quinta-feira, 27 de junho de 2013

Face ao Mostrengo



«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D'El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa
in "Mensagem"


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Local contra global

Um estudo da Deco-Proteste revelou que Lisboa e Porto são as regiões com os supermercados mais baratos e que os mais caros ficam em Bragança, Guarda e Beja. Ou seja, os preços são mais baixos nas grandes cidades e mais altos no Interior. A explicação, garantem os “especialistas”, está na concorrência. Nos sítios onde há maior concentração de superfícies comerciais há maior tendência para uma guerra de preços de modo a atrair clientela. Conclusão, numa óptica puramente consumista, é melhor viver nas grandes cidades.

Ora, é exactamente essa a tendência do mundo globalizado, esse grande mercado planetário onde as fronteiras se desvanecem e as pessoas passam a ser meros consumidores. Desenraizados e uniformizados, os cidadãos passam a reger-se pelas leis do mercado, sendo apenas a última unidade de uma imensa linha de produção.

Este projecto de sociedade massificada encontra o seu maior obstáculo nas pátrias e nas comunidades nacionais e locais. Não se trata de uma consideração filosófica etérea, mas algo que podemos e devemos aplicar à nossa escala.

No caso dos produtos que consumimos, a crise veio recordar-nos que podemos bem viver sem os excessos e fez-nos repensar as nossas prioridades.

Perante os dados sobre as diferenças de preços nos supermercados, é tempo de recuperar as economias locais que foram arrasadas pelas grandes redes de distribuição. Não só teremos melhores preços nas pequenas localidades, como se dinamizarão zonas constantemente “esquecidas” do País, mantendo tradições antigas, devolvendo-lhes a vida.

A luta do local contra o global começa na nossa terra e estende-se à nossa pátria. É uma luta pela nossa identidade.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A queda de um mito

Depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter mostrado no seu programa televisivo o novo livro do Embaixador Carlos Fernandes “O cônsul Aristides Sousa Mendes a Verdade e a Mentira”, a atenção voltou a virar-se para uma história muito mal contada. Falei com o Embaixador há uns dias, que amavelmente me ofereceu um exemplar da obra e me disse que a primeira edição do livro esgotou rapidamente, mas que a segunda edição estará disponível no final desta semana.

Já em Abril de 2007, o semanário «O Diabo» dava conta da carta do Embaixador Carlos Fernandes a Maria Barroso, presidente da Fundação Aristides Sousa Mendes, que desmitificava a lenda criada à volta do cônsul português em Bordéus. Vendo que a mitificação desta figura continuava, o Embaixador decidiu escrever um livro esclarecedor e muito bem documentado para contrariar as versões mirabolantes desta história, hoje institucionalizadas e ensinadas aos nossos filhos nas escolas portuguesas.

Quatro homens numa paisagem hostil

Este é o título da crónica de Arturo Pérez-Reverte sobre o quadro "La patrulla", de Augusto Ferrer-Dalmau, a quem chama "nuestro pintor de batallas". O quadro é uma homenagem aos espanhóis que combatem no Afeganistão e o escritor traça a ligação aos soldados de sempre do seu país: «Misión de paz, misión de guerra, fiel infantería de toda la vida, la misma que aparece en el ya legendario lienzo sobre el último cuadro en Rocroi. La vieja y única historia posible: lealtad a los compañeros inmediatos más que a las grandes palabras huecas y a las cambiantes banderas donde tanto canalla se envuelve y medra. Un cuadro grande, un paisaje árido, unos soldados. Cuatro españoles que caminan por un paisaje hostil, protegiéndose serenos unos a otros. Sabiendo que nadie les agradecerá nada. Realizando con pundonor y sencillez el trabajo por el que les pagan, como llevan haciéndolo desde hace siglos. Desde que la palabra guerra, por azares de la vida y de la Historia, se interpone en el camino del ser humano.»


La Patrulla, Augusto Ferrer-Dalmau (2013).

