sábado, 14 de dezembro de 2013

Da ignorância nacional

Camões lendo 'Os Lusiadas' aos frades de S. Domingos
António Carneiro
1925, óleo sobre tela 188 x 264 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Vasco Graça Moura traçou muitíssimo bem o panorama da ignorância em Portugal num excelente e certeiro artigo, intitulado "O remorso", publicado no "Diário de Notícias".

Primeiro, faz o trágico ponto da situação: "Vemos a cada dia que passa que os portugueses não sabem nada, ou praticamente nada, sobre o seu país. A ignorância histórica atinge as raias da obscenidade. Quando muito refastelamo-nos nuns ecos idiotas do tempo dos Descobrimentos, mal sabendo do que estamos a falar. Da Geografia, seja física, seja humana, ainda menos. Não conhecemos bem o território que habitamos, nem a relação da nossa vida com ele. Temos uma frequência sumariamente turística e petisqueira com alguns lugares mais promovidos.
Da cultura portuguesa e no que toca às artes, fora este ou aquele monumento mais visitados ao domingo durante a volta dos tristes, somos de uma fúnebre obtusidade. Da língua, estamos falados. Não me refiro apenas ao desconhecimento da sua história. Sucessivas gerações ligadas ao ensino têm dado cabo dela e contribuído para o seu abastardamento. Práticas diárias na comunicação social coadjuvam essa torpeza. É estropiada por toda a gente em todas as áreas do quotidiano e do saber. Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente."

Depois, sobre a actual literatura que se publica em Portugal, afirma: "Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias."

Mas, perante tal descalabro, que fazer? Segundo ele, "o que é preciso é fazer alguma coisa que fique do lado de fora das estatísticas e das apreciações formais da competências. O que é preciso é a promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários, sem exacerbamentos nacionalistas nem patriotinheirismos ridículos e fora de prazo. E também é preciso pôr estes valores, no seu vasto e múltiplo conjunto e nas suas interligações ao alcance do maior número possível de cidadãos, independentemente do trajecto que tenham feito ou façam nos níveis do ensino secundário e do ensino superior".

Alertando também, e muito bem, para o facto de que "não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas. Essa falta também se faz sentir, tanto ou mais do que as apontadas no tocante à História, à Geografia, às artes, à língua e à Literatura".

Para reflectir. Seriamente.

5 comentários:

  1. Junte-se a isto a arrogância dos ignorantes. Há quinze dias, uma aluna do 12ºano de um curso profissional dizia-me que percebia muito de literatura. E outra ficou ofendida por eu menorizar Nicholas Sparks. Um gajo tem de se esforçar por não rir perante estes broncos que se acham alguma coisa.

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  2. É verdade! Há uns tempos, um autor que entrevistei contou-me uma história que reflecte bem essa atitude. Um técnico de informática que foi a casa dele resolver um problema no computador admirou-se com a dimensão da biblioteca pessoal dele. Mas defendeu-se prontamente, dizendo: "Nunca li um livro na minha vida, mas não critico quem leia."

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  3. O típico modernista. Fica horrorizado com a ignorância histórica das novas gerações e não se apercebe ou não lhe convêm perceber o porquê de tal situação. Mais, para não parecer aos olhos de liberais e socialistas um perigoso reaccionário atira: "O que é preciso é a promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários, sem exacerbamentos nacionalistas nem patriotinheirismos ridículos e fora de prazo. E também é preciso pôr estes valores, no seu vasto e múltiplo conjunto e nas suas interligações ao alcance do maior número possível de cidadãos, independentemente do trajecto que tenham feito ou façam nos níveis do ensino secundário e do ensino superior". De uma contradição e demagogia tão óbvias que nos lembram que Vasco Graça Moura não deixa de ser um político profissional.

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