sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Canal cultural

A polémica sobre a privatização da RTP e a manutenção de um serviço público de televisão reacendeu-se com as recentes declarações de António Borges, que sugeriu a concessão do primeiro canal e o encerramento do segundo, que classificou como “pequeno”.

Em primeiro lugar, a definição de serviço público de televisão é provavelmente impossível. Ou, pelo menos, cada pessoa consultada sobre o assunto terá a sua ideia própria. Como está longe de ser consensual, tentemos lá chegar pelo que não é serviço público. Telenovelas, futebol, concursos televisivos e publicidade, entre outros conteúdos, não entram certamente nessa definição. No entanto, a RTP1 tem usado e abusado deles para “competir” com os canais comerciais.

Por outro lado, a RTP2 funciona como um canal cultural. Não quero aqui fazer a sua defesa tal como funciona agora, ou da sua actual programação. O que me parece relevante é a existência de um canal que assegure a transmissão de programas culturais que numa perspectiva puramente comercial não seria possível. Não me refiro apenas a programas de Ópera, Teatro ou Bailado, sem dúvida importantes, mas considerados pelos fiéis das audiências como algo que “ninguém vê”. Saliento sobretudo a produção e disponibilização de programas sobre a nossa História, a nossa Língua, ou o nosso Património, entre tantos outros que devem dar-nos a conhecer quem somos enquanto Nação e fortalecer a nossa identidade.

É pois da maior insensatez, para não dizer pior, encerrar o único canal – no sentido literal do termo –, de acesso livre, que leva a cultura a um público generalizado. Obviamente, deve caber ao Estado esse papel.

O lucro da Cultura não é imediato e esta não pode submeter-se a uma simples lógica de mercado. Pelo contrário, o preço da ignorância é elevado e arrasta-se por gerações.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cerro da Vila

O Algarve continua a ser o destino de Verão preferido pelos portugueses e por tantos estrangeiros. Mas, para além das magníficas praias, da óptima gastronomia, ou até das discotecas e parques de diversões aquáticos, há vários exemplos de património arqueológico que vale a pena ficar a conhecer. Um deles é o Cerro da Vila, as ruínas romanas situadas em Vilamoura, no concelho de Loulé.


Bem perto da Marina de Vilamoura, local de excelência desta localidade algarvia, encontramos o Museu e Estação Arqueológica do Cerro da Vila, uma óptima oportunidade para visitar o nosso património arqueológico em férias. Aqui podemos visitar as ruínas romanas da ‘villa’ que ali existiu em tempos, bem como um pequeno museu que nos guia pela evolução da ocupação humana daquele local. O conjunto não é muito grande, o que permite uma visita em família, sem o risco de se tornar maçadora para os mais novos ou os menos interessados. Há ainda um pormenor que é uma grande mais-valia. A sala onde trabalham os arqueólogos, limpando e classificando as peças encontradas, tem a porta aberta ao público, o que permite a quem passa ver ao vivo como se tratam os achados antes de serem expostos.


Esta área foi povoada desde eras remotas, pelo menos desde a Idade do Bronze, como o provam as sepulturas encontradas na Vinha do Casão, mas foi a partir do século I d. C. que os romanos escolheram o Cerro da Vila pela sua localização privilegiada. Aqui era produzido o ‘garum’, uma espécie de conserva de peixe muito apreciada, que era exportada para Roma e outras partes do Império.

No percurso pelas ruínas, podemos ver as bases de uma ‘villa’, ou casa nobre, de balneários públicos, de tanques de salga de peixe, de uma torre funerária e de uma zona portuária, bem como os mosaicos multicolores que decoravam o pavimento.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A princesa-rapaz

Este é o primeiro filme de animação da Pixar com uma heroína como protagonista. Passado numa Escócia de outros tempos, onde os clãs são fiéis às suas tradições, a jovem e ruiva princesa Meridan vai desafiar as regras instituídas. Ela é uma verdadeira maria-rapaz, gosta de montar a cavalo pela floresta, disparar flechas com o seu arco, ou subir penhascos escarpados. Estas atitudes chocam com o que a mãe, a rainha Elinor, lhe ensina para a preparar para ser uma verdadeira princesa.

