quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Terra


Terra, não é isto que tu queres: surgir
invisível em nós? Não é o teu sonho
seres um dia invisível? Terra! invisível!
Se a transformação não é a tua missão imperiosa, então qual será?
Terra, minha querida, eu quero. Oh, acredita, não seriam mais necessárias
as tuas Primaveras para me conquistar para ti , só uma,
ai! uma única e já demasiada para o sangue.
Inominadamente, por ti me decidi, já de longe.

Sempre tinhas razão e a tua sacra ideia
é a discreta morte.

Rainer Maria Rilke
in "As Elegias de Duíno"
(tradução de Maria Teresa Dias Furtado).

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Turquia (X)

Num excelente artigo, publicado hoje no «Diário de Notícias», Vasco Graça Moura recorda o que escreveu há dez anos sobre a entrada da Turquia na União Europeia: "são incalculáveis as consequências políticas, económicas, sociais e culturais, de ordem quantitativa e qualitativa, e também as atinentes à própria governabilidade do conjunto, que a entrada da Turquia traria para o futuro da União", Para concluir que, "hoje, parece que a entrada da Turquia na União Europeia teria de facto acarretado para esta uma situação ainda mais crítica do que aquela que se vive. A União teria acabado por ficar envolvida de modo directo nos problemas gravíssimos do Médio Oriente, isto é, estaríamos todos num beco sem saída."

O poder dos locais

À beira de eleições autárquicas, regressam várias críticas à corrupção e ao tráfico de influências nos órgãos locais. Não caindo em perigosas generalizações, que consideram que tudo está mal na condução dos municípios nacionais, todos nós sabemos ou ouvimos alguma história que reflecte uma realidade demasiado comum. Infelizmente, na maior parte dos casos, quem presencia tais situações prefere o silêncio ou anonimato, fazendo perdurar o estado de coisas que critica.

Esta semana soube de um caso concreto de um jovem recém-licenciado de Lisboa que, sem emprego, regressou à terra dos avós, no Alentejo, para tentar a sua sorte. Cedo se envolveu nos assuntos locais, sem quaisquer pretensões políticas, tentando alertar a população para a actuação das figuras mais influentes da vila. Esta postura de “estrangeiro”, que chamou a atenção de muitos habitantes, não caiu bem aos “senhores” da terra, bem instalados.

Entre vários episódios, alguns caricatos, há um que é paradigmático. Depois de criticar, num fórum de Internet, a tentativa de construção de um grande empreendimento turístico na região, recebeu um estranho telefonema. O edil local, que não conhecia pessoalmente e a quem não tinha dado o seu número de telemóvel, ligou-lhe dizendo que compreendia a sua posição, mas que este era um investimento muito importante, apelando ao “bom senso”, atitude que “deveria ser de parte a parte”.

Nesta simpática linguagem cifrada percebe-se rapidamente como se movem influências à mais pequena escala, para manter os mesmos interesses de sempre, distribuindo algumas migalhas. É o princípio do “passa para o nosso lado e serás recompensado”. A pessoa em questão acabou por voltar à capital e tudo ficou como dantes...

Estes quadrilheiros das ditas “elites” locais não representam os seus, mas tão somente os seus interesses. A prioridade no poder local deve ser a da comunidade e partir dos próprios. Talvez por isso não seja de estranhar os movimentos de independentes que começam a germinar.


Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A História continua

Depois do suicídio de Dominique Venner em frente ao altar da Catedral de Notre-Dame, em Paris, no passado dia 21 de Maio, os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, publicação de referência na divulgação histórica por ele fundada e dirigida, questionaram-se sobre a sua continuidade. Como se previa, o seu sucessor foi o historiador Philippe Conrad.


