quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Giono e o cinema


Este foi um dos achados que encontrei hoje nas pilhas de livros e revistas antigas sobre cinema que estão à venda por 1 euro na livraria Barata, na Av. de Roma, em Lisboa.

A verdade sobre a História na escola


O tema central desta edição da revista “Le Figaro Histoire” é de uma importância vital – a verdade sobre a História na escola. Num excelente dossier, são primeiro tratados os “órfãos da História”, num artigo que demonstra que a crise do ensino da História começa nos anos 1970, com reformas que puseram em causa a transmissão de conhecimentos. Depois, são apontados os “desclassificados da História de França”, as grandes figuras que já não figuram nos curricula escolares e que deram lugar ao estudo do facto social e de mundos longínquos. A seguir, analisa-se a “vida e morte do romance nacional”, onde se vê que o desaparecimento do recito épico da História de França no ensino coincide com a desagregação do sentimento de pertença a uma mesma comunidade de destino. No entanto, como afirma em entrevista o secretário-geral da Associação de Professores de História e Geografia: “defender a História é um combate”.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Um homem e a terra

Uma das obras incontornáveis de Jean Giono é um pequeno livro inspirador, que mostra como a determinação e a simplicidade podem provoca alterações profundas no meio que nos rodeia. “O Homem que Plantava Árvores” (brochado, 72 páginas, 7,95 euros), agora com nova edição ilustrada da Marcador, traz este verdadeiro conto de encantar de volta ao mercado nacional.


Jean Giono (1895 – 1970) nasceu, viveu e morreu em Manosque, na Provença. Só a Grande Guerra, as ocasionais idas a Marselha e três breves viagens para fora de França o afastariam da sua terra. Para muitos era um “viajante imóvel”. A sua experiência na Primeira Guerra Mundial, onde viu morrer o seu melhor amigo e inúmeros camaradas, torná-lo-ia um pacifista até ao fim da vida. O seu amor à terra inspira a sua visão panteísta. Há no encontro do Homem e da Natureza uma libertação pagã – é essa a espiritualidade de Giono. Opõe-se, por isso, ao mundo moderno e à sua loucura mecânica.

Durante a Segunda Guerra Mundial, mantém-se fiel ao seu pacifismo. Vê em Vichy a paz necessária e continua a sua vida pacata, dedicando-se à escrita, sendo a sua obra bastante apreciada. A seguir, durante o período da persecutória depuração feita durante a chamada “Libertação” da França, Giono é um dos nomes que constam na lista negra feita pelo Comité Nacional de Escritores, um órgão dominado pelos comunistas, ao lado de escritores “colaboracionistas” como Drieu la Rochelle, Louis-Ferdinand Céline, Alphonse de Châteaubriant, Charles Maurras ou Henri de Montherlant. Só nos anos 50 do século XX, a sua obra e o seu talento seriam de novo reconhecidos.


“O Homem que Plantava Árvores” conta a história de Elzéard Bouffier, um homem solitário que decide dedicar toda a sua vida a fazer nascer, pacientemente, toda uma floresta numa região antes árida e inóspita. Esta atitude demonstra verdadeiramente o carácter de um homem. Como afirma Giono: "Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível."

Será esta uma história verdadeira? A questão foi colocada por muitos e para alguns esta era inspirada numa pessoa real, ou até na vida do próprio autor. Giono via nessa dúvida um reconhecimento e o que é facto é que esta sua pequena, mas grande, obra inspirou muitos plantadores de árvores reais.

No mundo de hoje, cada vez mais urbanizado, uniformizado, descaracterizado e, consequentemente, mais desenraizado, impõe-se (re)ler este livro. Que a sua simplicidade tocante sirva para (re)encontrarmos a necessária ligação entre o homem e a terra.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A França actual vista pela televisão russa


No início deste mês, uma equipa do primeiro canal público russo Rossiya 1 fez uma reportagem em França, escolhendo Paris e Saint-Ouen para mostrar o impacto da presença dos muçulmanos e da imigração ilegal africana.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O ouro é quem mais ordena

Já em 1927, no seu livro “Durante a Fogueira”, o mestre integralista António Sardinha escrevia: “Apregoa-se, vai em século e meio, a soberania do povo e só descobrimos, ocupando-lhe o lugar, o capitalismo mais desaforado e mais omnipotente. É o ouro quem manda desbragadamente. Manda a agiotagem, como nunca. Reina a bancocracia...” Palavras que reflectem o estado de coisas hoje em dia, que piorou substancialmente com a chamada globalização.

