domingo, 6 de outubro de 2013

“Os comunistas portugueses pararam no tempo”

Há cerca de duas semanas entrevistei José Milhazes, a propósito do recém-publicado “Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril”, livro, tem sido alvo de duras críticas do Partido Comunista Português (PCP). A obra vale a pena e a entrevista, publicada na edição de 24 de Setembro de 2013 de «O Diabo», aqui fica, para memória futura.


O DIABO – O seu livro foi alvo de fortes críticas do PCP. Já esperava esta reacção?
José Milhazes – Aqui há dois momentos a assinalar. O primeiro é o facto de a reacção ter saído antes da publicação do livro, o que é extraordinário. Mas é habitual... Faz-me sempre lembrar quando o romance “Doutor Jivago” foi publicado em Itália sem autorização das autoridades comunistas soviéticas, estas lançaram uma campanha contra o autor, Boris Pasternak, na União Soviética, onde faziam reuniões de trabalhadores, onde eles se levantavam e diziam “eu não li esse romance, mas sei que é uma merda”. Por isso, esta reacção não tem nada de inesperado. O segundo momento, que também não me surpreendeu, é que eles reagiram sobre o que talvez lhes causa mais dor e preocupação, que é a questão do desaparecimento de parte do Arquivo da PIDE.

Como se costuma dizer, quem não deve, não teme...
Exacto. No mínimo, aqui há gato. A reacção do PCP não me surpreendeu, eu ficaria surpreendido era se o PCP não tivesse reagido e não tivesse reagido da forma como o fez. Ou seja, da mesma forma clássica que, no caso do meu livro foi primeiro com um comunicado e depois com insultos, e no outro caso foi o famoso álbum publicado pelo Avante com fotografias “retocadas”, o que é uma velha tradição soviética...

Não acha estranho que se repita essa forma de agir nos dias de hoje?
O problema é esse, ele pararam no tempo. O PCP vive num mundo que já não existe há muito tempo.

É por isso que o seu livro se baseia em documentos e testemunhos?
Quando se escreve História, especialmente uma História ainda recente – são 40 anos – e sobre temas muito sensíveis tem que se ter muito cuidado. Ou se justifica e encontram documentos e declarações que confirmam aquilo que se está a escrever, ou não vale a pena escrever. Eu não sei escrever livros de ficção.

Mas mesmo assim atacaram-no...
Sim. Por exemplo, uma das acusações que me foi feita, na internet, foi porem em causa a conversa entre o Gorbachov e o Cunhal, que eu retirei do Arquivo da Fundação Gorbatchov. Fui acusado de que a conversa entre os dois dirigentes era tão primitiva que fazia lembrar uma redacção da 3.ª classe. Neste caso, disse que não respondo pelo QI dos políticos. Não posso pegar nesse dialogo e transformá-lo numa conversa altamente intelectual. A conversa foi aquela, o documento foi aquele.

Há aspectos importantes que não criticam...
Porque eles não têm forma de argumentar. No caso dos arquivos da PIDE e como eles não tinham os livros, disseram que era tudo falsidades, porque citam “traidores”. Ora, eu não citei só “traidores”, mostro também como através do Arquivo da PIDE é descoberta uma infiltração da CIA no KGB. Aqui já não são os “traidores” que declaram, são os próprios russos e soviéticos que contam a história. Mas há uma coisa, se eu tivesse dito mentiras flagrantes, era muito simples, metiam-me um processo em tribunal por difamação. Mas eles não vão por aí.

O PCP nega que tenha entregue parte dos arquivos da PIDE ao KGB?
Claro que nega. É claro que pode ter sempre uma explicação ideológica, por ser uma situação revolucionária, no âmbito do internacionalismo proletário, uma ajuda aos irmãos soviéticos a desmascararem as infiltrações da CIA. Quer dizer, pode-se arranjar toda uma panóplia de justificações. Mas eles continuam a dizer que não.

Mas os arquivos estão na Rússia?
Eu acho que eles lá estão. Aliás, já não tenho dúvidas há muito tempo de que eles lá estão.

