sexta-feira, 31 de maio de 2013

A propósito de 'The Great Gatsby'

Há uma semana, na sua habitual coluna no semanário «Sol», Jaime Nogueira Pinto escreveu, sob o título "Gatsby e a decadência", que "no início do The Great Gatsby, Tom Buchanan (o milionário que casou com Daisy, a paixão de Gatsby), refere alarmado a leitura de um livro de um tal Godard que profetiza a decadência da raça branca e a ascensão dos povos de cor. O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, cuja acção decorre no Verão de 1922, saiu em 1925. Oswald Spengler publicou o segundo volume da Decadência do Ocidente em 1922. Fitzgerald não sabia alemão, a tradução em inglês é de 1926, mas teve, seguramente, notícia do livro, até porque a obra de Spengler atingiu em poucos anos os 150 mil exemplares". A partir daqui, desenvolve um raciocínio sobre a "a decadência do Ocidente, melhor, da Europa".



No entanto, a inspiração de F. Scott Fitzgerald não foi a obra do historiador filósofo alemão Oswald Spengler, mas o o livro mais conhecido do norte-americano Lothrop Stoddard. Em "The Great Gatsby", o livro que Tom Buchanan refere é "The Rise of the Colored Empires", da autoria de Goddard. Aqui se nota a influência directa de "The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy", publicado em 1920, de Lothrop Stoddard, que escreveu várias outras obras sobre o mesmo tema. As semelhanças nos títulos e nos nomes dos autores não deixam dúvidas, tal como a data de publicação, anterior ao "The Great Gatsby". Há ainda a hipótese de o nome Goddard ser inspirado pelo do psicólogo e eugenista norte-americano Henry H. Goddard.

É curioso que foi esta passagem do livro que, quando estudei "The Great Gatsby" no liceu, me despertou a curiosidade e me levou a saber da existência de autores como Lothrop Stoddard e Madison Grant, principais figuras entre os chamados "racialistas científicos" norte-americanos do início do século XX. Por fim, esta referência de Fitzgerald mostra como o tema estava na ordem do dia naquele tempo.

Feira do Livro - Dia 7


Com a ida de hoje, este foi o ano em que mais dias fui à Feira do Livro de Lisboa. E não vou ficar por aqui...

O mau jornalismo habitual (X)


Na notícia "A mesquita que recebeu a extrema-direita com chá e biscoitos", o jornalista do «Público» decidiu apicantar imaginativamente a peça, ou pura e simplesmente demonstrar a sua ignorância, escrevendo: "O 'Guardian' diz que não chegavam a uma dezena, mais a sua bandeira nacionalista de São Jorge." Pelo sim, pelo não, convém recordar que a bandeira de São Jorge é a bandeira de Inglaterra, ou seja, não é redutoramente "nacionalista", como pretendido, mas nacional.

Já que a fonte é citada, veja-se o que diz a notícia do «Guardian»: "A St George's flag was nailed to the wooden fence in front of the mosque."

Épico


«O espectáculo épico nunca menoriza nem sufoca a dimensão humana da história em Lawrence da Arábia, que regressa ao sítio a que pertence: o cinema. Porque o deserto, a guerra e um destino único, pedem as vistas largas de uma tela.»

Eurico de Barros
in «Diário de Notícias»

Frase do dia

«Era tão bom que todos os nossos problemas se resolvessem demitindo o Governo...»

José Manuel Fernandes
in «Público».

Nothing's real...


quinta-feira, 30 de maio de 2013

O ócio do povo


Não deixa de ser curioso ouvir um comunista preocupado com a extinção de um feriado religioso, como o Corpo de Deus, que hoje passou a ser um simples dia de trabalho. É óbvio que o aproveitamento político não tem limites, mas só cai na esparrela quem quer. No plenário da Assembleia da República de hoje, o deputado do PCP António Filipe afirmou: "Hoje, dia 30 de Maio de 2013, é o primeiro feriado roubado aos trabalhadores. É o primeiro dia em que todos os que têm trabalho, trabalham sem receber." Parece que para os comunistas portugueses a religião já não é "o ópio do povo"... É o ócio do povo.

Feira do Livro - Dia 6


Por regra, não opto por traduções brasileiras. Acresce que os livros importados do Brasil têm cá preços proibitivos. No entanto, no stand da Dinalivro encontram-se coisas interessantes e acessíveis, como o "Do Mito ao Romance" do Dumézil. Vale uma visita.

Olhares a Leste

A Sotheby's vai leiloar, no início do próximo mês, uma espantosa colecção privada de mais de 800 fotografias tiradas na Rússia e noutros países de Leste entre 1959 e 2004, a que chamou "Changing Focus - A Collection of Russian and Eastern European Contemporary Photography", que estão expostas em Londres e que é possível ver em linha.


Para abrir o apetite, aqui fica um dos fantásticos trabalhos de Alexander Sliusarev (1944-2010). Boa viagem fotográfica a Leste!

Um samurai do Ocidente


Este foi o título que Dominique Venner deu ao seu editorial do primeiro número deste ano de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, revista que fundou e dirigiu. Agora, depois do seu suicídio em frente ao altar da Catedral de Notre-Dame, em Paris, encontramos nessas linhas uma reflexão que nos leva a compreender e respeitar o seu acto trágico de sacrifício. Aí expressou um paradoxo premonitório: “Morrer é por vezes uma outra maneira de existir. Existir face ao destino”.