Dominique Venner
“La Nouvelle Revue d’Histoire” foi fundada em Julho de 2002 por Dominique Venner e um grupo de historiadores franceses com o objectivo de ir além das interpretações parciais da História, contrariando a tendência de analisar o nosso passado numa perspectiva maniqueísta de “bons” e maus”. Sucessora de “Enquête sur l'Histoire”, também dirigida por Venner e que foi publicada de 1991 a 1999, a revista cedo se tornou uma referência no seio das publicações periódicas sobre História em França, mas também no estrangeiro. Em Portugal é possível adquiri-la em vários locais pelo preço de 7,90 euros.
Philippe Conrad
No último número dirigido por Dominique Venner, o 66, surgiu a resposta indirecta a uma questão que os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: a da continuação da revista. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Era um anúncio de quem seria o novo director. Neste momento, estão disponíveis nas bancas portuguesas duas edições da revista: um número especial, ainda sob a direcção de Venner, e o n.º 67, dirigido por Conrad.

Napoleão. O fim do império
O sexto número especial de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem como tema “Napoleão. Leipzig 1813”, analisando o fim do seu império europeu. No editorial, Venner afirma que o ‘dossier’ desta edição é realizado sob a direcção de Philippe Conrad e analisa com precisão o que foram para Napoleão as causas e as consequências da derrota de Leipzig. Este número está dividido em duas partes, sendo a primeira “A potência em questão” e a segunda “Leipzig 1813, a batalha das nações”. Na primeira, dedicada às guerra antes de Leipzig, podemos ler os artigos “A Inglaterra contra a França”, de Nicolas Vimar, “Tudo começou em Espanha”, de Jean-Joel Brégeon, “As consequências do desastre russo”, de Clément Mesdon, “O jogo duplo de Metternich”, de Martin Benoist, a entrevista com P. Willy Brandt sobre a entrada em cena da Prússia, entre outros. A segunda parte abre com uma cronologia de 1813 feita por Philippe Conrad, que também assina o artigo sobre o reformador prussiano Clausewitz e inclui vários artigos sobre essa batalha decisiva, bem como um sobre o despertar do romantismo alemão, de Alain de Benoist, e outra sobre 1813 na memória alemã, de Thierry Buron.

Roma, cidade eterna
O n.º 67 de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem Roma como tema central, com um excelente ‘dossier’ que inclui artigos desde a fundação da cidade até ao tempo de Mussolini, onde se destacam os artigos Como o Império se tornou cristão”, de Dominique Venner, “O papado romano na Idade Média”, de Bernard Fontaine, “A Roma de Mussolini”, de Michel Ostenc, e “De Roma à Cinecitta”, de Philippe d’Hugues. Sendo o primeiro número publicado depois do suicídio do seu fundador, há quatro página com homenagens a Dominique Venner de várias figuras da cultura francesa e europeia. Destaque também para a entrevista com Anne Cheng sobre a “China de hoje e de ontem”, o texto “Da esquerda ao capitalismo absoluto”, de Dominique Venner, e o artigo sobre Henri Béraud, de Francis Bergeron. Conrad revela-se, como se esperava, um excelente sucessor de Venner na direcção da revista, que mantém toda a qualidade e interesse.

Frase do dia

«Deixem o islão tratar de si.»

Vasco Pulido Valente
in "Público"

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O jornalismo antes do 25 de Abril e hoje

Infelizmente, continua a haver quem se esforça insistentemente para fazer perdurar a ideia de que antes do 25 de Abril era tudo mau e depois ficou tudo bem. É óbvio que esta visão binária da nossa História contemporânea não faz sentido. Gostei, por isso, de ler a entrevista que o «i» fez a Fernando Dacosta, em especial as respostas relativas ao jornalismo.

Começa por dizer que, nesse tempo, "os jornais tinham um ambiente muito engraçado e livre. Não eram nada a pasmaceira que são hoje. Hoje são praticamente câmaras de tortura, com as pessoas aterrorizadas". Acrescentando que "nesta altura era tudo contra o Salazar e contra o Estado Novo; era uma alegria. Liam-se os jornais da véspera, as coscuvilhices políticas, as conspirações que estavam a ser preparadas, as de sempre, razão pela qual o Salazar esteve lá até ao fim [risos]".

