quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Amadeo

Tal como havia feito para Cassiano Branco, o Google decidiu hoje recordar Amadeo de Souza-Cardoso a propósito do seu aniversário, com um novo doodle comemorativo.


O “perigo” às portas

A capa da edição da primeira semana de Novembro da revista marroquina “MarocHebdo” seria impossível na Europa de hoje em dia, apesar de tratar um assunto de extrema importância. Com a manchete “Perigo negro”, revela que os milhares de clandestinos subsaarianos em Marrocos vivem da mendicidade, dedicam-se ao tráfico de droga e à prostituição. Alvo do racismo e da xenofobia, são um problema humanitário e de segurança para o país. Tudo às nossas portas.


A questão das vagas de imigrantes clandestinos vindos de África não é novidade para os europeus. Mesmo com crise económico-financeira, o Velho Continente continua a ser um destino apetecível para quem vem de situações de miséria e está disposto a esforços inacreditáveis para aqui chegar.

Se por cá o debate sobre as políticas de imigração está normalmente inquinado por complexos “politicamente correctos” de eterna culpabilização, outros países vivem agora realidades semelhantes e sentem idênticas necessidades. Talvez com estes exemplos se consiga chegar a uma solução viável para este problema de fundo.

Antes de atingir a Europa, estes imigrantes detêm-se na barreira natural do Norte de África. Com as crises na Líbia e na Tunísia, o seu impacto intensificou-se em Marrocos. Esta alteração e as suas consequências sociais começam a preocupar cada vez mais os marroquinos e a gerar novos fenómenos. [Para ler na íntegra na edição desta semana de "O Diabo"]

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Refundação

Não deixa de ser curioso ouvir falar em “refundação” nos tempos que correm. É mesmo irónico, já que é exactamente do que Portugal precisa. O problema é que há uma confusão semântica nesta afirmação.

Quando o primeiro-ministro fala em “refundação do Estado”, o que parece querer dizer é reforma da Administração Pública. Senão, vejamos: o que está em causa é a redução de funcionários públicos e uma série de cortes no chamado Estado social. Ou seja, apesar de tais alterações poderem provocar modificações no funcionamento da máquina estatal, o regime continua a ser o mesmo.

Podemos considerar que da última vez que o Estado português foi “refundado” – para muitos foi, pelo contrário, “reafundado” – tal se deveu ao golpe militar de 25 de Abril de 1974. Será que os nossos políticos querem alterar o que foi instituído nessa altura?

Não temos D. Afonso Henriques com a sua determinação em tornar o Reino livre e independente. Já nem esperamos D. Sebastião, último rei do mundo antigo, que deve estar sempre presente no nosso espírito. Definhamos numa pobreza a todos os níveis depois de a ditadura do consumo e do conforto nos ter amolecido enquanto Povo.

A vontade de mudança não surge em períodos de abundância. Durante a bonança não sopram os ventos que enchem as velas e nos fazem mudar de rumo – que nos fazem avançar.
É nestes períodos conturbados que surgem os homens providenciais, aqueles que se destacam dos funcionários, dos técnicos, dos sujeitos mecânicos. Verdadeiros comandantes de navio, são eles que despertam os conformados da sua sonolência e que lhes mostram que onde há uma vontade há um caminho.

Esperemos que esta crise acabe por fazer emergir uma tão necessária refundação. Que neste processo se possa reaportuguesar o País e que tomemos consciência do nosso destino comum.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Frase do dia

«Com certeza animado pela fervorosa carta de Mário Soares, Barack Obama conseguiu ganhar.»

Vasco Pulido Valente
in "Público"

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Novembro


Este é o mês certo para ler "Novembro", o recém-publicado romance de Jaime Nogueira Pinto, cujo lançamento é hoje às 18:30, no Café Império, em Lisboa, com apresentação de Vasco Graça Moura. É a primeira ficção deste autor, que viaja até ao início dos anos 70 para construir uma história que tem muito de si e daqueles que também tinham 20 anos no 25 de Abril, mas que estavam "do outro lado". Uma leitura fascinante.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Oeste nada de novo

Há 12 anos, estava eu na Florida, quando se decidiu, numa eleição controversa que implicou uma decisão judicial, a vitória de George W. Bush. Foi curioso observar a forma como as pessoas comuns vivem uma campanha nos EUA. Não querendo nem podendo ser exaustivo, refiro apenas um pormenor que na altura me chamou automaticamente a atenção: o facto de muitos estabelecimentos comerciais assumirem o seu candidato e afixarem a respectiva propaganda nas montras. As recordações dessa altura foram mantidas vivas pela observação de um continuado processo a que podemos chamar, numa generalização simplificadora, “americanização”. Tal ocorre tanto nos outros países ocidentais, como no resto do mundo. Muitas transformações sociais ocorridas reproduzem o modelo norte-americano, que continua a ser visto como “moderno” ou um “progresso”. No entanto, apesar disso, a realidade dos EUA continua a ser muito diferente de todo esse mundo que influencia, ainda que indirectamente. Quem olha de fora para a potência que saiu vencedora da Guerra Fria, cai normalmente em erros de análise crassos.