O rei Fergus, seu pai, que perdeu uma perna numa luta com o terrível urso Mor’du, é condescendente com a filha e atira essas decisões para a mulher. O choque dá-se quando a rainha organiza a vinda dos clãs ao castelo para apresentarem os pretendentes a casar com Merida. A princesa rebelde não quer, sente-se mal com as roupas de gala apertadas e decide quebrar a tradição e causar a ira da sua mãe.

Decidida a conseguir o que quer, Meridan encontra uma bruxa de quem consegue um feitiço para mudar a rainha. Mas o resultado não é o esperado e vai fazê-la reflectir no que fez, no seu egoísmo e provocar uma aproximação entre mãe e filha.

Em termos visuais o filme é excelente, com todos os elementos da cultura popular escocesa, de influência celta, bem como as paisagens maravilhosas das Terras Altas, reproduzidos pormenorizadamente. No entanto, há alguns erros, como o facto de se utilizarem garfos à mesa, algo que só aconteceria muitos séculos depois, ou de se referir os invasores romanos e vikings no mesmo período histórico. Mesmo assim, este é um conto de fadas europeu, onde se exalta a bravura, o amor à terra e à família. Valores eternos que tanto se esquecem hoje.

Num filme que é para ser visto com as crianças é sempre difícil mantê-las até depois dos créditos finais, mas se se quiser ver o filme todo é necessário.

Tal como acontece noutros filmes nascidos nos estúdios Pixar, “Brave” é precedido pela curta-metragem de animação “La Luna”, realizada por Enrico Casarosa. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 61

Completam-se este ano três séculos do nascimento de Frederico II da Prússia. A excelente “La Nouvelle Revue d’Histoire”, dirigida por Dominique Venner e disponível nos quiosques nacionais, aproveitou a ocasião para dedicar o ‘dossier’ do seu mais recente número à Prússia e às suas relações com a França.

Para começar, Jean-François Gautier recorda-nos que quando Voltaire chegou a Berlim, descobriu que aí se falava francês. Era a língua da cultura da altura e sobre é sobre a relação e as influências mútuas nos dois países que reflecte no artigo “A Prússia na escola da França”. De seguida, Henry Bogdan dá-nos uma perspectiva histórica das origens da Prússia, partindo dos cavaleiros teutónicos. Para conhecermos melhor quem foi Frederico, o Grande e qual a sua relação com a Alemanha, podemos ler a entrevista com Sven Externbrink. De referir, ainda, os artigos “A Prússia depois de Iena”, de Jean-Paul Bled, “Do patriotismo prussiano ao nacionalismo alemão”, de Thierry Buron, e a cronologia que traça uma breve História da Prússia. Mas o destaque vai para o excelente artigo de Dominique Venner sobre “O eterno mito prussiano”.

Para além do ‘dossier’, podemos ainda ler a entrevista com o historiador da guerra Henri de Wailly e vários artigos, dos quais se referem: um testemunho de uma francesa da Argélia sobre a Igreja e os franceses da Argélia, uma reflexão sobre o filósofo francês Michel Onfray, por Laurent Dartez, e a recordação da Batalhas das Navas de Tolosa, por Philippe Conrad. Sobre este último artigo, apesar de estar bem feito, deve dizer-se que não se compreende porque não refere a presença das tropas portuguesas que participaram na batalha. No entanto, na cronologia das grandes etapas da Reconquista, feita pelo mesmo autor e que acompanha o artigo, são referidos alguns momentos-chave ocorridos em território nacional, a saber: a Batalha de Ourique, a Reconquista de Lisboa e a tomada do Algarve.

Por fim, lugar ainda para ficar a saber mais sobre um assunto bastante actual, com o artigo de Annie Laurent sobre as causas históricas da crise síria. Como sempre, uma óptima revista a não perder.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Apartheid

Hendrik Verwoerd
Os recentes confrontos brutais ocorridos na mina de Marikana, a oeste de Pretória, que terminaram com dezenas de mortos e centenas de feridos e detidos, vêm recordar ao mundo que na África do Sul se continua a viver uma situação desastrosa. Afinal, assistimos a massacres perpetrados pela polícia depois do domínio branco...