Sobre as condições de trabalho, afirma sem papas na língua: "À tarde não se fazia nada. Íamos passear. E à noite era farra. Ganhava-se bem. Quem diz que se vivia muito mal antes do 25 de Abril é uma treta. Em 73 estava a ganhar 17 contos no 'Diário de Lisboa', o que era uma fortuna." E sobre a suposta ignorância de então, é arrasador: "Os jornais eram habitados por grandes vultos da cultura. Acho muita graça quando os novos vêm dizer que antigamente eram todos analfabetos. Veja lá, eu trabalhava com os analfabetos José Saramago, José Cardoso Pires, Herberto Hélder, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, Luís de Stau Monteiro. Hoje rio-me quando ouço essas coisas."

Talvez o mais curioso nesse meio dos jornais, para quem não saiba, é a solidariedade profissional de então. Dacosta diz que "havia uma coisa notável que era o sentido de camaradagem, que era superior às convicções ideológicas. A classe unia-se. Entre o 'República', na Rua da Misericórdia, e o 'Diário da Manhã', que era do governo e ficava em frente, quando faltava papel para sair o jornal, emprestavam um ao outro".

Já sobre o pós-25 de Abril afirma: "os jornalistas, depois dos militares, foram a classe mais importante para o 25 de Abril. Depois veio a democracia, a tentativa grotesca de os partidos políticos transformarem os jornais em órgãos da propaganda política, que foi uma machadada brutal na sua credibilidade. Depois, esta situação que temos, com a ditadura economicista, que é uma maneira de controlar a informação. A censura prévia controla pelo corte e pelo silêncio, a democracia é pelo contrário, controla pelo chinfrim".

Sobre as alterações na imprensa em Portugal é esclarecedor: "Nessa altura, quando ia para um jornal, tinha já em perspectiva um outro. Não havia desemprego. As pessoas eram acarinhadas e recompensadas. Não éramos contratados a prazo, como agora. Havia realmente o problema da censura, mas hoje a manipulação é maior. A censura é apenas um capítulo do controlo da informação. Hoje há a obrigatoriedade de dizer. A Natália Correia, a certa altura, diz assim: 'Tão censurante é impedir de dizer como obrigar a dizer.' Basta ver o caso Casa Pia. Como rendia, lá se escrevia para encher. Hoje, o conselho que dou é que se resguardem, que não digam o que pensam, que tentem resistir."

“Jurámos que nunca nos tornaríamos conformistas”


Jean Mabire não fabricou um sistema, fez viver um sonho. Abriu uma via e deixou um modelo: o de um homem que viveu sempre de acordo com as suas ideias. Os seus talentos ter-lhe-iam permitido uma grande carreira na imprensa e na edição do seu tempo desde que se negasse. Tal era para ele impensável e impraticável. Escolheu continuar fiel aos reprovados entre os quais se sentia bem. Em “Drieu parmi nous” (1963), escreveu: “Jurámos que nunca nos tornaríamos conformistas”. É o que assegurará a sua perenidade.

Dominique Venner

Vitórias anunciadas

No pico do Verão, são as eleições autárquicas que começam a aquecer o ambiente político nacional. Perante as medidas impopulares do actual Governo, nomeadamente os cortes impostos pela ‘troika’ e a vontade de continuar a ser o “bom aluno”, o amnésico Partido Socialista cedo se convenceu que os portugueses iriam “castigar” o Executivo de Passos Coelho na primeira hipótese eleitoral que tivessem.

Apesar de esse fenómeno se verificar habitualmente, é errado misturar convenientemente actos eleitorais que têm objectivos muito diferentes. No caso de eleições para os órgãos locais, a cor partidária – em especial no que respeita ao cinzento centrão – devia ser o menos importante. Mas, infelizmente, em partidocracia, é o que mais interessa.

Este ano surgem sinais de mudança. Tomando as sondagens como indicador, parece que o “castigo” não vai condicionar o escrutínio em cidades de considerável dimensão e importância. Mas, como sempre, tudo está em aberto.