Desde que descobri a sua obra que este historiador e pensador me marcou e influenciou profundamente. A sua partida abalou-me, mas compreendi que não foi uma desistência. Foi o culminar de um percurso completo, de uma vida plena dedicada ao que acreditava e sentia  a de um combatente que lutou até ao fim e morreu de pé. Lembrei-me automaticamente de Yukio Mishima e de Drieu La Rochelle, entre outros.
Recordou nesse texto que “a morte tanto pode constituir o mais forte dos protestos contra uma indignidade como uma provocação à esperança”. Que melhor motivo para a sua última decisão?

“Rebelde por fidelidade”, como se definiu no autobiográfico “Le Coeur Rebelle”, esteve sempre ligado ao seu povo e às suas raízes ancestrais, considerando que “as formas antigas não voltarão, mas o que é de sempre ressurgirá” e acrescentando: “A tradição é uma escolha, um murmúrio dos tempos antigos e do futuro. Ela diz-me quem eu sou.”

A sua morte não foi apenas mais uma onda no oceano. Foi antes um farol que nos avisa da perigosa proximidade da catástrofe. Um alerta para uma civilização multimilenar ameaçada que partilha as mesmas origens, os mesmos valores e o mesmo espírito. Dominique Venner morreu como viveu  como um homem livre.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

John Barleycorn must die


Traffic, "John Barleycorn" (1970).

John Barleycorn


«Os devotos de John Barleycorn são assim. Quando lhes bate à porta a boa sorte, bebem. Quando não têm sorte, bebem na esperança de boa sorte. Se a sorte é madrasta, bebem para esquecer. Se encontram um amigo, bebem. Se discutem com um amigo e perdem essa amizade, bebem. Se os seus assuntos amorosos são coroados de sucesso, ficam tão felizes que é obrigatório beberem. Se forem abandonados, bebem pela razão contrária. E se não têm nada para fazer, pois bem, tomam uma bebida, seguros de que, quando tiverem tomado um número suficiente de bebidas, as larvas começarão a rastejar nos seus cérebros e não terão mãos a medir com coisas para fazer. Quando estão sóbrios, querem beber; e, quando bebem, querem beber mais.»

Jack London
in "Memórias de um Alcoólico  John Barleycorn", trad. Ana Barradas, Antígona (2001).

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Infiltrada nas Femen


Iseul faz parte das Antigones e infiltrou-se durante dois meses no movimento feminista radical Femen, que considerou "muito hierarquizado e muito opaco". Diz que uma das coisas que a surpreendeu foi "precisamente que não se fala muito de ideias. Não tem nada a ver com o feminismo intelectual a que estamos habituados em França". Acrescentou ainda que "elas demonstram um verdadeiro ódio por aqueles que consideram seus inimigos". Esta viagem ao interior do feminismo extremista deu origem a uma reportagem publicada na revista «Valeurs Actuelles».

Genocídio vocabular


Durante a campanha eleitoral para as últimas presidenciais francesas, referi o absurdo proposto por François Hollande,quando afirmou a primeira medida a tomar, caso fosse eleito   o que acabou por acontecer , seria pedir ao parlamento para suprimir a palavra “raça” da Constituição da República Francesa. Prometeu e cumpriu.

Como escreveu Bernard Lugan, o dia "16 de Maio ficará na História do pensamento francês como a de uma grande vitória do obscurantismo. De mão no ar, salivando aos estímulos do politicamente correcto à francesa, à semelhança dos cães de Pavlov, os deputados franceses, por proposta do Front de gauche (Frente de Esquerda), suprimiram a palavra 'raça' da legislação".

Este genocídio vocabular é simplesmente estúpido. Não é eliminando uma palavra que se acaba com o “racismo”. Quais serão as próximas palavras proibidas?

Feira do Livro - Dia 5


Mais uma passagem na Feira do Livro, que rendeu dois manuseados por apenas cinco euros. O que é preciso é procurar, porque há muita coisa bastante barata.

Pérez-Reverte sobre a classe política "egoísta, inculta e grosseira"


Na sua coluna publicada no «XL Semanal», intitulada "Un cura, un guardia, unos ministros", Arturo Pérez-Reverte fala da actual situação espanhola através de três situações aparentemente sem ligação entre si. A semelhança com o nosso país é flagrante. Ora leiam esta passagem sobre os políticos: "Por la noche, al llegar a casa, puse un rato la tele y me vi frente a la tercera situación: un par de ministros retorciendo de manera abyecta la lengua española, de la que parecían ignorar los más elementales recursos -ministros del Gobierno de España, insisto-, para enumerar, sin que se les notara mucho lo siniestro, nuevos expolios, exacciones y vilezas. Para justificar una vez más su incompetencia, sus medias verdades, sus promesas incumplidas, los embustes encadenados con que disimulan su parálisis unos gobernantes enrocados en los privilegios de su puerca casta, sin el menor ánimo de renovación o cambio real; una dictadura fiscal gobernada por una pantalla de plasma, cuya única baza para mantenerse en el poder es la que le regala, sin mérito y por la cara, la inexistencia de una oposición eficaz o al menos respetable; la mediocre estupidez de una clase política que en su mayor parte, sin distinción de siglas, es egoísta, inculta, grosera."

