quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Enoch Powell e a língua portuguesa


Enoch Powell é conhecido especialmente pelas suas posições lúcidas, ainda que polémicas, sobre a imigração maciça e as suas consequências, mas habitualmente não é referida a sua elevada cultura, própria de um classicista de formação, que aos 25 anos era já professor de grego antigo. Sobre o seu conhecimento linguístico, há um aspecto que interessa especialmente aos portugueses.

Na excelente biografia feita por Simon Heffer, intitulada “Like the Roman. The Life of Enoch Powell”, há uma passagem que refere o encontro de Powell com a língua portuguesa.

Em 1940, com 28 anos de idade, Powell é destacado para o quartel-general da 9.ª Divisão Blindada em Guilsborough, Northamptonshire. Continuava a escrever poesia e a ler avidamente. Escreve Heffer que “a sua erudição era lendária e os seus camaradas oficiais estavam sempre a tentar apanhá-lo em falso. Um deles, em Aldershot, conseguiu descobrir que Powell nunca tinha lido o grande poeta português Camões. Quando os dois se encontraram novamente, dois anos mais tarde no Cairo, Powell disse-lhe que já tinha lido tudo o que Camões havia escrito, um estudo que iniciara quando chegou ao Egipto, aprendendo por ele próprio português antes de deixar a Inglaterra.”

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Do higienismo


O jornal «Público» noticiou que o Ministério da Agricultura apresentou aos parceiros sociais um projecto de Código do Animal de Companhia que inclui, entre outras medidas, a limitação de dois cães ou quatro gatos por apartamento, num número máximo de quatro animais domésticos. A notícia provocou vários protestos, incluindo do deputado do CDS-PP, João Almeida, que considerou que "limitar o número de animais por casa é mais um exemplo de fascismo higiénico".

Acontece que esse "fascismo higiénico", segundo a classificação do deputado centrista, já existe. O n.º 2 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 314/2003, de 17 de Dezembro, prevê que "nos prédios urbanos podem ser alojados até três cães ou quatro gatos adultos por cada fogo, não podendo no total ser excedido o número de quatro animais". Mais, o n.º 3 do mesmo artigo prevê ainda que "no caso de fracções autónomas em regime de propriedade horizontal, o regulamento do condomínio pode estabelecer um limite de animais inferior ao previsto no número inferior".

Vai João Almeida propor a revogação destas disposições legais, em nome do "anti-fascismo higiénico"? Não parece...

Entretanto, a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, deixou cair limitação de cães e gatos por apartamento dizendo que tal lei "não é uma prioridade" e que não gastou "um minuto a olhar para isso".

Seja como for, o higienismo goza de grande popularidade. Para além da possibilidade que abre para a delação de vizinhos, esse desporto nacional. Exagero? Basta confirmá-lo em qualquer reunião de condóminos...

Resumindo, depois deste breve estardalhaço, o higienismo em relação aos animais domésticos vai continuar e haverá sempre aqueles — e são muitos — que chegam a defender "uma cidade sem cães".

Jogo da inglória


Majora é sinónimo de jogos para gerações de portugueses. Mas "os tempos são outros", como dizem os "especialistas". Acontece que esta empresa familiar, que cresceu e se tornou uma referência nacional na sua área, tentou adaptar-se e inovou constantemente. Mas não chegou. Agora, 74 anos depois, faz a sua "última jogada". É uma triste notícia, que nos recorda como a luta do local contra o global é inglória.

Telenovela


Continua em força o relambório sobre as desavenças familiares entre um ex-ministro e uma apresentadora de televisão. A história envolve acusações de violência familiar, abuso de álcool, queixas-crime de parte a parte, entre outros ingredientes dignos de uma telenovela. Tudo isto descrito ao pormenor pela Imprensa, que enche páginas e capas com tais tricas. Dirão alguns que interessa ao público. Talvez. Mas uma coisa é certa, com este tipo de coscuvilhices sobre a vida privada, ainda que de figuras públicas, se vai entretendo grande parte dos portugueses e distraindo a sua atenção para os graves problemas nacionais.

A crise dos homens bons


«A crise dos homens bons representa a seu asco à partidocracia dominante, a sua aversão à acção directa, mas sobretudo a compreensão, com Ernst Jünger (o notável autor de "Eumeswil"), que o tempo é de fazer um retiro da mediocridade e passar à floresta, ou, como o protagonista das "Falésias de Mármore", passar ao altiplano não contaminado. Isto significa deixar os homens à sorte que escolheram, embalados em cantigas de maldizer e uivos de lobos que disfarçaram o som em cantos de sereias. Para que são dentes tão pontiagudos e tão grandes? – perguntava a Capuchinho Vermelho. E olhos tão grandes? São para melhor te ver.»

António Marques Bessa
in «O Diabo», 29/10/2013.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A tirania da auto-ajuda


"Os manuais de auto-ajuda são exemplos de tirania. De pequenas tiranias consumidas por escravos dóceis e fiéis que acreditam em dois equívocos. O primeiro é conhecido: não existe manual de auto-ajuda que não apresente o infortúnio como um elemento estranho à condição humana. A tristeza é uma anormalidade, dizem. O fracasso não existe e, quando existe, deve ser imediatamente apagado, ordenam. Na sapiência dos manuais, a infelicidade não é um facto; é uma vergonha e uma proibição.

