domingo, 10 de novembro de 2013

Quando a Europa descobriu o mundo

A grande gesta lusa dos Descobrimentos não seria possível sem o auxílio da técnica. Um dos instrumentos essenciais para navegar eram as chamadas “cartas-portulanos”, verdadeiros livros de instruções náuticas. Esteve patente na Biblioteca Nacional de França, em Paris, entre 23 de Outubro de 2012 e 27 de Janeiro de 2013, uma exposição intitulada “A Idade de Ouro das Cartas Marítimas”, onde o nosso país mereceu natural destaque pelo seu papel fundamental e precursor neste período histórico. Entre as peças fantásticas que vi havia várias cartas portuguesas, mas nenhuma delas pertence a um museu nacional. Uma viagem no tempo para recordar uma época de extrema importância na História de Portugal e da Europa, que nos faz reflectir sobre a nossa atitude perante o património. Aqui fica o que escrevi na altura para «O Diabo».


Biblioteca Nacional de França

O nome da estação de metropolitano é Biblioteca François Miterrand, estamos na Linha 14, em pleno XV Arrondissement, na margem esquerda do Sena. É uma linha nova, de finais dos anos 90 do século passado, onde um português estranha automaticamente a protecção que existe no cais e que impede o acesso à linha. Quando chega um comboio abrem-se as portas das carruagens e as dessaa barreira. À saída descobre-se um bairro de arquitectura moderna e ruas em quadriculado.
Anunciada pelo então Presidente Miterrand em 1988, a quem deve o nome, o novo edifício da Biblioteca Nacional de França (BNF) só seria inaugurado em 1996, depois de alguns problemas na sua construção. É um conjunto impressionante que alberga mais de 30 milhões de peças, das quais 14 milhões são livros e publicações, de uma instituição que remonta a finais do século XVIII.
É uma manhã fria de céu cinzento, cujas nuvens ameaçam chuva. As pessoas movimentam-se apressadas pelas ruas e nas muitas que se dirigem para a BNF é possível distinguir várias nacionalidades. Há estudantes, investigadores ou meros curiosos que se acumulam à entrada para a revista de segurança obrigatória.

Na exposição
Passando a loja da BNF, a distância a percorrer é curta. É irresistível olhar para a esquerda envidraçada do corredor e observar as árvores frondosas que formam uma floresta em miniatura no espaço entre os edifícios altivos.
A entrada para a exposição é discreta. Passado o torniquete, pisamos Portugal. É a imagem de uma dessas cartas de outros tempos que está reproduzida num pequeno corredor de acesso, ocupando as paredes laterais e o chão. É quase infantil, mas nem por isso deixa de ser divertido “tocar” no estrangeiro a “ocidental praia lusitana”.
Há bastante público, mas é possível circular sem atropelos. Os visitantes são variados, da habitual turma escolar a um grupo de homens mais velhos que parecem oficiais de Marinha na reserva, passando por dois “jovens” vindos com certeza dos subúrbios.
Na primeira sala, ouve-se um verdadeiro entendido, seguramente um dos responsáveis pela exposição, que conta apaixonadamente o evoluir da cartografia marítima a um sujeito que vai demonstrando a sua ignorância através de perguntas tão disparatadas como o seu ar convencido. A explicação viria no fim da visita, quando o mesmo sujeito falava junto à carta de Mercator com um ar sapiente para uma câmara de televisão. Uma curiosidade que mostra bem a ilusão dos ‘media’.


Uma colecção impressionante
A própria BNF reconhece as cartas expostas fazem parte dos seus “tesouros”. São documentos científicos de excepção que nos transportam no tempo, para a era gloriosa dos corajosos navegadores que descobriram o mundo e o foram registando cartograficamente.
Estas cartas marítimas, chamadas “portulanos”, são iluminadas em pergaminho e de extraordinária beleza. Têm a sucessão dos portos ao longo da costa e no espaço marítimo estão assinaladas as linhas que correspondem às direcções da bússola. Um sistema gráfico que permitia aos marinheiros orientarem-se.
A BNF possui a maior colecção do mundo de “portulanos”, com cerca de cinco centenas destes objectos de inovação técnica que são hoje verdadeiras obras de arte, muitas delas de rara beleza, dimensões impressionantes e extraordinária policromia.

Idade de Ouro
O mais antigo “portulano” ocidental conhecido é a famosa “carta pisana”, do fim do século XIII. É uma das primeiras peças que podemos ver nesta exposição que junta uma selecção de cerca de duzentos objectos, entre cartas, globos, instrumentos astronómicos, obras de arte e de etnografia, desenhos, estampas, quadros e manuscritos. Muitas pertencem à colecção da BNF, mas muitas outras vêm de museus franceses, estrangeiros ou de colecções regionais.
A exposição aborda várias temáticas como as condições de navegação e a utilização das cartas, a descoberta da África, Ásia, Américas e do Pacífico e as rivalidades entre as potências marítimas e a criação e difusão de uma iconografia dos Novos Mundos.

Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453)

Peças portuguesas
Nas várias peças portuguesas expostas o destaque vai naturalmente para as muitas cartas, de vários autores, como João Teixeira Albernaz, Gaspar Viegas, ou Domingos Teixeira. Para além destas, é possível ver o livro de Francisco Alvares sobre o Prestes João, de 1540, uma cruz de procissão etíope em latão, datada do século XV, a Crónica dos feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, de 1453, uma estatueta que representa um soldado português visto por um artista africanos, dos séculos XVI-XVII, uma réplica do Padrão de Santo Agostinho, cujo original está na Sociedade de Geografia de Lisboa. É também sempre bom ler que a caravela era “um barco para enfrentar o desconhecido”, acrescentando que esta invenção portuguesa “teve um papel capital na história das grandes descobertas”. Para lembrar a altura em que Portugal e Espanha dividiram o mundo, podemos ver um fac-símile da versão portuguesa do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Por fim, o chamado Atlas Miller, devido ao nome do seu último proprietário antes de ter sido comprado pela BNF, um impressionante conjunto de cartas feitas pelos cartógrafos Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, em 1519.

Atlas Miller, de Lopo Homem e Pedro Reinel (c. 1519).
Outras peças
Há também peças impressionantes de outras origens, das quais se destacam o “Livro das Maravilhas”, de Marco Polo, de 1298, o Atlas catalão, de 1375, ou a Carta Salviati, de 1525. Muitas destas estão disponíveis para consulta na Gallica, a biblioteca de documentos digitalizados em linha da BNF.

Património
Ao mesmo tempo que gostamos de ver Portugal referido por feitos maiores em importantes exposições no estrangeiro, não deixa de nos entristecer que nos vários museus que colaboraram não há um único nacional.
Devemos questionar-nos por que peças de elevada importância para um período tão rico da nossa História não foram por nós compradas. É claro que depende da situação económica do País e da altura em que as cartas foram adquiridas. No entanto, sabemos bem como o património é por tantas vezes menosprezado pelos nossos governantes e por quem mais o devia preservar.
Um exemplo de apelo aos populares à participação na recuperação de património nacional em França lançada pela BNF foi a compra do “Livro de Horas de Joana de França”, de 1452, considerado como tesouro nacional pelo Ministério da Cultura francês no ano passado. Todos os que contribuem são considerados mecenas e beneficiam de deduções fiscais. Na altura, Bruno Racine, presidente da BNF, afirmou: “Numerosos serão os que, tenho a certeza, compreendem a necessidade de guardar em França este tesouro nacional e que nos ajudarão a adquiri-lo, quaisquer que sejam os seus meios.” Uma demonstração de orgulho nacional. Um exemplo para nos inspirar?

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