Museu do Brinquedo


Li hoje uma má notícia para a Cultura. O Museu do Brinquedo, em Sintra, pode fechar no final do ano, porque a nova Lei-Quadro das Fundações impede autarquia de continuar a subsidiar e a ceder gratuitamente o espaço para o museu.

A directora responsabilizou o Governo, afirmando: A legislação para as fundações foi feita de forma transversal. Nem viram, nem sabem, nem fazem ideia nenhuma, nem sequer visitaram o museu. Esta é uma fundação que vive com o apoio de cinco mil euros. Tem um património, está aberta todo o ano, desde as 10 às 18 horas, com actividades e visitas guiadas”.

Este é um museu pelo qual tenho um especial carinho. Espero que se encontre uma solução para além desta cegueira legislativa e deste nivelamento cultural por baixo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Feira do Livro - Dia 4


Em mais uma ida à Feira do Livro, que resultou num belo punhado de achados manuseados, houve algo que gostei muito de ver. A hora de almoço traz naturalmente uma frequência diferente de outros períodos do dia, sendo que a que mais se nota são os grupos escolares. Vi várias turmas de diversas escolas primárias, acompanhadas pelos professores, e notei que os mais novos gostavam do passeio e tinham bastante curiosidade pelos livros. Também vi alguns grupos de adolescentes, muitos com sacos de compras que haviam feito. É um óptimo sinal ver os mais novos nesta festa dos livros, pois é um aspecto muito importante na sua educação e formação. Já diz o ditado, é de pequenino que se torce o pepino...

Av. da República

Av. da República, 50. Edifício já demolido, Lisboa, 1970. 
Adaptado de Nuno Barros Roque da Silveira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Hoje, em conversa com uma arquitecta, uma geógrafa e uma jurista, veio à baila a Avenida da República, em Lisboa, especialmente os edifícios que foram demolidos para dar lugar a prédios novos.Todos concordámos que o que aconteceu numa das principais vias da capital —  que, infelizmente, não é excepção   é um crime contra a cidade e os seus habitantes. Mais, durante a defesa da reabilitação urbana, a arquitecta recordou que não basta preservar as fachadas, como se vê em tantos casos, antes se deve preservar o conjunto.

Por fim, falou-se da Praça Duque de Saldanha, onde os novos prédios  como o caixote espelhado que substituiu o Monumental, ou a taveirada de esquina  convivem com edifícios de outra época, muitos já devolutos. A triste conclusão a que se chegou foi a de que, em breve, não restará nesta praça qualquer vestígio de outros tempos.

N. B. - A imagem acima foi retirada, com a devida vénia, do excelente blog Bic Laranja, que muito se tem dedicado a este tema. Um trabalho muito importante, pelo qual está de parabéns.

A França resistente


A França está dividida devido à aprovação do casamento homossexual. No passado domingo, Paris foi inundada por um mar de gente em mais uma impressionante manifestação, que mobilizou um milhão de pessoas. A manchete do jornal «Le Parisien», que a considerou um sucesso, era exactamente "A França cortada em dois".

No entanto, para entender este fenómeno, é necessário sair do reducionismo que o limita à contestação à lei do casamento homossexual. Aqui vemos uma França resistente àquela que quer destruir a nossa sociedade como a conhecemos e concebemos. Como escreveu Gabriele Adinolfi, "depois de décadas de ataques à língua, à cultura, à demografia, meia França insurgiu-se contra o casamento gay porque sente que está ameaçado o último quadrado da sociedade, a família". De seguida, responde a possíveis críticos: "Era melhor reagir antes? Era melhor reagir noutras questões? São perguntas retóricas. São os fortes impulsos psicológicos, súbitos e mobilizadores, que determinam com força irracional e profunda as mudanças históricas."

No último editorial de «La Nouvelle Revue d'Histoire», Dominique Venner explicou esta mobilização: "As pessoas que nos governam trataram novamente com desprezo esta indignação popular, que não haviam previsto e não podem compreender. Cometeram aqui um erro crasso. Quando tal indignação mobiliza tamanhas massas, de jovens mães e dos seus filhos, é o sinal de que foi transgredida para além suportável uma parte sagrada do que constitui uma nação. É perigoso provocar revolta das mães!"

Para saudar Dominique Venner

Dominique Venner (1935 - 2013)

A grandeza tem um nome. Chama-se Dominique Venner.

Pela sua vida e pela sua morte, este homem excepcional deixa-nos uma mensagem que soa nas nossas almas como uma sirene. Chama-nos a permanecermos de pé, aconteça o que acontecer. A olhar o destino de frente, como os heróis homéricos que eram para ele uma fonte de inspiração permanente.

Homem de grande pudor, como o são as almas fortes, estava imbuído de um ideal potente que era preciso decifrar nos seus textos inspirados, as suas palavras eram sempre medidas com precisão, tal como os seus silêncios. Mas o fino sorriso que por vezes iluminava a sua expressão era, para os iniciados, o sinal de um júbilo intenso.