O que implica o seu inverso: se a infelicidade é um proibição, a felicidade é obrigatória por natureza. Obrigatória e radicalmente individual. Ela não depende da sorte, da contingência e da acção de terceiros: daqueles que fazem, e tantas vezes desfazem, o que somos e não somos. Depende, exclusiva e infantilmente, de nós. O tom é militar e marcial; a felicidade é uma batalha e uma conquista. E eu rendo-me ao primeiro disparo. Quem suporta semelhante fardo? Quem consegue suportar a obrigação totalitária de ser feliz?

Todos os dias, um batalhão de brasileiros corre às livrarias do bairro em busca do que não pode ser procurado. Apenas vivido e, sem explicação ou regra, encontrado quando encontrado. A "busca da felicidade" não passa de um cliché televisivo que só alimenta a infelicidade dos desesperados."

João Pereira Coutinho
in "Avenida Paulista".

Ainda (e sempre) o Acordo Ortográfico

Para muitos portugueses, preocupados com os cortes sucessivos que os vão esmifrando diariamente, o problema do Acordo Ortográfico é secundário. Mas as dificuldades económicas não podem levar-nos a menosprezar o património essencial que é a nossa Língua.


Ontem, na «Pública», Nuno Pacheco reconhecia que “já cansa falar disto”. Mas, a propósito da dupla grafia que encontrou num documento oficial tão importante como o Orçamento de Estado, recordou que, “para lá do simples problema ortográfico (e a admissão de duplas grafias é contrária à própria noção de ortografia) existe um óbvio problema fonético. A pseudo-reforma "unificadora" que nos vendem finge ignorar que a escrita não é apenas uma convenção mas, também, seguindo os códigos da fala (neste caso, da portuguesa), um guia para a leitura. Se a uma pauta de música para, por exemplo, uma sinfonia, tirarmos alguns dos sinais gráficos usados para guiar os músicos na sua execução, a pretexto de "simplificar" nas pautas a escrita musical, teremos sérios problemas no dia do concerto. A escrita musical também teve reformas ao longo da história, mas mexer num padrão estabilizado sem cuidar do resto era e é um sarilho”.

Explica Nuno Pacheco que “se lermos "setor" à luz dos mesmos padrões que nos fazem ler de forma correcta "senhor", "serrador", "setenta", "serviço", etc., só podemos ler "s’tor". Nada nos leva a ler "sétor". Isso ou, como já sucedeu em Portugal no passado, quando o "e" era geralmente aberto na leitura e se usava o acento circunflexo para alterar o seu som ("êle", "pêso", etc.), passaremos a ler "sénhor", "sérrador", "sétenta", "sérviço", etc. Além disso, como é público, há quem leia "séktôr", "sétôr" ou "sêtôr", já para não falar na forma como no Brasil, escrevendo-se "setor" (sem o c) se lê, habitualmente, "cêtôrr". Isto põe, desde logo, um problema básico: ou em Portugal existe uma única forma de escrever "sector" e palavras afins ou, então, deixa-se ao "escrevente" a escolha. Malaquices, portanto, a que nenhum ser humano com um mínimo de inteligência deveria anuir. É isso, adivinharam: um profundo disparate. A lógica é a mesma do "ai aguenta, aguenta" usado por um senhor para falar do povo e da austeridade. Cuida-se que, tirando as letras que se tirarem, o povo aguenta e fica tudo na mesma. A fala não se altera, garantem, só a escrita. Azar o deles: a fala anda associada à escrita mas não do modo que eles imaginam. Tirar o "c" a "efectivo" é um convite, por cá, a que a palavra se leia "ef’tivo", como miseravelmente já por aí se lê. Aliás, como era perfeitamente óbvio que viria a acontecer. No exacto ponto em que se encontram os códigos vocálicos português e brasileiro, não há escrita que os unifique. O que o acordo ortográfico, na sua parlapatice unificadora, quer forçar é uma impossibilidade prática. A pretexto da simplificação, excluem-se letras que tinham, e têm ainda, a sua função para efeitos fonéticos. Problema nenhum, dizem. Toda a gente sabe como se diz a palavra, por isso simplifiquemo-la. Se se diz "sétor", pode escrever-se "setor". Ora experimentem usar a mesma técnica nos sinais de trânsito. Numa rua de sentido proibido tirem o sinal, confi ando que toda a gente já o decorou, e vão ver o que acontece”.

domingo, 27 de outubro de 2013

Frase do dia


«Hoje, o PS não é mais do que uma grande zaragata sem sentido ou propósito, que, de quando em quando, atrapalha Coelho e Portas, mas que a maioria do país não quer a mandar nele.»

Vasco Pulido Valente
in «Público».

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

“O paradigma totalitário é o 'nomos' da democracia”


Ainda sobre a recente entrevista do ex-primeiro-ministro, leia-se o que escreveu António Guerreiro no «Ípsilon» de hoje: «Quando lemos a entrevista de José Sócrates feita pela Clara Ferreira Alves percebemos que a mentira de ontem e de hoje, a dos sucessivos governos passados e, no mais alto grau (certamente porque a mentira em curso nos fere e escandaliza mais do que aquela já revogada), a do governo em funções, cobre a textura inteira do real. Percebemos claramente que o paradigma totalitário é o nomos da democracia e o seu coração mais secreto, no uso que os governos fazem hoje da mentira, quer como meio para reescrever incessantemente a história, quer como instrumento para alcançar os objectivos políticos.»