As notícias de uma recuperação económica, ainda que ténue, e a constante ineficácia da oposição contribuem também para aliviar a pressão para se votar contra o Governo, voltando a atenção dos eleitores para os interesses locais.
Outro aspecto assinalável é a subida das candidaturas de movimentos independentes. Em teoria, este é um bom sinal, já que, em princípio, demonstra que as populações se mobilizam em prol das suas terras, para além dos partidos. No entanto, há também um lado negativo, como o dos sucessores de conhecidos “caciques” locais, muitos deles enleados em processos judiciais, ou as candidaturas resultantes de diferendos no seio dos grandes partidos.

Ainda assim, estas alterações podem ser benéficas para o poder local e anunciar uma verdadeira mudança no sistema político, ainda que longínqua.

Em política não há vitórias anunciadas. Pelo contrário, é normalmente quem as anuncia – tão seguro de si próprio – que acaba em maus lençóis.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A cidade mundial


"Oswald Spengler, em O Declínio do Ocidente, traçou de forma infinitamente mais correcta, a evolução da cidade, desde o burgo até à «cidade mundial».

A diferença entre o burgo e a cidade não reside apenas nas suas dimensões. O burgo não se opõe fundamentalmente ao campo. Construído em redor do mercado, ele constitui o ponto de intersecção de um certo número de interesses rurais. Está ligado à terra e depende da «natureza», de que ele adopta os hábitos e os ritmos.

Com a «cidade de cultura», isto é, a cidade tradicional, a natureza encontra-se, pelo contrário, nitidamente dominada, tanto do ponto de vista económico como do ponto de vista político. A cidade transforma-se em pequena sociedade autónoma, em constante evolução em relação ao meio ambiente. Torna-se o sujeito colectivo da hstória dos seus habitantes. A relação entre a cidade e o campo é, então, análogo à relação entre a sociedade e a «natureza». É nisso que as sociedades citadinas são pleneamente históricas, por oposição às sociedades rurais, que são sociedades de repetição. (O campo desempenhando um papel, indispensável, de reserva humana potencial destinada a actualizar-se progressivamente nas cidades — ao mesmo tempo que se efectua a sua própria substituição.)

Mas a «cidade de cultura» em breve se expande. Desdobra-se em arrabaldes que, pouco a pouco, vão absorvendo os meios rurais circundantes. A relação com a natureza deixa de ser dialéctica para passar a ser esterilizante. O mundo rural é esvaziado, sem que tenha tempo de se renovar. Paralelamente, a gestão da cidade torna-se cada vez mais pesada e burocrática. Formas geométricas e cristalizadas substituem-se às formas orgânicas. O anonimato é a regra, encontrando-se o indivíduo desprovido de meios para se situar, de forma perdurável, em relação ao seu próprio meio. É assim que surge a «cidade mundial», submetida, segundo as épocas, ao poder dos tecnocratas ou dos funcionários imperiais. A sua aparição, diz-nos Spengler, corresponde ao estádio da «petrificação» das culturas.

«Estas cidades gigantescas e pouco numerosas», escreve, «banem e matam, em todas as civilizações, sob o conceito de província, e por inteiro, a paisagem que foi a mãe da sua cultura (...). Elas transformam-se na história petrificada de um organismo».

«As cidades mundiais do tempo dos Han e dos índios da dinastia dos Maurya», acrescenta ele, «possuíram as mesmas formas geométricas. As cidades mundiais da civilização euro-americana encontram-se longe de haver atingido o cume da sua evolução. Vejo aproximar-se o tempo em que se construirão cidades urbanas de dez ou vinte milhões de habitantes».

É a este estádio aquele a que chegámos.

Todos os Estados modernos se encontram, hoje, confrontados com o mesmo problema: como canalizar o crescimento das grandes cidades sem prejudicar as exigências da vida social — ou o seu desenvolvimento? Neste domínio, e até agora, tem prevalecido o pragmatismo e a visão a curto prazo. Mas hoje, não é já possível que as cidades continuem a crescer por si próprias. As mais futuristas das propostas não faltam. Mas as soluções não são mais do que uma questão técnica, de planos, e de «metrópoles de equilíbrio». O exemplo de Nova Iorque dá que pensar: o fracasso desta cidade representa o fracasso de um certo modo de organização e de povoamento urbanos."