O caminho sem ele, pode parecer bem baço porque ele era portador de uma chama que irradiava. Mas a melhor maneira de lhe ser fiel é continuar o caminho que ele, incansavelmente, traçou, ele que fez da sua fidelidade a regra da sua vida. Tentemos ser dignos dele.

Pierre Vial
Presidente da Terre et Peuple

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Mesmismo


“Eles são todos iguais” é uma expressão que nos habituámos a ouvir quando se fala dos políticos em Portugal. De facto, é difícil encontrar diferenças de fundo nos nossos governantes. Como escreveu ontem Paulo Baldaia no “DN”: Sou jornalista há um quarto de século. Dei notícia dos Governos de Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates e Pedro Passos Coelho. E dos gabinetes presidenciais de Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. Digo com total franqueza, mesmo visto de perto, não encontro qualquer diferença. Como sair deste “mesmismo” político? Uma coisa é certa, não é com o actual rotativismo partidário.

Aquilino e Salazar


A propósito do cinquentenário da morte de Aquilino Ribeiro, António Valdemar escreveu um interessante artigo, publicado hoje no diário «Público», intitulado "Aquilino e Salazar", do qual não resisto a partilhar a seguinte passagem: «Salazar e Aquilino conheciam- se, mas nunca conviveram um com o outro. Ao prefaciar e organizar a edição póstuma de Viseu: Letras e Letrados Viseenses, de Maximiano de Aragão (1858-1929), Aquilino, em 1934, citou Salazar, entre os intelectuais oriundos do distrito. Por sua vez, Salazar, ao ser entrevistado por Frédéric Lefèvre (1889-1949) para uma série sob o título genérico Une heure avec... declarou: “Comece o seu inquérito por Aquilino Ribeiro. É um inimigo do regime. Dir-lhe-á mal de mim, mas não importa: é um grande escritor”.»

Feira do Livro - Dia 3


As promoções no stand da Livros Horizonte valem mesmo a pena. Mais uma colheita!

domingo, 26 de maio de 2013

Frase do dia

“Alguma vez Portugal teve políticos honrados, fiáveis, escapatórios, vá lá? Lamento, mas não.”

Alberto Gonçalves
in “Diário de Notícias”.

Idiocracia


“[Até o século XIX] o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar um cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os "melhores" pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da omnipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.”

Nelson Rodrigues

sábado, 25 de maio de 2013

Adopção 'gay'. E a seguir?

Há mais de um ano atrás, escrevi sobre o casamento homossexual e de como este era apenas um passo para a adopção gay. Falei da união das esquerdas nesta “causa” e no silêncio das direitas e concluí: «Seguimos, assim, o caminho do “progresso social”, como querem alguns. Mas até onde e a que custos? Parece que depois de querer fazer o “homem novo”, as esquerdas querem hoje fazer a “família nova”. Os resultados só podem ser igualmente maus.» 

O que está em aqui causa não é uma questão de homofobia. Não nos iludamos, nem nos deixemos iludir. Está em curso um ataque a instituições basilares da nossa sociedade. Há-que denunciá-lo.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Feira do Livro - Dia 1


Primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa. Um calor dos diabos, mas uma mão-cheia de achados!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

As razões de uma morte voluntária

Esta foi a última mensagem que o escritor e historiador Dominique Venner deixou antes de se suicidar, ontem, na Catedral de Notre-Dame, em Paris.

Estou são de corpo e alma, cheio de amor para com a minha mulher e os meus filhos. Amo a vida e não espero nada para além dela, a não ser a perpetuação da minha raça e do meu espírito. Portanto, na noite da minha vida, perante os imensos perigos para com minha pátria francesa e europeia, sinto-me no dever de agir enquanto ainda tenho forças.

Penso ser necessário sacrificar-me para romper a letargia que nos abate. Ofereço o que ainda resta da minha vida numa intenção de protesto e de fundação. Escolho um lugar altamente simbólico, a catedral Notre Dame de Paris que eu respeito e admiro, edificada pelo génio dos meus antepassados sobre locais de cultos mais antigos, recordando as nossas origens imemoriais.

Enquanto tantos homens são escravos das suas vidas, o meu gesto encarna uma ética da vontade. Entrego-me à morte a fim de despertar as consciências adormecidas. Insurjo-me contra a fatalidade.

Insurjo-me contra os venenos da alma e contra os desejos individuais invasores que destroem as nossas âncoras identitárias, nomeadamente a família, alicerce íntimo da nossa civilização multimilenar. Tal como defendo a identidade de todos os povos em suas casas, insurjo-me também contra o crime que visa a substituição das nossas populações.

Como o discurso dominante não pode sair das suas ambiguidades tóxicas, cabe aos europeus tirar as suas conclusões. Não havendo uma religião identitária à qual nos possamos amarrar, partilhamos desde Homero uma memória própria, repositório de todos os valores sobre os quais refundaremos o nosso futuro renascimento em ruptura com a metafísica do ilimitado, a fonte nefasta de todos os desvios modernos.

Peço antecipadamente perdão a todos aqueles a quem a minha morte fará sofrer, primeiro à minha mulher, aos meus filhos e netos, bem como aos meus amigos e seguidores. Mas, uma vez esbatido o choque e a dor, não duvido que tanto uns como outros compreenderão o sentido do meu gesto e transformarão o seu sofrimento em orgulho. Desejo que estes se entendam para resistir. Encontrarão nos meus escritos recentes a prefiguração e a explicação do meu gesto.

