terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Impressões suíças (V): Uma pastelaria portuguesa, com certeza


Depois de ir até Berna e passar por Lausanne, verificando que, apesar das diferenças entre cantões, com as suas diferentes regras, há um padrão suíço, voltámos a Genebra.

Há uma coisa que não deixamos de reparar – a forte presença portuguesa. Das mercearias com produtos nacionais aos talhos, passando pelos cafés e pelos quiosques, onde é possível encontrar a imprensa cor-de-rosa com as últimas coscuvilhices do ‘jet-set’ português, e até por livrarias portuguesas.

Em Genebra entrámos numa pastelaria que podia ser em qualquer terra portuguesa. A rapariga que nos atendeu era simpática, com o seu sotaque nortenho perguntou-nos se não queríamos pastéis de nata com os cafés. “São feitos por nós, tal como o bolo-rei”, garantiu-nos. Há uma sensação agradável de encontrarmos a nossa terra e a nossa gente noutras paragens – uma ligação inexplicável.

Almoçamos com Miguel Rocha, segurança que está no país há dois anos. Uma sanduíche e uma bebida num sítio de refeições rápidas custa mais de dez euros. Os preços são altíssimos. Para se ter uma ideia, um café num estabelecimento vulgar custa 3,5 francos, cerca de 2,90 euros! É por isso que Miguel diz que “até ganha bem” para os padrões portugueses, mas que tem muitos encargos. Mesmo assim gosta de viver na Suíça e não pensa regressar a Portugal tão cedo. Mas avisa quem quiser ir para lá, que “as coisas não são fáceis”. Segundo ele, é preciso trabalhar muito e cumprir as regras. “Quem não aguenta o primeiro ano, dificilmente volta” e ele próprio diz que só resistiu porque teve ajuda de outros portugueses que conhecia, apesar de não se relacionar muito com a comunidade nacional. “A maioria só fala do Ronaldo e adora vir para a rua festejar as vitórias da selecção de futebol. Não tenho paciência para a bola, prefiro os desportos de Inverno e aqui estou no sítio certo”, desabafa. Mas a visão que os suíços têm dos portugueses é essa? Miguel diz que são vistos como um povo trabalhador, mas que normalmente os associam a profissões consideradas menores, mesmo havendo muitos que subiram na vida.

Nem de propósito, à saída do restaurante cumprimentamos o dono, um turco que casou com uma portuguesa e que nos fala na nossa língua. Ao mesmo tempo, um dos empregados, suíço, diz-nos que esteve uma semana de férias em Lisboa, “a terra de Luís Vaz de Camões”, nas suas palavras. Ficámos pasmados e orgulhosos.

Um presente de Natal da Biblioteca Nacional


domingo, 29 de dezembro de 2013

Continua o caos ortográfico...

Nos 149 anos do «Diário de Notícias», Zeinal Bava foi o director convidado numa edição especial, em grande formato e com 80 páginas. Mas houve um pormenor que não me escapou. O «DN» há algum tempo que decidiu converter-se apressadamente ao famigerado Acordo Ortográfico (AO) e contribuir para o caos que se instalou no nosso país.

Folheando esta edição, vemos que vários colunistas, como Paulo Baldaia, Alberto Gonçalves, ou Gonçalo M. Tavares, recusam o AO e aos seus textos segue-se a seguinte frase: "Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico". Filipe La Féria fez ainda melhor, terminando o seu artigo com o seguinte post scriptum: "O artigo foi escrito em Português antigo (sic). No Teatro Politeama nem os bailarinos russos aderiram ao Acordo Ortográfico."

O texto de Jaime Nogueira Pinto, autor que recusa o AO nos seus livros, aparece semi-acordizado. Tanto lemos "protecionismo" como "Março". Ficamos sem saber qual a vontade do autor...

Já os jornalistas - e conheço alguns... - só escrevem assim porque são obrigados.

Conclusão: o caos está instalado e caso houvesse liberdade de escolha o Português acordizado seria residual.

Um pensamento de Agustina


Leio no «Público» que recentemente foi lançado pela Babel, na colecção Contemplações, o “Caderno de Significados” reúne cerca de noventa pequenos textos de Agustina Bessa-Luís. Alguns desses “pensamentos que Agustina esquecia pelas gavetas da casa” são citados na peça e há um, de 1980, que não resisto a partilhar: “A democracia acaba em fachada sonsa de uma pequena festa oligárquica.”

sábado, 28 de dezembro de 2013

Impressões suíças (IV): Almoçar no “Restaurant da Luz”

Depois de visitar Gruyères, apreciar a belíssima vila típica coberta de neve, entrar no castelo bem preservado e ir ao Museu H. R. Giger, o artista suíço-alemão conhecido pelos seus desenhos biomecânicos e, principalmente, por ser o criador do monstro de “Alien”, o filme de Ridley Scott, pelo qual recebeu um Óscar, vamos Bulle.

