sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ainda vamos no adro...

Num período que tem sido negro para Portugal, económica e socialmente, a recente notícia do “regresso aos mercados” tem obviamente um aspecto positivo. Claro que, para os menos versados no “economês” que agora abunda na comunicação social, convém esclarecer que a nossa situação de endividamento de vai prolongar.

Apesar de agora beneficiarmos de condições mais vantajosas, vários economistas alertaram para o facto de o pagamento da dívida pública, recorrendo em exclusivo ao financiamento dos mercados e sem crescimento económico, ser muito difícil assegurar, a prazo.

Claro que o Governo utilizou este sucesso, pelo menos aparente, em seu proveito político. Do outro lado, a oposição atrapalhou-se como de costume. O teatro da política portuguesa continua a ser, infelizmente, uma casa de uma má peça, com piores actores.

No entanto, Passos Coelho demonstrou prudência. Falando aos jornalistas em Santiago do Chile, o primeiro-ministro afirmou: “Ainda temos caminho para fazer. Os resultados que tivemos até hoje são muito importantes e são, desse ponto de vista, encorajadores, mas a ideia de que está tudo feito e de que a crise acabou, de que não precisamos de ter disciplina orçamental e de que não precisamos de ter cuidado com as reformas que estamos a empreender seria uma ideia perigosa que eu quero aqui afastar”.

Quer isto dizer que a procissão – neste caso os cortes das medidas de austeridade – ainda vai no adro... Porque a situação das famílias portuguesas vai deteriorar-se ainda mais, não nos iludamos. Mas até quando é que tal será sustentável? Pior, até quando será suportável?

Para além destas questões imediatas, há dúvidas mais profundas que se levantam. Será possível outro modelo económico? No mundo da Economia globalizada será possível sobreviver sem obedecer aos ditames alheios? Portugal não pode continuar a ser um país a crédito.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os livros enforcados

Numa ida a um colóquio que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, saltou-me à vista uma das “decorações” do átrio de entrada da Biblioteca. Olhando para o tecto, pude ver – com alguma estupefacção – vários livros artisticamente suspensos por fios de ‘nylon’.

Qual o significado desta “instalação”, como provavelmente lhe chamam os entendidos de serviço? Ainda por cima, porque está num local de promoção da cultura.

Seja qual for a intenção do “artista”, comentei a um dos oradores nesse colóquio que, para mim, aqueles eram livros enforcados. Apesar de ele ironizar, dizendo que um dos “condenados” era o “Manifesto Comunista”, não me conformei com o que vi.

Bibliófilo confesso, para além de leitor ávido, um livro para mim não vale apenas pelo seu conteúdo, mas também enquanto objecto. Não compreendo, por isso, os que usam livros como decoração e não faço distinção entre estes “enforcados” e os livros a metro comprados para enfeitar estantes. São manifestações de ignorância e desrespeito.

Não deixei de fazer um paralelo com a atitude generalizada em relação aos livros hoje em dia no nosso país. Apesar de se venderem mais agora do que alguma vez no passado, tal não significa que sejam lidos e que a cultura literária se tenha elevado.

Podemos ver isso ao entrar numa livraria actual, que é mais uma boutique de livros, preocupada em expor e vender os títulos da moda – cada vez mais iguais uns aos outros –, onde é difícil comprar o que realmente queremos. Esta uniformização deve-se, também, ao monopólio dos grandes grupos editoriais, movidos apenas pelo lucro fácil e imediato.

É exactamente em períodos de crise que não nos podemos dar ao luxo de desprezar a cultura. Precisamos de mais livros, mais livres.

Editorial dasta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A próxima guerra

A reconfortante ideia generalizada no Ocidente da “paz perpétua” tem-se vindo gradualmente a desvanecer perante a precipitação dos acontecimentos à escala mundial, nomeadamente devido à quebra de confiança provocada pela crise económico-financeira.