Para qualquer informação, podem dirigir-se ao meu editor, Pierre-Guillaume de Roux. Ele não estava informado da minha decisão, mas conhece-me há muito tempo.

Dominique Venner

Ler Venner


É sempre revoltante a falta de respeito que caracteriza aqueles que, baseados numa notícia tendenciosa e telegráfica sobre a morte de Dominique Venner, opinam de papo cheio, do alto da sua ignorância. Nota-se à légua que nem uma linha leram da extensa obra deste historiador. Mais, nem o nome dele sabem pronunciar... Leiam. E depois falem.

Abaixo reproduzo o post escrevi há uns anos, intitulado "Que ler? Venner!":


O Miguel Vaz releu "O Século de 1914", uma obra imprescindível de Dominique Venner, publicada em Portugal no ano passado pela Civilização, com tradução de Miguel Freitas da Costa. Este é realmente um livro para ler e reler, e para depois a ele continuar a recorrer. Por isso o Miguel diz que se tornou "de cabeceira". Eu li-o pela primeira vez no original, em francês, e reli-o em português. É, de facto, um livro inspirador, que cito amiúde. Uma síntese formidável para melhor compreender o século XX e perceber a actual situação da Europa.


Da ampla bibliografia de Venner, há outro livro que, na minha opinião, é ainda mais importante: "Histoire et tradition des Européens. 30 000 ans d'identité". Esperemos que um dia seja também traduzida para a nossa língua. Este regresso às origens, às referências europeias maiores, é um apelo ao renascimento de uma identidade multimilenar.


Referência ainda para outro livro excelente, "Le Coeur Rebelle", onde Venner faz uma reflexão autobiográfica profunda, falando do activismo político, da guerra, da prisão e da forma como mudou ao longo da vida sem no entanto se arrepender do passado.


Por fim, não me canso de recomendar aqui a óptima e obrigatória "La Nouvelle Revue d'Histoire", dirigida por Dominique Venner, que se vende nas bancas portuguesas.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dominique Venner (1935 - 2013)


Um telefonema de Paris trouxe uma triste notícia. Dominique Venner, uma das minhas referências maiores, suicidou-se hoje em frente ao altar da Catedral de Notre-Dame. Um sacrifício ritual deste samurai do Ocidente, no altar da Pátria, para "despertar as consciências adormecidas".

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Viagem ao delírio norte-coreano

A recente escalada de tensão no Extremo Oriente, que tem como protagonista Kim Jong-un, o jovem ditador da Coreia do Norte, e como intervenientes directos a Coreia do Sul, os EUA, o Japão e a China, chamou a atenção do mundo para um regime político tão fechado como desconhecido. O que podemos saber, a partir do ponto mais ocidental da Europa, sobre a auto-denominada República Democrática Popular da Coreia (RDPC)?



O fim da Segunda Guerra Mundial terminou com a anexação japonesa da Coreia e dividiu longitudinalmente a península em duas zonas ocupadas – o Norte pela União Soviética e o Sul pelos EUA, que acabaram por dar origem aos actuais países, após a guerra que os opôs, no início da década de 50 do século passado, naquele que foi o primeiro conflito armado da Guerra Fria. Ambas as Coreias tiveram, a partir daí, evoluções bastante diferentes. Numa simplificação, uma seguiu o comunismo – o Norte –, e a outra o capitalismo – o Sul. No entanto, para percebermos a actual RDPC, esta classificação binária é claramente insuficiente.

Regime político
Qual é o regime político da RDPC? Esta é uma questão que há muito apaixona os politólogos, já que a mera etiqueta “comunista” não chega. Em primeiro lugar, podemos dizer que nominalmente é uma “democracia”. E não se pense que não há partidários desta tese. Recorde-se, por exemplo, que até em Portugal o líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, afirmou numa entrevista, em 2003, que tinha “dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia”. De facto, para além do Partido dos Trabalhadores da Coreia, existem outros dois pequenos partidos, mas que têm que submeter-se àquele que é, na prática, o partido único desta “ditadura da democracia do povo”, como prevê a Constituição. Muitos classificam ainda a RDPC como uma “ditadura familiar” ou uma “monarquia absoluta”.

No aspecto ideológico, a RDPC assenta no ‘Juche’, uma ideia baseada na auto-suficiência, que muitos consideram o “marxismo-leninismo kimilsunguiano”, onde sobressai um culto da personalidade que estabeleceu que Kim-Il-sung é o “eterno presidente” e que evoluiu para uma quase-religião de Estado. Em 1972, o ‘Juche’ substituiu o termo “marxismo-leninismo” na Constituição e em 2009 foram retiradas todas as referências a “comunismo”. Curiosamente, um dos grandes teóricos do ‘Juche’, para além de Kim Il-sung, foi Hwang Jang-yop, que em 1997 desertou para a Coreia do Sul. Recentemente, ganhou força a filosofia ‘Songun’, ou “prioridade militar”.

