quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Livros em Paris (IV)


Paris é uma óptima cidade para andar a pé e o melhor passeio é ao longo do Sena, ladeado pelos bouquinistes, onde se encontram sempre belos alfarrábios. Um passeio que se tornou um hábito. Está quase. Até já!

O mundo já não é mágico


Ontem falámos de Borges, sobre o seu último refúgio e sobre a sua poesia. Lembrei o poema a Camões, claro, e seguiu-se o dedicado aos Borges, os seus mayores portugueses. Mas o meu Amigo Carlos (que foi ao funeral dele!) recordou um que não me lembrava. É sobre a perda de um amor e aplica-se tão bem à presente época de desilusão... Cheguei a casa e não descansei enquanto não o (re)encontrei. Aqui fica, na versão original, tal como ele o recitou.

1964

I
Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
Ni los lentos jardines.
Ya no hay una Luna que no sea espejo del pasado,
Cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las cienes
Que acercaba el amor. Hoy solo tienes
La fiel memoria y los desiertos días.
Nadie pierde (repites vanamente)
Sino lo que no tiene y no ha tenido
Nunca, pero no basta ser valiente
Para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.

II
Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha, la muerte,
ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al sur, a cierta puerta, a cierta esquina

Jorge Luis Borges

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Holodomor


«Holodomor – ‘morte pela fome’ – foi assim que ficou conhecida essa terrível praga que matou cerca de sete milhões de pessoas. Mas como é que uma região riquíssima agricolamente – antes e depois (hoje é um grande exportador de cereais) – chegou aí?

Os responsáveis são dois – um sistema de ideias e um homem – o colectivismo socialista e Estaline. Os princípios marxistas-leninistas de desenvolvimento económico, implantados depois da revolução de 1917 e da vitória bolchevique na guerra civil, priorizavam a colectivização da agricultura: houve, no princípio, a supressão dos grandes latifúndios, mas em 1922, com a Nova Política Económica, as terras nacionalizadas foram apropriadas às centenas de milhares de kulaks, o nome pejorativo dos pequenos proprietários autónomos que recorriam ao emprego de outros.

Segundo Robert Conquest, no seu clássico The Great Terror, «a colectivização destruiu cerca de 25% da capacidade produtiva da agricultura soviética». Mas na Ucrânia tudo foi pior: as colheitas foram confiscadas para exportação e os produtores e suas famílias deixados morrer à fome. Aqueles que resistiam, escondiam grão ou gado, ou em desespero tentavam subtrair alimentos das granjas colectivas, eram presos, enviados para os campos de concentração da Sibéria ou executados no local. Brigadas de comunistas devotos, enquadrados pela GPU (polícia política soviética), percorriam a Ucrânia, saqueando e queimando aldeias, casas e propriedades dos ‘inimigos do povo’.

«Os homens morriam primeiro, depois as crianças, no fim as mulheres», escreveu um contemporâneo. Os poucos documentos fotográficos e fílmicos são tenebrosos.

Foi um caso claro de genocídio deliberado e executado por razões ideológicas e deve ser encarado não apenas como o produto da crueldade racional ou paranóica de um homem – Estaline – mas como o resultado natural de um sistema de ideias de um modelo político-social.

Um sistema que, por todo o mundo do século XX, produziu alguns dos maiores desastres da História da Humanidade. Sete milhões de ucranianos, numa população de trinta milhões perderam a vida. O Governo soviético ocultou o genocídio e para isso teve a cumplicidade não só dos comunistas de toda a Europa, mas também das esquerdas, desconfiadas do que lhes parecia uma campanha reaccionária.

A Rússia era então o único país comunista do mundo. Álvaro Cunhal, o futuro líder do PCP, tinha 20 anos.»

Jaime Nogueira Pinto

Dia d'O Diabo

domingo, 24 de novembro de 2013

Livros em Paris (III)


Uma das paragens obrigatórias das minhas rondas parisienses dos livros é a Librairie Facta, de Emmanuel Ratier, onde se encontra tudo aquilo que é difícil noutros lados.

sábado, 23 de novembro de 2013

O fermento das minorias

«A desigualdade individual origina no plano social uma divisão entre fortes e fracos, já constatada por Duguit. Os fortes capturam os poderes sociais (político, ideológico, económico) e governam a maioria da população. É o fenómeno das elites dirigentes e dominantes, da hierarquia, que tão bem evidencia a análise da sociedade animal. A reflexão mais desapaixonada sobre esta matéria foi efectuada pela escola sociológica italiana, com Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Roberto Michels. Estes autores provaram a perenidade da minoria, a minoria poderosa, que impõe a sua vontade sobre a maioria dando-lhe a impressão de ser ela a decidir e a governar.

Analisando a sociedade e o homem tal como eles são, estes autores anteciparam-se de quase meio século às realidades científicas do nosso tempo. Identificaram correctamente os detentores do poder real e formularam as leis segundo as quais decorre a disputa da força. Identificaram igualmente as justificações mais ou menos elaboradas que a minoria criou para o seu poderio e chamaram-lhe fórmula política. Dizer que o poder lhe vem de Deus, ou do Povo, ou que é do autocrata a título de conquista, são tudo razões óptimas desde que operem e cumpram a sua função justificativa. Acontece que hoje as fórmulas políticas são as ideologias e nelas não há, como se viu, o menor grão de credibilidade. Está por nascer a fórmula política do nosso tempo, que reduza democracia e socialismo, social-democracia e marxismo, a meros trastes velhos da história da pulhice do homo sapiens.

Os autores que situam correctamente estes problemas numa análise neomaquiavelista são poucos. Todos ainda preferem as visões românticas e penetradas pela ideologia, justificativas em última análise do poder da minoria actuante ou da minoria que aspira ao poder. Contudo, com o desaparecimento desses grandes vultos do pensamento político, não é menos certo que ficaram certos autores que importa conhecer e que reflectem, na Teoria Política, a revolução intelectual a que se assiste noutros campos do saber. Carl Schmitt, o velho professor alemão, James Burnham, Wright Mills e Julien Freund, chegam para assegurar um exercício impecável em matéria de realismo político e transparência de concepção.

As minorias, portanto, longe de se confundirem com a multidão, são pela sua organização e coerência o único fermento social de mudança e poder. Só caem para ceder o lugar a outras, de modo que a História não passa de um velho e enorme cemitério de oligarquias. A lei de ferro da oligarquia, formulada por Michels, apenas se faz eco desta constatação empírica, tão desagradável aos doentes do igualitarismo acéfalo, fervorosos crentes no álibi da tábua rasa.»

António Marques Bessa
in "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade", Edições do Templo (1978).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Hungria no Méridien Zéro


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, sobre a Hungria, com a presença de Márton Gyöngyösi, deputado do Jobbik.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Passageiros


«O indivíduo já não está na sociedade como uma árvore no bosque, assemelha-se, ao invés, ao passageiro numa embarcação, que se move rapidamente e que se pode chamar “Titanic” ou também Leviatã. Desde que faça bom tempo e a paisagem seja agradável, ele mal se aperceberá do decréscimo de liberdade em que caiu.»

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

Contra a recessão demográfica


Há muita gente que não lê este ou aquele jornal devido à suposta "orientação ideológica" destes, mas convém estar atento, porque acontece por vezes concordarmos integralmente com o que é escrito. Leia-se o editorial do «Público» de hoje:

«Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comparando a evolução das famílias entre 1960 e 2011 quantificam transformações e mostram a que ritmo estão a ocorrer mudanças com as quais nos deparamos no nosso quotidiano. Somos um país no qual há mais pessoas sós, mais famílias monoparentais, mais casais recompostos e menos famílias numerosas. Muitos destes dados reflectem a erosão da família tradicional e a adopção de novas formas de vida. Outros traduzem a inexistência de uma política de família que contrarie a tendência para a quebra da natalidade que em Portugal há muito atingiu dimensões gravíssimas. Os dados do Eurostat mostram que temos a segunda taxa de natalidade mais baixa da União Europeia.
Poupa-se nos que ainda não nasceram e não se contraria o desequilíbrio demográfico do país. Os números do INE, por seu turno, indicam que a percentagem de casais com filhos baixou de 41,1% para 35,2%, entre 2001 e 2011. Estes dados evidenciam os efeitos da ausência de uma política real de apoio às famílias. Os dados do Observatório das Famílias e das Políticas de Família revelam que Portugal gasta apenas 1,5% do PIB em apoios económicos às famílias e que nos últimos três anos meio milhão de crianças perderam o direito ao abono de família.
Num país em austeridade acentuada, travam-se os gastos que poderiam conduzir a um aumento da natalidade. Poupa-se nos que ainda não nasceram. E, por essa via, perde-se a possibilidade de contrariar o défice demográfico e torna-se mais difícil combater os problemas que decorrem do envelhecimento das populações, ao nível da Segurança Social ou dos custos de saúde. Um país que convida os jovens a emigrar e não dá aos que fica condições para constituir famílias está a condenar-se a prazo. Somos um país em recessão demográfica e que desistiu do futuro, aceitando o declínio a prazo como preço para sobreviver no presente. É preciso que o país passe a ter uma política de família.»