Com o fim do ‘Apartheid’, muitos se convenceram que nasceria uma “nação arco-íris” que seria a concretização da utopia da diversidade. A realidade não podia ser mais distinta. Já aquando da realização de um campeonato do mundo de futebol naquele país se havia visto como se estava longe do paraíso. Violência e pobreza extremas e o aparecimento de uma nova segregação racial estão a pô-lo a par de outros países vizinhos terceiro-mundistas. Como tem vindo a afirmar, há anos, nas suas análises, o africanista Bernard Lugan: “o milagre sul-africano não passa de uma miragem porque o fracasso do ANC é total e em todos os domínios”.

A África do Sul é um mosaico de povos e essa composição leva-nos à origem do ‘Apartheid’. Aquele que é muitas vezes considerado como o pai desse sistema de desenvolvimento separado defendia algo bastante diferente do que acabou por se concretizar. Hendrik Verwoerd, o primeiro-ministro assassinado em 1966, era partidário de um etno-diferencialismo, segundo o qual o território sul-africano seria partilhado pelos brancos e os vários povos negros e que levaria à criação de estados etnicamente homogéneos. Esta ideia opunha-se ao ‘Baaskap’, o supremacismo segregacionista conservador, para o qual os afrikaners eram um povo eleito por Deus que devia, por direito divino, dirigir e explorar os negros.

Como afirmou Pierre-Olivier Sabalot, autor de uma biografia de Verwoerd: “o desenvolvimento separado é também a valorização das identidades dos nove povos negros da África do Sul, chamados a florescer, ao seu ritmo, nos seus próprios territórios de origem, numa lógica de co-desenvolvimento político, económico e cultural, cada um no seu lugar, em ruptura com o Estado-nação artificial sul-africano, que é uma criação colonial britânica”. Uma ideia a repensar?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um inferno de comédia

O nome Adam Sandler equivale a comédia, já nos habituaram, mas tal não significa, necessariamente, que seja da boa. É exactamente o que se passa com este “Pai Infernal”, que se torna um verdadeiro Inferno de previsibilidade sem graça.

Sandler interpreta Donny Berger, um rapaz que se tornou famoso por ter tido relações sexuais com a sua professora do Liceu à frente dos colegas. O caso foi mediatizado, a professora condenada a uma pena de prisão e Donny tornou-se uma ‘pop star’. Mas dessa relação nasceu um rapaz e Donny, ainda adolescente, teve que criá-lo, cometendo todos os erros que possamos imaginar, incluindo chamar ao seu filho Han Solo, como a personagem da série “Guerra nas Estrelas”. Os anos passaram e Han, que entretanto mudou o seu nome para Todd Peterson (Andy Samberg), tornou-se um profissonal respeitável e de sucesso que está prestes a casar e a ser promovido.

Com o matrimónio prestes a realizar-se, Donny vê-se entre a espada e a parede. Está falido e se não pagar uma avultada quantia de impostos terá de cumprir uma pena de prisão. A única forma que encontra para conseguir tanto dinheiro em tão pouco tempo é convencer o seu filho a ir visitar a mãe à cadeia para que o encontro familiar seja televisonado.

Este é o mote para o reencontro entre Donny e Han, agora Todd. Num meio de ricos, Donny é o mais incorrecto e rude possível, causando todo o tipo de situações mirabolantes.
Mas o que nos espera são tentativas de piadas ordinárias e gastas, sempre com a “comédia” – agora aparentemente tão em voga nos EUA – do consumo de álcool e drogas, à qual se juntam atribulações sexuais impróprias e inacreditáveis.