Há ainda quem defenda algo completamente diferente. Em 2010, Brian Reynolds Myers, estudioso da Coreia do Norte, publicou o livro “The Cleanest Race: How North Koreans See Themselves and Why it Matters” (“A Raça mais limpa. Como os norte-coreanos se vêem a si próprios e porque é que isso importa”), onde defende que a ideologia ‘Juche’ serve apenas para iludir os estrangeiros. Segundo ele, a RDPC é um regime nacionalista, racista e xenófobo, derivado do nacionalismo Showa japonês.

De facto, a única conclusão a tirar é que este regime ‘sui generis’ desafia uma classificação política simples e se presta às mais diversas interpretações.


Imagem
Como chegar até este regime fechado? Hoje em dia, através da Internet, é possível aceder a uma quantidade enorme de conteúdos produzidos pela RDPC, que os transmite através de vários canais. Na página oficial da RDPC podemos encontrar diversas informações sobre o país, uma biblioteca electrónica, informações sobre turismo e negócios, uma galeria de imagens e até uma loja ‘online’ onde é possível comprar DVD com filmes, CD de música, emblemas, bandeiras, etc. Mais curiosa é a informação sobre a Associação de Amizade com a Coreia, que tem duas delegações aqui ao lado, em Espanha, mas também está presente nos EUA, na Bolívia, no Chile, em Itália e na Argélia. Como curiosidade, existe também um ‘blog’ em português do Brasil com traduções dos textos oficiais da RDPC.

Através do YouTube, é ainda possível ver os filmes norte-coreanos legendados em inglês, para além de concertos de música, programas de televisão.

A RDPC tem também agência de notícias, que transmite para o resto do mundo a imagem desejada pelo regime. Para decifrar essas informações, existem vários ‘sites’ na Internet, como por exemplo o “North Korea Leadership Watch”.

Apesar disso, é sempre muito difícil ter uma verdadeira realidade do país, para além da propaganda oficial e da contra-propaganda.


“Parque Jurássico”
Em especial para um ocidental, a RDPC desperta uma curiosidade natural por se apresentar como um mundo à parte. É quase uma espécie de ilha isolada neste mundo globalizado.

Há quem tenha considerado a Coreia do Norte como o “Parque Jurássico do comunismo” e esta estranha realidade tem sido descrita em vários livros da autoria de dissidentes que conseguiram escapar, de diplomatas que lá estiveram, ou de analista especializados naquela região.

Em Portugal, o escritor José Luís Peixoto escreveu o livro “Dentro do Segredo - Uma Viagem na Coreia do Norte”, depois de ter passado quinze dias naquele país. Numa entrevista ao “Diário de Notícias”, afirmou: “Mesmo para quem visite a Coreia do Norte com mais liberdade, existe sempre um constrangimento de movimentos, para além de uma exagerada recriação que é feita para os estrangeiros. Para quem está fora daquele culto de personalidade, é difícil aceitar o que nos é dito sobre os líderes e a grande quantidade de qualidades fora do humano que lhes são atribuídas.”

Por muito que no Ocidente se ironize um regime que nos parece vindo de outro mundo – a lembrar a distopia orwelliana “1984” –, a crescente instabilidade no Extremo Oriente pode originar um conflito de proporções desconhecidas.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Carl Schmitt actual

Decorreu, nos passados dias 8 e 9 de Maio, no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o colóquio “Carl Schmitt revisitado”, organizado por Carlos Blanco de Morais e Luís Pereira Coutinho, do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (ICJP). A iniciativa foi um êxito, tanto pela elevada qualidade e preparação dos oradores, como pela presença e interesse do público. Os organizadores estão de parabéns por proporcionarem esta revisitação, tão importante para a reflexão política actual. Regresso a um pensador essencial.



Carl Schmitt (1888 – 1985), alemão e católico, foi jurista, filósofo, politólogo e professor universitário. Um intelectual de alta craveira cuja obra e pensamento influenciaram vários autores. A sua breve aproximação ao III Reich, entre 1933 e 1936, valeu-lhe, para alguns, a classificação de “filósofo maldito”, mas o valor inegável do seu trabalho acabou por ser reconhecido. Como escreveu Alain de Benoist, “Schmitt faz parte desses autores e teóricos da direita alemã cuja atitude em relação ao nacional-socialismo foi, pelo menos, bastante matizada”. De facto, depois de ter sido alvo de duras críticas por parte de certas facções desse regime, renunciou a qualquer actividade que não a docente.

Actualidade
A recente discussão nacional sobre o respeito à Constituição da República Portuguesa independentemente da realidade do País, mostrou a actualidade do pensamento de Carl Schmitt. De facto, houve quem recordasse, a este propósito, a oposição do decisionismo e o estado de excepção schmittianos ao normativismo de Hans Kelsen.

Já Alain de Benoist havia demonstrado a actualidade de Carl Schmitt no livro “Guerra Justa, Terrorismo, Estado de Urgência e Nomos da Terra”, publicado em Portugal pela Antagonista, em 2009. Na introdução, Benoist afirma: “A tese da influência de Carl Schmitt sobre os neoconservadores americanos por intermédio de Leo Strauss não passa de uma fábula. Mas há, por outro lado, uma incontestável actualidade do pensamento schmittiano, actualidade bem discernida por numerosos observadores, singularmente depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, que a vida internacional, bem como certas iniciativas do governo americano, não cessaram de nutrir no decurso destes últimos anos.”

