e são usados para produzir lã.

Um Grande de Portugal

O Comandante Alpoim Calvão
nas comemorações do 10 de Junho de 2011.

Fotografia de Humberto Nuno de Oliveira.

«Alpoim Calvão, o homem que, com Chenier de Giordano, pode afirmar "Con la mia voce, ho cantato la Patria"; o homem que, se não ganhou - nem perdeu - a Guerra da Guiné, ganhou a guerra dos mitos e das lendas; o homem que, se falhou nalguma coisa, foi no século; esse homem, um Grande de Portugal que quer as cinzas enterradas na água, lá onde o "suave e brando Tejo" morre, segue o seu caminho de cara ao sol que agoniza no Mar Português.»

Rui de Azevedo Teixeira
in "Tabu"

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Impressões suíças (II): Segurança e controlo


Ouve-se a sirene de um carro da polícia que se aproxima. Avisam-nos que outros se seguirão. Assim aconteceu e por várias vezes. O mínimo incidente, mesmo de tráfego, mobiliza rapidamente um número de agentes que nos parece exagerado. “Tem que ser assim”, dizem-nos, porque é a única forma de garantir a segurança. Parece ser outra obsessão deste país onde há bancos privados que albergam das maiores fortunas do mundo em edifícios discretos.

Os suíços nunca desprezaram a sua defesa e as forças militares estão bem equipadas. Não é raro ver na rua oficiais do exército fardados, a lembrar que o país está pronto para a mobilização, como já aconteceu num passado não tão longínquo.

Outra curiosidade é a existência de abrigos nucleares nos edifícios de habitação e casas particulares. Visitámos um numa vivenda num dos melhores bairros de Genebra. Por debaixo da casa há várias divisões: sala das máquinas, de ferramentas e arrecadações. Mas uma porta blindada salta à vista. É a do bunker que deve albergar a família durante dois dias, até ser retirada para abrigos comuns em caso de ataque nuclear. Parece que a Guerra Fria não terminou por aquelas bandas... Mas a proprietária menoriza o assunto. Diz que tem a sanita química e as reservas de água exigidas pela protecção civil, que já fez a vistoria às instalações. Não acredita na necessidade do espaço e duvida da sua eficácia, mas cumpre as regras.

A Suíça é o país do mundo com maior percentagem de abrigos atómicos per capita. Só em 2006 é que terminou a exigência legal de os construir, sem bem que continua a ser necessário mantê-los. Ao mesmo tempo, quer quiser construí-los hoje beneficia ainda de apoios estatais.

Os suíços são em geral cidadãos cumpridores, mas ao mesmo tempo há uma cultura de fiscalização permanente e cada um é um polícia em potência, que tanto denuncia o automóvel mal estacionado, como o vizinho que não faz a separação do lixo.

Auguri!


Há exactamente dez anos nascia em Roma a Casa Pound. Uma ideia que se concretizou com uma vontade militante e formou uma comunidade que ultrapassou fronteiras e se tornou uma inspiração e um exemplo.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Tempo de Família

É nesta época de recolhimento, em que paramos por momentos a azáfama da apressada rotina diária, que encontramos no seio da família a nossa verdadeira razão de existir. Recordamos os nossos antepassados, celebramos os ausentes e enchemo-nos de esperança com a geração futura.

É na Família que perpetuamos a nossa comunidade, é com os nossos filhos que garantimos a nossa imortalidade. Percebemos o valor imemorial de tão importante ligação, em especial nestes tempos de imediatismo e materialismo exacerbado. Compreendemos que o que perdura é o que fica, que nos marca, que nos dá ânimo.

Assegurar a Família, enquanto instituição basilar da nossa sociedade, é um combate pelo essencial. É uma luta pela nossa sobrevivência enquanto povo. Portugal vive, porque vivem as famílias portuguesas.

Que tenhamos sempre presente este sentimento, porque os ataques à vida repetem-se diariamente, com grande intensidade, e vêm até de onde menos os esperamos. Estejamos atentos e dispostos a defender uma herança ancestral que, por dever, nos cabe manter e projectar para o futuro.