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas",
Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite (1981)

Civilização de escravos


"O que se deve antes salientar é que se houve alguma vez uma civilização de escravos em grande escala, foi exactamente a civilização moderna. Nenhuma civilização tradicional viu alguma vez massas tão numerosas serem condenadas a um trabalho obscuro, sem alma, automatizado, a uma escravatura que nem sequer tem como contrapartida a elevada estatura e a realidade tangível das figuras de senhores e de dominadores, mas que é imposta de maneira aparentemente inofensiva pela tirania do factor económico e pelas estruturas absurdas de uma sociedade mais ou menos colectivizada. E como a visão moderna da vida, no seu materialismo, retirou ao indivíduo todas as possibilidades de conferir ao seu próprio destino um elemento de transfiguração, de ver nele um sinal e um símbolo, assim a escravidão de hoje em dia é a mais tenebrosa e a mais desesperada de todas as que foram alguma vez conhecidas."

Julius Evola
in "Revolta contra o Mundo Moderno"

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Antarctic expedition


“He had read much of things as they are, and talked with too many people. Well-meaning philosophers had taught him to look into the logical relations of things, and analyse the processes which shaped his thoughts and fancies. Wonder had gone away, and he had forgotten that all life is only a set of pictures in the brain, among which there is no difference betwixt those born of real things and those born of inward dreamings, and no cause to value the one above the other. Custom had dinned into his ears a superstitious reverence for that which tangibly and physically exists, and had made him secretly ashamed to dwell in visions. Wise men told him his simple fancies were inane and childish, and even more absurd because their actors persist in fancying them full of meaning and purpose as the blind cosmos grinds aimlessly on from nothing to something and from something back to nothing again, neither heeding nor knowing the wishes or existence of the minds that flicker for a second now and then in the darkness.”

H.P. Lovecraft
“At the Mountains of Madness” (1936).

Dia d'O Diabo

sábado, 17 de agosto de 2013

Jacques Vergès (1925 - 2013)


Morreu Jacques Vergès, que ficou conhecido como o “advogado do Diabo” por defender vários dos “monstros” que a opinião pública rapidamente condenou sem julgamento. Entre os seus clientes mais conhecidos contam-se Carlos, o “Chacal”, Klaus Barbie e Roger Garaudy. Um advogado cuja postura incómoda recordou algo essencial num sistema judicial e que tantas vezes é esquecido. Nas suas próprias palavras: “Acredito que todos, independentemente do que tenham feito, têm direito a um julgamento justo”.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Diálogos bibliófilos (II)


— Não percebo estes descendentes que vendem as bibliotecas de família e não têm qualquer  preocupação em preservá-las! — exclamou, indignado, o bibliófilo pessimista.

— Se tal não acontecesse, nunca conseguiríamos formar bibliotecas como as que temos... — respondeu, com um sorriso, o bibliófilo optimista.

— Os livros têm que circular. — afirmou o alfarrabista.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Homo consumens

Não deixa de ser inacreditável, em plena crise e em período de férias, continuarmos a ver as grandes superfícies comerciais cheias de pessoas que insistem em comprar uma miríade de objectos inúteis. Bombardeados pela publicidade, correm prontamente às “novidades” que em nada são essenciais à sobrevivência.

Recorde-se uma passagem do excepcional “Clube de Combate”, de Chuck Palahniuk: “Compras mobília. Dizes a ti próprio, este é o último sofá de que vou precisar para o resto da minha vida. Compras o sofá e depois, durante um par de anos, sentes-te satisfeito porque, aconteça o que acontecer de errado, pelo menos, conseguiste resolver a problemática do sofá. Depois é o serviço de pratos certo. Depois a cama perfeita. Os cortinados. A carpete. Depois ficas encurralado dentro do teu lindo ninho e as coisas que dantes possuías, agora possuem-te a ti.”