No final da crónica, Pérez-Reverte relata o pedido que o pintor lhe fez: «"Quiero que pongas alguna cosa detrás de La patrulla, de tu puño y letra, y que lo firmes. Que quede ahí para siempre". Es un honor, respondo. Me entrega un rotulador, y con él me voy detrás del cuadro. Pienso un momento, y escribo: "Durante siglos, en cada una de sus huellas estuvo España"».



domingo, 23 de junho de 2013

Estrangeiro na própria pátria


“Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?” De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”

Ernst Jünger

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Breviário dos insubmissos


«Temos o conforto, o saber, a opulência. Mas as nossas cidades não são mais cidades e as nossas antigas pátrias já não são o que eram. A excitação dos caprichos mais loucos fazem implodir a nossa civilidade. O dinheiro tornou-se o padrão exclusivo de todos os valores. Sob as aparências da democracia, não somos livres.As causas remontam há muito. Mas a História nunca é imóvel. Chegou o momento para os franceses e os europeus despertarem e libertarem-se. Como? Com certeza não é refazendo o que nos conduziu até onde nos encontramos. Não tendo uma religião à qual nos amarrar, temos desde Homero uma rica memória oculta, depósito de todos os valores sobre os quais refundar o nosso futuro renascimento. Diante do vazio sob os nossos pés, a voracidade demente do sistema financeiro, as ameaças de um conflito de civilização no nosso solo, este 'Breviário' propõe despertar a nossa memória e dar pistas novas para pensar, viver e agir de forma diferente, permitir a cada um reconstruir-se na fidelidade a modelos superiores.»

Dominique Venner
in "Un samouraï d’Occident. Le Bréviaire des insoumis".

Solstício de Verão


Mesmo hoje, é importante ter consciência que os pagãos estão no âmago das forças que os ultrapassam mas das quais fazem parte. O solstício, o curso do Sol, deve contar na Natureza e na vida dos homens dividida em duas partes: o Sol e a água.

Pierre Vial

Os professores e o PCP


É bem conhecido o avermelhamento do professorado a seguir ao 25 de Abril no nosso país, com as consequências que sabemos. Mas o mais estranho é este ter perdurado até aos nossos dias. Hoje, no seu editorial no semanário «Sol», António José Saraiva fala desse fenómeno. A ler: “O domínio do Ministério da Educação por parte do PCP fazia-me alguma confusão na altura [no período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril] – e hoje faz-me muita. Os professores, pela sua função específica, devem ser pessoas abertas, não dogmáticas, arejadas e mentalmente disponíveis. Ora, o PCP é o contrário disso: é um partido ideologicamente intolerante, nada aberto à mudança, sectário e inflexível. Não percebo como é que a maioria dos professores se tem mantido ao longo de quase 40 anos ligada a uma força política com estas características.”

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A escola em risco

Perante mais uma manifestação dos professores em Lisboa e a guerra a que se assiste com o ministro da Educação sobre a greve em período de exames, há que olhar mais longe – ou mais fundo – para um problema que nos afecta a todos e determina o futuro do País.

Não estão aqui em causa as reivindicações dos professores, muitas são legítimas e qualquer cidadão tem o direito de protestar. No entanto, mais uma vez, vemos como esta classe está tomada pelas forças a extrema-esquerda. Os partidos e sindicatos do costume usam as dificuldades das pessoas como armas políticas contra o Governo. Sejamos claros, o seu objectivo é a queda deste Executivo e não a resolução de problemas concretos.

Um dos motes deste protesto foi: “A escola pública está em risco.” Será esta a real preocupação? Ou será apenas a preocupação com as condições de emprego na escola pública?

De facto, nunca vimos uma mobilização destas de professores, nem a preocupação dos partidos que os manipulam, contra verdadeiros cancros que destroem o ensino. Exemplos paradigmáticos recentes são o Acordo Ortográfico e a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS), que provocaram o caos numa matéria fundamental como é a nossa Língua. Não é, assim, de espantar os maus resultados a Português nos últimos exames nacionais do Ensino Básico.

As consequências do delírio experimentalista e do avermelhamento do professorado sofridos a partir do 25 de Abril ainda se fazem sentir. A escola não pode ser apenas mais um emprego para quem lá trabalha e uma mera ocupação para quem lá estuda. Também não pode ser um tubo de ensaio para experiências de engenharia social.

A escola pública deve ser uma escola nacional, que tenha como objectivo formar as gerações futuras de um país concreto – Portugal.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Bota abaixo!