É nos olhos das nossas crianças que vemos o céu limpo do amanhã e reforçamos assim o sentimento de segurança que lhes devemos transmitir.

A este propósito, recordo uma estrofe da “Microbiografia de Natal”, do saudoso Rodrigo Emílio, poeta pátrio que tanta falta nos faz:
"Sol para sempre posto,
eis que despede, porém, e ainda agora gera
renovados brilhos,
no nome e no rosto
de pérola
dos meus filhos."

Editorial da edição desta semana de «O Diabo». 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Lançamento de “Germania” e “Finis Mundi”

Amanhã, dia 23 de Dezembro, é a sessão de lançamento de duas obras a não perder, no Ibis Saldanha, em Lisboa, numa sessão aberta ao público, com entrada livre.


A primeira, “Germania – Geohistória da Europa Central”, da autoria de Nuno Morgado, será apresentada pelo Professor Doutor António Marques Bessa, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). A segunda marca o regresso da mais acutilante revista académica portuguesa, “Finis Mundi”, dirigida pelo Flávio Gonçalves, já no seu sétimo número e contando com a colaboração de dezenas de académicos e intelectuais nacionais e estrangeiros.


A sessão terá início “pontualmente” (aviso dos organizadores) às 18 horas e decorrerá até cerca das 21 horas numa sala do Hotel Ibis Saldanha, além das obras em lançamento estarão disponíveis para venda uma eclética selecção de discos e livros. A organização do evento está a cargo do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares (IAEGCA).

Sobre “Germania”, o autor, Nuno Morgado, afirmou que “ao ouvir falar em ‘Alemanha’, quantos não convocam imediatamente ao intelecto o Nazismo, Adolf Hitler, brutalidades e impressões afins? Um dos objectivos específicos deste livro é exactamente desvelar que existe um universo de cultura e de tradição cristã milenar no espaço da Europa Central. Assim, o livro não se debruça sobre a história da ‘nação alemã’, ou de qualquer outra nação em particular, mas depois de devidamente identificadas as raízes pagãs da Germânia, ocupa-se em analisar o percurso da Cristandade enquanto unidade política corporizada no Reich. Deste modo, aqui se apresenta um verdadeiro manual da História da Europa Central, escrito segundo o método do historiador e geopolitólogo Vicens Vives”.

Por sua vez o Professor Marques Bessa realça “que o autor fez um bom trabalho de fundo, indo às fontes e reunindo dados importantes para o conhecimento dos factos, deformados pelo repetir de mentiras históricas que acumularam poeira sobre uma autêntica saga notável que desabrocha, outra vez, nos nossos dias. O livro que agora têm na mão deve ajudar os que têm boa vontade a olhar para a árvore singular no meio da floresta nebulosa de mentiras”.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Impressões suíças (I): Genebra


O voo de Paris para Genebra, numa daquelas companhias aéreas low-cost que transformaram as viagens de avião bastante acessíveis, atrasou-se. Suprema ironia para quem se desloca para um país onde a pontualidade é levada ao extremo. Os suíços exigem-na e não toleram atrasos, muito menos desculpas. Para cair no habitual lugar-comum, querem a organização do país e dos negócios a funcionar como um relógio suíço.

A primeira sensação, ao entrar num país europeu onde ainda há controlo de fronteiras e que tem uma moeda própria, não deixa de ser estranha. De alguma forma, faz-nos regressar no tempo...

A temperatura ronda os 0 ºC, o céu está limpo e o Sol brilha em todo o seu esplendor. Para esta altura do ano é um tempo formidável. A neve que caiu derreteu e só se manteve nas montanhas. Genebra não é uma cidade grande. É agradável e percorre-se bem a pé. As ruas são movimentadas e há muitas pequenas lojas. Os centros comerciais são raros na Suíça e não se comparam às sobredimensionadas catedrais do consumo que se multiplicaram em Portugal.

Os edifícios estão bem preservados e nota-se que há uma preocupação extrema com a organização da cidade. O património está bem cuidado e vale a pena ser visitado.