É pois curioso assistir à estéril discussão entre o posicionamento de esquerdas e direitas, conceitos que cada vez mais perdem o sentido. De um modo geral, a esquerda, não se hesita em atacar as “políticas de direita”, normalmente identificadas com o liberalismo económico, à direita insiste-se na inevitabilidade de uma submissão ao economicismo. Seja pela defesa do progresso ou do desenvolvimento, ambos os lados tornaram-se cada vez mais iguais, numa atitude passiva de aceitação.

Vemos hoje que os grandes interesses económicos, o que se convencionou chamar “o grande capital”, administram crises e controlam países na prossecução do seu objectivo de transformar o mundo num mercado globalizado e os homens em meros consumidores.

Dizia o banqueiro anarquista a Fernando Pessoa que “a tirania é das ficções sociais e não dos homens que as encarnam”. E exemplificou: “Destrua V. todos os capitalistas do mundo, mas sem destruir o capital... No dia seguinte o capital, já nas mãos de outros, continuará, por meio desses, a sua tirania. Destrua, não os capitalistas, mas o capital; quantos capitalistas ficam?...” O nosso poeta deu-lhe razão...

A resposta tem obrigatoriamente que passar por uma defesa de valores permanentes, pela afirmação da primazia do político – no sentido schimttiano do termo – e pelo reconhecimento da importância da Nação.

A actual crise económico-financeira pode conduzir – assim o esperamos – a um esgotamento do sistema. Aí haverá a oportunidade de sair de um modelo que tem conduzido à destruição das pátrias. Talvez então, para além de esquerdas e direitas, levantemos de novo o esplendor de Portugal.


Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Diplomatie n.º 58


O mais recente número desta revista de referência nos assuntos estratégicos e relações internacionais disponível no nosso país, referente aos meses de Setembro e Outubro, dedica um ‘dossier’ à pertinente questão sobre qual o controlo que existe para o comércio de armas, que inclui vários artigos e análises, bem como um excelente atlas do mercado lícito e ilícito de armas. Com o habitual nível elevado e a excelente paginação, oferece ainda as habituais secções “Focus”, na qual se destaca a geopolítica dos mares, “Pontos Quentes”, que trata do tema da crise síria, “Geopolítica”, desta vez dedicada ao México enquanto cruzamento de todos os tráficos, e “Estratégias”, que analisa a Líbia enquanto modelo de transição política.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Reconquista de Lisboa

"A Conquista de Lisboa", Roque Gameiro (1917).

Reza a História que neste dia, em 1147, D. Afonso Henriques fez a sua entrada triunfal em Lisboa, depois de a cidade ter sido reconquistada com o auxílio de cavaleiros da Europa.

Dossiers d'Archéologie n.º 353


O mais recente número desta revista francesa especializada em Arqueologia disponível nas bancas nacionais, referente aos meses de Setembro e Outubro, tem por tema o início do Neolítico na Europa. É um interessante regresso às investigações sobre as nossas origens e como a metamorfose do Neolítico provocou a construção de uma outra Europa. Esta edição tenta mostrar o estado do conhecimento no que respeita a esta mutação que modificou o nosso continente nos mais variados aspectos: sociais, económicos, ideológicos e materiais. Para além da análise a partir dos achados arqueológicos, há um interessante artigo sobre os dados do ADN e a utilização da genética das populações para o estudo da neolitização da Europa.

sábado, 20 de outubro de 2012

Imprensa em crise

A crise toca a todos e o que já havia acontecido noutras paragens chega agora ao nosso País. Os cortes salariais, os despedimentos e as reduções de pessoal nos meios de comunicação social foram a tónica na semana passada. Por causa deles, o jornal “Público” e a agência Lusa vão entrar em greve. Como noutros sectores, a situação apenas tem tendência a agravar-se. No entanto, neste caso, surge imediatamente uma preocupação óbvia. A ausência de uma Imprensa livre é muito prejudicial a um País, ainda para mais quando se encontra numa situação de crise profunda. Uma sociedade informada é essencial para resistir às maiores adversidades.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Resgatados


A postura actual do PS nas críticas ao Governo de coligação entre PSD e CDS-PP parece a de um partido que nada teve que ver com o pedido de resgate financeiro. Como sabemos, os três assinaram o acordo e foi o ex-primeiro-ministro José Sócrates que chamou a ‘troika’. O processo foi tudo menos fácil. Dois jornalistas contam agora em livro o que se passou nos bastidores, da teimosia de Sócrates à “traição” de Teixeira dos Santos.