Os tapumes escondem o atentado. Um prédio de habitação colectiva da autoria do arquitecto modernista Cassiano Branco, datado dos anos 30 do século passado, localizado na esquina da Av. Almirante Reis com a Praça João do Rio, em Lisboa, cuja demolição integral a Câmara de Lisboa proibira, impondo a manutenção da fachada, foi quase todo destruído antes de a obra ter sido embargada.É mais um lamentável caso de destruição do património arquitectónico da capital, que autoridades locais nada parecem conseguir fazer para evitar.

Chefes de Portugal

“Grandes Chefes da História de Portugal”, publicado pela Texto Editores, é um trabalho de mérito que abre novos caminhos na investigação histórica no nosso país. Coordenado por Ernesto Castro Leal, professor e investigador de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e José Pedro Zúquete, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, traz-nos uma perspectiva nova, numa abordagem diferente, de importantes figuras da nossa História.


Até um apaixonado pela História – como eu, que a escolhi como área de formação – dificilmente consegue suportar os “complexos histórico-geográficos” e “socioeconómicos” da historiografia marxista. Esta predilecção pelo papel das “massas” como “motor da História” impregnou o ensino com as consequências que sabemos. Afastou o grande público desta matéria tão importante para nos conhecermos enquanto Povo e só recentemente começámos a livrar-nos desse modelo.
O regresso da História narrativa e biográfica voltou a despertar nos portugueses o interesse pelo seu passado comum e pelos homens que construíram. Prova disso é o aumento exponencial de títulos disponíveis e as suas vendas expressivas.

“Grandes Chefes da História de Portugal” tem um título chamativo para o público, que o entende à primeira sem necessidade de explicações, e incómodo para os quadrilheiros do politicamente correcto. Sempre ciosos do seu ‘index’ de palavras proibidas, estes últimos consideram “chefe” como algo ultrapassado, quando não perigoso. Mas, como é explicado na Introdução, “a interpretação que os organizadores deste volume dão à palavra ‘chefe’ é neutra. Embora a palavra tenha sido apropriada, quer pela direita (como factor positivo), quer pela esquerda (como denunciação e crítica), neste volume ela é vista essencialmente como um instrumento analítico para ajudar à compreensão de dinâmicas históricas em Portugal”. É, de facto, o que acontece. Não se espere aqui um álbum de cromos com os heróis da Pátria.

Este é um trabalho original, que junta diversos académicos, que se expressam num registo acessível, que abre novas portas à investigação. Em entrevista a O DIABO, Ernesto Castro Leal explicou o objectivo da obra: “Pretendeu-se que os diversos autores, a partir de um chefe (individual, colectivo ou imaginário) com qualidades paradigmáticas, abordassem os tempos históricos concatenados à acção dos chefes. Não há dúvida que, pela abordagem pioneira de alguns chefes ou pela reinterpretação de outros chefes, com base em novos modelos de análise, este livro é um ‘lugar funcional de memória’ historiográfica com muita novidade, algumas análises surpreendentes e caminhos abertos para continuar.”

A crítica fácil seria questionar a escolha deste ou de aquele “chefe”, apontando supostas “faltas”. É claro que há “faltas”, nomeadamente daqueles que gostaríamos de ver tratados. Mas essa é talvez uma das maiores virtudes deste trabalho, porque garante uma continuação.

Aqui podemos encontrar capítulos dedicados a “chefes” que esperávamos, como o de José Almeida sobre Viriato. No entanto, este está longe de ser uma entrada enciclopédica ou um exercício laudatório. Trata-se, pelo contrário, de um exemplo de “investigação de ponta”, como o considerou Ernesto de Castro Leal, na apresentação do livro em Lisboa. Também D. Nuno Álvares Pereira é apontado como o “Chefe Militar”, por João Gouveia Monteiro, e São Francisco Xavier como o “Chefe Jesuíta”, por António Júlio Trigueiros.

Da mesma forma, encontramos “chefes” que nunca nos ocorreriam, como é o caso da própria Constituição, considerada como “chefe” por Paulo Ferreira da Cunha. Outros casos que demonstram originalidade de escolha e novidade dos temas são Pêro da Covilhã, considerado o “Chefe Aventureiro”, por António dos Santos Ventura, ou os capítulos dedicados ao “Chefe Luso-brasileiro” ou à “Chefe Feminista”, por exemplo.

