quinta-feira, 2 de maio de 2013

História de uma civilização singular


Num período em que tantos europeus discutem o que é a Europa, é sempre bom ler um resumo da história de toda uma civilização. O autor, John Hirst, é professor emérito do departamento de História da Universidade La Trobe, em Melbourne, na Austrália, e escreveu “Breve História da Europa” a partir de prelecções destinadas à introdução de estudantes universitários ao estudo da História europeia.

A civilização europeia é hoje a referência no mundo, apesar de muitos a porem em causa. Os primeiros a duvidar da Europa são os próprios europeus, mas há muitos que pertencem a essa mesma civilização. É, por isso, sempre interessante ver como alguém que pertence ao legado que a Europa deixou noutras paragens – algumas bastante longínquas, como acontece neste caso – vê uma História comum a todos os que dela são herdeiros.

Este é um back to basics, não é um compêndio monumental com tudo o que aconteceu na Europa de forma pormenorizada. O autor afirma que o seu objectivo foi “identificar os elementos essenciais da civilização europeia e verificar como se foram reconfigurando ao longo dos tempos; mostrar como as coisas novas tomam forma a partir das antigas; como o antigo permanece e retorna”. Hirst diz que a única originalidade deste trabalho é o método e que aqui conta a “História da Europa seis vezes, de um ângulo diferente de cada vez”.

Os dois primeiros capítulos traçam uma brevíssima História da Europa clássica, medieval e moderna. Depois de um interlúdio sobre “o sentimento clássico”, avança para a “História mais longa”, onde aborda o tema do livro sobre diversas perspectivas. A primeira é a das “invasões e conquistas”, a seguir dedica dois capítulos às formas de governo, para depois nos falar sobre os imperadores e papas. As línguas e o povo comum são os temas dos dois últimos capítulos desta parte.

Por fim, na conclusão intitulada “O que é que a Europa tem?”. Talvez por ser australiano, Hirst não resiste a uma comparação da Europa com a civilização chinesa que considera ter sido “mais avançada durante um longo período”. No entanto, para ele, a vantagem da Europa veio do facto de o poder estar disperso, de a alta cultura ser compósita e não estar firmemente enraizada no poder secular e de um dinamismo económico não conformado ao poder dominante. É, como se vê e sem surpresa, uma perspectiva anglo-saxónica, na linha de Niall Ferguson, por exemplo. No entanto, Hirst não hesita em afirmar a singularidade europeia, concluindo: “Os historiadores económicos interrogam-se por que razão a Europa foi a primeira a industrializar-se, como se outras sociedades tivessem seguido o mesmo trajecto e fosse a Europa a atingir primeiro a meta. Patricia Crone, cujas ideias em grande medida informaram tanto este livro, deixa a pergunta: a Europa foi a primeira ou foi uma singularidade? E não tem dúvidas em responder que foi uma singularidade”.

Há uma nota de forma necessária. Infelizmente, como já acontece na maior parte das grandes editoras, este livro é publicado com a nova ortografia do famigerado (des)Acordo Ortográfico, o que só o empobrece.

Diz John Hirst que as prelecções que estão na base deste livro “foram oferecidas em primeiro lugar a estudantes australianos que tinham estudado demasiada História australiana e sabiam muito pouco da civilização a que pertenciam”. A publicação entre nós deste livro é pois importante, em especial num momento em que tantos europeus, como esses alunos australianos, sabem muito pouco da nossa civilização comum.

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