Em Portugal não estamos infelizmente habituados a livros destes. Até nisto os portugueses continuam afastados da política. Será uma inevitabilidade? David Dinis, editor de política do semanário “Sol”, e Hugo Filipe Coelho, repórter parlamentar do “Diário de Notícias”, decidiram abrir um caminho e escrever “Resgatados – Os Bastidores da Ajuda Financeira a Portugal”, publicado pela Esfera dos Livros.

Um livro a não perder que, depois de uma entrevista com David Dinis, serviu de base para as centrais da edição de “O Diabo” desta semana.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Nobel da Paz


A União Europeia (UE) recebeu o Prémio Nobel da Paz deste ano, o que não deixa de causar estranheza, mesmo conhecendo as tendência políticas da Academia Sueca. Já no ano passado, a distinção coube ao Presidente norte-americano Barack Obama, o mesmo que mal assumiu o cargo enviou um grande contingente de tropas para o Afeganistão. Também em relação à UE, basta recordar a ex-Jugoslávia. Realmente, como previu Orwell no seu “1984”, cada vez mais “guerra é paz”. Muitos remetem o prémio ao pós-Segunda Guerra Mundial, o que mais parece um reconhecimento tardio. Como tantos ironizaram, este deve ser o prémio “que descanse em paz”...

Fiscalismo

O aumento da carga fiscal anunciado pelo actual Governo foi classificado pelos comentadores políticos da nossa praça como “brutal”, “napalm”, um “tsunami”, um “assalto” entre outros mimos. Não é coisa para menos. A subida de impostos nunca é uma medida que as pessoas aceitem de ânimo leve, mas desta vez foi especialmente dura. Por um lado, o agravar do aperto em que já estão os portugueses com este aumento extraordinário, por outro, a ideia generalizada de que quem o impõe não está seguro do que está a fazer e, por fim, o visível despesismo que continua e que os cidadãos comuns – os esmifrados do costume – já não compreendem, nem aceitam.

É inegável que uma sociedade só funciona com impostos e que a ideia, muito comum no nosso país, de que quem a eles consegue fugir é um herói está completamente errada. No entanto, longe se ser um esforço comum, a carga fiscal incide cada vez mais sobre os mesmos. Refiro-me à classe média – essa fatia que na nossa sociedade se arrisca a tornar-se uma “espécie em vias de extinção” – que continua a sustentar a situação. É claro que muitos continuam a acreditar neste modelo político e social, mas vai havendo cada vez mais que só continuam a pagar porque não têm escapatória.

Por outro lado, os que governam têm no agravamento fiscal uma ferramenta fácil e sempre à mão, que em alturas difíceis não hesitam em utilizar. O problema é quando o seu uso, que normalmente é um abuso, é feito sem qualquer estratégia.

O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, com o seu discurso pausado, convenceu muita gente que sabia o que estava a fazer. Agora, depois de tantas hesitações governamentais, de tantos avanços e recuos, são poucos os que ainda depositam a sua confiança em quem parece vai conduzindo o País com medidas avulsas, por tentativa e erro.

Mas o mal não é só nosso, evidentemente. Estamos a ver que a milagrosa receita da ‘troika’ não passa afinal de um logro e que até a responsável pelo FMI considera que toda esta austeridade é demais.

O fiscalismo continua a ser uma arma contra o povo, enquanto este permanecer sereno. E quando já não houver onde ir cobrar?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Entrevista com Alberto Buela

Alberto Buela, filósofo argentino e professor catedrático, esteve em Lisboa no passado dia 6 de Outubro a convite da “Finis Mundi”, revista dirigida pelo Flávio Gonçalves, da qual é membro do Conselho Científico. A apresentação do n.º 5 foi feita por mim, enquanto director de “O Diabo", ‘media partner’ da revista, perante uma assistência interessada, que depois teve a oportunidade de ouvir uma conferência de Alberto Buela sobre a Teoria da Dissidência. Aqui fica a entrevista publicada na edição desta semana de “O Diabo".