Sociedade submissa


«A alienação face a um pensamento correcto implica necessariamente a submissão a uma atitude correcta, que na sociedade de consumo compreende a boa vontade face às instituições, o optimismo democrático, a ambição de ser semelhante aos colegas e de aspirar a ser o favorito do chefe, a satisfação de ser um bom cliente e um bom cidadão, empenhado em conseguir dinheiro para comprar cada vez mais coisas que nos são inúteis. Tudo isto a título individual mas cedendo cada vez mais as nossas responsabilidades (políticas, sociais, económicas, ecológicas, familiares, municipais…) a um Estado-Sistema que sofre um acelerado processo de privatização multinacional. A consciência industrial é completada com uma educação industrial que encaminha os seus esforços para fazer de nós uns consumidores teleguiados. A administração e os tecnocratas, menos hipócritas que os académicos, falam de nós como “sujeitos” ( no sentido de “sujeitar”, “reprimir”, “dominar”) e classificam-nos como “recursos humanos”, esta é uma sociedade onde não existem virtudes mas antes normas.»

Maurice Bardèche
in "Sparte et les Sudistes" (1969).

René Magritte


La trahison des images
1929, óleo sobre tela, 63,5 × 93 cm
Los Angeles County Museum of Art
EUA

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Atitude


«É um prodigioso meio de propaganda. É também um elemento de embrutecimento no sentido de que as pessoas confiam naquilo que lhes é mostrado. Elas já não imaginam. Elas vêem. Elas perdem a noção de juízo e dedicam-se gentilmente à preguiça. A televisão é perigosa para os homens. O alcoolismo, a coscuvilhice e a política já fazem embrutecidos. É preciso juntar ainda mais qualquer coisa?»

Louis-Ferdinand Céline

O prazer da leitura


«O prazer da leitura dos grandes escritores da língua portuguesa deveria ir sendo progressivamente construído no pleno escolar, contando, de resto, com elementos auxiliares já existentes e com boas provas dadas, como o Plano Nacional de Leitura. Esse prazer da leitura, misto de exercício intelectual estimulante e de descoberta pelo aluno, ou em grupo, da capacidade da língua que se fala na expressão dos valores racionais, das tonalidades afectivas, das potencialidades expressivas, do jogo entre subjectividade e objectividade, que encontramos na obra de qualquer grande escritor, acaba por ser um dos grandes objectivos extracurriculares de qualquer programa de ensino da língua que seja digno desse nome. Sê-lo-á para a vida.»

Vasco Graça Moura
in «Diário de Notícias»

Lobos no rebanho

Recentemente, um inquérito Eurobarómetro revelou que os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores taxas de participação em actividades culturais e que Portugal é o país onde há maior falta de interesse pela leitura.

Apesar de se verificar uma tendência que mostra que os europeus se interessam cada vez menos pela cultura, o nosso país está mais uma vez na cauda...

Os fundos estruturais comunitários permitiram a construção e renovação de muitas bibliotecas públicas, mas a maioria da população preferiu olhar para o lado, ou melhor, olhar para televisão. Os dados referem que apenas 15 por cento dos portugueses visitaram uma biblioteca pública no ano passado. Por outro lado, a televisão é o entretém preferido no nosso país. Apesar de tanta discussão sobre o “serviço público” prestado pela “caixa que mudou o mundo”, avaliando pelo nível a que baixaram os programas mais vistos, dificilmente poderemos considerar que ver televisão é uma actividade cultural.
Voltando à leitura, apenas 40 por cento dos portugueses leram um livro no ano passado e a principal justificação para não ler é a “falta de interesse”.

Ora, mesmo com as preocupações do aperto financeiro actual, a crise não é desculpa. Pelo contrário, é exactamente em alturas de indecisão que devemos estar bem informados, escapar à ofensiva mediática niveladora e fortalecer uma vontade de mudança.

A ignorância cria rebanhos dóceis, facilmente controlados pelos que diariamente delapidam a Pátria. Mas, como escreveu Ernst Jünger, “se as grandes massas fossem tão transparentes, tão bem articuladas nos seus átomos, como o declara a Propaganda, precisar-se-ia tanto de Polícia como um pastor de cães para conduzir o seu rebanho. Não é este o caso, porque há lobos, que se ocultam nos rebanhos cinzentos, quer dizer: naturezas que ainda sabem o que é a liberdade. E estes lobos não são apenas vigorosos em si mesmos, como também pode dar-se o perigo de as suas virtudes, numa bela manhã, se comunicarem às massas, transformando-se então o rebanho em matilha. Isto é o pesadelo dos detentores do poder”. Sejamos lobos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 17 de novembro de 2013

Diálogos bibliófilos (III)


— Lembras-te de contar, como piada, que no dia em que vivesse sozinho forrava a minha casa a livros? — perguntou o bibliófilo a um amigo.

— Sim, porquê?

— Aconteceu.

sábado, 16 de novembro de 2013

A internacional terrorista dos anos de chumbo


Hoje, às 11 horas portuguesas, é emitido o programa "Libre Jounal des Lycéens", transmitido pela Radio Courtoisie, dirigido por Pascal Lassalle, que recebe Gabriele Adinolfi, que falará sobre a internacional terrorista dos anos de chumbo, Anne Durand, membro da Solidarité Populaire, e Henri-Paul Falavigna, presidente da associação humanitáira "Solidariedade Crianças de Beslan".

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Livros em Paris (II)


Enquanto o corpo aguarda a partida para Paris, a cabeça vai fazendo as suas viagens... Outra paragem que habitualmente faço nas minhas rondas dos livros é na Galerie de la Sorbonne, uma pequena livraria em frente ao Collège de France, onde se encontra muita coisa a óptimos preços.

Cunhal, o "soberano"


«O indivíduo que planeava transformar Portugal numa espécie de Bulgária do Ocidente, o promotor do PREC, o responsável pelas “nacionalizações” e pela ocupação dos “latifúndios”, o desorganizador da economia, o inimigo da “Europa”, esse parece que desapareceu. Só resta, com muito sentimentalismo, como ele gostaria, a máscara do soberano, perante a qual ainda uma pequena parte do país se acha obrigada a genuflectir. A consciência histórica dos portugueses é um óptimo reflexo da inconsciência que os trouxe à miséria e ao desespero.»

Vasco Pulido Valente
in «Público»

"A globalização é o nosso pior inimigo"

Ernesto Milá é um jornalista e escritor espanhol, autor de várias obras. O seu livro “Identidade, patriotismo e enraizamento no século XXI” foi recentemente traduzido para português e publicado no nosso país pela editora Contra-corrente. Esteve em Lisboa para a apresentação deste seu trabalho. Aqui fica a entrevista que lhe fiz e que foi publicada na edição de 8 de Outubro de 2013 do semanário «O Diabo».

Qual é a ideia fundamental deste livro e qual é o seu objectivo?
Quero dizer, em primeiro lugar, que não sou um doutrinador, nem ideólogo, mas jornalista e escritor. Interessa-me o mundo das ideias e sinto-me tributário das ideias tradicionalistas de Julius Evola e René Guénon e das ideias da Nova Direita francesa, da mesma maneira reconheço um tributo devido à obra dos pensadores nacionais-sindicalistas espanhóis, especialmente José Antonio Primo de Rivera e Ramiro Ledesma. O problema com que me deparei nesta obra foi como actualizar, definir e sintetizar todas estas influências tendo em conta a realidade iniludível da modernidade.
A ideia deste livro é sintetizar ideias prévias, definir alguns conceitos claros e estabelecer uma série de questões novas que todos nós sentimos e que não foram interpretadas pelos mestres de pensamento da nossa corrente. Na prática, neste livro defino o paradigma identitário.