Veja-se como exemplo a eleição de Obama. As esquerdas europeias congratularam-se, numa histeria que mais fazia lembrar um artista musical. Escusado será dizer que entre o Partido Democrata norte-americano e as esquerdas europeias há uma distância quase tão grande como o Oceano que os separa. Por outro lado, a partir de Bush, em especial com os ‘neo-cons’, e depois com o Tea Party, o Partido Republicano é apresentado por cá como uma espécie de “perigosa extrema-direita”. Assim, para os bem-pensantes europeus, aqueles representam o protótipo do norte-americano ignorante. Se é verdade que “Dubya” (designação irónica dada a Bush Filho) era pródigo nesses tropeções, acontece que este é um fenómeno recorrente e explorado em ambos os lados. A última ‘gaffe’ desta campanha até foi protagonizada por um democrata, quando Joe Biden, referindo-se a Obama, afirmou num comício que “não houve um único dia em que se tivesse orgulhado de ser seu vice”.

Numa eleição em cuja campanha o assunto central foi a economia e em que pouco se debateu a política externa, a maioria dos comentadores prevê a reeleição de Obama, apesar de as sondagens colocarem Romney bastante perto. Mas será a diferença entre os dois – para nós, evidentemente – assim tão grande? A Oeste nada de novo.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Dia d'O Diabo


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Joana d'Arc


Já nas bancas está o mais recente número especial de "La Nouvelle Revue d'Histoie", dedicado a Joana d'Arc.

sábado, 3 de novembro de 2012

Crónica de um caso delirante

O caso de Pedro Varela é inacreditável, mas aconteceu. Acusado por editar e vender livros portadores de ideias “incorrectas” foi preso e os respectivos livros destruídos. Tudo se passou no século XXI na democrática União Europeia. O Humberto Nuno de Oliveira decidiu em boa hora relatar o sucedido, bem como todas as acções de apoio que decorreram no nosso país, em livro.





A minha avaliação deste livro não é apenas uma apreciação subjectiva. Conheço o Pedro Varela e estive várias vezes na sua livraria. Este caso, obviamente, não me foi em nada distante. Como o autor refere num breve capítulo, “só a cobertura do único semanário verdadeiramente independente e livre em Portugal, ‘O Diabo’, permitiu que o caso de Pedro Varela pudesse furar a indiferença e o bloqueio mediático que também entre nós lhe foi imposto”. De seguida elenca os vários artigos publicados nesse semanário sobre o sucedido, da sua autoria, do Flávio Gonçalves e um assinado por mim.

Para além disso, unem-me ao Humberto Nuno de Oliveira fortes laços de amizade e camaradagem. Acompanhei a elaboração deste livro desde que ele não passava de uma óptima ideia. Tive a felicidade de a ver concretizada – algo tão raro no nosso país – e ter dado o meu modesto contributo, nomeadamente na revisão. Foi também com grande contentamento que vi a participação de outro amigo e camarada em comum, o José Luis Jerez Riesco, enquanto autor de um sábio, certeiro e motivador preâmbulo.

A tão proclamada defesa da liberdade de expressão é sempre muito complicada, quando se trata de defender o direito à palavra de pessoas com as quais não concordamos. No entanto, no que respeita a Pedro Varela não se reduz apenas a isso. Como nos diz o Humberto, num capítulo profusamente ilustrado, na lista de livros proibidos pelos quais Pedro Varela foi condenado enquanto editor constam diversos títulos que eram vendidos livremente pelo maior portal livreiro espanhol na internet.

O Humberto não foi apenas um espectador deste caso. Este livro é, aliás, mais uma das suas denúncias do sucedido. Enquanto coordenador do Comité Português Pró-Liberdade de Pedro Varela trocou vária correspondência com o detido, participou em várias iniciativas públicas exigindo a sua libertação, ou recolhendo apoios, proferiu conferências e escreveu artigos. Todo este trabalho é condensado neste opúsculo, que incluiu a reprodução de diversos documentos deste processo kafkiano, fotografias das acções desenvolvidas, extractos das cartas de Varela, nomeadamente as que referem explicitamente o apoio recebido de Portugal, entre outras.