Política
O que é a política? Era o que perguntava Julien Freund, num ensaio publicado em Portugal em 1974, pela Futura, respondendo: “Podemos basear-nos nas relações e correlações entre os diversos pressupostos: comando e obediência, privado e público, amigo e inimigo. Parece-nos, no entanto, que a melhor maneira consiste em caracterizá-la pelo encadeamento das dialécticas que estes pressupostos orientam. A política é, então, a actividade social que tem como objectivo garantir, pela força, geralmente apoiada no direito, a segurança exterior e a concórdia interna de uma unidade política particular, salvaguardando a ordem no meio de lutas que têm origem na diversidade e divergência das opiniões e interesses”. Freund, que procurou demonstrar que existe uma essência da política, considerava Schmitt como um dos seus mestres e foi um dos principais responsáveis pela introdução do pensamento deste pensador alemão no universo francês dos anos 60 do século XX. Nota-se na definição freundiana a clara influência de Schmitt, que afirmou que “a específica distinção política à qual é possível reconduzir as acções e os políticos é a distinção entre amigo (‘freund’) e inimigo (‘feind’).” Nesta oposição, há que precisar que o inimigo a que Schmitt se refere é o inimigo público, o ‘hostes’ latino, e não o inimigo privado, o ‘inimicus’.

Rede Schmittiana
Se o colóquio “Carl Schmitt revisitado” demonstra que o interesse neste pensador e na sua obra tem aumentado no nosso país, devemos dizer que Portugal não é uma excepção. Um dos oradores, Alexandre Franco de Sá, professor na Universidade de Coimbra e especialista em Schmitt, de quem traduziu “Catolicismo Romano e Forma política” (Hugin, 1998) e “Terra e Mar” (Esfera do Caos, 2008), revelou que no Brasil os estudos schmittianos estão a desenvolver-se a um ritmo elevado. Para além da publicação de obras de Schmitt, Franco de Sá mostrou a edição do seu livro “Poder Direito e Ordem. Ensaios sobre Carl Schmitt”, recém-publicado pela editora Via Verita, que também publicou uma versão brasileira de “Metamorfose do Poder”, saído em Portugal em 2004, pela Ariadne Editora.

Alexandre Franco de Sá é também, juntamente com os professores brasileiros Joelma Pires e Roberto Bueno, fundador da Rede Internacional de Estudos Schmittianos, que tem já importantes membros de vários países, como Alain de Benoist, Alberto Buela, Günter Maschke ou Jerónimo Molina.

No segundo semestre de 2012, a “Revista Brasileira de Estudos Políticos” dedicou um número monográfico, que conta com 13 artigos de eminentes especialistas estrangeiros e brasileiros, ao tema “Os paradoxos do Estado Democrático de Direito: entre o estado de excepção e os contrapoderes de resistência”, onde o homenageado é naturalmente Carl Schmitt. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Daltonismo político


Mais uma vez assistimos a uma violência extrema nos saques, agressões e destruição pública na capital francesa, que recordam os "motins" de 2005, na sequência da vitória do Paris Saint-Germain no campeonato de futebol. No entanto, certa imprensa e os habituais dirigentes das esquerdas, activaram o seu habitual mecanismo automático de culpabilização. Os responsáveis, para estes bem-pensantes politicamente correctos, pertencem à extrema-direita. Acontece que, pelo menos desta vez, as imagens desmentem claramente esta associação.

É verdade que o PSG tem uma claque associada à extrema-direita, os "Boulogne Boys", mas desta vez vemos como aqueles que se aproveitaram de um festejo desportivo público são a 'racaille' proveniente das 'banlieues'. "Jovens" marginais, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos ou magrebinos. Um fenómeno incómodo para os integracionistas, que tantas vezes foi denunciado pelas direitas gaulesas, seja por Sarkozy ou por Le Pen.

Obviamente, é muito mais cómodo culpar a "extrema-direita", nem que seja com expressões convenientemente vagas, como "grupos com ligações" ou "próximos". Pior, o novo governo socialista recusa qualquer responsabilidade pela inacreditável ausência de segurança que se viveu no centro da capital francesa. A UMP pediu prontamente a demissão do ministro do Interior, Manuel Valls. Já Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, atribuiu a violência ao "fracasso da política de imigração", afirmando que as imagens televisivas mostram que os agressores são "evidentemente de origem imigrante".

No que respeita aos "ultras" do PSG, convém recordar que, em 2006, na sequência de confrontos após um jogo, a polícia não hesitou em agir com exagero e matar Julien Quemener. Atitude que contrasta com a relativa passividade na intervenção a que se assistiu desta vez.

Pelos vistos, há dois pesos e duas medidas. Mais, mesmo perante imagens esclarecedoras, as esquerdas e certa imprensa continuam a sofrer de acentuado daltonismo político.

África brevíssima


O continente africano teve uma grande importância na História da Europa, mas as transformações que sofreu ao longo dos séculos continuam a ser desconhecidas ou menosprezadas por muitos. Gordon Kerr propôs-se fazer “Uma Breve História de África”, ultra-sintética, que pode contribuir para despertar o interesse no Continente Negro.