“A nossa civilização está em vias de desaparecer”


A frase acima traduz o essencial da entrevista concedida por Jean Raspail à revista francesa «Valeurs Actuelles», publicada na edição desta semana. Aqui fala sem rodeios da questão da imigração, alertando para a gravidade da situação, para a dissimulação do problema por parte dos políticos, no esgotamento do modelo de integração, na impossibilidade de assimilação dos imigrantes e nas soluções que a Europa tem para fazer face a estas migrações. Uma entrevista lúcida e corajosa, de leitura obrigatória.

Em 1973, saiu “Le Camp des Saints”, que seria traduzido e publicado em Portugal pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”, a sua obra mais famosa e polémica. Neste livro premonitório, Raspail imaginou a submersão da Europa por uma multidão de imigrantes do Terceiro Mundo. Como já escrevi, perante o que assistimos diariamente,“deixou de poder ser considerado ficção”.

Frase do dia


«O extraordinário não é que Sócrates se leve a sério, o extraordinário é que o levem a sério.»

Vasco Pulido Valente
in «Público».

Socialismo identitário


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, desta vez com a presença de Pierre Vial, Roberto Fiorini, entre outros convidados, numa emissão animada por Eugène Krampon, sobre as raízes e a actualidade do conceito de socialismo identitário.

O “livro” de Sócrates: “absolutamente desnecessário”


Tendo em conta o autor, a recente entrevista que deu e a sessão de (re)lançamento político que ocorreu com a desculpa de um livro, não tenho qualquer interesse em ler a recém-publicada tese de José Sócrates.

Mas, dúvidas houvesse, dissiparam-se com a leitura da opinião de Vasco Pulido Valente, hoje, no «Público»: «O “livro”, absolutamente desnecessário, é de facto uma prova escolar (uma “tese” de mestrado), sem uma ideia original ou sombra de perspicácia, que assenta na larga citação e paráfrase de — vá lá, sejamos generosos — 30 livros, que se usam pelo Ocidente inteiro, e em algumas fantasias francesas (Sciences Po oblige

Charles de Steuben


Bataille de Poitiers, en octobre 732
1837, óleo sobre tela, 5,42 × 4,65 m
Musée du Château de Versailles
França

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Astérix contaminado

Infelizmente, acabo de confirmar que o novo álbum "Astérix entre os Pictos" está contaminado pelo famigerado (des)Acordo Ortográfico. Algo que não acontece com o site oficial de Astérix, escrito em português correcto.

Para estes casos, nada como recorrer à poção mágica...


Design de interiores (III)


Escadas de livros.

Espertezas


Voltei a receber uma mensagem de correio electrónico sobre a "ignorância dos nossos estudantes universitários", com uma referência a uma peça publicada há dois anos pela revista «Sábado». É mais uma daquelas "feitas normalmente para conseguir as respostas mais disparatadas", como já escrevi, e sempre discutível. Mesmo sabendo que o nível de exigência do ensino em Portugal baixou consideravelmente, toma-se aqui a parte pelo todo.

No entanto, há um pormenor que me interessa salientar. Diz a peça que "na arte de justificar a ignorância, os estudantes universitários inquiridos pela Sábado têm nota máxima". De facto, este tipo de esperteza é muito comum. Mais, tendo em conta a actual classe política nacional, parece que tal capacidade é o primeiro requisito exigido.

Dia de novo Astérix


Hoje é o lançamento mundial de "Astérix entre os Pictos", o 35.º álbum da série, desenhado por Conrad, com argumento de Ferri e supervisionado por Uderzo. Disse o Eurico de Barros, ontem no «DN», que esta "é a terceira vida de Astérix". Longa vida, por Toutatis!

Grande capa!


Bela capa, a da edição de hoje do «Público». Passos Coelho, fotografado na Assembleia da República por Daniel Rocha, "olha" para a manchete que o refere.

Chove


Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa
2/10/1933

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Raspail por Terpant


Jean Raspail por Jacques Terpant. Como já escrevi, é o encontro de "dois grandes talentos". Ainda bem!

Design de interiores (II)


Outro exemplo de aproveitamento do espaço que realmente interessa.

Os nossos guerreiros medievais

Miguel Gomes Martins, doutor em História da Idade Média pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é técnico superior do Gabinete de Estudos Olisiponenses, investigador, professor universitário e autor de várias obras dedicadas à História Militar Medieval. O seu mais recente livro é "Guerreiros Medievais Portugueses". Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo», publicada na edição de 24 de Setembro.



A guerra na Idade Média continua a encantar o público português?
Estou plenamente convencido que sim. O sucesso de séries televisivas, romances históricos ou mesmo jogos de computador, cujo pano de fundo é a Idade Média – mesmo que mitificada e envolvida num ambiente de fantasia – são uma prova dessa curiosidade e desse, como lhe chamou, encantamento. E se a tudo isso somarmos a circunstância de muitas dessas séries, romances e jogos terem a guerra como principal fio condutor, creio que poucas dúvidas restarão acerca do interesse pelos episódios militares desse período, mas também pela forma como se organizava e praticava a guerra.

Neste novo livro, como foi a escolha dos guerreiros tratados?
Tratou-se de uma escolha que partiu de uma primeira lista – mais meramente provisória – composta pelas figuras que, na minha perspectiva, melhor representavam, na cronologia em análise, o estereótipo do guerreiro medieval português. Importa, no entanto, sublinhar que a lista inicial foi sujeita a inúmeras alterações, ora em consequência das fontes disponíveis – que nem sempre permitiam uma abordagem minimamente desenvolvida e sólida –, ou da necessidade de se evitar a repetição de episódios, ora em resultado de uma ou de outra sugestão dos meus amigos e colegas medievalistas com quem troquei inúmeras ideias a respeito deste projecto.