Traça a distinção entre nacionalismo e patriotismo. Porque é que é importante definir tais conceitos?
É fundamental que nos movamos com conceitos claros com os quais todos estejamos de acordo. Um deles é o patriotismo que tem que ver essencialmente com a ideia de Tradição. A “pátria” é a “terra dos pais”, liga com um passado que se quer projectar para o futuro. A nação, ao contrário, é outra coisa: é um conceito fundamentalmente moderno, não anterior à Revolução Francesa e que substitui o “reino”. Assim, como nos reinos antigos o poder estava nas mãos de uma aristocracia, na nação histórica é a burguesia que detém a hegemonia. Dito de outra maneira, a origem do nacionalismo é fundamentalmente liberal e burguês, referindo-se a uma ordem de ideias que tem que ver com os valores inerentes às revoluções liberais do século XIX.
Em cada país atribui-se um sentido diferente a estes conceitos. Em Espanha, por exemplo, quando se fala de “nacionalismo” está-se a falar de ideias de tipo regionalista que apareceram espacialmente na Catalunha, no País Basco e na Galiza. Em França, pelo contrário, a partir da escola da Action Française e da obra de Charles Maurras, o “nacionalismo integral” vem a ser uma forma de patriotismo. No entanto, é importante recordar que as palavras estão carregadas e podem ser perigosas: todo o pensamento deve ser “orgânico” e ter uma ordem de ideias perfeitamente encadeadas. Se aceitamos que a nação aparece onde a guilhotina corta a cabeça dos reis, temos que aceitar que uma coisa é a ordem liberal e outra é a ordem tradicional e a primeira tem como valores a Nação, o mercado livre, a burguesia, o republicanismo, enquanto que a ordem tradicional tem como valores a Pátria, a economia corporativa, a monarquia, etc. É muito perigoso inserir em cada elo da cadeia um elemento que pertence a outra, por isso prefiro referir-me ao patriotismo em vez de ao nacionalismo.

Em Portugal, quando nos referimos ao nacionalismo, é diferente?
Não, creio que não. Em cada país europeu há uma forma de chamar as coisas. O que me parece importante é que, seja qual for a palavra utilizada para definir uma ordem de ideias, esteja acompanhada de uma tomada de posição nítida. Por exemplo, é importante que quando um “nacionalista” define o seu projecto deixe claro que se trata de um projecto fundamentalmente antiliberal e antiburguês. Isto implica resgatar a palavra das garras de quem detém historicamente o monopólio da mesma e dar-lhe um conteúdo que está nos antípodas do conceito que tinha originalmente. Creio, definitivamente, que de uma forma ou de outra temos que estar de acordo quanto aos termos a utilizar na luta política e o conteúdo a atribuir a cada termo.

No seu livro fala também no enraizamento. É possível num mundo urbanizado?
A ideia do enraizamento foi teorizada inicialmente por Charles Maurras, cujo pensamento influenciou poderosamente a reconstrução do património doutrinal de todas as direitas nacionais europeias, especialmente dos monárquicos no início do século XX. Posteriormente foi incorporada no património da Nova Direita francesa na medida em que supunha uma modulação de um instinto que está presente nas espécies animais, especialmente nos mamíferos superiores: o instinto territorial que, basicamente, faz com que se tenha tendência a identificar-se com o local que se considera como próprio e a defendê-lo, especialmente porque se nasceu ali. É o que em França se chama “as pátrias carnais” e em Espanha se chama a “patria chica", é a terra natal. Explica por que sentimos mais ou menos atracção pela zona que nos viu crescer. Nas cidades esse sentimento é muito mais atenuado. Não é por acaso que uma velha tradição dizia que a primeira cidade foi construída por Caim. As cidades modernas converteram-se em colmeias massificadas, em monstros burocrático-administrativos com cheiro a gasolina e em que a capa de asfalto, para cúmulo, nos separa da terra natal. É indubitável que nas grandes cidades se destrói a ideia de enraizamento. Mas isto também tem implicações: é evidente que as nossas cidades são como são porque o factor especulativo, o mau ordenamento, conceitos urbanísticos obtusos, geraram verdadeiros monstros que progressivamente se vão tornando mais hostis e incómodos para os seus habitantes. Era preciso um novo urbanismo capaz de dar um rosto mais humano às cidades e que estas recuperassem a dimensão humana.

O nosso pior inimigo é a globalização?
Sim, sem dúvida. A globalização é o aspecto económico de um fenómeno mais amplo e anterior: o mundialismo, matriz doutrinal de que a globalização é a aplicação económica. Já no início do século XX aparecem algumas tendência “mundialistas” sempre nos contornos da maçonaria internacional. Há que dizer que a maçonaria foi o laboratório de ideias da burguesia laica, republicana e liberal. Já nos finais do século XX trabalhava com a ideia de “unificar a humanidade”. Esse projecto teve em 1945 um novo impulso até ao ponto que algumas correntes maçónicas considerarem a fundação das Nações Unidas como o inicio da “era da luz”. A partir de 1945 a soberania dos Estados nacionais ficou limitada face a uma entidade supranacional controlada durante 40 anos pelas duas superpotências. Quando caiu a URSS e depois da Guerra do Koweit afirmou-se que tínhamos chegado ao “fim da História”, ou seja, ao período onde não haveria conflitos nem contradições e que, por isso, não haveria História, havendo no seu lugar forças económicas que operavam a nível mundial e que contribuiriam para construir um “mundo feliz”. Hoje sabemos que a livre circulação de capitais levou directamente à globalização e a esta crise económica que é, ao mesmo tempo, a primeira da globalização e talvez seja a última: o capital açude à chamada de novos benefícios e ultrapassa fronteiras constantemente, passa de um país a outro, sem fixar-se em lado algum, sempre à espera de maiores expectativas de lucro. O resultado é a instabilidade económica internacional e a formação de “bolhas” que nascem, crescem, rebentam, semeiam a dor, a ruína e a crise em certas zonas do planeta, para transferir-se imediatamente a outras gerando o mesmo impacto. Resumindo, o grande inimigo do ser humano é, hoje, a globalização.

Como podemos combatê-la?
É evidente que a competição entre diferentes economias apenas é lícita e aceitável quando ambas têm as mesmas condições de vida, os mesmos níveis de desenvolvimento e o mesmo tipo de protecções sociais. Quando na Europa o salário médio é de mil euros (na Europa do Sul) e na China é de 175 euros é evidente que não há concorrência possível. A indústria de manufacturas mudará sempre para onde seja mais barato produzi-las: as economias europeias que não podem desvalorizar a moeda, o que fazem para “ganhar competitividade” são “desvalorizações sociais”, limitando e reduzindo os salários. Mas estes nunca alcançarão os níveis da China, muito menos os do Vietname (133 euros por mês), nem os de África (apenas 50 euros por mês)... Assim, para combater a globalização, o primeiro a fazer é um rearme tarifário. O segundo é criar zonas de livre mercado homogéneas, ou o mais homogéneas possível.

Como vê a crise actual? É uma consequência da globalização?
Sim, sem dúvida. Não creio que haja saída. Quando se resolver a crise na Europa (no próximo ano prevê-se um crescimento do PIB em Espanha e que a crise acabará com um crescimento reduzido), a crise rebentará no Brasil e noutras zonas da América do Sul e provocará a quebra brusca das importações da Europa, porá bancos europeus em dificuldades e voltará a aparecer no Velho Continente o fantasma da crise extrema. Creio que esta é a primeira grande crise da globalização, mas à medida que avança temo que também seja a última. Quem diz globalização diz instabilidade e não pode existir uma instabilidade permanente. Esta, antes ou depois, acabará por desintegrar o sistema económico mundial.

Não é apenas uma crise europeia. Como está a afectar outros países?
A crise actual começou nos EUA no Verão de 2007 e depressa contagiou a Europa. A livre circulação de capitais fez com que o contágio fosse especialmente rápido. Agora, o elemento central da crise foi o aparecimento de “bolhas”. A imobiliária e a do crédito foram as centrais. Os preços da habitação tinham subido excessivamente, construía-se mais do que se podia consumir e a um preço insuportável para as populações. Apesar disso, os bancos davam créditos fáceis porque acreditavam que o preço das casas continuaria a subir. Mas, de repente, tudo parou. A bolha rebentou. Os bancos ficaram descapitalizados e em bancarrota. Ora, este processo que se viveu no “primeiro mundo”, essencialmente na Europa e nos EUA, corre o risco de se reproduzir agora, exactamente com as mesmas características em países como o Brasil e outros da América do Sul. O capitalismo move-se sempre em busca de maiores benefícios e pouco lhe importa como se obtêm ou os ensinamentos de experiências passadas. O que importa é apenas o lucro imediato. Sim, a crise continuará nos próximos anos porque as exportações europeias para as zonas que proximamente se verão afectadas pelo rebentar de novas e sucessivas bolhas pararão bruscamente. E, quando a crise acabar na América Latina, rebentará na China. Não, não há qualquer possibilidade do sistema económico mundial sobreviver a estas crises sucessivas.

O sistema político actual tem alguma solução ou está submetido ao poder económico?
Creio que esta questão é o núcleo de todo o problema: a economia governa a política. Na globalização a democracia é uma ficção porque o capital é detido por estados maiores cada vez mais reduzidos. A política é luta, criação, destino. A economia é uma ciência auxiliar da política destinada a satisfazer as necessidades das pessoas, não o afã de lucro e de usura de reduzidíssimas elites económicas. É preciso não esquecer isto: enquanto a política não voltar a conter as mais enlouquecidas ambições dos senhores do capital, não há possibilidades de acabar com a crise. Agora, é evidente que os políticos actuais não têm capacidade nem formação, nem sequer interesse suficiente, de tomar as rédeas dos novos destinos das suas nações; isso apenas os verdadeiros estadistas são capazes de fazer e o que temos são pobres espertalhões, corruptos, incapazes, egomaníacos que constituem o essencial da classe política dirigente. Há que renovar esta classe política, forjar uma nova classe política que recupere o destino dos povos e imponha as directrizes políticas à omnipotência da economia.