Há ainda, no meio de um regresso aos anos 80, o aparecimento de Vanilla Ice. O problema é que se ele já na altura era mau, agora ainda é pior, mesmo como ‘cameo’.
No fim, como não podia deixar de ser, há o habitual reatamento entre pai e filho, uma lição de amor, etc. O mesmo de sempre, mas sem graça de espécie alguma.
[publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 19 de agosto de 2012

Dorme

Para um Amigo, aqui fica uma passagem da "Elegia na Sombra", do nosso Fernando Pessoa:

Dorme, ao menos uma vez. O Desejado
Talvez não seja mais que um sonho louco
De quem, por muito ter, Pátria, amado,
Acha que todo o amor por ti é pouco.

sábado, 18 de agosto de 2012

O regresso de Batman

O tão esperado regresso do Homem-morcego ao grande ecrã, tantos pelos fãs dos ‘comics’ como pelos que admiram a série de filmes, começou infelizmente com uma tragédia tanto injustificável como inqualificável, à qual não convém dar mais publicidade nem permitir qualquer aproveitamento. Para além deste acontecimento inesperado, houve várias críticas e algumas polémicas.

Batman não é visto há oito anos. Desde o seu aparecimento, quando passou de herói a fugitivo, que Gotham City mudou bastante. Mas Bruce Wayne (Christian Bale), o milionário que encarnava o Cavaleiro das Trevas que combatia como ninguém o crime na cidade, não se importa. Mantém uma atitude de indiferença extrema, um estado depressivo, descurando até o seu gigantesco e lucrativo grupo de empresas. A situação altera-se com o aparecimento de Bane (Tom Hardy), um super-vilão mascarado com planos terríveis para Gotham City.

O objectivo de Bane é o pior, mas ele quer atingi-lo através do controlo empresarial, da inoperacionalização das forças policiais e do estabelecimento de um estado de anarquia, afirmando que vai entregar o poder da cidade ao povo.

Este aspecto valeu as críticas dos defensores do movimento “Occupy Wall Street”, que acusaram o filme de ser conservador e defender as grandes empresas e os capitalistas.
Para além deste aspecto político, a história mostra também a corrupção que tomou conta de Gotham City e os dramas pessoais de várias personagens. Para contar tudo isto, Christopher Nolan precisou de quase três horas, que infelizmente se tornam por vezes aborrecidas. Ao contrário da profundidade que muitos pretenderam ver neste novo Batman, o que temos é uma longa-metragem (demasiado longa) que se caracteriza por alguma superficialidade.

Já as cenas de acção são exactamente o que se esperava de Nolan, rápidas, com bons efeitos especiais e mesmo espectaculares. Nota positiva para os veículos futuristas, bastante bem concebidos.

Apesar de interessante para os apreciadores da série, este é um filme que fica aquém dos anteriores. Para quem acha que se iria ficar por aqui, o final, como não podia deixar de ser, deixa tudo em aberto. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Lusofonias

Fui este ano pela primeira vez ao Rio de Janeiro, cidade de uma beleza natural espantosa que já foi capital de Portugal. Observando as pessoas e os seus hábitos, houve algo que me deixou perplexo. Mesmo sabendo que o brasileiro comum não entende bem a nossa pronúncia, não deixei de ficar chocado – a palavra é mesmo esta – com o facto de a maioria deles não perceber sequer que língua é que falamos! Perguntaram-me se eu era italiano ou argentino e alguns responderam-me em espanhol (por este termo entenda-se o castelhano com sotaque e termos sul-americanos)!

Claro que basta abrir as vogais, mudar o tempo verbal para o gerúndio e usar alguns termos locais para se ser entendido. Mas a adaptação tem que ser nossa.

Estabelecida a comunicação, verifica-se que há um carinho e uma admiração por Portugal. Mas não nos deixemos iludir. O cidadão comum conhece muito pouco do país que lhes levou a língua e onde um dia aportou uma corte europeia, algo único na História. Apesar de demonstrar curiosidade e interesse.

Esta experiência pessoal leva-me à questão de fundo da lusofonia. Conceito a partir do qual quase tudo se tem defendido. Incluindo o famigerado Acordo Ortográfico, que em nada aproximou, nem aproximará, os países lusófonos.