Houve uma abordagem diferente nos mais conhecidos, como Nun'Álvares ou Geraldo Sem Pavor?
Creio que, mesmo quando se tratam de figuras relativamente conhecidas – como as que referiu –, só o facto de a minha observação se centrar no seu trajecto militar torna, por si só, esta análise inovadora. Claro que algumas das questões abordadas foram já objecto de análise noutros estudos, mas a forma como são aqui apresentadas e articuladas confere-lhes, penso eu, bastante originalidade.

Dos menos conhecidos, quais destacaria?
Perguntar-me isso, é quase o mesmo que perguntar a um pai, de qual dos seus filhos gosta mais. Mas vou tentar não fugir à questão dizendo-lhe que talvez tenha ficado surpreendido com a riqueza do percurso de Afonso Peres Farinha, um homem que inicia a sua carreira militar como um cavaleiro que pouco mais tem que as suas armas e cavalo, que ingressa na Ordem do Hospital onde atinge o topo da hierarquia em Portugal, que por três vezes viaja até ao Médio Oriente e que se converte num dos principais conselheiros de Afonso III. O mesmo se passou com a figura de Álvaro Vaz de Almada, um indivíduo que combate em Ceuta, que luta ao lado do infante D. Pedro nas fronteiras orientais do Império Romano-Germânico e nos palcos da Guerra dos Cem Anos, que está presente no cerco a Tânger, que desempenha um papel central na Guerra Civil da regência do infante D. Pedro e nos acontecimentos que desembocarão na Batalha de Alfarrobeira, onde virá a encontrar a morte.

Houve também a preocupação de não tratar apenas guerreiros vitoriosos...
Sim, essa foi, desde logo, uma das minhas preocupações, já que a Guerra faz-se de vitórias e de derrotas e só nesta dupla componente podemos entender todas as dimensões deste fenómeno. Foi justamente por isso que procurei também estudar alguns comandantes militares menos bem sucedidos como D. Fernando, senhor de Serpa ou do infante D. Afonso, senhor de Portalegre, que apesar dos revezes que marcaram os seus percursos, nem por isso deixam de ser grandes senhores da guerra e, como tal, merecedores da nossa atenção.

Há uma diferença entre os nossos guerreiros medievais e os de outros países europeus?
As diferenças podem ser mais visíveis ao nível da constituição dos exércitos, em particular da dimensão dos mesmos. Com efeito, um país pequeno, pouco povoado e, como tal, com uma base de recrutamento mais reduzida que, por exemplo, o nosso vizinho castelhano-leonês, tem naturalmente como resultado a mobilização de exércitos mais reduzidos. Também o facto de a Reconquista portuguesa ter terminado em 1249-1250, ou seja, mais de dois séculos antes da Castelhano-Leonesa, veio retirar aos combatentes e, consequentemente, aos exércitos portugueses boa parte das rotinas de combate que até então haviam sido adquiridas devido a um estado de guerra permanente com o Islão. Todavia, o facto de desde 1128 termos conseguido – tantas vezes pela força das armas – preservar a nossa independência, demonstra que todos esses problemas acabaram sempre por ser ultrapassados e solucionados, já que a Coroa, consciente dessa fragilização, procurou, por diversas vezes – e sempre com sucesso – obviar a essas dificuldades que, em última análise e caso se arrastassem, poderiam por em xeque a independência do reino. E recordo apenas as medidas levadas a cabo por D. Dinis, Afonso IV e D. Fernando, no sentido de conferir uma maior eficácia aos diversos corpos (contingentes nobres, milícias concelhias, guarda do rei e ordens militares) que compunham a hoste régia; ou ainda as alianças militares com outros reinos e que possibilitaram, por exemplo, a importante presença de combatentes ingleses em Aljubarrota.

Tínhamos comandantes de alto nível...
Tivemos, sem dúvida, comandantes extremamente competentes. O génio estratégico de Geraldo O Sem-Pavor; ou o brilhantismo táctico de Nuno Álvares Pereira são, provavelmente os exemplos mais expressivo da qualidade de alguns dos comandantes observados neste estudo. Mas eu creio que a competência destes homens não se revela apenas no planeamento e no comando das campanhas ou dos combates, mas também enquanto administradores e gestores. Recordemos apenas Gualdim Pais, enquanto mestre da Ordem do Templo em Portugal; ou Estêvão Vasques Filipe enquanto anadel-mor dos besteiros do conto do reino.

Geraldo, O Sem-Pavor
Também fala no treino e na formação dos comandantes militares, pode resumir em que consistia?
Trata-se de uma questão central na preparação dos combatentes – sobretudo dos nobres – em particular dos comandantes, ou daqueles que aspiravam vir a comandar tropas. Contudo, por não existirem exércitos permanente, era impossível desenvolver um programa de treino colectivo, pelo que a aprendizagem e o adestramento tinha, obrigatoriamente que se processar a título individual.
A preparação começava cedo, com os jovens a exercitar-se no manejo das armas e na equitação, combinando essas duas actividades, mais tarde, no jogo da quintana ou na prática da montaria, com o combatente a investir contra animais de médio e de grande porte (ursos, veados, javalis), de lança empunhada, como numa carga de cavalaria.
Claro que em algumas ocasiões era possível desenvolver um treino colectivo, nomeadamente nos torneios, desportos marciais que opunham duas equipas, ao contrário das justas, disputadas por apenas dois adversários. Tanto umas como outras, tiveram um grande sucesso na Europa Medieval, um fenómeno a que Portugal não foi excepção.
Mas não se pense que a formação dos combatentes se fazia apenas numa base prática. Com efeito, existia também uma importante componente teórica, em que obras como o “Epitoma Rei Militaris”, de Vegécio; ou as “Siete Partidas”, de Afonso X, entre muitas outras, desempenhavam um papel central na preparação dos combatentes. Complementavam-se com outros tipos de leituras, como as crónicas, a poesia épica ou os livros de linhagem que, para muitos – como o jovem Nuno Álvares Pereira – serviam como fonte de inspiração para os feitos que ambicionavam vir a alcançar, mas onde encontravam também os modelos cavaleirescos que procuravam imitar.

