quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O poder dos locais

À beira de eleições autárquicas, regressam várias críticas à corrupção e ao tráfico de influências nos órgãos locais. Não caindo em perigosas generalizações, que consideram que tudo está mal na condução dos municípios nacionais, todos nós sabemos ou ouvimos alguma história que reflecte uma realidade demasiado comum. Infelizmente, na maior parte dos casos, quem presencia tais situações prefere o silêncio ou anonimato, fazendo perdurar o estado de coisas que critica.

Esta semana soube de um caso concreto de um jovem recém-licenciado de Lisboa que, sem emprego, regressou à terra dos avós, no Alentejo, para tentar a sua sorte. Cedo se envolveu nos assuntos locais, sem quaisquer pretensões políticas, tentando alertar a população para a actuação das figuras mais influentes da vila. Esta postura de “estrangeiro”, que chamou a atenção de muitos habitantes, não caiu bem aos “senhores” da terra, bem instalados.

Entre vários episódios, alguns caricatos, há um que é paradigmático. Depois de criticar, num fórum de Internet, a tentativa de construção de um grande empreendimento turístico na região, recebeu um estranho telefonema. O edil local, que não conhecia pessoalmente e a quem não tinha dado o seu número de telemóvel, ligou-lhe dizendo que compreendia a sua posição, mas que este era um investimento muito importante, apelando ao “bom senso”, atitude que “deveria ser de parte a parte”.

Nesta simpática linguagem cifrada percebe-se rapidamente como se movem influências à mais pequena escala, para manter os mesmos interesses de sempre, distribuindo algumas migalhas. É o princípio do “passa para o nosso lado e serás recompensado”. A pessoa em questão acabou por voltar à capital e tudo ficou como dantes...

Estes quadrilheiros das ditas “elites” locais não representam os seus, mas tão somente os seus interesses. A prioridade no poder local deve ser a da comunidade e partir dos próprios. Talvez por isso não seja de estranhar os movimentos de independentes que começam a germinar.


Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

1 comentário:

  1. «Estes quadrilheiros das ditas “elites” locais não representam os seus, mas tão somente os seus interesses.»

    São como as nacionais - só representam os seus interesses e os dos seus donos.

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