sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Uma sina nacional?

Parece que a euforia da conclusão de mais umas eleições autárquicas faz esquecer os problemas que afectam o poder local e silenciam os seus críticos. Por momentos, dá a ideia que não vivemos num país em profunda crise, sustentado por empréstimos exteriores, baptizados eufemisticamente como “auxílio financeiro”. É óbvio que nos ajudam a curto prazo, mas o preço a longo prazo pode ser demasiado alto. Como sabemos, aos instalados interessa a manutenção de uma situação onde continuem a prosperar, mesmo perante a miséria crescente de grande parte da população.

O problema não é de hoje e os actores pouco mudam. Podemos mesmo recuar à origem dos municípios portugueses, porque já na Idade Média, estudando as Inquirições, descobrimos que várias queixas dirigidas ao Rei, com a devida distância e as necessárias adaptações, têm um impressionante paralelo com o que vivemos hoje. Ao longo da nossa História é possível observar o mesmo. No nosso passado recente, recorde-se como tantas elites locais dominantes durante o Estado Novo, se mantiveram depois do 25 de Abril, transformando-se, de um dia para o outro, em “revolucionários” e mais tarde democratas.

Muito provavelmente, estará aqui a razão de ser da perpetuação de uma representação local que não satisfaz os interesses das populações, mas apenas de determinados grupos. Será uma sina nacional?

Não devemos perder a esperança numa mudança possível e desejável, da mesma forma que não devemos deixar de lutar para que esta aconteça. Mas sem ilusões e, principalmente, sem a memória curta que tanto aflige uma larga percentagem dos portugueses nos ciclos eleitorais.

Outro país é possível. Portugal merece-o. Cabe aos portugueses consegui-lo.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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