Acha que obras como as suas despertam no grande público a curiosidade numa Idade Média que não é a fantasia dos romances de cavalaria?
Assim o espero. Na realidade, este trabalho encontra-se dirigido não só aos Historiadores, investigadores, docentes e estudantes universitários, mas também a um público vasto e diversificado e que, de uma forma ou de outra, se interessa pela História do seu país durante a Idade Média. Foi com esse objectivo que procurei despojá-lo – sem no entanto perder nunca de vista o rigor e o carácter científico da análise – de algum peso excessivamente académico e de uma linguagem técnica demasiado complexa que, na minha perspectiva, têm sido dois dos principais motivos para o afastamento entre a História e o grande público.


Que reacções teve ao seu último livro, "De Ourique a Aljubarrota – A Guerra na Idade Média"?
As reacções, tenho que reconhecer, suplantaram as minhas expectativas iniciais. A forma como o livro foi acolhido, tanto pelos especialistas, quanto pelo grande público e o eco que teve nos meios de comunicação social foram, sem dúvida, sinais de que a missão a que me tinha proposto havia sido inteiramente cumprida. Estou também convicto que, comercialmente, se tratou de uma aposta ganha pela Esfera dos Livros, pois de outro modo não me teriam lançado o desafio para este “Guerreiros Medievais Portugueses”.

Acha que os nossos guerreiros medievais continuam a ser vistos como um exemplo nos nossos dias?
Uma das funções da História é a de nos ajudar a compreender o presente e a entender quais os caminhos do futuro e as opções que se nos colocam, como indivíduos, mas também como povo, pelo que tanto as derrotas quanto as vitórias destes homens – e não apenas as militares – devem ser lidas também como lições, como avisos e, em alguns casos, como exemplos a seguir, ou não.

Que português?


A fotografia acima foi tirada em Lisboa, pelo que não deixa de ser curioso (passo o eufemismo) este autocarro de turismo oferecer como opção linguística tanto o Português europeu como o Português do Brasil. É mais um "pormaior" que demonstra que disparates como o Acordo Ortográfico de nada servem e que, por cá, continua a preferir-se o servilismo.

A este propósito, aconselho a leitura do artigo «‘Brazilian’ is ascending and Lisbon is not amused», apesar dos vários erros que demonstram um fraco trabalho da autora.

Portugal tem o dever de se assumir como referência da Língua portuguesa. E, por favor, não me venham com o estafado argumento do número. Este é um daqueles casos em que a qualidade suplanta a quantidade.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 68

O mais recente número da excelente «La Nouvelle Revue d'Histoire», dirigida por Philippe Conrad, tem como tema central o Midi dos trovadores e dos cátaros e oferece um óptimo dossier onde podemos ler artigos  sobre "O condado de Toulouse", de Sophie Cassar, sobre "A civilização do Midi languedociano no século XII" e "De Frédéric Mistral a Larzac", de Rémi Soulié, "A implantação da heresia no Languedoc" e "O cerco de Montségur", de Bernard Fontaine, "1213 : Muret, a batalha decisiva", de Martin Aurell "A Inquisição, mito e realidade", de Pierre de Meuse, "Simon de Montfort, de François Fresnay, e "A heresia cátara revisitada" e "O Midi languedociano, das origens ao século XX", de Philippe Conrad.

Para além do dossier, destaque para a entrevista com o general Maurice Faivre, "Das informações à História", e os artigos "O Csar Alexandre II ou a reforma impossível", de Emma Demeester, "A ressureição dos etruscos", de Michel Lentigny, e "Verdi e o Risorgimento", de Michel Ostenc, bem como as secções habituais.

Design de interiores


Um exemplo de aproveitamento do espaço que realmente interessa.

"As multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado"

Em entrevista ao jornal «Arquitecturas», Hermann Knoflacher, director do Instituto do Planeamento e Tecnologia de Transportes, da Universidade de Viena, afirma que "deixámos de construir as cidades para as pessoas".

De facto, cada vez mais vemos que o nosso habitat urbano é centrado no automóvel. Para Knoflacher, em Portugal "gastou-se mal o dinheiro da UE. Enquanto noutros sítios estão a eliminar as auto-estradas, aqui continuam a construí-las". Para este professor universitário, que é agricultor nas horas vagas, esta estratégia está errada. Isto porque, segundo ele, "as auto-estradas não empregam pessoas. O dinheiro deixa de circular no bairro. O que é pago com cartões de plástico nas grandes superfícies sai do país".

Sem papas na língua, afirma que "as multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado". Assim, ter demasiadas estradas e carros é mau para a economia nacional, porque "este sistema de transportes rápidos favorece a centralização do poder". Ou seja, as multinacionais, as mesmas que, nas palavras de Knoflacher, "controlam os Estados hoje em dia".

