terça-feira, 24 de setembro de 2013

Na morte de António José de Brito

Portugal é um país onde parece que se descobrem na morte de alguém as virtudes que não reconhecemos em vida. Não será assim com António José de Brito. Em primeiro lugar, há a destacar o seu extraordinário contributo para a Filosofia em Portugal, normalmente esquecido ou secundarizado, até pelos que lhe eram próximos. Como afirmou um grande amigo dele – e meu – “desapareceu o último hegeliano português”.

Os seus inimigos – porque os tinha, tal como tinha muita honra – sempre o atacaram, reduzindo-o à mera classificação de “fascista”. O insulto, no entanto, era aceite como um elogio e o tiro passava-lhe ao lado.

Conheci António José de Brito quando tinha catorze anos, num Congresso onde os mais velhos me asseguraram estar perante uma grande referência do nacionalismo português. E foi exactamente pelos livros de doutrina política que comecei a leitura da sua extensa obra.

Nem sempre estive de acordo com as suas opiniões, é certo. Noutro Congresso, mais de uma década passada, uma intervenção minha enfureceu-o. Afastámo-nos, naturalmente, mas sempre com tantos amigos em comum a ligar-nos.

Mais tarde, foi “O Diabo” que nos aproximou, jornal onde voltou a colaborar já durante a minha direcção. Não consigo esconder o orgulho de este ter sido o último reduto que acolheu os seus textos.

O nosso derradeiro encontro foi marcante. Foi num jantar no seu restaurante habitual, no Porto, a sua cidade, com velhos camaradas e um jovem que o conheceu pela primeira vez. Confesso que a sua boa disposição naquela noite me fez esquecer a sua provecta idade e os problemas de saúde que já o afligiam. Era um homem tão intransigente como divertido e é assim que me lembrarei sempre dele. As histórias com que nos deliciou, polvilhadas pela sua ironia e o seu sentido de humor cáustico, valeram valentes gargalhadas. A sua memória prodigiosa mantinha uma exactidão impressionante e lembrava-nos o professor que nunca deixou de ser.

Em meu nome e da Redacção, endereço à família os mais sinceros pêsames. Que descanse em paz.


Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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