Outros casos que merecem destaque são os do “Chefe na Extrema-Direita”, onde Riccardo Marchi analisa uma área política que tanto necessita de um chefe, mas que nunca o encontrou verdadeiramente. Também o capítulo dedicado a João de Castro Osório, o “Chefe Fascista”, da autoria de Eduardo Cintra Torres, aborda uma figura ainda muito desconhecida entre nós. O capítulo sobre Franco Nogueira, naturalmente escolhido como “Chefe Diplomático” por Bruno Cardoso Reis, apresenta uma abordagem interessante sobre o papel do Embaixador.

O livro conclui com o excelente texto de José Pedro Zúquete, dedicado ao “Chefe Imaginário”, sobre o Sebastianismo em Portugal. Uma análise cuidada que termina com uma reflexão muito importante: “Reconhecer o contributo histórico do Sebastianismo não é cair no sentimentalismo fácil. Pelo contrário. É fazer o mais difícil. É pensar Portugal como um todo, em vez de o pensar de costas voltadas, seja para a razão, seja para o mito.”

Mestre

Pormenor do fresco "Escola de Atenas", de Rafael (c. 1509-1511). 

«Mestre é assim aquele que soube destruir o seu “ego”, ou falso eu, e idêntica destruição saberá ensinar ao discípulo. É aquele que passou por uma experiência fundamental, de identificação com a Realidade, em que esse “ego” é anulado, e a saberá fazer partilhar: o que conhece a via, suas etapas diferentes, e falsos caminhos a evitar. Ele nada ensina, nenhuma transmissão de saber escolar, nenhum sistema, muito menos, nenhuma ideologia impõe. Mas só iluminação e passagem através dessas etapas, ou diferentes níveis do ser, desde as inferiores até às superiores, à identificação final com o Outro.»

Dalila L. Pereira da Costa
in "Corografia Sagrada" (1993).

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dominique Venner: presente!

A conferência-homenagem a Dominique Venner, organizada pela Terra e Povo, que decorreu no passado dia 15 de Junho, em Lisboa, foi um sucesso. Obrigado a todos os presentes, bem como aos que não puderam ir, mas manifestaram o seu apoio e interesse.


domingo, 16 de junho de 2013

O admirável mundo novo

As recentes revelações de que a administração norte-americana tinha acesso ao registo das comunicações feitas através da operadora Verizon eram apenas a ponta do icebergue. Afinal, tudo o que é partilhado através de serviços como o Google ou o Facebook é compilado nas bases de dados da Agência de Segurança Interna (National Security Agency, no original), um gigante secreto sobre o qual pouco se sabe, considerada a maior agência de espionagem do mundo. Uma investigação jornalística revelou a existência de um programa chamado PRISM, que funciona à margem de mandados judiciais e sem o conhecimento das empresas envolvidas.

Mais importante ainda é verificar que tal política não era exclusiva da administração republicana de George W. Bush, iniciada com a desculpa da “guerra contra o terrorismo”. O actual presidente norte-americano, Barack Obama, veio dar o seu total apoio ao registo de chamadas telefónicas e ao acesso a contas de correio electrónico, dizendo que “não podemos ter 100 por cento de segurança e 100 por cento de privacidade”.

Junte-se a esta sociedade vigiada a destruição da família, o mundo globalizado, o pensamento único imposto pelos ditames do politicamente correcto e a crença de que este é “o pior dos regimes, com excepção de todos os outros”. Eis-nos no (não tão) admirável mundo novo – a sociedade pós-moderna.

Mas ainda há quem se aperceba deste estado de coisas e se tenha lembrado de Aldous Huxley, em especial de uma citação premonitória: “A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.”

Uma gaiola dourada não deixa de ser uma gaiola.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 13 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

bla... bla... bla...


Recebi de várias pessoas a crónica de Baptista-Bastos, publicada no «DN», sobre o 10 de Junho. Provavelmente vou desiludi-las, mas a única coisa que se me oferece dizer é que a onomatopeia "bla... bla... bla..." foi inventada pelo genial Céline e apareceu pela primeira vez em 1937, naquele que é provavelmente o mais "maldito" dos seus livros  "Bagatelles pour un Massacre".