Sobre Lisboa, diz que não é das piores cidades, porque "tem pessoas na rua" e sugere a criação de mais zonas pedonais e o investimento em transportes públicos.

Hermann Knoflacher vive numa quinta a 24 km do seu local de trabalho, para o qual se desloca diariamente de metro e comboio. Acredita que é possível viver sem carros, ou pelo menos com uma percentagem muito inferior à que existe hoje em dia. Para ele, é uma atitude evolutiva. "Os condutores estão sentados nos carros como os ancestrais macacos estavam nas árvores. Temos que voltar à nossa posição erecta", afirma.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A fogueira das vaidades

Continua a ser espantoso que pessoas que se dizem defensores da liberdade mudem de postura num ápice perante a referência a certos livros, que automaticamente consideram "perigosos". Há títulos e autores que estão num index mental imposto pelo politicamente correcto. Claro que a "saída de circulação" de tais obras é sempre vista como algo positivo, porque benéfica para as pessoas. E a apregoada liberdade? Para estes zelotas, é com a sua restrição que a defendem...

A destruição de livros sempre me incomodou, independentemente de quem a faz. Mais uma vez, ao contrário do que muitos se convencem, todos os regimes o fizeram. A este propósito recordo-me sempre de uma cena memorável de "Grau de Destruição", a magistral passagem ao cinema da obra de Ray Bradbury "Farenheit 451" por François Truffaut, em 1966. Um diálogo que diz tudo e nos obriga a reflectir.


O Capitão Beatty, interpretado por Cyrill Cusack, diz para Guy Montag, interpretado por Oskar Werner, durante uma apreensão: «Ah, Robinson Crusoe. Os negros não gostam por causa do seu homem, o Sexta-Feira. E Nietzsche. Os judeus não gostavam de Nietzsche. Aqui está um livro sobre cancro do pulmão. Todos os fumadores entram em pânico, por isso, para assegurarmos a paz de espírito de todos, nós queimamo-lo. Ah, este deve ser muito profundo. A Ética de Aristóteles. Qualquer um que leia isto deve pensar que está acima dos que não leram. Vê, Montag? Não é bom, temos todos de ser iguais. A única forma de atingir a felicidade é se todos forem tornados iguais. Por isso, temos de queimar os livros, Montag. Todos os livros!».

Profetas do acordismo


A frase do dia que partilhei hoje foi retirada de um excelente artigo de António de Macedo, no «Público», que merece a leitura de todos. Um dos pontos muito importantes em que toca e que arrasa completamente é o das certezas absolutas dos profetas do acordismo. Os mesmos que hoje se fecham em copas, esperando que o passar do tempo resolva o disparate com o qual pactuaram. Ora leiam: «Um dos argumentos que tenho ouvido para que a imposição do AO 90 se mantenha é: “Agora já é muito difícil e muito custoso voltar atrás” — ou seja, invoca-se a persistência no erro para justificar a persistência no erro! Estamos em pleno reino do “porque sim”, ou, pior, da nefanda prática do facto consumado, apanágio das ditaduras. E consentiremos nós que num tal chafurdeiro continue a atascar-se a política cultural deste Novo Estado português? Um erro é sempre um erro, e nunca é tarde de mais para o corrigir e anular, como diz a sabedoria popular: mais vale tarde que nunca. Em Julho de 2008, o político Rui Tavares escreveu a seguinte “profecia” no seu blogue, sob o título “Nem se vai dar por isso”, menosprezando os que são contra a adopção do AO 90: “Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência”. Para um político que se preze, revelou-se um péssimo profeta. Afinal, volvidos os tais cinco anos, a resistência não pára, as queixas no ensino e por todo o lado são uma autêntica enxurrada, os artigos a desmistificar a gigantesca fraude do AO 90 multiplicam-se com argumentos fundamentados e demolidores.»

Frase do dia

«O AO 90 inaugurou um Novo Estado de tendências tantalizantes — e só não digo totalizantes, ou totalitárias, porque o voto do cidadão comum lá está a caucionar a Nova Ordem das actuais ditaduras democráticas.»

António de Macedo
in «Público»

O franco-atirador paciente


O novo romance de Arturo Pérez-Reverte intitula-se "El francotirador paciente" e tem a saída marcada para dia 27 de Novembro, em Espanha. Desta vez, conta-nos a história de Alejandra Varela, especialista em arte urbana, enquanto segue a pista de Sniper, um famoso artista de graffiti, que ninguém conhece. Uma informação que desperta ainda mais o interesse dos leitores portugueses é que uma das cidades onde se desenrola esta busca é Lisboa. Editores nacionais, não percam tempo.

domingo, 20 de outubro de 2013

Ainda o Alvalade


Porque uma imagem vale mais que mil palavras, aqui fica uma fotografia do Cinema Alvalade num estado decrépito, com o qual nunca me conformei. Isto vem a propósito de uma conversa com um amigo que tanto argumentou contra a renovação feita. É verdade, tem muitos defeitos. Mas também tem virtudes, como a preservação da pintura mural de Estrela Faria, por exemplo. Pormenores (ainda que importantes) à parte, o principal, como já aqui escrevi, é que o novo Alvalade "trouxe o cinema de volta ao meu Bairro". Este é um daqueles casos em que se aplica o ditado: o óptimo é inimigo do bom.