Na capa deste livro podemos ler a seguinte descrição: “Uma História, acessível e agradável, dos povos, ideias, instituições e acontecimentos que deram forma a África, da origem da raça humana à Primavera Árabe”. Obviamente, tendo em conta estas balizas temporais, que só por si possibilitariam um trabalho de milhares de páginas, é claro que em menos de duzentas o que vamos encontrar é um resumo brevíssimo de um tema que tem tanto para explorar.

No entanto, numa altura em que grande parte das pessoas evita os grandes volumes e os estudos pormenorizados, porque se habituou a uma literatura ligeira, pode ser que esta obra seja um ponto de partida, um despertar da curiosidade, para a História africana.

Poderíamos facilmente apontar o que falta, mas é melhor reconhecer que aqui está o básico da História de África, como se de uma entrada alargada de enciclopédia se tratasse. Aliás, um tom enciclopédico é o que caracteriza este livro, bastante dividido em capítulos bem identificados, que permitem uma consulta rápida do período que se prefira. Há pouco lugar para a interpretação e talvez seja melhor, já que com esta dimensão tal seria antes um ensaio.

Para se ter uma ideia, o capítulo “A chegada dos europeus e o início do comércio de escravos” tem como primeiro subtítulo “Os portugueses e a Costa Ocidental Africana”, algo que ocupa apenas duas páginas. Claro está que o nosso país é referido mais vezes. Ainda assim, talvez pela perspectiva anglo-saxónica que caracteriza a obra, Portugal é visto, aquando da chamada “Corrida a África”, formalizada na Conferência de Berlim, como “um país pobre em termos europeus” e “relativamente insignificante”, que para se impor explorou “as antigas rivalidades dos africanos”. Já no que respeita às independências africanas, nas duas páginas dedicadas à África portuguesa, é de estranhar que a única referência ao 25 de Abril seja feita no final do texto e sem atribuir ao golpe a importância que teve no desfazer do Império.

Depois da independências, Kerr reconhece que, excepto quatro países, “um país que não tivesse governo militar provavelmente havia-se tornado um estado autocrático, unipartidário”.

Por fim, o autor afirma que hoje se vive uma “nova corrida por África”. Segundo ele, “sessenta anos após o início da independência dos estados africanos, o fenómeno da colonização parece destinado a regressar, embora de uma forma mais subtil”. Esta “nova corrida”, para Kerr, tem os mesmos objectivos da corrida do século XIX, “despojar o continente dos seus ricos minarais”. Só que agora, os responsáveis são aquilo que ele considera “muitas multinacionais de grandes dimensões”.

terça-feira, 14 de maio de 2013

A música durante a Ocupação


"A música durante a Ocupação" é o título de um ciclo que decorrerá na Cité de la Musique, em Paris. Um aspecto da vida cultural naquele período, em que a França se dividia em "Ocupada" e "de Vichy", que raramente é tratado. Entre os vários concertos, destacam-se: a reconstituição de um concerto de 24 de Março de 1942, do Quatuor Peter, no Instituto Alemão de Paris, organizado pelo Propagandastaffel, um concerto com hinos a Pétain, e também um onde se poderão ouvir canções de Céline.

Um pensador português

A cultura é normalmente relegada para segundo plano numa imprensa que hoje abusa da crise económico-financeira, das tricas políticas e das frivolidades sociais. Assim, infelizmente, há notícias que passam ao lado do grande público.

A celebração de um dos grandes vultos da cultura nacional contemporânea não deve ser algo relegado para um punhado de académicos. Pelo contrário, merece a nossa maior atenção enquanto portugueses que se preocupam com o destino da Pátria.

No ano em que se assinalam os 90 anos do nascimento de António Quadros e os 20 anos desde a sua morte, há a referir a realização do Colóquio Internacional “António Quadros: Obra, Pensamento, Contextos”, que decorrerá nos meses de Maio e Junho, em Lisboa, Cascais e no Rio de Janeiro.

Filho de António Ferro e Fernanda de Castro, António Quadros foi um notável filósofo, escritor, pedagogo, escritor e tradutor que nos deixou uma obra impressionante, tanto pela sua dimensão como pela sua elevada qualidade.

Numa das suas obras maiores, “Portugal, Razão e Mistério”, escreveu: “O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fundamental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor de tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.”

Em tempos como estes, de grande indecisão e ausência de referências, fazem-nos falta pensadores deste calibre. Regressemos aos nossos clássicos.

Editorial da edição de «O Diabo» de 2 de Abril de 2013.

Dia d'O Diabo


Os 'enfants terribles' da Grande Europa


A emissão da semana passada do programa francês da Radio Bandiera Nera, Méridien Zéro, foi dedicado a dois políticos sobre os quais nos chega demasiada desinformação. Para melhor compreendermos líderes políticos como Aleksandr Lukashenko, presidente da Bielorrússia, e Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, analisados em profundidade por Georges Feltin-Tracol. A não perder!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Romance internacional


"O Lobo Antunes e o Saramago não estão a escrever para vocês nem para mim. Estão a escrever uma coisa género 'standard', que é o romance internacional. (...) Como sabem que vão ser traduzidos, têm de fazer uma linguagem o mais corrente possível, mais linear, mais badalhoca."

Luiz Pacheco
in "Jornal de Letras", de 24 de Setembro de 1997.