Alberto Buela e Duarte Branquinho


 O que o trouxe a Portugal?
Em primeiro lugar, vim pelo vinho verde (risos), que é melhor que champanhe! E eu venho de um país que produz vinhos muito bons. Também já provei o bacalhau, que é um peixe de ricos. Os portugueses são ricos que agora se tornaram pobres, mas que não perderam o bom gosto, o que é fundamental.
A vinda aqui nasce de um convite de uma Universidade espanhola ao qual se seguiram outros, incluindo de França. Mas vim a Portugal primeiro por vontade própria, porque sempre me interessou o mundo português, depois porque queria conhecer um filósofo português, porque a seguir à guerra eram todos marxistas, por fim, vim por causa do convite formal da revista “Finis Mundi” para falar um pouco na apresentação do número que teve a amabilidade de publicar um texto meu.

O tema era a Teoria da Dissidência. De que se trata?
Trata-se de utilizar a dissidência como um método para terminar com a Teoria do Consenso, com o pensamento único, com o politicamente correcto. A primeira exigência é a preferência de si mesmo. Saber quem somos, dizer ao outro quem somos e esperar que nos diga quem é. É um sistema de valores, que são polares, em termos filosóficos. Quer dizer, temos que preferir um ou outro, não podemos querer os dois. A seguir temos que fazer uma recuperação das tradições nacionais, reencontrar o nosso ‘genius loci’. A dissidência mata o simulacro em que hoje vivemos.

Falou sobre a Universidade hoje e a ultra-especialização. É um grande problema?
Sim. As Universidades perderam o sentido, produziram investigadores da “imortalidade do caranguejo”, ou seja, grandes especialistas no mínimo.

Acha que surgirá de novo um tempo para os grandes pensadores, para os verdadeiros filósofos?
Não sei o que se passará no futuro porque o voo de Minerva, que é o símbolo da Filosofia, parte quando a realidade já se pôs, ao entardecer. Por isso nós, os filósofos, cada vez que falamos do futuro enganamo-nos. Já sobre o passado somos os melhores... Mas este tema, o do filósofo como aquele que tem uma visão do todo, que tem um pensamento especulativo, foi algo que realmente se perdeu. O pensamento especulativo pertence agora aos jornalistas.

Como assim?
Os jornalistas são os novos filósofos. A Revolução Francesa matou os filósofos e substituiu-os por ideólogos. A sociedade de consumo matou os ideólogos e substituiu-os por jornalistas e artistas. É aquilo a que chamo a pátria locutora. Os jornalistas têm que falar ou ficam sem trabalho. Um jornalista é um mestre de generalidades. É como um antigo filósofo, sem sê-lo. As circunstâncias obrigam-no a ser assim.

Porquê?
Porque o que emana da Universidade é um pensamento conformado, metodologicamente trabalhado. Esse pensamento é estéril e às pessoas não interessa a esterilidade. O público, que é quem manda no jornalismo, quer razões gerais. Por isso um jornalista é um grande ensaísta. As pessoas querem isso, querem soluções gerais, querem coerência. Ora, na Universidade, hoje em dia, nada se produz.

Qual é o pior aspecto da crise que atravessamos?
É a representatividade política. Os partidos políticos de há 50 anos para cá, mais ou menos, tomaram o monopólio da representatividade política. Claro que, como em qualquer monopólio, não permitem a participação de outros. Com o passar dos anos, este monopólio acabou por nos conduzir à crise terminal que estamos a viver.

Era melhor no Estado Novo?
Ninguém pode contestar que Salazar foi uma das principais referências do Estado do bem-estar. Antes de Oliveira Salazar, nada! Como Franco, ou Perón, ele inventa o Estado do bem-estar, que consagra os direitos de segunda geração: o direito ao trabalho, à reforma, às férias, à escolaridade das crianças, à saúde.

E a seguir?
Por exemplo, na época de Soares, havia um compromisso. Não podemos comparar a representatividade dessa altura com a de hoje. Então ainda havia algum compromisso com o socialismo, ou outras ideologias. Agora, os políticos estão apenas comprometidos com eles próprios e com os seus interesses. Hoje vivemos uma oligarquia partidária.

É essa a causa de tantos protestos?
Sim. Quando falha a representatividade política, estalam os protestos. Quando a representatividade é nula, acaba-se na rua. Mas chegamos a um protesto sem conteúdo.

Que pensa dessa vontade do povo?
O povo transformou-se no “público consumidor”. Chegámos ao máximo da sociedade de consumo. Os políticos de agora, Hollande, Sarkozy, Zapatero, Berlusconi, representam oligarquias fechadas. Um corpo endógeno que se alimenta a si mesmo. Por um lado retiram ao povo a representação política, por outro lado recebe da sociedade de consumo um ataque às suas próprias convicções.