sábado, 19 de outubro de 2013

Metapolítica


«Um marxista italiano, Antonio Gramsci, foi o primeiro a compreender que o Estado não está confinado a uma estrutura política. De facto, estabeleceu que o aparelho político funciona paralelamente a uma chamada estrutura civil. Por outras palavras, cada estrutura política é reforçada por um consenso civil, o apoio psicológico das massas. Esse apoio psicológico expressa-se através de um consenso ao nível da cultura, da visão do mundo e do ethos. De forma a existir de todo, o poder político encontra-se, portanto, dependente de um poder cultural difundido no interior das massas. Com base nesta análise, Gramsci compreendeu por que razão os marxistas não conseguiam tomar o poder em democracias burguesas: não tinham o poder cultural. Para ser preciso, é impossível derrubar uma estrutura política sem antes ter tomado o controlo do poder cultural. O parecer favorável do povo tem que ser conquistado primeiro: as suas ideias, ethos, formas de pensar, sistema de valores, arte, educação, têm que ser trabalhadas e modificadas. Apenas quando as pessoas sentem a necessidade de uma mudança como algo auto-evidente é que o poder político existente, agora separado do consenso geral, começa a desmoronar-se e a ser derrubado. A Metapolítica pode ser vista como a guerra revolucionária travada ao nível das visões do mundo, dos modos de pensar e da cultura.»

Pierre Krebs

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Romance de juventude

Numa bela evocação, o Bruno Oliveira Santos escreveu que “se tivesse de eleger o meu romance de juventude, a escolha seria o extraordinário Comme le Temps Passe, de Robert Brasillach”. É, também, um dos meus livros de juventude.

A este propósito, partilho aqui duas histórias minhas. Citei esta obra maravilhosa num editorial de «O Diabo», no ano passado, a propósito da felicidade, e recebi uma mensagem de correio electrónico de um leitor, que muito me tocou. Disse-me ele que a referência lhe tinha despertado a curiosidade para um autor e um livro que não conhecia, o que o fez procurá-lo, conseguindo comprá-lo num alfarrabista. “Este romance da juventude, terno e nostálgico é notável! Estou a lê-lo. Graças a si descobri uma obra que se lê com vivo prazer”, escreveu-me. Que enorme recompensa!

A edição portuguesa de “Como o Tempo Passa...”, publicado pela Ulisseia, tem capa dura e uma sobrecapa colorida. Esta última não acompanhava o exemplar que na minha adolescência comprei num dos alfarrabistas do Bairro Alto, que diariamente frequentava. Recentemente, ao entrar numa dessas lojas que a crise multiplicou, onde se compra e vende tudo, deparei-me com duas estantes repletas de livros. Naquele amontoado de títulos desinteressantes, houve uma lombada que me atraiu. Assim, por 50 cêntimos de euro, comprei um segundo exemplar, satisfeito por ter encontrado a peça que faltava no da minha biblioteca. Mas o percurso deste exemplar não ficou por aqui. No próprio dia, fui a casa de um Amigo e, entre as habituais conversas de livros, contei-lhe a minha descoberta. Ele disse-me que não tinha o livro, nem o tinha lido. Aí, resolvi prontamente situação - descasquei o livro, retirando-lhe a sobrecapa, e ofereci-lhe o miolo.

São histórias de livros, como tantas outras, mas estas referem-se a um muito especial. Tive com o marcante “Como o Tempo Passa...” um romance de juventude. A ele voltei, volto e voltarei.

Lampedusa (II)


Mais um reality check relativamente a Lampedusa na Imprensa portuguesa, desta vez de João Pereira Coutinho, no «Correio da Manhã»:

"Durão Barroso foi a Lampedusa para prestar homenagem a centenas de imigrantes mortos em naufrágio. A população recebeu-o com as honrarias da praxe. ‘Assassino!’, gritou-se na ilha. E ‘assassino’ grita-se nos jornais.Parece que a morte dos imigrantes é culpa exclusiva da Europa e das suas políticas restritivas de imigração.É uma forma de ver as coisas.Outra, mais desconfortável, é perguntar por que motivo tanta gente arrisca a vida para chegar à Europa. A resposta talvez nos levasse ao colapso – político, social, económico – de uma parte da África pós-colonial depois da partida do abominável ‘homem branco’.Na minha modesta opinião, quem começa por matar aquelas centenas de infelizes são governos corruptos que, pela fome ou pela catana, os enfiam em barcos medonhos. Mas é sempre mais confortável chamar ‘assassino’ ao dr. Durão enquanto os verdadeiros assassinos continuam na sombra."

Frase do dia


«A Sá da Costa prestou um incomparável serviço ao país: durante anos, volume a volume, publicou a melhor colecção de clássicos (devidamente anotada) que algum dia por cá apareceu.»

Vasco Pulido Valente
in «Público».

Um meio à disposição dos partidos


«O Jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio à disposição dos partidos; de meio passou a negócio; e, como todos os negócios, não obedece a regras. Todos os jornais são armazéns em que se vendem ao público palavras da cor que mais lhe agradar. Se houvesse um jornal de corcundas, defenderia de manhã à noite a beleza, a bondade, a utilidade dos corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Assim, todos os jornais serão, em determinado momento, cobardes, hipócritas, ignóbeis, mentirosos, assassinos; matarão ideias, sistemas, homens e por isso mesmo vingarão. Gozarão do benefício de todos os seres dotados de razão: o mal será feito sem que ninguém seja considerado culpado.»

Honoré de Balzac
in "Ilusões Perdidas".

