segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A tirania da auto-ajuda


"Os manuais de auto-ajuda são exemplos de tirania. De pequenas tiranias consumidas por escravos dóceis e fiéis que acreditam em dois equívocos. O primeiro é conhecido: não existe manual de auto-ajuda que não apresente o infortúnio como um elemento estranho à condição humana. A tristeza é uma anormalidade, dizem. O fracasso não existe e, quando existe, deve ser imediatamente apagado, ordenam. Na sapiência dos manuais, a infelicidade não é um facto; é uma vergonha e uma proibição.

O que implica o seu inverso: se a infelicidade é um proibição, a felicidade é obrigatória por natureza. Obrigatória e radicalmente individual. Ela não depende da sorte, da contingência e da acção de terceiros: daqueles que fazem, e tantas vezes desfazem, o que somos e não somos. Depende, exclusiva e infantilmente, de nós. O tom é militar e marcial; a felicidade é uma batalha e uma conquista. E eu rendo-me ao primeiro disparo. Quem suporta semelhante fardo? Quem consegue suportar a obrigação totalitária de ser feliz?

Todos os dias, um batalhão de brasileiros corre às livrarias do bairro em busca do que não pode ser procurado. Apenas vivido e, sem explicação ou regra, encontrado quando encontrado. A "busca da felicidade" não passa de um cliché televisivo que só alimenta a infelicidade dos desesperados."

João Pereira Coutinho
in "Avenida Paulista".

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