Como vê a questão da imigração?
Creio que a imigração é uma ameaça contra a identidade europeia. Há duas ameaças geradas pela globalização: a deslocalização e a imigração maciça. Ambas têm como denominador comum a optimização dos rendimentos do capital.

Afirma que a família é a base da identidade. Há um ataque à família?
Qualquer sociedade articula-se em torno de uma comunidade básica. A tradição diz-nos que sempre foi em torno da família. Mas esta hoje está destruída. Gostava que houvesse um país europeu que aprovasse uma lei em defesa da família. Mas não espero nada nesta direcção, antes pelo contrário. A família era de tal forma tida como essencial que em Roma era considerada como uma instituição sagrada. Se olharmos para as orientações da UNESCO – matriz intelectual da globalização – veremos que os ataques à família são uma constante. E é a família a instituição em que se forja e transmite a identidade dos povos. Não é estranho que a UNESCO a considere como o principal inimigo a abater. Da mesma forma que nós a consideremos a primeira instituição a defender.

O que é o fascismo?


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, sobre o Fascismo, termo utilizado frequentemente, mas normalmente desviado do sentido original e mal interpretado.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"A civilização francesa está ameaçada pelo multiculturalismo"


O geopolitólogo Aymeric Chauprade, que agora é o conselheiro de Marine Le Pen para os assuntos estrangeiros deu uma entrevista ao «Le Point», que merece a maior atenção.

Diz que "conviveu com a elites mundialistas, que parecem indiferentes ou inconscientes em relação ao declínio da Europa, porque vivem cada vez melhor com a mundialização", afirmando: "Reforcei a minha convicção de que, face à desindustrialização, à imigração descontrolada, à incapacidade de reformar, não há outra solução credível a não ser restaurar a soberania e mudar o projecto europeu". Por isso, junta-se ao Front National "porque é a última chance para a França salvaguardar a sua civilização". Uma civilização que, para Chauprade, está "ameaçada pelo multiculturalismo".

Livros em Paris


Enquanto conto impacientemente os dias que faltam para a minha escapadela anual a Paris, vou pensando nas "voltas de livros" a dar. Há uma paragem obrigatória, à qual nunca deixo de ir, que é a Gibert Joseph, a meio do Boulevard Saint-Michel. São vários andares cheios de livros, numa superfície total que chega aos 6500 m2! Esta livraria, para além da quantidade impressionante de títulos disponíveis, vende paralelamente livros novos e usados a óptimos preços. Uma perdição!

Habitar um mundo e enraizar-se nele


Cabendo aos homens dar um sentido àquilo que não o teria sem eles, estes não são, do mesmo modo, dotados do poder de se eximir da sua existência específica. A utopia do “sujeito” pela razão, da emancipação dos laços e das normas, produziu os resultados brilhantes que sabemos. O individualismo moderno pretendia fazer do homem um ser autónomo, auto-suficiente, livre de qualquer vínculo cósmico, étnico, e mesmo sexual, um igual entre iguais. Vimos bem! Tendo perdido a protecção asseguradora das antigas comunidades e das antigas crenças, o indivíduo rei é mais cedo ou mais tarde tomado pelo pavor do vazio e da angústia. Refugia-se então nos estupefacientes do consumismo e na hipertrofia de um “eu” escravo dos seus desejos.

A experiência conclusiva do niilismo ensina a contrario que ser homem é ser de algum lado, pertencer a uma linhagem, a uma tradição, falar e pensar numa língua anterior a toda a memória, que recebemos sem o saber e que forma a percepção de modo definitivo. Ser homem é habitar um mundo e enraizar-se nele. As nossas raízes, os nossos laços ancestrais, os da cultura e dos valores, fazem-nos homens e mulheres reais, ligados à natureza, herdeiros sem mérito, dotados de uma identidade, mesmo quando a recusamos.

Para qualquer homem não desnaturado, o centro do mundo é o seu país, ou seja um território, um povo, uma história, uma cultura e a representações incomparáveis ou irreduzíveis a quaisquer outros. Este país é o efeito de uma escolha para aquele que está dividido entre várias origens. Maurice Barrès, chantre do enraizamento, era de uma família de Auvergne, mas quis-se loreno. As migrações da nossa época multiplicaram as “mestiçagens” de maior envergadura, o que não se passou sem dramas nem desgostos. Num dos seus livros, Jean Raspail evoca assim uma ilha das Antilhas onde foram eliminados os índios caribenhos, vítimas dos micróbios europeus e das mestiçagens com os antigos escravos negros. Todavia, certos mestiços em cujas veias ainda corriam algumas gotas de sangue caribenho, reclamam-se desta herança e, pateticamente, mantêm-na no coração. Podemos objectar que não basta querer-se caribenho para sê-lo. Pelo menos é-se qualquer coisa. E mesmo quando o suporte é imaginário, ajuda a viver.
Ajuda também a responder à questão fundamental entre todas: quem somos nós? A esta questão eterna, os homens e os povos respondem com aquilo que para eles mais conta. “Eles definem-se em termos de linhagem, de religião, de língua, de história, de valores.” [1]

Não é necessário opor-se aos outros para ser consciente de si próprio, se bem que nunca nos afirmamos tanto como quando nos opomos. Sentimos igualmente melhor o calor do clã se estivermos sob a ameaça de um inimigo. Supomos que este é tão necessário ao bem-estar moral como o amigo e não apenas para favorecer a manifestação de uma identidade. Podemos confiar na fortuna para prodigar tais benefícios. Os povos raramente vivem no isolamento, verdadeira condição da paz. Desde que se ladeiam os territórios étnicos, económicos ou espirituais, o conflito surge. E aí os homens raramente são mestres. É por isso que Homero imputava aos deuses a causa da guerra.

Dominique Venner
in "Histoire et Tradition des Européens – 30 000 ans d’identité"

[1] Samuel Huntington, O Choque das Civilizações. Este ensaio chama a atenção para o novo fenómeno dos conflitos de civilizações que o passado já conheceu em contextos diferentes, helenismo contra asiatismo, Cristandade medieval contra o islão, etc. No entanto, não seguimos Huntington na sua intenção de englobar os Estados Unidos da América e a Europa no seio da mesma civilização “ocidental”, que definiria uma mesma ideia do direito, o que ainda falta demonstrar. Historicamente, os Estados Unidos constituíram-se contra a Europa e os seus valores. Representam uma utopia do desenraizamento oposta ao enraizamento e ao espírito trágico da Europa. Para além de que durante as duas grandes guerras do século XX, a participação dos Estados Unidos foi ditada pela sua necessidade de impedir a constituição de uma potência continental capaz de escapar a sua hegemonia comercial e marítima.

Fim-de-semana prolongado

O título deste editorial foi ouvido numa conversa de café. Não se entenda esta proveniência como pejorativa, ou como termo depreciativo, antes como a expressão de pessoas comuns que desabafam sobre o que se abate sobre todos nós. Refere-se à marcação da greve da Função Pública para a passada sexta-feira, depois de uma semana em que se multiplicaram paralisações semelhantes, e reflecte a percepção daqueles que, não fazendo greve, sofrem as suas consequências.

De facto, a escolha deste dia – bastante comum, aliás – mostra como a greve é entendida com uma folga. Apesar dos estafados chavões como “dia de luta” ou “de protesto”, cada vez mais portugueses vêem neste um prolongamento do fim-de-semana, ou seja, do descanso. Como respeitar tal “luta”? Assim, é difícil.

A greve é um direito consagrado legalmente, mas se os grevistas aproveitam para fazer as compras de Natal, atraídos pelas campanhas de descontos dos templos do consumismo, o seu acto perde o significado. A greve deve ser vista como um jejum.

Tomemos como exemplo uma greve de fome. É um protesto que deve ser visível e no qual o grevista que comesse apenas um biscoito ficaria automaticamente descredibilizado.

Já nem falo na greve de zelo, à japonesa, em que o facto de os trabalhadores se apresentarem com uma banda negra no braço provoca mal-estar aos empregadores, porque tal seria impensável no nosso país. No entanto, se os grevistas portugueses quiserem ser respeitados, basta que se apresentem à porta dos seus locais de trabalho e aí fiquem durante o período laboral. Imaginam a força de um protesto assim, feito por milhares de pessoas?

Mas não tenhamos ilusões, os grandes sindicatos de esquerda querem tocar a mesma cassete de sempre e estão mais preocupados com a “grande adesão”, já os grevistas do costume, por muito que concordem com o protesto, não querem deixar de “aproveitar o dia”.