Nesta pequena localidade, onde vivem muitos portugueses, espera-nos um almoço no “Restaurant da Luz”. Fica mesmo ao lado da Casa do Benfica, local com óptimas instalações onde se reúne a comunidade portuguesa. Entramos e cumprimentam-nos em português. O café, a cerveja, o vinho, entre outros são de marcas nacionais. Na parede há um quadro com a imagem do estádio que dá o nome ao restaurante. A televisão, sintonizada num canal português, transmite um daqueles habituais programas da manhã que prende a atenção de alguma clientela.

Sentamo-nos à mesa de José António, figura conhecida e reconhecida na terra. É originário de uma aldeia perto da Guarda, mas vive na Suíça há cerca de 20 anos. Diz-nos que as coisas mudaram muito. Tem o seu negócio e a sua família bem estabelecidos, mas tudo o que tem conseguiu com muito trabalho. “Aqui é assim”, constata. Para além dos afazeres profissionais, é conhecido por ajudar muitos portugueses que lá vivem e os que chegam. “Muitos não sabem para onde vêm”, garante-nos. Segundo ele, a vida não está fácil e a crise também vai chegar à Suíça. Conta-nos que muitos portugueses que lá se estabeleceram vingaram na vida, mas sempre com muito esforço, porque “as coisas não caiem do céu”.

Mas há um grupo de que nunca se fala, o dos portugueses que perderam o emprego ou não o conseguem. Alguns vivem das ajudas estatais, mas “os suíços não gostam disso”, diz-nos José António. Aliás, “estão a acabar com isso”, o que o levou a ele e à mulher a pedir a nacionalidade suíça. “É uma garantia e nós sempre contribuímos com os nossos impostos aqui”. Mesmo assim, diz-nos que nunca serão vistos como nacionais, “por causa do nome no passaporte”. Aliás, um apelido português é um entrave para um recém-chegado que queira arranjar casa ou trabalho sem conhecimentos prévios.

A Suíça já não é o que era. O país tem cerca de um quarto de população emigrante e há uma preocupação crescente em recambiar os que não trabalham. “Aconteceu a vários portugueses”, diz-nos. Por isso, aconselha a quem queira ir para lá que conheça alguém que o ajude a estabelecer-se. “Quem quiser vir para viver de subsídios, mais vale ficar em Portugal”, avisa.

Mesmo com a nova conjuntura, diz que ainda é possível ter uma boa vida na Suíça, país ao qual está agradecido e onde criou os filhos, que não tencionam voltar para Portugal.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Impressões suíças (III): Lamas e não vacas!


Viajar pelas estradas suíças é apreciar uma paisagem natural deslumbrante, polvilhada de pequenas localidades com uma arquitectura típica, que nos recordam automaticamente as decorações criadas para os comboios eléctricos que faziam as delícias das crianças, antes da chegada dos videojogos.

Algo que se nota rapidamente é que não há baldios e quase todo o território arável está aproveitado. Para além da agricultura, a pecuária é outro sector a não desprezar. Apesar disso, não eram visíveis as famosas vacas suíças. “Não é altura de estarem cá fora, está frio”, explicam-nos. Mas vemos outro animal que nos deixa perplexos. Nesta região montanhosa europeia vemos lamas! Caroline, uma franco-suíça, diz-nos que se tornou moda e por isso não é raro ver aqui estes representantes da fauna sul-americana. Mas não são tratados como animais exóticos. Dão-se bem com o clima e são usados para produzir lã.

Um Grande de Portugal

O Comandante Alpoim Calvão
nas comemorações do 10 de Junho de 2011.

Fotografia de Humberto Nuno de Oliveira.

«Alpoim Calvão, o homem que, com Chenier de Giordano, pode afirmar "Con la mia voce, ho cantato la Patria"; o homem que, se não ganhou - nem perdeu - a Guerra da Guiné, ganhou a guerra dos mitos e das lendas; o homem que, se falhou nalguma coisa, foi no século; esse homem, um Grande de Portugal que quer as cinzas enterradas na água, lá onde o "suave e brando Tejo" morre, segue o seu caminho de cara ao sol que agoniza no Mar Português.»

Rui de Azevedo Teixeira
in "Tabu"

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Impressões suíças (II): Segurança e controlo


Ouve-se a sirene de um carro da polícia que se aproxima. Avisam-nos que outros se seguirão. Assim aconteceu e por várias vezes. O mínimo incidente, mesmo de tráfego, mobiliza rapidamente um número de agentes que nos parece exagerado. “Tem que ser assim”, dizem-nos, porque é a única forma de garantir a segurança. Parece ser outra obsessão deste país onde há bancos privados que albergam das maiores fortunas do mundo em edifícios discretos.

Os suíços nunca desprezaram a sua defesa e as forças militares estão bem equipadas. Não é raro ver na rua oficiais do exército fardados, a lembrar que o país está pronto para a mobilização, como já aconteceu num passado não tão longínquo.