O povo está viciado no consumo?
Hegel diz que o consumo é infinito. Há sempre algo mais a consumir. Há sempre um modelo novo, um mais recente. Se eu corro atrás do consumo, acabo por me tornar parte do público consumidor. Heidegger afirma isto, também. Mas nós não podemos, porque o consumo está constantemente a tentar-nos.
Estas sociedades opulentas, de massas, retiraram o carácter político ao povo. É por isso que cada vez que há eleições, se agitam os fantasmas do dinheiro, do trabalho, da recessão.

É um jogo dos governantes?
O filósofo italiano Massimo Cacciari disse que os governos vivem do conflito. Vivem da paz aparente. Os governos pós-modernos limitam-se a administrar os conflitos, não os solucionam. O conflito é parte da sua própria existência.

A actual crise económica é boa para eles?
Exacto. É como para nós, nos países sul-americanos, o tema da insegurança. Em Lisboa não se compara taxa de criminalidade com as cidades sul-americanas, onde se mata diariamente por nada. A insegurança é lá uma política de Estado. Aqui é a crise económica. A política de Estado é garantir que não desapareça a conflitualidade.

Conferência de Alberto Buela em Lisboa

A representação no peronismo era uma solução?
Sim, falo da dupla representação, ou do duplo voto. Era uma representação comunitária. A questão é que era necessário retirar o monopólio aos partidos políticos e dar uma parte à comunidade. Havia uma representação política e uma representação laboral. Mas isto, hoje, nunca será concedido pelos que detêm o poder. O que não significa que deixemos de propô-lo.

Que acha das manifestações de rua?
A manifestação maciça nas ruas não tem eco se não houver uma instituição que a contenha. No peronismo, o povo solto não existe. Apenas o povo organizado, em instituições sociais, em sindicatos.

Hoje, na Argentina, os sindicatos mantêm essa representação popular?
Na Argentina, os sindicatos são a única força que se opõe ao Governo. Em termos de representação, digo que há 13 milhões de trabalhadores e oito milhões estão sindicalizados.

Mas não são sindicatos marxistas, como tantos que há na Europa...
Não. Há alguns socialistas e até uns trotskistas, mas são pequenos. Os maiores são todos peronistas.

Parece que Perón conseguiu que quase todos os argentinos se considerassem peronistas até hoje...
Costumo dizer que a diferença entre Salazar, Franco, Stroessner e Perón é que os três primeiros estiveram no poder cerca de 40 anos, enquanto Perón esteve apenas dez. No entanto, não há hoje um partido salazarista em Portugal, um franquista em Espanha, ou um stroessnerista no Paraguai, enquanto na Argentina quase todos são peronistas.

Qual é esse mistério argentino?
Perón criou instituições sociais. Aliás, fê-las criar, não as criou ele; criou as condições para que estas pudessem surgir. Foi um regime verdadeiramente popular.

Como é que esse regime é visto pela esquerda?
Sempre como “fascista”, claro, com o discurso do costume... Mas o que acontece é que a esquerda quando vai a votos obtém um por cento, enquanto os peronistas têm 70 por cento. Nas últimas eleições presidenciais, por exemplo, os três candidatos eram peronistas.

Alberto Buela em Lisboa

Como vê o discurso político hoje?
É um discurso que se compromete, sem comprometer ninguém. Em campanha ouvimos dizer de vários políticos que vão fazer isto e aquilo. Mas depois, quando não fazem, a culpa é dos outros, do partido, etc. nunca é deles. É um compromisso que não compromete. É o cúmulo do simulacro.

Geopoliticamente, acha que a América Latina e os países ibéricos deviam cultivar um entendimento?
Sim, houve pensadores extraordinários nesse campo, como Oliveira Marques ou António Sardinha, com todas as limitações do seu tempo. Portugal e Espanha, que é o que me interessa, que me afecta existencialmente, equivocam-se no caminho. Ninguém pode negar que um português ou um espanhol seja europeu. Mas não são europeus à maneira centralizada francesa. São outro tipo de europeus. Pode-se ser um europeu diferente sem ter que copiar o modelo francês. Nas últimas décadas, Portugal e Espanha copiaram esse modelo, têm um banco na Alemanha e um parlamento em Bruxelas. Já não são donos do seu destino. Imagine-se o poder de uma moeda conjunta entre os países ibéricos, o Brasil e a Argentina, por exemplo. O Brasil percebeu isto e assume agora um papel central no mundo hispano-americano, porque vê que Espanha não faz nada e Portugal ainda menos.