O dia começa cedo e o trânsito é infernal. A culpa é dos frontaliers, dizem-nos. É notória a antipatia pelos franceses que todos os dias atravessam a fronteira para trabalhar no país vizinho onde ainda há emprego e os salários são superiores. “Não gastam cá dinheiro. Nem um café tomam”, desabafa um emigrante português que trabalha na recepção de um dos muitos hotéis que acolhem em especial os turistas financeiros, aqueles que ainda enchem os cofres suíços com depósitos milionários. Para José Luís, que nasceu na zona do Grande Porto, mas que foi para lá com os pais ainda criança, os “franceses não pagam impostos na Suíça e os suíços não gostam disso”. Os frontaliers ocupam cerca de um quarto dos empregos no Cantão de Genebra e, apesar da língua comum, são notados pelos locais. É um dos primeiros sintomas de que talvez os suíços não sejam o povo mais hospitaleiro do mundo.

Solstício de Inverno


Celebremos na noite mais longa do ano a nossa herança ancestral, afirmando a nossa concepção cíclica do mundo, a nossa ligação à terra – a nossa identidade. O Sol brilhará de novo e a Terra voltará a viver.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sobre o 3D

«Os 3 D do Partido Socialista em 1974 eram “descolonizar, democratizar e desenvolver”. Os 3 D de hoje são “a dignidade, a democracia e o desenvolvimento”. Aparentemente, 40 anos não chegaram para o trivial, apesar dos fundos da “Europa” e muita parlapatice. Como os promotores do “movimento” dizem, e dizem bem, “é tempo” de tratar seriamente do caso. Infelizmente, a grande maioria desses promotores já tentou e já falhou na missão urgente de salvar a Pátria. Vieram do PC, do Bloco, do PS, do vaporoso “Partido Livre”, mesmo do lúgubre PRD do general Eanes. Ou seja, arrastam atrás de si uma carreira de tristeza e fracasso, de inutilidade e arrependimento. Muitos estão, de resto, reformados e não se deviam meter em aventuras liceais, deviam ficar em casa a beber chá e a ler os livros que não leram.

O actual modo de vida dos “promotores” também não inspira uma especial confiança. Há dúzias de professores de Lisboa e de Coimbra, artistas de vária pena e pinta, um doutorando em “estudos de cinema” e um humorista. Mas ninguém, ou quase ninguém, ligado a uma empresa, ou a uma câmara, ou a qualquer serviço da administração central. O “programa” do “manifesto” mostra esta ignorância essencial. Parece que os “promotores” imaginam que a sua vontade só por si, reunida, por exemplo, num hotel ou no Teatro Trindade, basta para mudar o mundo e o país. Não basta, como é óbvio.»

Vasco Pulido Valente
in "Público"

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dúvida político-cómica


Leio nas notícias que "Ricardo Araújo Pereira, Carvalho da Silva e Daniel Oliveira querem nova frente de esquerda"... Esclareçam-me: isto faz parte do regresso televisivo dos Gato Fedorento?

Coincidências


Nunca suportei o 3D no Cinema, mas nunca pensei que o sentimento se aplicasse também à política nacional...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

Da ignorância nacional

Camões lendo 'Os Lusiadas' aos frades de S. Domingos
António Carneiro
1925, óleo sobre tela 188 x 264 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Vasco Graça Moura traçou muitíssimo bem o panorama da ignorância em Portugal num excelente e certeiro artigo, intitulado "O remorso", publicado no "Diário de Notícias".

Primeiro, faz o trágico ponto da situação: "Vemos a cada dia que passa que os portugueses não sabem nada, ou praticamente nada, sobre o seu país. A ignorância histórica atinge as raias da obscenidade. Quando muito refastelamo-nos nuns ecos idiotas do tempo dos Descobrimentos, mal sabendo do que estamos a falar. Da Geografia, seja física, seja humana, ainda menos. Não conhecemos bem o território que habitamos, nem a relação da nossa vida com ele. Temos uma frequência sumariamente turística e petisqueira com alguns lugares mais promovidos.
Da cultura portuguesa e no que toca às artes, fora este ou aquele monumento mais visitados ao domingo durante a volta dos tristes, somos de uma fúnebre obtusidade. Da língua, estamos falados. Não me refiro apenas ao desconhecimento da sua história. Sucessivas gerações ligadas ao ensino têm dado cabo dela e contribuído para o seu abastardamento. Práticas diárias na comunicação social coadjuvam essa torpeza. É estropiada por toda a gente em todas as áreas do quotidiano e do saber. Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente."