Outra curiosidade é a existência de abrigos nucleares nos edifícios de habitação e casas particulares. Visitámos um numa vivenda num dos melhores bairros de Genebra. Por debaixo da casa há várias divisões: sala das máquinas, de ferramentas e arrecadações. Mas uma porta blindada salta à vista. É a do bunker que deve albergar a família durante dois dias, até ser retirada para abrigos comuns em caso de ataque nuclear. Parece que a Guerra Fria não terminou por aquelas bandas... Mas a proprietária menoriza o assunto. Diz que tem a sanita química e as reservas de água exigidas pela protecção civil, que já fez a vistoria às instalações. Não acredita na necessidade do espaço e duvida da sua eficácia, mas cumpre as regras.

A Suíça é o país do mundo com maior percentagem de abrigos atómicos per capita. Só em 2006 é que terminou a exigência legal de os construir, sem bem que continua a ser necessário mantê-los. Ao mesmo tempo, quer quiser construí-los hoje beneficia ainda de apoios estatais.

Os suíços são em geral cidadãos cumpridores, mas ao mesmo tempo há uma cultura de fiscalização permanente e cada um é um polícia em potência, que tanto denuncia o automóvel mal estacionado, como o vizinho que não faz a separação do lixo.

Auguri!


Há exactamente dez anos nascia em Roma a Casa Pound. Uma ideia que se concretizou com uma vontade militante e formou uma comunidade que ultrapassou fronteiras e se tornou uma inspiração e um exemplo.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Tempo de Família

É nesta época de recolhimento, em que paramos por momentos a azáfama da apressada rotina diária, que encontramos no seio da família a nossa verdadeira razão de existir. Recordamos os nossos antepassados, celebramos os ausentes e enchemo-nos de esperança com a geração futura.

É na Família que perpetuamos a nossa comunidade, é com os nossos filhos que garantimos a nossa imortalidade. Percebemos o valor imemorial de tão importante ligação, em especial nestes tempos de imediatismo e materialismo exacerbado. Compreendemos que o que perdura é o que fica, que nos marca, que nos dá ânimo.

Assegurar a Família, enquanto instituição basilar da nossa sociedade, é um combate pelo essencial. É uma luta pela nossa sobrevivência enquanto povo. Portugal vive, porque vivem as famílias portuguesas.

Que tenhamos sempre presente este sentimento, porque os ataques à vida repetem-se diariamente, com grande intensidade, e vêm até de onde menos os esperamos. Estejamos atentos e dispostos a defender uma herança ancestral que, por dever, nos cabe manter e projectar para o futuro.

É nos olhos das nossas crianças que vemos o céu limpo do amanhã e reforçamos assim o sentimento de segurança que lhes devemos transmitir.

A este propósito, recordo uma estrofe da “Microbiografia de Natal”, do saudoso Rodrigo Emílio, poeta pátrio que tanta falta nos faz:
"Sol para sempre posto,
eis que despede, porém, e ainda agora gera
renovados brilhos,
no nome e no rosto
de pérola
dos meus filhos."

Editorial da edição desta semana de «O Diabo». 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Lançamento de “Germania” e “Finis Mundi”

Amanhã, dia 23 de Dezembro, é a sessão de lançamento de duas obras a não perder, no Ibis Saldanha, em Lisboa, numa sessão aberta ao público, com entrada livre.


A primeira, “Germania – Geohistória da Europa Central”, da autoria de Nuno Morgado, será apresentada pelo Professor Doutor António Marques Bessa, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). A segunda marca o regresso da mais acutilante revista académica portuguesa, “Finis Mundi”, dirigida pelo Flávio Gonçalves, já no seu sétimo número e contando com a colaboração de dezenas de académicos e intelectuais nacionais e estrangeiros.


A sessão terá início “pontualmente” (aviso dos organizadores) às 18 horas e decorrerá até cerca das 21 horas numa sala do Hotel Ibis Saldanha, além das obras em lançamento estarão disponíveis para venda uma eclética selecção de discos e livros. A organização do evento está a cargo do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares (IAEGCA).

Sobre “Germania”, o autor, Nuno Morgado, afirmou que “ao ouvir falar em ‘Alemanha’, quantos não convocam imediatamente ao intelecto o Nazismo, Adolf Hitler, brutalidades e impressões afins? Um dos objectivos específicos deste livro é exactamente desvelar que existe um universo de cultura e de tradição cristã milenar no espaço da Europa Central. Assim, o livro não se debruça sobre a história da ‘nação alemã’, ou de qualquer outra nação em particular, mas depois de devidamente identificadas as raízes pagãs da Germânia, ocupa-se em analisar o percurso da Cristandade enquanto unidade política corporizada no Reich. Deste modo, aqui se apresenta um verdadeiro manual da História da Europa Central, escrito segundo o método do historiador e geopolitólogo Vicens Vives”.

Por sua vez o Professor Marques Bessa realça “que o autor fez um bom trabalho de fundo, indo às fontes e reunindo dados importantes para o conhecimento dos factos, deformados pelo repetir de mentiras históricas que acumularam poeira sobre uma autêntica saga notável que desabrocha, outra vez, nos nossos dias. O livro que agora têm na mão deve ajudar os que têm boa vontade a olhar para a árvore singular no meio da floresta nebulosa de mentiras”.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Impressões suíças (I): Genebra


O voo de Paris para Genebra, numa daquelas companhias aéreas low-cost que transformaram as viagens de avião bastante acessíveis, atrasou-se. Suprema ironia para quem se desloca para um país onde a pontualidade é levada ao extremo. Os suíços exigem-na e não toleram atrasos, muito menos desculpas. Para cair no habitual lugar-comum, querem a organização do país e dos negócios a funcionar como um relógio suíço.