Voltando a Salazar, como o vê enquanto homem e estadista?
Salazar foi o último político justo do Ocidente. Era um homem de uma integridade absoluta. Conheço até casos em que foram feitos pedidos para a sua santificação. Era um homem honesto e inteligente, que pensava pela sua própria cabeça. Salazar, como Perón, distinguiu claramente entre o político e a política. O político é o poder, a política é a organização do poder. Salazar era um mestre na organização do poder e ao mesmo tempo tinha uma ideia do poder. Foi um justo porque fez na sua altura tudo o que devia fazer, sabendo sempre que o que fazia era militado ao seu tempo. Procurou a justiça social. Foi um católico no poder e, por isso, um pré-moderno. Um católico nunca endeusa o Estado, prefere a pessoa, o ser na comunidade.

sábado, 13 de outubro de 2012

O outro ministro de Estado

Nas críticas ao actual Governo fala-se normalmente em Passos e Gaspar, “esquecendo-se” o outro ministro de Estado. Vasco Pulido Valente fala sobre ele, hoje, no “Público”:


“Paulo Portas também cometeu erros sem atenuante ou desculpa. Aceitou um lugar
equivalente ao do sr. Gaspar – pelo menos na forma. Gastou o tempo e a paciência na chamada "diplomacia económica" e, entretanto, abandonou a vigilância, absolutamente
indispensável, do dia-a-dia do Governo. Não importa que "negócios" conseguiu ajudar
ou arranjar nos quatro quantos do mundo, se não apareceu ou andava distraído quando se
tomavam as decisões cruciais para o Governo e o país. Tratou muito bem dos pormenores, falhou no essencial.”

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pobreza, família, dever

“O Gebo e a Sombra”, o mais recente trabalho de Manoel de Oliveira, foi apresentado pela primeira vez no Festival de Veneza e depois em Paris, onde a Cinemateca Francesa organiza uma retrospectiva integral da obra do cineasta português, que começou no passado dia 6 de Setembro e terminará no dia 22 de Outubro.

Entre nós, o filme teve a sua antestreia nacional no Palácio de S. Bento, no dia 19 de Setembro, numa homenagem que a Assembleia da República prestou ao realizador, que esteve presente apesar dos seus 103 anos de idade, e que assinalou também a abertura do novo ano parlamentar. O espaço encheu-se com as cerca de duzentas pessoas onde se incluíam, para além da Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, alguns deputados e actores, vários jovens curiosos em relação a um dos maiores vultos do cinema mundial.

Baseado numa peça de Raul Brandão, de 1923, a história passa-se no século XIX e versa sobre a pobreza, a família e o respectivo sentido de dever e de sacrifício. Manoel de Oliveira afirmou que “apesar de a peça ser do século passado adapta-se facilmente à nossa situação actual, tanto ética como economicamente, sem preconceitos. Pelo contrário, continua a ser contemporânea e universal”.

O elenco é de peso e conta com a participação de Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e do neto do realizador, Ricardo Trêpa. A realização é sóbria e formal, optando pela alternância de planos e pela ausência de movimento de câmara, fiel a um registo teatral que já marcou outros filmes de Oliveira. Mais uma obra a apreciar, do nosso centenário cineasta que é um dos maiores nomes da sétima arte contemporânea. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A força do PC

A presente situação de crise e insatisfação generalizada proporciona o terreno fértil para os protestos de rua e para os movimentos populares.

Acontece que, ao contrário do que muitos garantem, há forças políticas que não dormem. Pelo contrário, estão bem despertas e a actuar em prol dos seus interesses.

Quem acha que o comunismo caiu com o Muro de Berlim, no século passado, desengane-se. No nosso país, o Partido Comunista Português (PCP) continuou a ter uma importância e uma influência relevantes.

Agora, tal como outras esquerdas, igualmente extremas, vai fazendo uma colagem, um aproveitamento, de todas as manifestações ditas apartidárias. Paralelamente, vai continuando a afirmar publicamente o seu poder, nomeadamente através de um dos seus braços mais importantes, a CGTP. Note-se como esta organização sindical encheu a Praça do Comércio para ensaiar uma greve geral e comunicar o seu extremar de posições.
Num momento de vazio de poder, não são os que confiam cegamente na eternidade do sistema que melhor resistem e se afirmam. São os que estão preparados e atentos às rápidas mudanças que têm melhores condições para vingar.

