quinta-feira, 12 de setembro de 2013

“Tenho direito”

O editorial da semana passada, sobre os chamados “direitos adquiridos”, mereceu alguns comentários e críticas. No entanto, regresso ao tema porque o essencial, como então afirmei, era a atitude.

A este propósito, lembrei-me de uma excelente crónica de Arturo Pérez-Reverte, intitulada “A loja do meu amigo”, que exemplifica perfeitamente a situação actual, onde tantos optam pela passividade, encostados a “direitos”. Resumindo, Pérez-Reverte foi a uma loja no centro da cidade e falou com o proprietário, seu amigo, que se queixou da falta de clientes. Um dos efeitos da crise, que afecta o pequeno comércio. Mas o escritor espanhol fez algumas perguntas incómodas. Porque não abria ele o estabelecimento ao sábado à tarde, quando há mais movimento na rua? Porque tem “direito” ao descanso, respondeu-lhe indignado o amigo. Mas Pérez-Reverte não se ficou e perguntou porque não punha o filho, recém-formado e desempregado, a abrir a loja? Não podia, porque o filho “não gosta” desse trabalho. Ou seja, tem “direito” a esperar por um emprego de sonho.

Os autoproclamados “direitos” são, na maior parte das vezes, desculpas para não fazer. Como escreveu Pérez-Reverte: “Uma pessoa tem direito a tudo, naturalmente. Mas apenas quando se pode permiti-lo”. Tal como reza o ditado português, “quem não tem dinheiro, não tem vícios”. Quer isto dizer que todos têm “direito” a uma vida de facilidades, mas nem todos a podem ter.

Voltando à atitude, o escritor espanhol tocou na ferida, quando disse ao amigo: “Se esta crise infame tivesse estalado no tempo dos nossos pais, essa sim uma geração lúcida, sacrificada e admirável, eles não demorariam a mandar-nos trabalhar para a peixaria da esquina para trazer dinheiro para casa.”

Um exemplo do passado que muitos confortavelmente preferem ignorar, agarrando-se a “direitos”. Uma atitude que, aparentemente, só a necessidade extrema alterará. Já não falta muito...

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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