A primeira sensação, ao entrar num país europeu onde ainda há controlo de fronteiras e que tem uma moeda própria, não deixa de ser estranha. De alguma forma, faz-nos regressar no tempo...

A temperatura ronda os 0 ºC, o céu está limpo e o Sol brilha em todo o seu esplendor. Para esta altura do ano é um tempo formidável. A neve que caiu derreteu e só se manteve nas montanhas. Genebra não é uma cidade grande. É agradável e percorre-se bem a pé. As ruas são movimentadas e há muitas pequenas lojas. Os centros comerciais são raros na Suíça e não se comparam às sobredimensionadas catedrais do consumo que se multiplicaram em Portugal.

Os edifícios estão bem preservados e nota-se que há uma preocupação extrema com a organização da cidade. O património está bem cuidado e vale a pena ser visitado.

O dia começa cedo e o trânsito é infernal. A culpa é dos frontaliers, dizem-nos. É notória a antipatia pelos franceses que todos os dias atravessam a fronteira para trabalhar no país vizinho onde ainda há emprego e os salários são superiores. “Não gastam cá dinheiro. Nem um café tomam”, desabafa um emigrante português que trabalha na recepção de um dos muitos hotéis que acolhem em especial os turistas financeiros, aqueles que ainda enchem os cofres suíços com depósitos milionários. Para José Luís, que nasceu na zona do Grande Porto, mas que foi para lá com os pais ainda criança, os “franceses não pagam impostos na Suíça e os suíços não gostam disso”. Os frontaliers ocupam cerca de um quarto dos empregos no Cantão de Genebra e, apesar da língua comum, são notados pelos locais. É um dos primeiros sintomas de que talvez os suíços não sejam o povo mais hospitaleiro do mundo.

Solstício de Inverno


Celebremos na noite mais longa do ano a nossa herança ancestral, afirmando a nossa concepção cíclica do mundo, a nossa ligação à terra – a nossa identidade. O Sol brilhará de novo e a Terra voltará a viver.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sobre o 3D

«Os 3 D do Partido Socialista em 1974 eram “descolonizar, democratizar e desenvolver”. Os 3 D de hoje são “a dignidade, a democracia e o desenvolvimento”. Aparentemente, 40 anos não chegaram para o trivial, apesar dos fundos da “Europa” e muita parlapatice. Como os promotores do “movimento” dizem, e dizem bem, “é tempo” de tratar seriamente do caso. Infelizmente, a grande maioria desses promotores já tentou e já falhou na missão urgente de salvar a Pátria. Vieram do PC, do Bloco, do PS, do vaporoso “Partido Livre”, mesmo do lúgubre PRD do general Eanes. Ou seja, arrastam atrás de si uma carreira de tristeza e fracasso, de inutilidade e arrependimento. Muitos estão, de resto, reformados e não se deviam meter em aventuras liceais, deviam ficar em casa a beber chá e a ler os livros que não leram.

O actual modo de vida dos “promotores” também não inspira uma especial confiança. Há dúzias de professores de Lisboa e de Coimbra, artistas de vária pena e pinta, um doutorando em “estudos de cinema” e um humorista. Mas ninguém, ou quase ninguém, ligado a uma empresa, ou a uma câmara, ou a qualquer serviço da administração central. O “programa” do “manifesto” mostra esta ignorância essencial. Parece que os “promotores” imaginam que a sua vontade só por si, reunida, por exemplo, num hotel ou no Teatro Trindade, basta para mudar o mundo e o país. Não basta, como é óbvio.»

Vasco Pulido Valente
in "Público"

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dúvida político-cómica


Leio nas notícias que "Ricardo Araújo Pereira, Carvalho da Silva e Daniel Oliveira querem nova frente de esquerda"... Esclareçam-me: isto faz parte do regresso televisivo dos Gato Fedorento?

Coincidências


Nunca suportei o 3D no Cinema, mas nunca pensei que o sentimento se aplicasse também à política nacional...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

Da ignorância nacional

Camões lendo 'Os Lusiadas' aos frades de S. Domingos
António Carneiro
1925, óleo sobre tela 188 x 264 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Vasco Graça Moura traçou muitíssimo bem o panorama da ignorância em Portugal num excelente e certeiro artigo, intitulado "O remorso", publicado no "Diário de Notícias".