Num ano em que perdemos feriados, não admira que haja quem os compense com dias de greve.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ressurgimento de Restauração

D. Sebastião, Cristóvão de Morais (1572)

"Um Portugal renunciando às linhas geratrizes que o criaram e lhe deram o modo de ser, um Portugal mudando de alma, de espírito, já não será Portugal. Todos os que subscrevem essa orientação diferente arrastam um suposto corpo da Pátria que de Portugal mantém, apenas, o nome. Mas, para além da demissão e da mascarada, existem os que permanecem fiéis ao mesmo sentido, ao mesmo desígnio, à mesma tessitura de sonho (o prodigioso e, no entanto, autêntico consórcio de saudosismo e sebastianismo que leva aos ressurgimentos de restaurações). Deus quer, o homem sonha, a obra nasce (F. Pessoa). O impossível dos incrédulos tornar-se-à realidade. Como tarefa primordial, porém, há que expurgar do corpo da Pátria aqueles que a negaram. Nesse empreendimento, um papel decisivo cabe aos não conspurcados, aos jovens iniciadores. Afonso Henriques tem 28 anos quando proclama a independência de Portugal. D. Sebastião tem 24 anos, quando morre, valorosamente, a batalhar em Alcácer Kibir, hasteando o acicate de Camões."

Goulart Nogueira
in «Acção», n.º 3.

Ameaças nucleares actuais

Longe vão os tempos da Guerra Fria e da corrida ao armamento nuclear. Depois da queda dos comunismos a Leste, o receio foi o do acesso dos terroristas a armas atómicas. Depois de aliviada essa tensão e de uma diminuição considerável do número de ogivas nucleares no mundo, o perigo não desapareceu. Vários países possuem arsenais nucleares com grande capacidade de destruição e há outros que procuram ter esse poder. A recente escalada de conflitos internacionais veio relembrar que a ameaça nuclear não é uma preocupação do passado. Regresso a um tema actual, mas aparentemente muito esquecido.


Depois da assinatura do Tratado de Não-Proliferação de armas nucleares (TNP), em 1967, ratificado por 189 países, tudo indicava que o mundo se iria tornar um lugar mais seguro, mas a ameaça não se desfez.
Hoje, para além das cinco potências nucleares históricas, que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – a saber: EUA, Rússia, Reino Unido, França e China –, apenas mais quatro países possuem oficialmente, ou são suspeitos de possuir, armas atómicas – Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Países que continuar a recusar a assinatura do TNP.

Menos armas, mas melhores
Depois do fim da Guerra Fria, o número de armas nucleares no mundo baixou drasticamente. Segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI), existem cerca de 17 mil ogivas nucleares no mundo, das quais 90 por cento são norte-americanas ou russas, ou seja 75 por cento menos que há 30 anos.
No entanto, não nos devemos iludir por estes números aparentemente positivos. Hoje em dia, há que ter em conta a modernização dos arsenais nucleares, que implica armas com maior tempo de vida útil, mais poderosas e dotadas de uma maior mobilidade. A corrida nuclear não parou no tempo e os “cinco grandes” nunca deixaram de se actualizar.

Terrorismo
Em especial após os atentados do 11 de Setembro, o terrorismo nuclear começou a ser considerado como uma ameaça no Ocidente. Os EUA lideraram esta preocupação, aumentando o controlo e a vigilância relativamente ao tráfico de substâncias radioactivas. Em 2009, Barack Obama afirmou num discurso: “Devemos assegurar-nos que os terroristas nunca possam obter armas nucleares. Trata-se da ameaça mais extrema e a mais imediata à segurança mundial”. Um receio partilhado pelas mais altas instâncias internacionais, já que, em 2008, num discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Mohamed El-Baradei, então director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), declarou: “A possibilidade de os terroristas obterem substâncias nucelares ou radioactivas torna-se uma ameaça grave”.
Ao mesmo tempo, a possibilidade de fabricar a chamada “bomba suja” preocupa também as grandes potências. Mas para tal é necessária a obtenção da matéria para fabricar a dita bomba. Ora, o tráfico ilícito de substâncias nucleares, que teve o seu pico em 2007 e 2008, baixou consideravelmente a partir de 2011, reduzindo assim o risco. Talvez por isso a maior parte dos Estados não considera o terrorismo nuclear e o tráfico de substâncias radioactivas como uma prioridade nas suas políticas de segurança e defesa. No entanto, vários analista garantem que a manutenção de um baixo risco depende do reforço da cooperação internacional.
Concluindo, o terrorismo nuclear não existe como fenómeno histórico, nem como ameaça, mas constitui um risco.

Coreia do Norte
O arsenal nuclear da Coreia do Norte é tão desconhecido como o próprio regime do país. A Coreia do Norte optou por uma estratégia de defesa agressiva e muitos analistas consideram que a utilização de armas atómicas não é descabida. Ainda assim, parece altamente improvável, apesar de demonstrações de força recentes. Estima-se que Pyongyang possa ter cerca de 30 a 50 kg de plutónio e até 250 kg de urânio altamente enriquecido, apesar de certos especialistas assegurarem que esses números são exagerados e que o ‘stock’ que o país possui é quase nulo. Seja como for, em Março deste ano, a agência noticiosa oficial da Coreia do Norte divulgou uma fotografia do presidente Kim Jong-un em reunião com oficiais militares de altas patentes, onde era visível um mapa intitulado “Plano de ataque das forças estratégicas sobre o continente americano”. Manobra de propaganda ou ameaça real?
Mas existe ainda outro risco sério. Em caso de fragmentação do regime norte-coreano, o perigo de uma proliferação nuclear aumenta. Neste aspecto, os analistas consideram que a solução do problema passa por uma maior cooperação em matéria de informações entre Pequim e Washington.

Israel e Irão
O arsenal nuclear de Israel é desconhecido. O Estado hebraico adoptou sempre uma postura de ambiguidade, nunca reconhecendo que tem armas atómicas nem nunca negando.
A questão de fundo que interessa a Israel é manter a superioridade face aos seus vizinhos que considera como ameaças. A política seguida tem sido a chamada “doutrina Begin” que deve o nome ao primeiro-ministro israelita Menahem Begin, que em 1977, declarou que Israel nunca permitiria que um país do Próximo Oriente possuísse capacidade de destruição nuclear. Esta doutrina justificou os raides aéreos contra instalações nucleares iraquianas e sírias.
Agora, perante a tensão criada pelo programa nuclear iraniano, há o risco de Israel bombardear alvos no Irão se considerar que este país está próximo de ter armas atómicas.
No entanto, o Irão sempre garantiu que o seu programa nuclear tem fins pacíficos e a eleição, este ano, de Hassan Rohani, considerado como moderado, aliviou a tensão. O novo presidente iraniano declarou numa entrevista à cadeia de televisão norte-americana NBC que “em circunstância alguma procuraria adquirir armas de destruição maciça, nomeadamente armas nucleares”. Mas Rohani também afirmou que “o programa nuclear é uma questão nacional” para o Irão, acrescentado que “o governo insiste nos direitos nucleares em conformidade com as regras internacionais”. “Não cederemos nos direitos da nossa nação, mas somos defensores do diálogo e do entendimento”, disse.
Já depois da eleição de Rohani, em Julho de 2013, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, afirmou numa entrevista que Israel poderia intervir militarmente contra o Irão antes dos EUA e qualificou o novo presidente iraniano como “um lobo disfarçado de cordeiro”. Apesar desta postura agressiva, a maior parte dos dirigentes israelitas considera que a solução passa pelo reforço das sanções económicas contra o Irão e não por um ataque.

Índia e Paquistão
Países rivais e em conflito permanente – recorde-se que a disputa de Cachemira provocou recentemente o conflito de Kargil, em 1999 –, Índia e Paquistão possuem ambos arsenais nucleares. Em primeiro lugar, para alguns analistas, o principal problema de ambos é a falta de equipamentos modernos e de experiência prática que causa o receio de uma escalada nuclear mais ou menos involuntária.
Paralelamente, o maior risco prende-se com a cadeia de comando que controla o armamento nuclear. No Paquistão, os militares têm uma autonomia de acção considerável e não prestam contas ao poder civil. Aqui, há outro factor a ter em conta, que é o das ligações perigosas de um sector dos militares paquistaneses a grupos terroristas islamitas. Já na Índia existe tradicionalmente um controlo estrito do poder civil sobre o militar.
Outro dado preocupante é a corrida ao armamento feita pelos dois países. O Paquistão passou de um arsenal de 90 a 110 ogivas nucleares em 2012, para entre 100 e 120 em 2013. Também na Índia se verificou um aumento, passando das 80 a 100 ogivas nucleares em 2012 para as 90 a 110 em 2013, segundo o relatório anual do Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI). A Índia lançou no ano passado o seu primeiro míssil balístico intercontinental, o Agni V, com um alcance de 5 mil quilómetros, e possui dois submarinos nucleares, um de fabrico russo e outro de fabrico indiano, com capacidade para transportar mísseis balísticos.

