sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tom Sharpe (1928 – 2013)


O meu encontro com Tom Sharpe foi curioso. Na minha adolescência, em véspera de férias, durante habitual excursão à livraria que fazia em família antes da partida, a minha mãe decidiu — em boa hora — juntar ao seu lote um livro de um escritor que desconhecia. Tratava-se de “O Triunfo do Bastardo”. Uma tarde, junto à piscina, vi pela única vez que me lembro a minha mãe a rir-se enquanto lia. Decidi que seria o próximo na lista a lê-lo e assim aconteceu. Nessa mesma noite, devorei-o até altas horas sem conseguir parar. Para além de ser bem escrita e ter um óptima e criativa construção das personagens, a história era tão mirabolante como hilariante. Prometi a mim mesmo que, logo que voltasse a Lisboa, compraria mais livros deste autor e saberia mais sobre ele.

Apesar de os gostos lá em casa serem diferentes, Sharpe era consensual. Prova disso é a que Sharpeana que preenchia uma prateleira da biblioteca da minha mãe se dividiu entre mim, ela e a minha irmã. Fez sentido, era um ponto de encontro familiar.

O segundo livro de Sharpe que li foi “Balbúrdia na Cidade”, talvez o meu preferido, juntamente com “O Triunfo do Bastardo” e “Vícios Ancestrais”. O “Wilt” — ou melhor, os “Wilt” — só veio depois, mas nunca conseguiu ultrapassar aquele trio, apesar de não ficar muito atrás. Nunca senti curiosidade em ver a adaptação ao cinema, feita em 1989, e continuo a não sentir.

“Balbúrdia na Cidade” é sempre apontado, apressada e convenientemente, como uma “crítica ao regime do apartheid”. Este reducionismo é deveras enganador. É verdade que Sharpe acabou por ser expulso da África do Sul, mas critica e ridicularia a sociedade sul-africana, não esquecendo nenhuma das suas comunidades, como depois critica e satiriza a sociedade britânica quando regressa a Inglaterra. E, sim, é arrasador. Mas também arrasadoramente divertido.

Não há nada de politicamente correcto neste autor genial. Leia-se a passagem de “Vícios Ancestrais” sobre a linguagem politicamente correcta que citei aqui já lá vão uns anos...

Sharpe morreu ontem, mas deixou-nos uma bela herança.

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