Primeiro, faz o trágico ponto da situação: "Vemos a cada dia que passa que os portugueses não sabem nada, ou praticamente nada, sobre o seu país. A ignorância histórica atinge as raias da obscenidade. Quando muito refastelamo-nos nuns ecos idiotas do tempo dos Descobrimentos, mal sabendo do que estamos a falar. Da Geografia, seja física, seja humana, ainda menos. Não conhecemos bem o território que habitamos, nem a relação da nossa vida com ele. Temos uma frequência sumariamente turística e petisqueira com alguns lugares mais promovidos.
Da cultura portuguesa e no que toca às artes, fora este ou aquele monumento mais visitados ao domingo durante a volta dos tristes, somos de uma fúnebre obtusidade. Da língua, estamos falados. Não me refiro apenas ao desconhecimento da sua história. Sucessivas gerações ligadas ao ensino têm dado cabo dela e contribuído para o seu abastardamento. Práticas diárias na comunicação social coadjuvam essa torpeza. É estropiada por toda a gente em todas as áreas do quotidiano e do saber. Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente."

Depois, sobre a actual literatura que se publica em Portugal, afirma: "Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias."

Mas, perante tal descalabro, que fazer? Segundo ele, "o que é preciso é fazer alguma coisa que fique do lado de fora das estatísticas e das apreciações formais da competências. O que é preciso é a promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários, sem exacerbamentos nacionalistas nem patriotinheirismos ridículos e fora de prazo. E também é preciso pôr estes valores, no seu vasto e múltiplo conjunto e nas suas interligações ao alcance do maior número possível de cidadãos, independentemente do trajecto que tenham feito ou façam nos níveis do ensino secundário e do ensino superior".

Alertando também, e muito bem, para o facto de que "não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas. Essa falta também se faz sentir, tanto ou mais do que as apontadas no tocante à História, à Geografia, às artes, à língua e à Literatura".

Para reflectir. Seriamente.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Dos bons e dos maus...


«O erro da leitura da extrema-esquerda reside no seu pecado original: uma visão dualista e maniqueísta do mundo.

A linha de demarcação entre bons e maus não existe. Aquela que separa os cínicos e os manipuladores (conscientes ou inconscientes) dos que possuem, não uma pureza revolucionária (que seria a língua de pau) mas uma dignidade e uma grandeza, não é vertical. Ela não separa direita e esquerda, fascistas e comunistas. Este meridiano atravessa cada experiência política, cada zona de mobilização das energias militantes.

O problema da nossa época reside precisamente na qualidade dos homens e, por conseguinte, no trabalho sobre si próprio que esta constatação implica: um trabalho sobre si próprio que não pode ser desviado por uma caça às bruxas estéril, nem neutralizado pela estigmatização simplista de um bode expiatório.»

Gabriele Adinolfi
in "Nos belles années de plomb. La droite radicale italienne dans l'orage de la lutte armée et de l'exil" (2004).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Governar pelo exemplo

O nosso jornal é um semanário político de intervenção, livre e independente, que toma o partido de Portugal e dos portugueses, tendo como objectivo uma análise rigorosa da actualidade nacional para uma informação séria. Assim, não reduzimos a nossa acção à de meros espectadores e denunciamos as injustiças e os abusos cometidos por aqueles que devem representar o povo.

Em tempos de contenção, em que se exigem crescentes sacrifícios aos portugueses, é incompreensível que na Assembleia da República continue “tudo como dantes”. Qualquer corte salarial deveria começar pelos deputados, para só depois atingir os restantes cidadãos.

Não é por isso de estranhar que cresça diariamente a indignação popular contra um sistema que cada vez mais afasta os cidadãos da política. Mas, atenção, não se trata aqui de fazer um discurso demagógico contra “os políticos”. A política, enquanto organização da ‘polis’, diz respeito a todos. Devemos, por isso, ser “políticos” e preocupar-nos com a nossa vida comum, pugnando por um futuro melhor para as gerações seguintes. Não é com o silêncio nem com lamentos mudos, muito menos com a indiferença, que alteraremos esta situação intolerável. É participando activamente que conseguiremos uma mudança de fundo, desejada e desejável. O primeiro passo é apontar os erros e mostrar o valor da exigência e do compromisso.

Há algo que deve guiar quem governa e que é facilmente perceptível a todos: o exemplo. Mas há muito que este infelizmente se perdeu e se foi gradualmente substituindo por discursos descartáveis e de ocasião, que tudo tentam justificar ou desculpar.

Basta de políticas injustas e injustificáveis de “dois pesos e duas medidas”. O exemplo tem que vir de cima, mas cabe-nos exigi-lo.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Quando os livros são inimigos...


A Librarie Facta, em Paris, foi atacada no início desta semana por quem, discordando de ideias, não hesita em destruir livros. Resultado: vidros partidos e livros danificados com tinta. Uma intolerância intolerável.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Livros em Paris (IV)


Paris é uma óptima cidade para andar a pé e o melhor passeio é ao longo do Sena, ladeado pelos bouquinistes, onde se encontram sempre belos alfarrábios. Um passeio que se tornou um hábito. Está quase. Até já!