Devemos recordar que, depois do 25 de Abril, no período caótico que se seguiu, o PCP demonstrou ser o único partido político que organizado e preparado para alturas como aquela. A grande força dos comunistas é a sua disciplina e capacidade de mobilização, mesmo nas piores alturas.

Quem pensa que o PCP não passa de um partido residual, ou que é apenas um como qualquer outro, deve abrir os olhos para melhor defender Portugal.

O PREC é uma página negra da nossa História, à qual não podemos voltar, seja sob que nova forma for. Estejamos atentos e, em especial, preparados nestes tempos conturbados e de incógnita.

Como escreveu na semana passada Pacheco Pereira, “o PCP, por cultura política, despreza a violência folclórica dos esquerdistas actuais, mas é tudo menos um touro manso”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

La Aventura de la Historia


Na edição desta revista de divulgação histórica espanhola que está agora disponível nas bancas nacionais há a destacar a investigação que traz novos dados sobre o Massacre de Paracuellos, no artigo chamado “Moscovo puxou os cordéis”, que revela a intervenção da NKVD de Estaline como precursora da ordem dos fuzilamentos e os nomes dos verdadeiros responsáveis espanhóis, por este crime que vitimou mais de mil prisioneiros políticos na Guerra Civil de Espanha acusados de “direitistas”. Destaque também para o artigo sobre a nova biografia de Isabel de Portugal, a esposa do Imperador Carlos V.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 62


Na edição em que esta óptima revista francesa completa dez anos de existência, o ‘dossier’ é dedicado à Direitas radicais na Europa de 1900 a 1960. Neste podemos ler os artigos “A Action Française antes de 1914”, de Alain de Benoist, “Ledesma Ramos e José Antonio”, de Jean-Claude Valla, “O testamento da Guarda de Ferro”, de Horia Sima, entre outros, como “Quando Churchill admirava Mussolini”, “Oswald e Diana Mosley”, “Ernst von Salomon”, ou “A extrema-direita na Resistência”. Por fim, destaque para o artigo “Os soldados da classe de 60”, sobre o neo-nacionalismo em França nessa década do século passado, do qual foi protagonista o próprio Dominique Venner, director da revista. De referir ainda a entrevista com Serafin Fanjul sobre “o mito do al-Andalus”.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Carácter

"Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível."

Jean Giono

sábado, 6 de outubro de 2012

Hemeroteca (X)


A última entrada na minha colecção de jornais foi um conjunto de 23 edições de "Política", dirigido por Jaime Nogueira Pinto. Fica prometido um destaque para breve.

Alberto Buela em Lisboa


Cabe-me hoje a honra de apresentar o mais recente número da revista "Finis Mundi", numa sessão que conta com a presença de Alberto Buela e onde este filósofo e professor catedrático argentino falará sobre a teoria da dissidência.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hobsbawm

A propósito da recente morte de Eric Hobsbawm, um amigo meu disse que este era “o historiador marxista que a Direita lia”. Sinceramente, perante a habitual onda de elogios quando morre alguém, normalmente um mero exercício de reprodução de loas sem qualquer análise séria, nem me apeteceu referir-me a este autor.

No entanto, Vasco Pulido Valente, no seu característico estilo implacável, conclui hoje a sua coluna no “Público” com uma frase que resume muito bem este caso: “A "respeitabilidade" de Hobsbawm é um mistério”.

E porquê? O historiador português diz que leu a obra de Hobsbawm toda e que agora releu “A Era dos Extremos” para se lembrar de quem era o seu autor. Recorda que era “membro do Partido Comunista Britânico, de que nunca saiu” e que “não protestou, nem se "desiludiu" perante os crimes (para não voltar aos fracassos) da URSS. Desde o princípio um militante fiel, onde estava, ficou”.

Afirma Pulido Valente que “não deixa de arrepiar que no "Age of Extremes" continue a tratar Lenine como um génio e um benemérito e a sustentar”, ou que Marx continue “a ser o único teórico apreciável e recomendável”. “Nem as vítimas de Estaline, objecto de um único parágrafo, em que se discute se excederam em pouco ou em muito os 10 milhões, o levam a uma condenação radical do regime.”

São alguns dos vários exemplos que menciona, dizendo que para Hobsbawm “as falsificações são um socorro permanente”. E dispara: “Como, sem elas, escrever um livro sobre o comunismo?”