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tom Sharpe (1928 – 2013)


O meu encontro com Tom Sharpe foi curioso. Na minha adolescência, em véspera de férias, durante habitual excursão à livraria que fazia em família antes da partida, a minha mãe decidiu — em boa hora — juntar ao seu lote um livro de um escritor que desconhecia. Tratava-se de “O Triunfo do Bastardo”. Uma tarde, junto à piscina, vi pela única vez que me lembro a minha mãe a rir-se enquanto lia. Decidi que seria o próximo na lista a lê-lo e assim aconteceu. Nessa mesma noite, devorei-o até altas horas sem conseguir parar. Para além de ser bem escrita e ter um óptima e criativa construção das personagens, a história era tão mirabolante como hilariante. Prometi a mim mesmo que, logo que voltasse a Lisboa, compraria mais livros deste autor e saberia mais sobre ele.

Apesar de os gostos lá em casa serem diferentes, Sharpe era consensual. Prova disso é a que Sharpeana que preenchia uma prateleira da biblioteca da minha mãe se dividiu entre mim, ela e a minha irmã. Fez sentido, era um ponto de encontro familiar.

O segundo livro de Sharpe que li foi “Balbúrdia na Cidade”, talvez o meu preferido, juntamente com “O Triunfo do Bastardo” e “Vícios Ancestrais”. O “Wilt” — ou melhor, os “Wilt” — só veio depois, mas nunca conseguiu ultrapassar aquele trio, apesar de não ficar muito atrás. Nunca senti curiosidade em ver a adaptação ao cinema, feita em 1989, e continuo a não sentir.

“Balbúrdia na Cidade” é sempre apontado, apressada e convenientemente, como uma “crítica ao regime do apartheid”. Este reducionismo é deveras enganador. É verdade que Sharpe acabou por ser expulso da África do Sul, mas critica e ridicularia a sociedade sul-africana, não esquecendo nenhuma das suas comunidades, como depois critica e satiriza a sociedade britânica quando regressa a Inglaterra. E, sim, é arrasador. Mas também arrasadoramente divertido.

Não há nada de politicamente correcto neste autor genial. Leia-se a passagem de “Vícios Ancestrais” sobre a linguagem politicamente correcta que citei aqui já lá vão uns anos...

Sharpe morreu ontem, mas deixou-nos uma bela herança.

Méridien Zéro recebe Olivier Maulin

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Livros e decoração


Continuando no tema dos posts anteriores, é para mim inconcebível que alguém ache bem ter em casa uma "biblioteca" de lombadas. É uma falta de respeito, até por si próprio, para além de ser totalmente estúpido. Talvez não seja de estranhar, num país em que tão pouco se lê, mas onde tanta gente fala do que não leu...

A este assunto dediquei, no início do ano, um editorial intitulado "Os livros enforcados", onde afirmei: "Bibliófilo confesso, para além de leitor ávido, um livro para mim não vale apenas pelo seu conteúdo, mas também enquanto objecto. Não compreendo, por isso, os que usam livros como decoração."

Uma assassina de livros


A propósito do post anterior, aqui fica uma assassina de livros, disfarçada de decoradora, em plena acção criminosa. Cuidado, contém cenas chocantes.

Diálogos bibliófios


— Li há tempos uma notícia sobre a compra de livros para decoração no Brasil. Não é uma novidade, bem sei, mas falavam em encadernações de papel em branco ou revistas velhas que se vendiam para o efeito. Perante isto, uma decoradora, supostamente reputada, aconselhava a que fossem usados livros verdadeiros. Aqui também há disso? — perguntou o bibliófilo.

— Livros a metro? Há que tempos! Mas não são essas falsificações. De qualquer modo, não são para ler... — respondeu o alfarrabista.

— É pá! Custa-me sempre ouvir essas coisas. Aconteceu-lhe alguma? — lançou o bibliófilo, esperando uma daquelas histórias que os livreiros têm sempre prontas a contar.

— Uma vez vendi uma série de livros com belas encadernações para decorar a sala do conselho de administração de um banco. Aquilo era grande e faltava preencher as últimas prateleiras. Como não tinha mais encadernados, sugeri as obras completas de Lenine e Marx. — revelou com um sorriso de escárnio.

— E eles aceitaram?

— Sim, sem qualquer problema. Disseram-me apenas que ficavam lá em cima.

— Belos capitalistas! — exclamou o bibliófilo, rindo.

Feira do Livro - Dia 9


Há sempre pechinchas para encontrar...

Raízes


As catástrofes provam até que ponto homens e povos estão ainda enraizados na suas origens. Se houver pelo menos um cordão de raízes que receba o seu alimento directamente da terra — disso dependem a saúde e as possibilidades de sobrevivência, por oposição à civilização e à segurança.