O mundo já não é mágico


Ontem falámos de Borges, sobre o seu último refúgio e sobre a sua poesia. Lembrei o poema a Camões, claro, e seguiu-se o dedicado aos Borges, os seus mayores portugueses. Mas o meu Amigo Carlos (que foi ao funeral dele!) recordou um que não me lembrava. É sobre a perda de um amor e aplica-se tão bem à presente época de desilusão... Cheguei a casa e não descansei enquanto não o (re)encontrei. Aqui fica, na versão original, tal como ele o recitou.

1964

I
Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
Ni los lentos jardines.
Ya no hay una Luna que no sea espejo del pasado,
Cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las cienes
Que acercaba el amor. Hoy solo tienes
La fiel memoria y los desiertos días.
Nadie pierde (repites vanamente)
Sino lo que no tiene y no ha tenido
Nunca, pero no basta ser valiente
Para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.

II
Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha, la muerte,
ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al sur, a cierta puerta, a cierta esquina

Jorge Luis Borges

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Holodomor


«Holodomor – ‘morte pela fome’ – foi assim que ficou conhecida essa terrível praga que matou cerca de sete milhões de pessoas. Mas como é que uma região riquíssima agricolamente – antes e depois (hoje é um grande exportador de cereais) – chegou aí?

Os responsáveis são dois – um sistema de ideias e um homem – o colectivismo socialista e Estaline. Os princípios marxistas-leninistas de desenvolvimento económico, implantados depois da revolução de 1917 e da vitória bolchevique na guerra civil, priorizavam a colectivização da agricultura: houve, no princípio, a supressão dos grandes latifúndios, mas em 1922, com a Nova Política Económica, as terras nacionalizadas foram apropriadas às centenas de milhares de kulaks, o nome pejorativo dos pequenos proprietários autónomos que recorriam ao emprego de outros.

Segundo Robert Conquest, no seu clássico The Great Terror, «a colectivização destruiu cerca de 25% da capacidade produtiva da agricultura soviética». Mas na Ucrânia tudo foi pior: as colheitas foram confiscadas para exportação e os produtores e suas famílias deixados morrer à fome. Aqueles que resistiam, escondiam grão ou gado, ou em desespero tentavam subtrair alimentos das granjas colectivas, eram presos, enviados para os campos de concentração da Sibéria ou executados no local. Brigadas de comunistas devotos, enquadrados pela GPU (polícia política soviética), percorriam a Ucrânia, saqueando e queimando aldeias, casas e propriedades dos ‘inimigos do povo’.

«Os homens morriam primeiro, depois as crianças, no fim as mulheres», escreveu um contemporâneo. Os poucos documentos fotográficos e fílmicos são tenebrosos.

Foi um caso claro de genocídio deliberado e executado por razões ideológicas e deve ser encarado não apenas como o produto da crueldade racional ou paranóica de um homem – Estaline – mas como o resultado natural de um sistema de ideias de um modelo político-social.

Um sistema que, por todo o mundo do século XX, produziu alguns dos maiores desastres da História da Humanidade. Sete milhões de ucranianos, numa população de trinta milhões perderam a vida. O Governo soviético ocultou o genocídio e para isso teve a cumplicidade não só dos comunistas de toda a Europa, mas também das esquerdas, desconfiadas do que lhes parecia uma campanha reaccionária.

A Rússia era então o único país comunista do mundo. Álvaro Cunhal, o futuro líder do PCP, tinha 20 anos.»

Jaime Nogueira Pinto

Dia d'O Diabo

domingo, 24 de novembro de 2013

Livros em Paris (III)


Uma das paragens obrigatórias das minhas rondas parisienses dos livros é a Librairie Facta, de Emmanuel Ratier, onde se encontra tudo aquilo que é difícil noutros lados.

sábado, 23 de novembro de 2013

O fermento das minorias

«A desigualdade individual origina no plano social uma divisão entre fortes e fracos, já constatada por Duguit. Os fortes capturam os poderes sociais (político, ideológico, económico) e governam a maioria da população. É o fenómeno das elites dirigentes e dominantes, da hierarquia, que tão bem evidencia a análise da sociedade animal. A reflexão mais desapaixonada sobre esta matéria foi efectuada pela escola sociológica italiana, com Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Roberto Michels. Estes autores provaram a perenidade da minoria, a minoria poderosa, que impõe a sua vontade sobre a maioria dando-lhe a impressão de ser ela a decidir e a governar.

Analisando a sociedade e o homem tal como eles são, estes autores anteciparam-se de quase meio século às realidades científicas do nosso tempo. Identificaram correctamente os detentores do poder real e formularam as leis segundo as quais decorre a disputa da força. Identificaram igualmente as justificações mais ou menos elaboradas que a minoria criou para o seu poderio e chamaram-lhe fórmula política. Dizer que o poder lhe vem de Deus, ou do Povo, ou que é do autocrata a título de conquista, são tudo razões óptimas desde que operem e cumpram a sua função justificativa. Acontece que hoje as fórmulas políticas são as ideologias e nelas não há, como se viu, o menor grão de credibilidade. Está por nascer a fórmula política do nosso tempo, que reduza democracia e socialismo, social-democracia e marxismo, a meros trastes velhos da história da pulhice do homo sapiens.