Eduardo Viana



K4 Quadrado Azul
c. 1916, óleo sobre tela, 47,5 x 56 cm
Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian
Lisboa

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Insegurança social


No comunicado de hoje do Conselho de Ministro pode ler-se: «O Conselho de Ministros aprovou uma proposta de lei que altera a lei de bases gerais do sistema de segurança social, introduzindo a possibilidade da idade normal de acesso à pensão de velhice ser ajustada de acordo com a evolução dos índices da esperança média de vida. Nesse sentido pode ser alterado o ano de referência da esperança média de vida sempre que a situação demográfica e a sustentabilidade das pensões justificadamente o exija, aplicando-se o novo factor de sustentabilidade no cálculo das pensões futuras, não afectando os actuais pensionistas.»*

Ou seja, com esta alteração, tudo passa a ser possível.

* O intragável "acordês" do texto original foi devidamente corrigido.

Da delinquência

Incompreensível!


A cena inacreditável passa-se no México, na visita oficial do primeiro-ministro português. Como foi possível aceitar discursar com aquele trapo atrás? A nossa Bandeira é um símbolo nacional e o seu ultraje constitui crime previsto no Código Penal. Não é uma questão de somenos importância. Têm culpa as autoridades mexicanas, tem culpa a nossa representação diplomática no México, tem culpa a delegação portuguesa. Mas, para além de todos eles, tem culpa o primeiro-ministro.

É incompreensível, mas reflecte o actual rumo do País. Infelizmente.

Já!


«Tornado há muito demasiado sólido para ser destruído, ou difamado, ou ridicularizado (as insinuações sobre a sua saúde mental, devido à idade, tornaram-se gratuitas), demasiado visível para o calarem (os comentadores pediram na TV 24 que a comunicação social passasse a censurá-lo!), só resta aos poderes estabelecidos seguirem, repetindo-a, a decisão do saudoso Dr. Salazar: exilá-lo. África, pois, com ele – já! Rui Machete dará uma preciosa mãozinha nisso.»

Fernando Dacosta
in «i».

A cidade de Ulisses

O turismo na capital portuguesa aumentou exponencialmente, mas esta não é apenas mais uma paragem num qualquer roteiro. É notório que os estrangeiros que nos visitam descobrem algo inesperado, uma magia própria que cria uma atracção poderosa. Muitos apaixonam-se e prometem voltar.

Será esta vontade de regressar um pingo de Saudade emprestada? Escreveu António de Castro Caeiro que “Lisboa como Ítaca no Verão é ventosa. Cheia de espírito.” Mas não apenas no Estio, porque como ele tão bem disse, “há tantas Lisboas quantas as Estações do ano”. É essa corrente cíclica que traz os visitantes e os força a voltar? Que lhes provoca uma necessidade interior de eterno retorno?

Recentemente, tive oportunidade de confirmar esse sentimento no olhar de amigos espanhóis e italianos, que aqui se deslumbraram com uma cidade tão próxima, mas sobre a qual pouco sabiam ou conheciam. Isto porque ainda não a haviam sentido, em toda a sua força primordial.

Este é, afinal, um lugar que não lhes é distante fisicamente, mas do qual estão, estranhamente, tão longe.

Teria razão Fernando Pessoa, quando afirmava que “nada há de menos latino que um português”? Isto porque, para o nosso poeta, “somos muito mais helénicos — capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude”.

O encanto da cidade de Ulisses é imemorial e eterno. É um canto dos deuses, brutal e terno.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A espada, a alma do samurai


«O armeiro não era um mero artesão, mas um artista inspirado, e a sua oficina um santuário. Diariamente, dava início ao seu ofício com oração e purificação, ou, como dizia a expressão: "comprometia a alma e o espírito no acto de forjar e temperar o aço." Cada golpe do malho, cada mergulho na água, cada fricção no esmeril, era um acto religioso de não pouca importância. Era o espírito do mestre ou do seu deus tutelar que projectava um formidável encanto sobre a nossa espada?»

Nitobe Inazō
"Bushido. A Ética dos Samurais e a Alma do Japão"

Lampedusa


Muito se escreve sobre a tragédia que se abate sobre Lampedusa, mas o discurso é o mesmo de sempre, nunca saindo das balizas do politicamente correcto, para não "ofender" os vigilantes de serviço. Pela dimensão que toma de dia para dia, esta é uma questão fundamental para a Europa que não deve - muito menos pode - ser encarada com visões idílicas. É necessário um reality check, uma chamada à razão. O artigo de hoje de Vasco Graça Moura, publicado no «DN», toca num ponto fundamental, que saliento na citação abaixo:

«São de estarrecer os mapas e diagramas sobre os fluxos de migração de África para a Europa. Dos que vi, o que mais me impressionou foi o do Corriere della Sera de Sábado passado, admitindo um número de entre 55 e 74 milhões de seres humanos que poderiam chegar ao Sul da Europa até meados do século, penetrando nela pelos mais variados pontos. Os movimentos de deslocação de migrantes para Norte arrancam bem do coração da África e desmultiplicam-se mais ou menos em todas as direcções.
Não pode pensar-se que apenas um ou dois Estados-membros da União Europeia, por exemplo, a Itália ou a Espanha, devam arcar com o acolhimento dessa massa humana de desgraçados de fluxo tendencialmente ininterrupto. As políticas de acolhimento e inclusão têm de ser discutidas, analisadas e aprovadas com intervenção de todos e as responsabilidades de todos devem ser devidamente equacionadas. Mas não nos iludamos: mesmo que o quisesse, a União Europeia não teria capacidade para acolher tanta gente. E a consequência inevitável de tal facto é a de que as medidas de inclusão terão como contraponto de dimensão bem mais expressiva uma série de políticas de exclusão.»