segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um herói português


O “Comando” do 25 de Novembro, homem cuja acção no PREC alterou o rumo da História contemporânea de Portugal, morreu no início deste ano. Pouco antes foi publicada esta biografia de autor intitulada “Homem de Guerra e Boémio – Jaime Neves por Rui de Azevedo Teixeira”, com a chancela da Bertrand. O livro, cujo êxito se reflectiu nas vendas, teve uma nova edição com prefácio de Ramalho Eanes e posfácio de António-Pedro Vasconcelos.

Rui de Azevedo Teixeira foi “Comando” durante a Guerra de África, professor de Liceu e professor universitário e é autor de várias obras como “A Guerra Colonial e o Romance Português. Agonia e Catarse”, que tem por base a sua tese de doutoramento, “A Guerra e a Literatura”, “A Guerra de Angola 1961-1974”, entre outras.

Em entrevista a “O Diabo”, publicada em Fevereiro, o autor reconheceu a verdadeira aventura que foi a vida de Jaime Neves, dizendo: “Viveu sempre em alta voltagem. O seu forno de adrenalina esteve sempre aceso. Se não era a guerra – em Moçambique, foi ‘o grande distribuidor da morte violenta’ – eram as mulheres, o jogo, os copos ou as ‘recuperações de património’ que Jorge de Brito perdera na voragem do PREC.”

O autor baseou a obra em vários testemunhos, cruzando sempre as várias versões, e em entrevistas com o biografado. O resultado foi um trabalho de mérito, que conjuga maravilhosamente a estilo áspero e directo dos militares, com a erudição de um académico. Esta fusão, que parece paradoxal, muitíssimo bem conseguida, é que torna este livro diferente – original, no sentido profundo do termo. Primeiro, porque Rui de Azevedo Teixeira passou pelas mesmas origens que Neves, ao servir a Pátria em combate, numa força especial de excelência. Mas, ao mesmo tempo, a sua inteligência e cultura profunda levam-nos mais além e fazem o leitor reflectir. Falar no mesmo livro no Tamila e na noite de Lisboa e citar os clássicos não é para todos, especialmente quando se consegue dar uma sólida coerência a toda a obra. Nesta aventura que entusiasma rapidamente quem a devora, pelo protagonista e pelo estilo, há também o prazer de saborear um texto muito bem escrito, que se lê agradavelmente de um fôlego.

O livro que tem tido uma óptima aceitação por parte do público, como o prova o êxito comercial, não deixou de ser incómodo para alguns. Mário Tomé, o político e militar de extrema-esquerda, atacou-o num artigo intitulado “O herói do regime e o seu bardo”, publicado no “Diário de Notícias”, mas o autor respondeu-lhe à letra, no mesmo jornal, dizendo que “é a ignorância a falar” e questionando: “Terá mesmo lido o livro que critica?!” Há que dizer, por muito que custe a tantos – hoje bem instalados –, que Jaime Neves foi de facto um herói e, em boa hora, surgiu um bardo à altura de cantar os seus feitos e o seu fantástico percurso de vida. Uma vida aqui dividida em quatro estações, como num ano – um ciclo completo.

Esta é uma biografia de autor. Como nos diz Rui de Azevedo Teixeira na “Palavra de Abertura”, “se tivesse substituído os nomes reais por fictícios, Jaime Neves por Manuel Ferreira da Selva, por exemplo, teria sido um romance de personagem”. E que romance!

Infelizmente, é de referir o aspecto negativo de a editora ter optado pela grafia do famigerado Acordo Ortográfico, algo que só prejudica a obra, embora apenas em termos formais.

Por fim, aquando da morte de Jaime Neves, recordei-o num editorial de “O Diabo”, chamado “Homenagem”, afirmando que “tinha a fibra dos heróis. Não deixava ninguém indiferente, algo que se pode ver na forma como o seu nome tinha uma força especial. Ainda em vida, atingiu uma dimensão sobre-humana. Gerou paixões e amores, mas também ódios. Quando se ouvem as histórias dele – muitas já mitificadas – percebemos bem que a lenda cedo se começou a criar.” Este livro é um justo relato dessa lenda que continua viva. A história próxima e sentida de um herói português.

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