Acha que algum dia serão abertos ao público?
Sabe que essa coisa do “algum dia” é sempre muito relativo. Porque nós não sabemos o que vai acontecer amanhã. Eu nunca imaginei que a União Soviética acabasse tão depressa como acabou, por exemplo. Neste momento, os arquivos soviéticos estão outra vez fechados a sete chaves, depois da chegada de Putin ao poder. É claro que pode haver uma abertura, mas eu sou muito céptico quanto a isso porque na Rússia há uma grande tradição de se esconder os arquivos.

Qual a importância dos testemunhos dos intervenientes na época?
Perante essa dificuldade de acesso aos documentos, têm grande importância as memórias que são escritas por pessoas que participaram nos acontecimentos, nomeadamente agentes secretos soviéticos que trabalharam em Portugal ou de altos funcionários soviéticos que também estiveram ligados ao chamado período revolucionário em Portugal.

Há um aspecto bastante importante, que é o facto de o 25 de Abril ter surpreendido tanto os soviéticos como o PCP. Dá a ideia que eles estavam a preparar a revolução, mas que perderam o comboio...
Exactamente. A política do PCP enquadra-se facilmente na ideologia marxista-leninista e na experiência russa. Tal como Lenine defendeu a teoria da transição da revolução burguesa para a revolução proletária, em 1917. Álvaro Cunhal seguiu, como se costuma dizer, a cartilha tradicional, quis transformar a revolução burguesa em proletária. Daí vem a política em relação à reforma agrária, às nacionalizações, etc. Eles não inventam nada de novo. Apenas conseguem uma coisa que é diferente, pois atingiram algumas metas antes da “revolução proletária”, como foi a reforma agrária e a nacionalização de uma grande parte de empresas, pois isso devia acontecer depois da revolução e não antes. Isto dava-lhes a ideia de que teriam grandes possibilidades de chegar ao poder.

Mas o interesse principal dos soviéticos não era a África portuguesa?
Dentro da direcção soviética havia várias opiniões. Havia os que, tendo informações de que o PCP dominava as Forças Armadas, defendiam que se devia avançar. No entanto, havia outros, mais sensatos, como Gromiko e Brejnev, que achavam que não podiam comprometer o desanuviamento e o processo de Helsínquia em causa com uma revolução comunista em Portugal. Agora, a questão das colónias é interessante porque gera a questão de ter havido, ou não, um novo tratado de Tordesilhas, entre soviéticos e norte-americanos. Ou seja, um acordo no qual era definido quem ficava com o quê.

Acha que houve um acordo desse tipo?
Há uma questão que me leva a pensar que teria havido, pelo menos em termos verbais, algum acordo de cavalheiros. Angola passou para a esfera soviética completamente, excepto no petróleo de Cabinda, esse continuou a correr para os Estados Unidos. Tinha que haver um acordo, porque eles podiam nacionalizar aquilo e correr com os norte-americanos, que vinham de uma derrota no Vietname. O Governo marxista do MPLA continua a permitir um “tumor” capitalista, ainda por cima num sector tão importante para Angola como é o do petróleo...

A geopolítica fala mais alto que a ideologia...
Exactamente. No meu livro tento, embora não em termos geopolíticos, mostrar que Portugal, naquela altura, era um peão muito importante no jogo da Guerra Fria. Há um combate intenso pelo nosso país. Isso aí seria uma questão de princípio para a NATO ou para a Europa Ocidental, que era ter no extremo ocidental europeu uma nova Cuba, ou uma nova Coreia do Norte, não sei para onde iriam os ventos... Isso rebentaria completamente com todo o processo de Helsínquia e até com os resultados da Segunda Guerra Mundial e a definição de fronteiras que existia na Europa.

Em relação a Álvaro Cunhal, parece que vivemos um verdadeiro processo de santificação...
Exactamente. O Papa Francisco deve andar muito preocupado com esse problema (risos). Por isso o papel dos historiadores é importante, porque não operam com mitos, operam com personalidades e personagens da História. Neste caso, estamos perante uma personalidade multifacetada e muito complexa da nossa História recente que devemos analisar de vários pontos de vista. Por exemplo, eu não coloco em causa o facto de Álvaro Cunhal ter dado um contributo para a queda do chamado Estado Novo. Agora, o que eu chamo a atenção é para que é necessário analisar o outro lado da moeda, que é: qual é o programa político que ele propunha para o nosso país? Isso tem tanto peso como o anterior.