O livro pode ser pedido através das Edições Réquila (edicoesrequila@gmail.com) ou directamente ao autor (hnuno.oliveira@gmail.com). O custo, destinado a pagar a edição e ajudar a futura vinda do Pedro a Portugal, é o definido pela distribuidora (8 euros) a que acrescerá 1 euro (de correio verde) para o caso de expedição postal.

Exemplo de coragem, camaradagem e de recusa de indiferença ou passividade, “17 Livros para uma Prisão – O Caso de Pedro Varela”, é um livro sintético e muito bem construído, de leitura fácil, mas com uma reflexão bastante informada, que nos alerta para algo que aconteceu “aqui ao lado”, na vizinha Espanha.

Dizer “as verdades”

Como qualquer sector, a Imprensa também não escapa à crise. Disso são prova as recentes notícias sobre cortes, despedimentos, greves, etc. em vários meios de comunicação social. Ora, é exactamente em períodos como aquele que atravessamos actualmente que a informação séria e livre é mais necessária. Nunca é demais lembrar que a ignorância é uma das piores armas que pode ser usada contra nós.

O panorama da Imprensa nacional não é muito animador. Tendo em conta a população portuguesa, há poucos jornais e as respectivas vendas são cada vez mais baixas. Para além disso, a maior parte dos órgãos depende directamente de grandes interesses, através de grupos económicos. Apesar de várias excepções e fugindo a generalizações abusivas, há que reconhecer que tal facto condiciona naturalmente os principais jornais em Portugal. Em tempos de aperto financeiro, a tendência é para que esse condicionamento se agrave.

No caso de “O Diabo”, a que chamamos “jornal independente” porque o é de facto, a escolha sempre foi clara. Pautamos o nosso trabalho pela seriedade e pela liberdade. Só assim consideramos que o jornalismo e a actuação da Imprensa enquanto IV poder fazem sentido na nossa sociedade. É talvez por esta postura ser reconhecida que a forma mais habitual com que os nossos leitores descrevem “O Diabo” é dizendo que se trata de “um jornal que diz as verdades”. Este é o melhor elogio que nos podem fazer. Em tempos como estes, uma das melhores coisas que existem no nosso país é haver ainda jornais que escapem ao conformismo e se neguem à submissão. É uma escolha obviamente difícil, a da recusa do conforto. Mas o resultado é uma recompensa que pura e simplesmente não tem preço.

Há dias, um antigo jornalista folheou o nosso jornal à minha frente e comentou: “Que saudades de escrever livremente...” O meu primeiro pensamento foi o da importância da existência de jornais verdadeiramente livres, não alinhados e interventivos. Prontos a denunciar os que abusam do poder e prejudicam a nossa Pátria.

Que nunca tenhamos saudades de tempos em que existiam tais jornais, simplesmente porque não podem acabar os que, como nós, “dizem as verdades”, custe o que custar e doa a quem doer.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

As artes sob a Ocupação


Este número especial que junta as revistas “Le Nouvel Observateur” e “BeauxArts” é publicado por ocasião da exposição “A Arte em Guerra”, patente no Museu de Arte Contemporânea da Cidade de Paris, e tem como tema “As artes sob a Ocupação”. Esta é uma questão sempre complicada, já que é muito difícil – em especial no período da Segunda Guerra Mundial – separar o talento do envolvimento político. Apesar de considerar o período da Ocupação como os “anos negros”, a revista não deixa de ter alguns artigos sobre a vitalidade cultural dessa altura. Por exemplo, sobre a extraordinária produção cinematográfica, entre outras, com destaque para o artigo sobre o jazz, que para além de não ter sido proibido pelos alemães, conheceu nessa altura um sucesso sem precedentes. Pelo contrário, o espaço dedicado à depuração que se seguiu no pós-Guerra é notoriamente diminuto. Ainda assim, a qualidade gráfica da revista e a pertinência do tema tornam este número interessante.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O dia do grande terramoto


"Lisboa antes e durante o terramoto de 1755"
Mateus Sautter (Escola Alemã, Séc. XVIII)
 Museu da Cidade, Lisboa.

Clareza


Ezra Weston Loomis Pound
(Hailey, 30 de Outubro de 1885 — Veneza, 1 de Novembro de 1972)

"A clareza de cada homem deve começar dentro da sua própria cabeça."

Um poeta


"Mas eu sou poeta e sobre a minha tumba
Todos os homens hão-de espalhar pétalas de rosa
Antes que a noite mate a luz
Com a sua espada azul.”

Ezra Pound