Os autores que situam correctamente estes problemas numa análise neomaquiavelista são poucos. Todos ainda preferem as visões românticas e penetradas pela ideologia, justificativas em última análise do poder da minoria actuante ou da minoria que aspira ao poder. Contudo, com o desaparecimento desses grandes vultos do pensamento político, não é menos certo que ficaram certos autores que importa conhecer e que reflectem, na Teoria Política, a revolução intelectual a que se assiste noutros campos do saber. Carl Schmitt, o velho professor alemão, James Burnham, Wright Mills e Julien Freund, chegam para assegurar um exercício impecável em matéria de realismo político e transparência de concepção.

As minorias, portanto, longe de se confundirem com a multidão, são pela sua organização e coerência o único fermento social de mudança e poder. Só caem para ceder o lugar a outras, de modo que a História não passa de um velho e enorme cemitério de oligarquias. A lei de ferro da oligarquia, formulada por Michels, apenas se faz eco desta constatação empírica, tão desagradável aos doentes do igualitarismo acéfalo, fervorosos crentes no álibi da tábua rasa.»

António Marques Bessa
in "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade", Edições do Templo (1978).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Hungria no Méridien Zéro


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, sobre a Hungria, com a presença de Márton Gyöngyösi, deputado do Jobbik.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Passageiros


«O indivíduo já não está na sociedade como uma árvore no bosque, assemelha-se, ao invés, ao passageiro numa embarcação, que se move rapidamente e que se pode chamar “Titanic” ou também Leviatã. Desde que faça bom tempo e a paisagem seja agradável, ele mal se aperceberá do decréscimo de liberdade em que caiu.»

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

Contra a recessão demográfica


Há muita gente que não lê este ou aquele jornal devido à suposta "orientação ideológica" destes, mas convém estar atento, porque acontece por vezes concordarmos integralmente com o que é escrito. Leia-se o editorial do «Público» de hoje:

«Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comparando a evolução das famílias entre 1960 e 2011 quantificam transformações e mostram a que ritmo estão a ocorrer mudanças com as quais nos deparamos no nosso quotidiano. Somos um país no qual há mais pessoas sós, mais famílias monoparentais, mais casais recompostos e menos famílias numerosas. Muitos destes dados reflectem a erosão da família tradicional e a adopção de novas formas de vida. Outros traduzem a inexistência de uma política de família que contrarie a tendência para a quebra da natalidade que em Portugal há muito atingiu dimensões gravíssimas. Os dados do Eurostat mostram que temos a segunda taxa de natalidade mais baixa da União Europeia.
Poupa-se nos que ainda não nasceram e não se contraria o desequilíbrio demográfico do país. Os números do INE, por seu turno, indicam que a percentagem de casais com filhos baixou de 41,1% para 35,2%, entre 2001 e 2011. Estes dados evidenciam os efeitos da ausência de uma política real de apoio às famílias. Os dados do Observatório das Famílias e das Políticas de Família revelam que Portugal gasta apenas 1,5% do PIB em apoios económicos às famílias e que nos últimos três anos meio milhão de crianças perderam o direito ao abono de família.
Num país em austeridade acentuada, travam-se os gastos que poderiam conduzir a um aumento da natalidade. Poupa-se nos que ainda não nasceram. E, por essa via, perde-se a possibilidade de contrariar o défice demográfico e torna-se mais difícil combater os problemas que decorrem do envelhecimento das populações, ao nível da Segurança Social ou dos custos de saúde. Um país que convida os jovens a emigrar e não dá aos que fica condições para constituir famílias está a condenar-se a prazo. Somos um país em recessão demográfica e que desistiu do futuro, aceitando o declínio a prazo como preço para sobreviver no presente. É preciso que o país passe a ter uma política de família.»

Sociedade submissa


«A alienação face a um pensamento correcto implica necessariamente a submissão a uma atitude correcta, que na sociedade de consumo compreende a boa vontade face às instituições, o optimismo democrático, a ambição de ser semelhante aos colegas e de aspirar a ser o favorito do chefe, a satisfação de ser um bom cliente e um bom cidadão, empenhado em conseguir dinheiro para comprar cada vez mais coisas que nos são inúteis. Tudo isto a título individual mas cedendo cada vez mais as nossas responsabilidades (políticas, sociais, económicas, ecológicas, familiares, municipais…) a um Estado-Sistema que sofre um acelerado processo de privatização multinacional. A consciência industrial é completada com uma educação industrial que encaminha os seus esforços para fazer de nós uns consumidores teleguiados. A administração e os tecnocratas, menos hipócritas que os académicos, falam de nós como “sujeitos” ( no sentido de “sujeitar”, “reprimir”, “dominar”) e classificam-nos como “recursos humanos”, esta é uma sociedade onde não existem virtudes mas antes normas.»

Maurice Bardèche
in "Sparte et les Sudistes" (1969).