Proliferação e riscos
No novo cenário de um mundo multipolar, haverá a tendência para as potências emergentes garantirem a sua superioridade militar através da obtebção de armas nucleares. A tentativa de dissuasão por parte dos históricos nucleares, nomeadamente os EUA – único país que alguma vez usou armas atómicas – terá tendência a não funcionar. Os mesmo países que apelam ao desarmamento dos outros não abdicam do seu arsenal e continuam a desenvolvê-lo e aperfeiçoá-lo. Por exemplo, as potências regionais, ao verem a actual situação na Síria, podem considerar que a melhor forma de evitar uma intervenção militar externa é estarem dotadas de armas nucleares.
Ao mesmo tempo, várias forças políticas em potências nucleares europeias, como a França, têm feito pressão para a desnuclearização do país. No entanto, por muito nobres que sejam essas propostas, há o sério risco de termos novos países com capacidade nuclear, e de outros a manterem, enquanto a Europa enfraquece ainda mais a sua capacidade militar. Tal cenário pode acarretar sérios riscos para a segurança europeia e ocidental, cujas consequências podem ser trágicas.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A vaidade de Cunhal


Pacheco Pereira, que está a preparar o quarto volume da biografia de Álvaro Cunhal, escreve hoje no «Público» que, “ao homem que escreve assim sobre si próprio falta pelo menos uma coisa que os teólogos da Idade Média, que tinham que lidar com as ordens monásticas, conheciam bem. Falta-lhe “humildade”, manifesta uma forma muito especial de vanitas, de vaidade. Não é a das pessoas comuns, mas é vaidade, é actuar como se a corrente invisível da História, com H grande, passasse pelo seu corpo. S. Bernardo, que escreveu para os monges, ou seja gente dedicada a Deus e à sua Ordem, como Cunhal o era à História e ao seu partido, sabia bem como era difícil combater esta forma de orgulho, que faz muito grandes homens, mas não os torna santos, nem santos laicos”.

domingo, 10 de novembro de 2013

Quando a Europa descobriu o mundo

A grande gesta lusa dos Descobrimentos não seria possível sem o auxílio da técnica. Um dos instrumentos essenciais para navegar eram as chamadas “cartas-portulanos”, verdadeiros livros de instruções náuticas. Esteve patente na Biblioteca Nacional de França, em Paris, entre 23 de Outubro de 2012 e 27 de Janeiro de 2013, uma exposição intitulada “A Idade de Ouro das Cartas Marítimas”, onde o nosso país mereceu natural destaque pelo seu papel fundamental e precursor neste período histórico. Entre as peças fantásticas que vi havia várias cartas portuguesas, mas nenhuma delas pertence a um museu nacional. Uma viagem no tempo para recordar uma época de extrema importância na História de Portugal e da Europa, que nos faz reflectir sobre a nossa atitude perante o património. Aqui fica o que escrevi na altura para «O Diabo».


Biblioteca Nacional de França

O nome da estação de metropolitano é Biblioteca François Miterrand, estamos na Linha 14, em pleno XV Arrondissement, na margem esquerda do Sena. É uma linha nova, de finais dos anos 90 do século passado, onde um português estranha automaticamente a protecção que existe no cais e que impede o acesso à linha. Quando chega um comboio abrem-se as portas das carruagens e as dessaa barreira. À saída descobre-se um bairro de arquitectura moderna e ruas em quadriculado.
Anunciada pelo então Presidente Miterrand em 1988, a quem deve o nome, o novo edifício da Biblioteca Nacional de França (BNF) só seria inaugurado em 1996, depois de alguns problemas na sua construção. É um conjunto impressionante que alberga mais de 30 milhões de peças, das quais 14 milhões são livros e publicações, de uma instituição que remonta a finais do século XVIII.
É uma manhã fria de céu cinzento, cujas nuvens ameaçam chuva. As pessoas movimentam-se apressadas pelas ruas e nas muitas que se dirigem para a BNF é possível distinguir várias nacionalidades. Há estudantes, investigadores ou meros curiosos que se acumulam à entrada para a revista de segurança obrigatória.

Na exposição
Passando a loja da BNF, a distância a percorrer é curta. É irresistível olhar para a esquerda envidraçada do corredor e observar as árvores frondosas que formam uma floresta em miniatura no espaço entre os edifícios altivos.
A entrada para a exposição é discreta. Passado o torniquete, pisamos Portugal. É a imagem de uma dessas cartas de outros tempos que está reproduzida num pequeno corredor de acesso, ocupando as paredes laterais e o chão. É quase infantil, mas nem por isso deixa de ser divertido “tocar” no estrangeiro a “ocidental praia lusitana”.
Há bastante público, mas é possível circular sem atropelos. Os visitantes são variados, da habitual turma escolar a um grupo de homens mais velhos que parecem oficiais de Marinha na reserva, passando por dois “jovens” vindos com certeza dos subúrbios.
Na primeira sala, ouve-se um verdadeiro entendido, seguramente um dos responsáveis pela exposição, que conta apaixonadamente o evoluir da cartografia marítima a um sujeito que vai demonstrando a sua ignorância através de perguntas tão disparatadas como o seu ar convencido. A explicação viria no fim da visita, quando o mesmo sujeito falava junto à carta de Mercator com um ar sapiente para uma câmara de televisão. Uma curiosidade que mostra bem a ilusão dos ‘media’.


Uma colecção impressionante
A própria BNF reconhece as cartas expostas fazem parte dos seus “tesouros”. São documentos científicos de excepção que nos transportam no tempo, para a era gloriosa dos corajosos navegadores que descobriram o mundo e o foram registando cartograficamente.
Estas cartas marítimas, chamadas “portulanos”, são iluminadas em pergaminho e de extraordinária beleza. Têm a sucessão dos portos ao longo da costa e no espaço marítimo estão assinaladas as linhas que correspondem às direcções da bússola. Um sistema gráfico que permitia aos marinheiros orientarem-se.
A BNF possui a maior colecção do mundo de “portulanos”, com cerca de cinco centenas destes objectos de inovação técnica que são hoje verdadeiras obras de arte, muitas delas de rara beleza, dimensões impressionantes e extraordinária policromia.

Idade de Ouro
O mais antigo “portulano” ocidental conhecido é a famosa “carta pisana”, do fim do século XIII. É uma das primeiras peças que podemos ver nesta exposição que junta uma selecção de cerca de duzentos objectos, entre cartas, globos, instrumentos astronómicos, obras de arte e de etnografia, desenhos, estampas, quadros e manuscritos. Muitas pertencem à colecção da BNF, mas muitas outras vêm de museus franceses, estrangeiros ou de colecções regionais.
A exposição aborda várias temáticas como as condições de navegação e a utilização das cartas, a descoberta da África, Ásia, Américas e do Pacífico e as rivalidades entre as potências marítimas e a criação e difusão de uma iconografia dos Novos Mundos.

Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453)

Peças portuguesas
Nas várias peças portuguesas expostas o destaque vai naturalmente para as muitas cartas, de vários autores, como João Teixeira Albernaz, Gaspar Viegas, ou Domingos Teixeira. Para além destas, é possível ver o livro de Francisco Alvares sobre o Prestes João, de 1540, uma cruz de procissão etíope em latão, datada do século XV, a Crónica dos feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, de 1453, uma estatueta que representa um soldado português visto por um artista africanos, dos séculos XVI-XVII, uma réplica do Padrão de Santo Agostinho, cujo original está na Sociedade de Geografia de Lisboa. É também sempre bom ler que a caravela era “um barco para enfrentar o desconhecido”, acrescentando que esta invenção portuguesa “teve um papel capital na história das grandes descobertas”. Para lembrar a altura em que Portugal e Espanha dividiram o mundo, podemos ver um fac-símile da versão portuguesa do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Por fim, o chamado Atlas Miller, devido ao nome do seu último proprietário antes de ter sido comprado pela BNF, um impressionante conjunto de cartas feitas pelos cartógrafos Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, em 1519.

Atlas Miller, de Lopo Homem e Pedro Reinel (c. 1519).
Outras peças
Há também peças impressionantes de outras origens, das quais se destacam o “Livro das Maravilhas”, de Marco Polo, de 1298, o Atlas catalão, de 1375, ou a Carta Salviati, de 1525. Muitas destas estão disponíveis para consulta na Gallica, a biblioteca de documentos digitalizados em linha da BNF.