Depois, sobre a actual literatura que se publica em Portugal, afirma: "Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias."

Mas, perante tal descalabro, que fazer? Segundo ele, "o que é preciso é fazer alguma coisa que fique do lado de fora das estatísticas e das apreciações formais da competências. O que é preciso é a promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários, sem exacerbamentos nacionalistas nem patriotinheirismos ridículos e fora de prazo. E também é preciso pôr estes valores, no seu vasto e múltiplo conjunto e nas suas interligações ao alcance do maior número possível de cidadãos, independentemente do trajecto que tenham feito ou façam nos níveis do ensino secundário e do ensino superior".

Alertando também, e muito bem, para o facto de que "não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas. Essa falta também se faz sentir, tanto ou mais do que as apontadas no tocante à História, à Geografia, às artes, à língua e à Literatura".

Para reflectir. Seriamente.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Dos bons e dos maus...


«O erro da leitura da extrema-esquerda reside no seu pecado original: uma visão dualista e maniqueísta do mundo.

A linha de demarcação entre bons e maus não existe. Aquela que separa os cínicos e os manipuladores (conscientes ou inconscientes) dos que possuem, não uma pureza revolucionária (que seria a língua de pau) mas uma dignidade e uma grandeza, não é vertical. Ela não separa direita e esquerda, fascistas e comunistas. Este meridiano atravessa cada experiência política, cada zona de mobilização das energias militantes.

O problema da nossa época reside precisamente na qualidade dos homens e, por conseguinte, no trabalho sobre si próprio que esta constatação implica: um trabalho sobre si próprio que não pode ser desviado por uma caça às bruxas estéril, nem neutralizado pela estigmatização simplista de um bode expiatório.»

Gabriele Adinolfi
in "Nos belles années de plomb. La droite radicale italienne dans l'orage de la lutte armée et de l'exil" (2004).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Governar pelo exemplo

O nosso jornal é um semanário político de intervenção, livre e independente, que toma o partido de Portugal e dos portugueses, tendo como objectivo uma análise rigorosa da actualidade nacional para uma informação séria. Assim, não reduzimos a nossa acção à de meros espectadores e denunciamos as injustiças e os abusos cometidos por aqueles que devem representar o povo.

Em tempos de contenção, em que se exigem crescentes sacrifícios aos portugueses, é incompreensível que na Assembleia da República continue “tudo como dantes”. Qualquer corte salarial deveria começar pelos deputados, para só depois atingir os restantes cidadãos.

Não é por isso de estranhar que cresça diariamente a indignação popular contra um sistema que cada vez mais afasta os cidadãos da política. Mas, atenção, não se trata aqui de fazer um discurso demagógico contra “os políticos”. A política, enquanto organização da ‘polis’, diz respeito a todos. Devemos, por isso, ser “políticos” e preocupar-nos com a nossa vida comum, pugnando por um futuro melhor para as gerações seguintes. Não é com o silêncio nem com lamentos mudos, muito menos com a indiferença, que alteraremos esta situação intolerável. É participando activamente que conseguiremos uma mudança de fundo, desejada e desejável. O primeiro passo é apontar os erros e mostrar o valor da exigência e do compromisso.

Há algo que deve guiar quem governa e que é facilmente perceptível a todos: o exemplo. Mas há muito que este infelizmente se perdeu e se foi gradualmente substituindo por discursos descartáveis e de ocasião, que tudo tentam justificar ou desculpar.

Basta de políticas injustas e injustificáveis de “dois pesos e duas medidas”. O exemplo tem que vir de cima, mas cabe-nos exigi-lo.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Quando os livros são inimigos...


A Librarie Facta, em Paris, foi atacada no início desta semana por quem, discordando de ideias, não hesita em destruir livros. Resultado: vidros partidos e livros danificados com tinta. Uma intolerância intolerável.