quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A museificação da Europa

Se há obra em que se veja a aplicação dos fundos comunitários é na preservação do património arquitectónico. Por toda a Europa, e Portugal não é excepção, é notória a extraordinária recuperação dos chamados centros históricos das cidades. Este é, sem dúvida, um trabalho muito importante: o da salvaguarda da memória.

No entanto, há um lado bastante negativo que não deve, nem pode, ser desprezado. A criação de verdadeiras cidades-museu, preservadas em redomas, impõe uma realidade estática, parada no tempo. São locais sem vida, dirigidos principalmente (quando não exclusivamente) ao turismo. Os novos exploradores que nos visitam, vindos do Novo Mundo, ou das chamadas potências emergentes, vêm à procura de uma recordação ‘in situ’. Ora, o património deve ser algo vivo e sentido, em permanente renovação. A cultura com que nos identificamos deve ser um movimento que, vindo do passado, se projecta no futuro – com força, ambição e destino.

Ao perder a sua capacidade produtiva, deslocalizando a sua indústria, ao não garantir a renovação das suas gerações, ignorando o envelhecimento generalizado da sua população, e cedendo aos complexos de culpa impostos pela ditadura do politicamente correcto, o Velho Continente deixa, assim, de ser uma referência mundial, para se tornar apenas num parque temático da sua História. A museificação da Europa tem um odor a morte, que é um prenúncio do declínio de uma civilização formidável.

Felizmente, os europeus, quando não perdem o seu espírito trágico, mostraram-se por muitas vezes capazes de um renascimento.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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