Património
Ao mesmo tempo que gostamos de ver Portugal referido por feitos maiores em importantes exposições no estrangeiro, não deixa de nos entristecer que nos vários museus que colaboraram não há um único nacional.
Devemos questionar-nos por que peças de elevada importância para um período tão rico da nossa História não foram por nós compradas. É claro que depende da situação económica do País e da altura em que as cartas foram adquiridas. No entanto, sabemos bem como o património é por tantas vezes menosprezado pelos nossos governantes e por quem mais o devia preservar.
Um exemplo de apelo aos populares à participação na recuperação de património nacional em França lançada pela BNF foi a compra do “Livro de Horas de Joana de França”, de 1452, considerado como tesouro nacional pelo Ministério da Cultura francês no ano passado. Todos os que contribuem são considerados mecenas e beneficiam de deduções fiscais. Na altura, Bruno Racine, presidente da BNF, afirmou: “Numerosos serão os que, tenho a certeza, compreendem a necessidade de guardar em França este tesouro nacional e que nos ajudarão a adquiri-lo, quaisquer que sejam os seus meios.” Uma demonstração de orgulho nacional. Um exemplo para nos inspirar?

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A pressão da imigração


Vasco Graça Moura já havia escrito sobre o que se passa em Lampedusa, saindo dos clichés conformistas habituais. Agora, voltou a falar e a reflectir sobre a questão da imigração que aumenta de dia para dia em direcção à Europa:

«A pressão da imigração sobre a porosidade das fronteiras europeias é enorme. O politicamente correcto que faz coro com ela, em acções ferozes e desmultiplicadas junto dos governantes dos países de acolhimento, confunde a viabilidade equilibrada desse acolhimento com um humanitarismo que não é muito consequente e tende a ser brandido como arma política num combate que, no médio prazo, trará prejuízos para todos. E o resultado já se está a ver. As populações começam a manifestar-se no sentido de uma rejeição das vagas imigratórias, quando poderiam ser levadas a aceitar uma inclusão em pressupostos e coordenadas de razoabilidade. Parece claro que, dentro de tais pressupostos e coordenadas, deveria ser assegurado, da parte dos imigrantes, o respeito estrito pelo conjunto de direitos humanos e de princípios e valores cidadania vigentes no país que se proponha acolhê-los. É precisamente neste ponto que me parece que os Estados membros da União Europeia deveriam começar a análise conjunta da questão e a tomada de medidas aplicáveis a todos, sem jogos do empurra nem subterfúgios. Se a capacidade de acolhimento por parte da União é limitada, há que definir os seus parâmetros e fazê-los cumprir, por muito que custe assistirmos a tragédias como a de Lampedusa, que são, aliás, da responsabilidade principal de contratadores sem escrúpulos e das autoridades dos países de passagem e "exportação" desses contingentes humanos, se é que tais autoridades existem actualmente.»

40 anos da «Éléments»


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, sobre os 40 anos da «Éléments», com a presença de dois dos redactores da revista, Pascal Eysseric e Patrick Péhèle.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Decrescer: uma solução para a crise?

A teoria do decrescimento ganha cada vez mais adeptos e visibilidade nesta altura de profunda crise. Quando o discurso oficial nos continua a garantir que a solução está no crescimento económico, será que, afinal, precisamos de fazer exactamente o contrário? Serge Latouche, um dos principais defensores desta ideia, veio a Lisboa para uma conferência no ano passado. Estive lá, questionei-o e escrevi uma peça para «O Diabo». Aqui fica, porque o tema não perde actualidade. Pelo contrário.

Serge Latouche na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O decrescimento tem por base a noção de limites, ao contrário das teorias que defendem o crescimento económico como se as reservas naturais do nosso planeta fossem inesgotáveis. Alain de Benoist explicou, numa entrevista à revista francesa “Réfléchir et Agir”, a génese da ideia do decrescimento: “Apareceu nos meios ecologistas quando estes começaram a perceber que, sendo a actividade económica e industrial a principal causa da poluição, era necessário questionar a ideia de desenvolvimento. Nasceu também de uma reacção contra a teoria do ‘desenvolvimento sustentável’ que pretende reconciliar as preocupações ecológicas e os princípios da economia de mercado. No plano científico, o primeiro grande teórico do decrescimento foi o economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen que, apoiando-se principalmente no segundo princípio da termodinâmica, a lei da entropia, apresentou bastante cedo o decrescimento como uma consequência inevitável dos limites impostos pela Natureza.”

Uma proposta polémica
No dia 8 de Março de 2012, Serge Latouche, professor emérito de Economia e Sociologia na Universidade de Paris-Sud, foi à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, para a conferência intitulada “Decrescimento: Uma proposta polémica?”. Na apresentação do evento podia ler-se uma citação de Latouche que sintetiza muito bem a sua ideia: “Se você está em Roma e deve ir de comboio para Turim, mas, por engano, embarca em direcção a Nápoles, não basta diminuir a velocidade da locomotiva, abrandar ou mesmo parar. É preciso descer e apanhar outro comboio, na direcção oposta. Para salvar o planeta e assegurar um futuro aceitável para os nossos filhos, não basta moderar as tendências actuais. É preciso sair completamente do desenvolvimento e do economicismo, assim como é preciso sair da agricultura produtivista, que é parte integrante disto”.
O principal teórico do descrescimento veio à capital portuguesa a convite do CIDAC, uma organização não governamental para o desenvolvimento, o que não deixa de ser curioso... Ironias à parte, está de parabéns por ter trazido este debate para o nosso país.

“A Europa está a caminho de se autodestruir”
Serge Latouche começou por dizer que a melhor forma de explicar a sua teoria e a importância de que se reveste hoje era basear-se num texto que escreveu, intitulado “A crise do Ocidente e a resposta do decrescimento”. Em primeiro lugar, temos que perguntar-nos: que crise? A resposta é clara, segundo este professor francês, trata-se da “crise da civilização ocidental”, acrescentando que “a Europa está a caminho de se autodestruir”. Para ele, “vivemos uma sociedade paradoxal e única na História, que se deixa devorar pelo crescimento. E o crescimento pelo crescimento”. E como podem os chamados “objectores de crescimento” resolver o problema? Através do que Latouche chama a “sociedade da abundância frugal”. Explica que se trata de uma “utopia concreta” e diz que “não é impossível, mas também não é fácil”. O mais importante, segundo ele, é que se trata de uma “visão coerente”.
Para chegar até aí, é necessário sair do Euro, ou seja “reapropriar-se do dinheiro”. Só assim será possível “sair da religião do crescimento” e “sair da sociedade de consumo”. Latouche é taxativo: “estamos no capitalismo do desastre!”
Diz que as coisas devem ser explicadas como a uma criança de cinco anos, “como diria o grande Marx, não o Karl, mas o Groucho”. Assim, sintetiza ironizando: “Quem acredita que é possível crescer indefinidamente num mundo finito ou é louco ou é economista”.
No seu livro “Le pari de la décroissance”, Latouche desenvolve um projecto de sociedade baseado em oito axiomas. É a teoria dos oito “R”: Relocalizar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Reavaliar, Reconceptualizar, Reestruturar, Redistribuir.

Uma teoria de esquerda?
Sobre as dúvidas em relação ao posicionamento político desta teoria, perguntei a Serge Latouche se achava que o decrescimento era de esquerda, de direita ou se estava para além de esquerdas e de direitas. A resposta foi a esperada: “Para mim, que sempre estive à esquerda, o decrescimento é um projecto de esquerda porque, no fundo, é o ‘eco-socialismo’. Dizíamos, em tempos, ‘socialismo ou barbárie’. O problema é que o socialismo esqueceu a dimensão ecológica. O meu amigo André Gorz dizia ‘eco-socialismo ou barbárie’ e eu, hoje, posso dizer ‘decrescimento ou barbárie’. É a mesma coisa.”
Mas a questão anterior baseava-se no livro de Alain de Benoist sobre o tema, onde este afirmava que estávamos perante a “emergência de uma paisagem ideológica completamente nova”. Pedi a Latouche que desse a sua opinião sobre esta obra daquele que foi o fundador da chamada “Nova Direita”. Disse-nos: “Conheço bem o Alain de Benoist e ele escreveu um livro bastante bom. É bom porque ele pegou em muitas das minhas ideias e copiou mais ou menos o meu livro ‘Le Pari de la Décroissance’, mas fê-lo bem. É um homem inteligente e fez um bom trabalho. Agora, será Alain de Benoist de extrema-direita? Ele considera-se para além da direita e da esquerda, por isso não sei onde ele se posiciona exactamente. Toda a gente tem o direito de escrever sobre todos os temas, incluindo o decrescimento. Eu não sou o proprietário dessa ideia. Mais, para ser honesto, um determinado número de temas não são propriedade da direita nem da esquerda. Há um anti-utilitarismo de direita e um anti-utilitarismo de esquerda, há um localismo, ou uma relocalização, de direita, como há de esquerda. Evoquei, no programa contra a austeridade, Marine Le Pen, infelizmente – e digo infelizmente porque ela é da extrema-direita francesa, com a qual partilho poucas coisas. Mas, a desmundialização faz parte do seu programa político, em teoria, não sei se ela o poria em prática. E, infelizmente, no contexto, devo dizer que ela fez excelentes discursos. Nem todos, mas certos discursos eram muito bons e inteligentes. Ela compreendeu certas coisas. É este o jogo político.”
Sem dúvida que a clivagem entre a esquerda e a direita hoje está longe do que foi em tempos. Em muitos temas, como este, parece que se ultrapassa claramente. No entanto, como já o fez em tantas questões, como a defesa do Ambiente, por exemplo, a esquerda gosta de se apropriar de certas teorias e ideias, reclamando-as apenas para si. Mais, reduz a direita ao liberalismo económico, algo completamente falso, esquecendo que é, ela própria, uma das principais culpadas pela actual situação.