O programa continua a ser o mesmo hoje?
Não tenho dúvidas. Pelo menos em termos programáticos não tenho visto qualquer alteração em relação aos clássicos do marxismo-leninismo.

E em relação ao tratamento de Cunhal na prisão? Cita no seu livro o espanto de uns dissentes soviéticos com o facto de ele poder receber livros enquanto estava preso, por exemplo.
É lógico, se compararmos com o Estalinismo. É claro que as comparações são sempre muito relativas e não vou estar a dizer que uma coisa era pior que a outra. Venha o Diabo e escolha... Embora estar preso por ideias seja uma violação em qualquer regime, as condições que as pessoas têm nas prisões são muito importantes. Isso até é um sinal de civilização. Agora, entregavam-lhes livros, mas também os torturavam. É verdade, mas tudo isso tem que ser pesado e analisado com calma e sem fazer mitologia. Trata-se de um político, de um homem muito importante na História de Portugal, e é assim que deve ser olhado pelos historiadores, não como alguém que não tem pecados.

Cunhal também era muito privilegiado na União Soviética. Havia uma estratificação dos privilégios?
A sociedade soviética estava extremamente estratificada e essa estratificação reflectia-se em tudo. Até dentro da chamada nomenclatura. Havia uma série de regras, muito fixas, que davam privilégios consoante o lugar que se ocupava na hierarquia política.

Isso vai contra o que era apregoado pela União Soviética...
Exactamente. Mas como dizia Orwell, um génio de futurologia, somos todos iguais, mas há uns mais iguais do que outros. O “somos todos iguais” é um dos mitos que nos tentaram vender de que na União Soviética todos tinham oportunidades iguais. Não. Havia uma estratificação, havia carreira. Penso que uma das causas da queda rápida do comunismo na URSS é exactamente esse. A grande parte das pessoas que estavam no partido não estavam lá por convicção, estavam para fazer carreira. Quando começa a haver problema, saltam fora. Se virmos a actual direcção da Rússia, praticamente todos passaram pelo Partido Comunista ou pela Juventude Comunista.

Como classifica essa atitude?
Hoje chama-se a isso “pragmáticos”. É a classe política mais numerosa na Europa e no nosso país.

E os comunistas de então que descobriam que afinal a União Soviética não era bem o que dizia ser?
Esses eram castigados. Um dos casos mais evidentes é o caso do Chico da CUF. Nesse aspecto, eu não escrevo nada de novo, cito as memórias dele, onde ele mostra exactamente isso. Quem pecava era imediatamente castigado e um dos castigos era o corte nos privilégios.

Mas como é que os seguidores da União Soviética aceitavam isso?
Não se trata apenas de aceitarem. Eles continuam a tentar-nos convencer de que assim é que estava certo. Esse é que é o drama, é continuarem-nos hoje a dizer que eles é que tinham razão.

Porque é que em Portugal não houve um “eurocomunismo” à semelhança de França, Itália ou Espanha?
Não, porque dentro do PCP qualquer desvio era imediatamente cortado. As pessoas eram imediatamente expulsas. Se dentro dos partidos comunistas francês, italiano ou espanhol podia haver lugar para discussão, no interior do PCP qualquer tipo de divergência era castigado com a expulsão. É isso que acontece quando no período da Perestroika soviética, quando se começa a discutir dentro do PCP, a discussão resume-se a uma coisa: quem tem uma opinião diferente da do camarada Álvaro Cunhal, vai para a rua.

Mas recentemente, com o chamado grupo dos chamados renovadores comunistas, aconteceu o mesmo...
Mas isso é normal em partidos de estrutura estalinista como tem o PCP. E vai continuar assim. Ou há alguma mudança de rumo, ou então vão continuar assim, eternamente, até que se justifique a existência deles.

Qual o objectivo principal do seu livro?
Eu quis dar o meu contributo para as pessoas perceberem o que se passava na União Soviética naquela altura em relação a Portugal. Esta foi a minha principal ideia. Agora, tentarem desviar as atenções, acusando-me de dizer mal do Cunhal e outras coisas, não é verdade. É por isso que eu digo ao críticos que não lêem o livro, primeiro leiam e depois critiquem à vontade.

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