quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O jornalismo antes do 25 de Abril e hoje

Infelizmente, continua a haver quem se esforça insistentemente para fazer perdurar a ideia de que antes do 25 de Abril era tudo mau e depois ficou tudo bem. É óbvio que esta visão binária da nossa História contemporânea não faz sentido. Gostei, por isso, de ler a entrevista que o «i» fez a Fernando Dacosta, em especial as respostas relativas ao jornalismo.

Começa por dizer que, nesse tempo, "os jornais tinham um ambiente muito engraçado e livre. Não eram nada a pasmaceira que são hoje. Hoje são praticamente câmaras de tortura, com as pessoas aterrorizadas". Acrescentando que "nesta altura era tudo contra o Salazar e contra o Estado Novo; era uma alegria. Liam-se os jornais da véspera, as coscuvilhices políticas, as conspirações que estavam a ser preparadas, as de sempre, razão pela qual o Salazar esteve lá até ao fim [risos]".

Sobre as condições de trabalho, afirma sem papas na língua: "À tarde não se fazia nada. Íamos passear. E à noite era farra. Ganhava-se bem. Quem diz que se vivia muito mal antes do 25 de Abril é uma treta. Em 73 estava a ganhar 17 contos no 'Diário de Lisboa', o que era uma fortuna." E sobre a suposta ignorância de então, é arrasador: "Os jornais eram habitados por grandes vultos da cultura. Acho muita graça quando os novos vêm dizer que antigamente eram todos analfabetos. Veja lá, eu trabalhava com os analfabetos José Saramago, José Cardoso Pires, Herberto Hélder, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, Luís de Stau Monteiro. Hoje rio-me quando ouço essas coisas."

Talvez o mais curioso nesse meio dos jornais, para quem não saiba, é a solidariedade profissional de então. Dacosta diz que "havia uma coisa notável que era o sentido de camaradagem, que era superior às convicções ideológicas. A classe unia-se. Entre o 'República', na Rua da Misericórdia, e o 'Diário da Manhã', que era do governo e ficava em frente, quando faltava papel para sair o jornal, emprestavam um ao outro".

Já sobre o pós-25 de Abril afirma: "os jornalistas, depois dos militares, foram a classe mais importante para o 25 de Abril. Depois veio a democracia, a tentativa grotesca de os partidos políticos transformarem os jornais em órgãos da propaganda política, que foi uma machadada brutal na sua credibilidade. Depois, esta situação que temos, com a ditadura economicista, que é uma maneira de controlar a informação. A censura prévia controla pelo corte e pelo silêncio, a democracia é pelo contrário, controla pelo chinfrim".

Sobre as alterações na imprensa em Portugal é esclarecedor: "Nessa altura, quando ia para um jornal, tinha já em perspectiva um outro. Não havia desemprego. As pessoas eram acarinhadas e recompensadas. Não éramos contratados a prazo, como agora. Havia realmente o problema da censura, mas hoje a manipulação é maior. A censura é apenas um capítulo do controlo da informação. Hoje há a obrigatoriedade de dizer. A Natália Correia, a certa altura, diz assim: 'Tão censurante é impedir de dizer como obrigar a dizer.' Basta ver o caso Casa Pia. Como rendia, lá se escrevia para encher. Hoje, o conselho que dou é que se resguardem, que não digam o que pensam, que tentem resistir."

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