O livro de Alain de Benoist
O pensador e filósofo francês Alain de Benoist, escreveu o livro “Demain, la décroissance ! Penser l'écologie jusqu'au bout” (Amanhã, o decrescimento! Pensar a ecologia até ao fim), publicado em 2007, que retira a conotação – supostamente óbvia – do decrescimento com a esquerda. Nesta obra, o autor faz-nos uma belíssima síntese onde nos apresenta o “estado da questão”, citando os mais variados trabalhos e autores sobre o tema, e nos dá perspectivas de futuro. Sem esquecer a política, Benoist escreve uma excelente passagem, bastante elucidativa: “Na medida em que tenciona romper com todas as formas de devastação da Natureza e de fuga para a frente com o produtivismo, o ecologismo implica uma ruptura radical com a ideologia das Luzes, ou seja a ideologia da ‘modernidade’, na qual o motor foi a crença no progresso, a vontade de nivelamento do mundo e toda aquela tradição que, apesar dos seus contrastes, proclama de diversas formas que a biosfera não tem qualquer valor em si mesma – ou que ela só o adquire depois de ter sido artificialmente transformada por uma humanidade desejosa de fazer desta o meio do seu poder e da sua ‘felicidade’. Ora, mesmo que nos possamos interrogar retrospectivamente sobre a compatibilidade das aspirações do movimento operário e do socialismo em geral com a herança das Luzes, foi desta ideologia que saiu a esquerda clássica da época moderna. Os ecologistas, que continuam normalmente a situar-se à esquerda, e que têm todo o direito de o fazer, devem no entanto perceber que a esquerda da qual se reclamam é necessariamente muito diferente da que foi engendrada pelo pensamento das Luzes. Devem, assim, olhar de outra forma para os pensadores de direita que, muitas vezes antes deles, denunciaram igualmente a ideologia das Luzes, da mesma forma que os homens de direita devem, por seu lado, ter um outro olhar sobre esta outra esquerda. Tal implica, de um lado de outro, uma tomada de consciência da emergência de uma paisagem política completamente nova, que torna as antigas clivagens obsoletas e tem como consequência convergências inevitáveis. Para dizer noutros termos, uma esquerda socialista que saiba acabar com o ‘progressismo’ será hoje o parceiro perfeitamente natural de uma direita que, por seu lado, soube romper com o autoritarismo, a metafísica da subjectividade e a lógica do lucro.” Podemos concluir que é em temas polémicos como este que se vislumbra o horizonte político do futuro.

Optimista?
Por fim, um dos presentes na conferência perguntou a Serge Latouche se, apesar de tudo, era um optimista. Ele respondeu que, como havia dito durante a conferência, “o pessimista conhece melhor a questão”. Mas explicou: “Quando comecei a fazer conferências em França sobre o decrescimento, sobre os perigos das alterações climáticas, o fim do petróleo, etc. era optimista. Mas ainda não conhecia tudo. Quando comecei a estar informado dos problemas concretos do desregulamento do planeta, tanto ecológicos como sociais, foi diferente. Em França tivemos o caso dos suicídios de quadros de grandes empresas do sector automóvel e, mais recentemente, tivemos o caso de suicídios de crianças. Crianças de sete anos que se suicidam! Não conheço sociedade na História humana – e estudei bastante o assunto – onde as crianças se suicidassem. Logo, uma sociedade onde há suicídios infantis é uma sociedade que está muito doente. Assim, apesar de a minha natureza me levar ao optimismo, o meu conhecimento do concreto torna-me cada vez mais pessimista.”

Frase do dia


«António José Seguro partilha com alguns mamíferos marsupiais a notável capacidade de se fingir de morto quando sente a aproximação de um perigo.»

João Miguel Tavares
in «Público»

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Naturalmente


A propósito da possibilidade de Fernando, médio brasileiro do FC Porto, jogar por Portugal e de Diego Costa por Espanha, o ex-internacional português Luís Figo voltou a manifestar-se contra as naturalizações, declarando a uma rádio espanhola: "Não mudo de opinião sobre isso. Eu venho da formação e estou a favor desta, digam o que disserem as leis e o mundo globalizado. Mas não tenho nada contra aqueles que jogam por Portugal e não são portugueses. Se me perguntarem a mim, diria que não estou a favor por que tira um lugar a um jovem da formação."

Acontece que o futebol-negócio pouco se importa com a formação, preferindo o mercado internacional (i.e. globalizado), da mesma forma que entende as selecções nacionais como clubes, que apenas devem proporcionar um espectáculo. Pouco lhes importa que representem o país. Pior, é coisa que os incomoda.

Devemos ser contra o desporto naturalizado? Naturalmente.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Turquia (XI)

No dia em que Bruxelas e a Turquia iniciam nova ronda de negociações para a adesão deste país à União Europeia, recorde-se o que escreveu Vasco Pulido Valente, um dos poucos comentadores portugueses a demonstrar lucidez relativamente a este perigoso delírio:

Ainda por cima sem dinheiro, a UE, ou uma certa «inteligência» da UE, surpreendentemente persiste em trazer para o «clube» a Turquia asiática e, pior, islâmica. Porquê? Porque a Turquia pertence ao passado da Europa (pertence, de facto, como inimiga); porque a Turquia se tornou secular e democrática (uma coisa mais que duvidosa: o actual Governo, por exemplo, pensa em criminalizar o adultério); porque a Turquia serve de «barreira» ao extremismo árabe (ou talvez também lhe sirva de caminho e ajuda); e porque, enfim, a «Europa» deve mostrar a sua tolerância e não deve aparecer no mundo como um império cristão, rico e xenófobo. Esta mistura de má-fé, megalomania e medo é receita para desfazer a UE ou, pelo menos, para a reduzir a uma forma vácua. Por muito que espante a burocracia da UE e os beatos do costume, a realidade existe e não cabe nos planos deles.

A “felicidade” por decreto


Uma das notícias de hoje é a da brilhante ideia do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que assinou um decreto que antecipa o Natal para Novembro. A antecipação da festa tem como objectivo “derrotar a amargura” que se vive no país e atingir “a felicidade e a paz”. Já no mês passado, Maduro havia criado o Vice-ministério para a Suprema Felicidade Social. “Suprema”, atente-se, que a coisa não se faz por menos... A “felicidade” é hoje obrigatória e, na Venezuela, até se decreta.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A cidade deve ser repensada

«O urbanismo sofre desde há cinquenta anos a ditadura da fealdade, do sem-sentido e do curto prazo: cidades-dormitório sem horizonte, zonas residenciais sem alma, subúrbios cinzentos que servem de esgotos municipais, intermináveis centros comerciais que desfiguram a entrada das cidades, proliferação de "não-lugares" anónimos concebidos para utentes apressados, centros urbanos exclusivamente dedicados ao comércio e aos que foram despojados do seu ambiente tradicional (cafés, universidade, cinemas, teatros, praças, etc.), justaposição de imóveis sem um estilo comum, bairros degradados e entregues ao abandono ou, pelo contrário, permanentemente vigiados por guardas e câmaras de vigilância, desertificação rural e sobrepopulação urbana...


Já não se constroem habitats para viver, mas para sobreviver num ambiente urbano desfigurado pela lei da rentabilidade máxima e da funcionalidade racional. Ora, um habitat é antes de mais um habitat: trabalhar, circular e habitar não são funções que podem ser isoladas, mas antes actos complexos que afectam a totalidade da vida social. A cidade deve ser repensada como o local de encontros de todas as nossas potencialidade, o labirinto das nossas paixões e das nossas acções, em vez de expressão geométrica e fria da racionalidade planificadora. Arquitectura e urbanismo inscrevem-se, por outro lado, numa história e geografia singulares, e devem ser o seu reflexo. Isto implica a revalorização de um urbanismo enraizado e harmonioso, a reabilitação dos estilos regionais, o desenvolvimento das vilas e das pequenas cidades em forma de rede, em torno de cidades regionais, a promoção das zonas rurais, a destruição progressiva das cidades-dormitório e as concentrações estritamente comerciais, a eliminação de uma publicidade omnipresente, assim como a diversificação dos meios de transporte: abolição da ditadura do automóvel individual, transporte ferroviário de mercadorias, revitalização do transporte colectivo, consideração pelos imperativos ecológicos...»

Alain de Benoist