segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ainda (e sempre) o Acordo Ortográfico

Para muitos portugueses, preocupados com os cortes sucessivos que os vão esmifrando diariamente, o problema do Acordo Ortográfico é secundário. Mas as dificuldades económicas não podem levar-nos a menosprezar o património essencial que é a nossa Língua.


Ontem, na «Pública», Nuno Pacheco reconhecia que “já cansa falar disto”. Mas, a propósito da dupla grafia que encontrou num documento oficial tão importante como o Orçamento de Estado, recordou que, “para lá do simples problema ortográfico (e a admissão de duplas grafias é contrária à própria noção de ortografia) existe um óbvio problema fonético. A pseudo-reforma "unificadora" que nos vendem finge ignorar que a escrita não é apenas uma convenção mas, também, seguindo os códigos da fala (neste caso, da portuguesa), um guia para a leitura. Se a uma pauta de música para, por exemplo, uma sinfonia, tirarmos alguns dos sinais gráficos usados para guiar os músicos na sua execução, a pretexto de "simplificar" nas pautas a escrita musical, teremos sérios problemas no dia do concerto. A escrita musical também teve reformas ao longo da história, mas mexer num padrão estabilizado sem cuidar do resto era e é um sarilho”.

Explica Nuno Pacheco que “se lermos "setor" à luz dos mesmos padrões que nos fazem ler de forma correcta "senhor", "serrador", "setenta", "serviço", etc., só podemos ler "s’tor". Nada nos leva a ler "sétor". Isso ou, como já sucedeu em Portugal no passado, quando o "e" era geralmente aberto na leitura e se usava o acento circunflexo para alterar o seu som ("êle", "pêso", etc.), passaremos a ler "sénhor", "sérrador", "sétenta", "sérviço", etc. Além disso, como é público, há quem leia "séktôr", "sétôr" ou "sêtôr", já para não falar na forma como no Brasil, escrevendo-se "setor" (sem o c) se lê, habitualmente, "cêtôrr". Isto põe, desde logo, um problema básico: ou em Portugal existe uma única forma de escrever "sector" e palavras afins ou, então, deixa-se ao "escrevente" a escolha. Malaquices, portanto, a que nenhum ser humano com um mínimo de inteligência deveria anuir. É isso, adivinharam: um profundo disparate. A lógica é a mesma do "ai aguenta, aguenta" usado por um senhor para falar do povo e da austeridade. Cuida-se que, tirando as letras que se tirarem, o povo aguenta e fica tudo na mesma. A fala não se altera, garantem, só a escrita. Azar o deles: a fala anda associada à escrita mas não do modo que eles imaginam. Tirar o "c" a "efectivo" é um convite, por cá, a que a palavra se leia "ef’tivo", como miseravelmente já por aí se lê. Aliás, como era perfeitamente óbvio que viria a acontecer. No exacto ponto em que se encontram os códigos vocálicos português e brasileiro, não há escrita que os unifique. O que o acordo ortográfico, na sua parlapatice unificadora, quer forçar é uma impossibilidade prática. A pretexto da simplificação, excluem-se letras que tinham, e têm ainda, a sua função para efeitos fonéticos. Problema nenhum, dizem. Toda a gente sabe como se diz a palavra, por isso simplifiquemo-la. Se se diz "sétor", pode escrever-se "setor". Ora experimentem usar a mesma técnica nos sinais de trânsito. Numa rua de sentido proibido tirem o sinal, confi ando que toda a gente já o decorou, e vão ver o que acontece”.

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