Este fenómeno tem sido descrito como o “regresso da História”, uma espécie de despertar de um sonho idílico dos que acreditavam no paraíso na Terra. Não afirmavam os romanos ‘si vis pacem, para bellum’?
Por mais politicamente incorrecto que possa parecer aos bem-pensantes do costume, a guerra deve estar presente na consciência dos europeus. Não num sentido belicista, mas como um “horizonte de guerra”, tal como sentido pelos gregos antigos. Como realidade tantas vezes inevitável, como nos mostra a História humana, não pode ser esquecida ou desprezada.

Hoje, o Ocidente olha para o Próximo Oriente, nomeadamente para a guerra civil na Síria e o eterno conflito israelo-palestino, ou por vezes o Irão, como focos de tensão que podem desencadear um futuro confronto à escala mundial. Apesar de serem casos preocupantes, que merecem a nossa cuidada atenção, há que olhar mais longe.

No outro extremo do globo as águas agitam-se e parece que por cá não se dá a devida importância a vários acontecimentos cuja carga simbólica mostra que o imenso Oceano Pacífico pode voltar a não fazer jus ao nome.

Vejamos alguns exemplos paradigmáticos. Primeiro, o lançamento do primeiro porta-aviões chinês que, apesar de ser uma reconversão de um antigo navio da Marinha soviética, mostra a vontade de afirmação do gigante asiático enquanto potência bélica naval. Segundo, a intensificação do debate que se arrasta há anos no Japão sobre a alteração constitucional que revogaria o artigo 9.º, que não reconhece ao Estado nipónico o direito de beligerância. Apesar de também prever a inexistência de forças armadas, o país do Sol nascente tem-nas na prática, mantendo, desde 1954, a Forças de Auto-defesa do Japão. Para além desta, não esqueçamos a tensão entre as duas Coreias.

Será aqui que vai começar a próxima guerra?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Desintoxicação ideológica

“Revista autónoma de desintoxicação ideológica”, é como se define esta excepcional publicação francesa, que desde que há uns anos começou a ter uma distribuição pública nas bancas teve como consequências directas uma subida significativa da tiragem e um aumento substancial de leitores. É sem dúvida um exemplo, o caso desta publicação que se tornou uma referência obrigatória, pela sua elevada qualidade e espírito interventivo e irreverente, iniciada há anos por um grupo de jovens motivado e dedicado.



A capa provocatória desta edição de Outono anuncia um óptimo ‘dossier’ sobre o tema dos ‘mass media’, canais que, como escreve Eugène Krampon na apresentação, “apesar das diferenças aparentes, difundem todos a mesma mensagem politicamente correcta”. Dos vários artigos há a destacar “Os ‘media’ como primeiro poder”, de Georges Feltin-Tracol, “A imprensa é mais livre nos EUA que na Europa?”, de Tomislav Sunic, “Oito meses de escola de jornalismo em Paris”, de Cyril Vachers, e as entrevistas com Camille Galic, jornalista que foi durante muitos anos a directora do “Rivarol”, e com Jean-Yves Le Gallou, presidente da Fundação Polémia, que afirma que “os ‘media’ do sistema apresentam todos o mesmo ponto de vista”.

O outro grande destaque nesta edição é para entrevista com o escritor anti-conformista e dissidente político russo Edouard Limonov, fundador e líder do Partido Nacional-Bolchevique, banido em 2007.
De referir, também, os artigos “Mundos virtuais”, de Thomas de Pieri e Benoît Leduc, sobre os videojogos, “Os guardas negros do Fuhrer”, de Christian Bouchet, sobre as relações entre os africanos e a Alemanha nacional-socialista, “A estratégia da anaconda”, de Edouard Rix, sobre geopolítica, “Jules Monerot ou a fome do Sagrado”, de Eric Norholm, e o de Flavien Blanchon sobre o modelo grego de cidadania.

Na parte cultural podemos ler os artigos sobre o realizador de cinema italiano Valério Zurlini e sobre o pintor francês Henri Matisse, de Pierre Gillieth.

Por fim, para além da secção “Um livro é um fuzil” sobre a obra de Hervé Ryssen “Compreender o judaísmo. Compreender o anti-semitismo”, temos onze páginas de notas de leitura sobre diversos livros publicados recentemente.