Possuídos pelas coisas, tornamo-nos dependentes. Como escreveu Guillaume Faye, em “L'Archéofuturisme”, “o sistema torna dependente a sociedade civil com recompensas, vantagens, falsos privilégios, prémios inúteis”. Mas essas vantagens são falsas e este pensador contemporâneo francês exemplifica: “Faz-se crer a uma pessoa que é livre, mas na verdade está enjaulada, que conduz rapidamente o seu carro GTI, ainda que este a arruíne todos os meses, e que no final perde tanto tempo nos engarrafamentos como as horas de trabalho necessárias para pagá-lo.” E para quê? Faye explica que é “para fazer esquecer o desemprego, o trabalho precário, a insegurança, os alimentos adulterados, a degradação do Ambiente, ou o lento desaparecimento do seu Povo”.

Deixamos de ser cidadãos de um país para nos tornarmos consumidores do mundo. É esse o objectivo último da mundialização. É exactamente essa massificação que devemos combater, começando por nós próprios, no seio da nossa comunidade nacional.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A museificação da Europa

Se há obra em que se veja a aplicação dos fundos comunitários é na preservação do património arquitectónico. Por toda a Europa, e Portugal não é excepção, é notória a extraordinária recuperação dos chamados centros históricos das cidades. Este é, sem dúvida, um trabalho muito importante: o da salvaguarda da memória.

No entanto, há um lado bastante negativo que não deve, nem pode, ser desprezado. A criação de verdadeiras cidades-museu, preservadas em redomas, impõe uma realidade estática, parada no tempo. São locais sem vida, dirigidos principalmente (quando não exclusivamente) ao turismo. Os novos exploradores que nos visitam, vindos do Novo Mundo, ou das chamadas potências emergentes, vêm à procura de uma recordação ‘in situ’. Ora, o património deve ser algo vivo e sentido, em permanente renovação. A cultura com que nos identificamos deve ser um movimento que, vindo do passado, se projecta no futuro – com força, ambição e destino.

Ao perder a sua capacidade produtiva, deslocalizando a sua indústria, ao não garantir a renovação das suas gerações, ignorando o envelhecimento generalizado da sua população, e cedendo aos complexos de culpa impostos pela ditadura do politicamente correcto, o Velho Continente deixa, assim, de ser uma referência mundial, para se tornar apenas num parque temático da sua História. A museificação da Europa tem um odor a morte, que é um prenúncio do declínio de uma civilização formidável.

Felizmente, os europeus, quando não perdem o seu espírito trágico, mostraram-se por muitas vezes capazes de um renascimento.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O “antifascismo”

Perante a actual crise política, Passos Coelho insistiu na convergência dos partidos declarando: “Quero apenas reafirmar que o país precisa muito de um espírito de união e de união entre todos os portugueses e de uma união nacional”.

Sempre alerta como um cão de fila, a coordenadora do Bloco de Esquerda classificou prontamente a utilização da expressão “união nacional” como uma “barbaridade”, questionando se Passos Coelho é “inculto” ou se o partido único do Estado Novo é a sua “única referência política”. Os “antifascistas” adoram palavras proibidas e a eterna vigilância...

Jaime Nogueira Pinto definiu-os bem, escrevendo recentemente: “Os antifascistas de serviço – desde os veneráveis vultos do reviralho, obcecados em dizer e fazer tudo ao contrário do que Salazar diria e faria, aos bloquistas que repetem as enormidades da vulgata leninista – querem aproveitar a guerra psicadélica entre a coligação e o Presidente, para se escapulirem e passarem as culpas. Fazem de conta que os pecados e a crise começaram agora e que eles aí estão com receitas infalíveis para a cura. Por isso convém lembrar que esta gente foi a que fez a descolonização e as nacionalizações de qualquer maneira, quem manteve uma constituição socialista até tarde e quem semeou e impôs constitucionalmente os clichés ideológicos que bloqueiam a política, a economia, a sociedade.”

De facto, na sua classificação maniqueísta da política, sentem-se os representantes do “bem” contra o “mal”. Este último, é um verdadeiro poço sem fundo onde cabe tudo o que lhes interessa. Pior, do dito “fascismo” à “direita” é para eles um passo. A confusão ideológica é uma das suas velhas armas.

Acontece que nesta sua teimosia apenas beneficiam o sistema que afirmam combater. Como disse Julien Freund, “as sentinelas do antifascismo são a doença da Europa decadente”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».