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma edição marcante

Publicação de referência, “La Nouvelle Revue d’Histoire” pode estar em risco após o suicídio do seu director, Dominique Venner, na Catedral de Notre-Dame, em Paris, num acto simbólico para, segundo as últimas palavras do próprio, “despertar consciências adormecidas” perante a catástrofe que se abate sobre a Europa.


No editorial intitulado “A revolta das mães”, Dominique Venner reflecte sobre a aprovação do casamento homossexual em França e a sua contestação, afirmando que “o projecto do casamento ‘gay’ foi sentido como um atentado insuportável a um dos últimos fundamentos da nossa civilização”. Para ele, a indignação que se gerou é um sinal de que se transgrediu “uma parte sagrada do que constitui uma nação”, concluindo que “é perigoso provocar a revolta das mães!”

Em mais um excelente número, o tema central são as “Derrotas Gloriosas”, que vão do sacrifício dos espartanos a Dien Bien Phu, passando por Waterloo ou pelo Alamo. De referir as entrevistas “De Bonaparte a Napoleão” com Thierry Lentz, director da Fundação Napoleão, e com Aurnaud Leclercq, sobre a geopolítica da Rússia. Destaque ainda para os artigos “Arqueologia das crenças guerreiras”, de Bernard Fontaine, “O sueco Sven Hedin, um maldito no Tibete”, de Jean Mabire, e “Que língua para a Europa?”, de Javier Portella.

Por fim, uma questão que todos os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: será que a sua publicação vai continuar? Esperemos que sim. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Dominique Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Será seguramente um óptimo sucessor na direcção. Aguardemos.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Feira do Livro - Dia 8


Muito calor, mas há sempre uns alfarrábios que valem a pena...

As "escolas" do "Aborto Ortográfico"

«O acordo ortográfico é conhecido em Portugal como o aborto ortográfico. Difícil discordar dos meus compatriotas. Basta olhar em volta. Imprensa. Televisões. Documentos oficiais. Correspondência privada.
Antes do acordo, havia um razoável consenso sobre a forma de escrever português. Depois do acordo, surgiram três "escolas" de pensamento.
Existem aqueles que respeitam o novo acordo. Existem aqueles que não respeitam o novo acordo e permanecem fiéis à antiga ortografia.
E depois existem aqueles que estão de acordo com o acordo e em desacordo com o acordo, escrevendo a mesma palavra de duas formas distintas, consoante o estado de espírito --e às vezes na mesma página.
Disse três "escolas"? Peço desculpa. Pensando melhor, existem quatro. Nos últimos tempos, tenho notado que também existem portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que obviamente só existe na cabeça deles.»

João Pereira Coutinho
in "Folha de S. Paulo"

Dia d'O Diabo

domingo, 2 de junho de 2013

Alix


Ontem, houve um artigo que me fez comprar o "DN", apesar do insuportável acordês. No suplemento cultural "Qi", o Eurico de Barros escreveu uma belíssima peça sobre os 65 anos do imortal Alix, de Jacques Martin. É pena que não esteja disponível em linha.

A esse propósito, a entrevista que ele fez a Jacques Martin, em 2002, onde o autor afirma: "Inventei Alix em 15 minutos".

sábado, 1 de junho de 2013

Vale do Reno


Ternamente, como outrora, sinto o sopro das brisas da juventude;
As árvores abertas amigas que outrora me embalaram nos seus braços
Sossegam o coração desassossegado,
E o sagrado verde, sinal da ditosa, profunda
Vida do mundo, refresca, devolve-me a juventude.
Entretanto envelheci, o gélido pólo empalideceu-me,
E no fogo do Sul perdi os anéis do meu cabelo.
Mas ainda que chegado ao seu último dia de vida mortal,
Alguém vindo de longe e exausto até ao fundo da alma tornasse
A ver a terra, as cores voltar-lhe-iam à
Face e o seu olhar quase extinto voltaria a brilhar.
Ditoso vale do Reno! Não há colina sem vinhedos,
E muros e jardins coroam-se de parras,
E os barcos que navegam vão carregados da bebida sagrada,
Cidades e ilhas estão ébrias de vinhos e de frutas.
Mas sorridente e sério repousa em cima do velho Taunus,
Que, livre, inclina a sua fronte coroada de carvalhos.

Friedrich Hölderlin