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Eléctricos


Em dia de greve nos transportes, lembrei-me de algo que gostava muito de fazer quando trabalhava no Bairro Alto, há mais de uma década atrás. Nos meus percursos de almoço ou no regresso a casa, passava pelo Chiado e pela Baixa e cruzava-me bastantes vezes com artistas de rua que expunham os seus trabalhos na "galeria" dos passeios, na esperança de ganhar algum dinheiro. Procurava sempre o mesmo: desenhos ou aguarelas de eléctricos. Este meio de transporte público urbano foi sempre  um dos habitantes da minha cidade que me fascinou. Comprei vários desses trabalhos, normalmente bem baratinho depois de negociado o preço. A sua qualidade varia bastante, desde um rudimentar e feito com caneta Bic a outros que demonstram um nível bastante elevado. O problema é que se encontram espalhados por entre livros e papéis. Prometo várias vezes a mim próprio que um dia os vou encontrar e reunir. Mas quando?

Frase do dia

"Este processo de reabilitação em curso de algum neocomunismo chique que voltou ao comércio de ideias, não obstante ter sido denunciado durante décadas e ter gerado uma valiosa plateia de arrependidos e intelectuais ex-comunistas, tem de ser denunciado como aquilo que é: um esquecimento perigoso das lições do século XX."

Pedro Lomba
in "Público"

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O poder do humor

É certo e sabido que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Se a esta juntarmos o humor vale ainda mais. Um ‘cartoon’ é um meio de comunicação excelente, em especial para retratar a situação política ou fazer crítica social. Vem isto a propósito da homenagem que prestamos nesta edição a Augusto Cid, que na semana passada se despediu da colaboração de mais de 40 anos com a Imprensa portuguesa.

Cid e “O Diabo” são indissociáveis. Os seus ‘cartoons’ eram tantas vezes capa, quando não a capa. Na primeira fase do jornal havia uma identificação natural entre o artista e a publicação. Depois, passou por vários outros órgãos da Imprensa, nunca deixando de impressionar.

No meu primeiro editorial como director de “O Diabo”, revelei que este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci e que, desde criança, que me recordo de ver este semanário em casa dos meus avós e não resistir ao seu logótipo, o que me fazia amiúde recortar os vários desenhos que ilustravam as secções. Ainda sem saber ler, fazia colagens em folhas de papel em branco com esses recortes. Eram os meus jornais. Quem diria que o destino me iria pregar tamanha partida?

Os desenhos eram de Augusto Cid, autor cuja obra sempre me atraiu desde tenra idade. Recordo-me perfeitamente de um livro que me marcou, que adorava folhear e que me fazia imaginar histórias. Refiro-me a “O Último Tarzan”, essa paródia política genialmente mordaz, publicada em 1980. Acontece que nessa altura estava eu na escola primária e, apesar de já saber ler, obviamente não o compreendia. A única coisa que me lembro de realmente perceber era a brincadeira com a estranha forma de falar de Eanes.

Mas o enorme talento de Augusto Cid não se resume aos ‘cartoons’ e chega também à escultura. Até aí me cruzo com a sua obra quase diariamente no meu bairro, o de Alvalade, em Lisboa, concretamente com a homenagem às vítimas do ataque de 11 de Setembro de 2001, que está na Avenida dos Estados Unidos da América.

Este é o meu singelo contributo para homenagear a carreira de um homem que nunca perdeu a boa disposição e nunca deixou de usar a sátira para denunciar o que ia mal no nosso país. Um verdadeiro português que ainda tem muito para dar, felizmente.

A este propósito, recordo-me sempre de uma importante constatação de um amigo meu sobre um dos nossos adversários políticos. Dizia que este nunca sorria, que se levava demasiado a sério. É um sítio onde nunca devemos querer estar. Que nunca nos falte o humor!

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Viagem aos anos 40


Ontem fui entrevistar uma escritora espanhola que veio a Lisboa e ficou hospedada no Hotel Britânia. Um dos locais no centro da capital, que passa despercebido à maior parte das pessoas, que é um abrigo belo, sóbrio e encantador. Uma verdadeira máquina do tempo que nos transporta à década de 40 do século passado.


A primeira coisa que transmiti à minha entrevistada foi o meu gosto por aquele espaço e a minha admiração pela obra do seu genial autor. Este era o antigo Hotel do Império, projectado pelo arquitecto Cassiano Branco no estilo art déco e inaugurado em Outubro de 1944. O restauro que foi feito cerca de 60 anos depois manteve os pormenores e foi fiel ao original. Um exemplo de como se pode e deve preservar o património arquitectónico urbano no nosso país.

Dia d'O Diabo