René Magritte


La trahison des images
1929, óleo sobre tela, 63,5 × 93 cm
Los Angeles County Museum of Art
EUA

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Atitude


«É um prodigioso meio de propaganda. É também um elemento de embrutecimento no sentido de que as pessoas confiam naquilo que lhes é mostrado. Elas já não imaginam. Elas vêem. Elas perdem a noção de juízo e dedicam-se gentilmente à preguiça. A televisão é perigosa para os homens. O alcoolismo, a coscuvilhice e a política já fazem embrutecidos. É preciso juntar ainda mais qualquer coisa?»

Louis-Ferdinand Céline

O prazer da leitura


«O prazer da leitura dos grandes escritores da língua portuguesa deveria ir sendo progressivamente construído no pleno escolar, contando, de resto, com elementos auxiliares já existentes e com boas provas dadas, como o Plano Nacional de Leitura. Esse prazer da leitura, misto de exercício intelectual estimulante e de descoberta pelo aluno, ou em grupo, da capacidade da língua que se fala na expressão dos valores racionais, das tonalidades afectivas, das potencialidades expressivas, do jogo entre subjectividade e objectividade, que encontramos na obra de qualquer grande escritor, acaba por ser um dos grandes objectivos extracurriculares de qualquer programa de ensino da língua que seja digno desse nome. Sê-lo-á para a vida.»

Vasco Graça Moura
in «Diário de Notícias»

Lobos no rebanho

Recentemente, um inquérito Eurobarómetro revelou que os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores taxas de participação em actividades culturais e que Portugal é o país onde há maior falta de interesse pela leitura.

Apesar de se verificar uma tendência que mostra que os europeus se interessam cada vez menos pela cultura, o nosso país está mais uma vez na cauda...

Os fundos estruturais comunitários permitiram a construção e renovação de muitas bibliotecas públicas, mas a maioria da população preferiu olhar para o lado, ou melhor, olhar para televisão. Os dados referem que apenas 15 por cento dos portugueses visitaram uma biblioteca pública no ano passado. Por outro lado, a televisão é o entretém preferido no nosso país. Apesar de tanta discussão sobre o “serviço público” prestado pela “caixa que mudou o mundo”, avaliando pelo nível a que baixaram os programas mais vistos, dificilmente poderemos considerar que ver televisão é uma actividade cultural.
Voltando à leitura, apenas 40 por cento dos portugueses leram um livro no ano passado e a principal justificação para não ler é a “falta de interesse”.

Ora, mesmo com as preocupações do aperto financeiro actual, a crise não é desculpa. Pelo contrário, é exactamente em alturas de indecisão que devemos estar bem informados, escapar à ofensiva mediática niveladora e fortalecer uma vontade de mudança.

A ignorância cria rebanhos dóceis, facilmente controlados pelos que diariamente delapidam a Pátria. Mas, como escreveu Ernst Jünger, “se as grandes massas fossem tão transparentes, tão bem articuladas nos seus átomos, como o declara a Propaganda, precisar-se-ia tanto de Polícia como um pastor de cães para conduzir o seu rebanho. Não é este o caso, porque há lobos, que se ocultam nos rebanhos cinzentos, quer dizer: naturezas que ainda sabem o que é a liberdade. E estes lobos não são apenas vigorosos em si mesmos, como também pode dar-se o perigo de as suas virtudes, numa bela manhã, se comunicarem às massas, transformando-se então o rebanho em matilha. Isto é o pesadelo dos detentores do poder”. Sejamos lobos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 17 de novembro de 2013

Diálogos bibliófilos (III)


— Lembras-te de contar, como piada, que no dia em que vivesse sozinho forrava a minha casa a livros? — perguntou o bibliófilo a um amigo.

— Sim, porquê?

— Aconteceu.

sábado, 16 de novembro de 2013

A internacional terrorista dos anos de chumbo


Hoje, às 11 horas portuguesas, é emitido o programa "Libre Jounal des Lycéens", transmitido pela Radio Courtoisie, dirigido por Pascal Lassalle, que recebe Gabriele Adinolfi, que falará sobre a internacional terrorista dos anos de chumbo, Anne Durand, membro da Solidarité Populaire, e Henri-Paul Falavigna, presidente da associação humanitáira "Solidariedade Crianças de Beslan".

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Livros em Paris (II)


Enquanto o corpo aguarda a partida para Paris, a cabeça vai fazendo as suas viagens... Outra paragem que habitualmente faço nas minhas rondas dos livros é na Galerie de la Sorbonne, uma pequena livraria em frente ao Collège de France, onde se encontra muita coisa a óptimos preços.

Cunhal, o "soberano"


«O indivíduo que planeava transformar Portugal numa espécie de Bulgária do Ocidente, o promotor do PREC, o responsável pelas “nacionalizações” e pela ocupação dos “latifúndios”, o desorganizador da economia, o inimigo da “Europa”, esse parece que desapareceu. Só resta, com muito sentimentalismo, como ele gostaria, a máscara do soberano, perante a qual ainda uma pequena parte do país se acha obrigada a genuflectir. A consciência histórica dos portugueses é um óptimo reflexo da inconsciência que os trouxe à miséria e ao desespero.»

Vasco Pulido Valente
in «Público»