Este é um assunto de elevada importância que não deve ser descurado. A lusofonia é uma área de influência geopolítica natural de Portugal e que deve por nós ser utilizada na afirmação da nossa cultura e posição internacional, mas há que recordar que não pode ser deixada a outros. Nunca pela lusofonia devemos submeter-nos a interesses alheios. Pelo contrário, devemos ter sempre presente que a nossa gloriosa gesta lusa foi mais uma das projecções da Europa. Não podemos esquecer o poder e amplitude da forma como tocámos o mundo, mas o que não podemos mesmo fazer é esquecer o nosso país e o nosso povo em nome dessa projecção.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mais Tintin na História


No ano passado, a revista francesa “Historia” e o jornal “Le Point” publicaram um número especial, em formato de álbum, onde são retratados momentos-chave do século XX que inspiraram a obra de Hergé e a criação de várias das personagens que habitam no universo de um dos mais famosos e apreciados heróis da banda desenhada. Talvez motivado pelo grande sucesso deste lançamento, os editores decidiram repetir a dose e publicar “Les personnages de Tintin dans l'histoire vol. 2” (encadernado, 130 páginas, 10,90 euros). Este segundo volume está disponível nas bancas portuguesas, reúne como autores vários historiadores, académicos e jornalistas e está dividido em capítulos que associam cada aventura de Tintin com uma personagem e um artigo sobre o período histórico no qual se insere.

Das dez personagens escolhidas, vejamos alguns exemplos. O primeiro álbum tratado é “Tintin na América”, e a personagem de Al Capone, inspirada na proibição do álcool nos EUA. Já em “A Estrela Misteriosa”, e escolhido é Philippulus e o tema são as viagens ao Pólo Norte. Depois, em “As Sete Bolas de Cristal”, descobrimos Bergamotte e viajamos ao Império Inca. Em “Objectivo Lua”, ficamos a conhecer Wolff e a saber mais sobre o projecto de conquista espacial alemã que nasceu nos anos 30. Mas o principal destaque vai naturalmente para o português Senhor Oliveira da Figueira, associado à aventura “Carvão no Porão”.

Este livro inclui ainda um artigo sobre a arte em Hergé e outro sobre o ‘affaire’ Legros. Por fim, os interessados em aprofundar os temas tratados podem recorrer às duas breves bibliografias, uma com obras sobre os momentos históricos referidos e outra sobre o mundo de Tintin.

Bastante interessante para os entusiastas de um dos nomes maiores da banda desenhada franco-belga, este é mais um álbum obrigatório na colecção de qualquer tintinófilo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PC

Não deixou de ter piada ouvir Jerónimo de Sousa berrar num palanque no Algarve que "é mais fácil apanhar um mentiroso do que um deficiente de uma perna!". Já nem o povo, que supostamente o PC quer defender, tem direito a uma expressão popular correcta. Será que PC ainda quer dizer a mesma coisa? Ou será que a força do PC (politicamente correcto) tomou de vez o PC?

Cá para mim devem andar a consultar o dicionário errado e estar decididos a adoptar a novilíngua... A única coisa pior que o Acordo Ortográfico!


Cassiano

Uma óptima surpresa foi encontrar hoje na página principal do Google a imagem do Portugal dos Pequenitos, a propósito do aniversário de Cassiano Branco.


Ainda na semana passada passei em frente ao Éden e lembrei-me do que escrevi a propósito de um livro sobre este arquitecto genial: «Pena que tenham escolhido para a capa uma imagem (talvez demonstrativa daquilo a que chegámos) do Éden Teatro "recuperado". Um abastardamento que passou por pôr palmeiras no interior. Algo a fazer lembrar o "Mundo Perdido"... Só falta um pterodáctilo a voar!»

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Uniformizar

Guardo vários amigos dos tempos do liceu que são apaixonados pelo surf e sempre tiveram na Ericeira uma segunda casa. Alguns falaram-me do caso, que chegou às notícias, do encerramento compulsivo do ‘surf camp’ de Ribeira d’Ilhas.

Até onde me foi possível apurar, a Câmara de Mafra desencadeou um processo de expropriação para aí fazer as obras previstas no Plano de Ordenamento da Orla Costeira. O edil local – que consegue ser Presidente, Engenheiro e Ministro, de cargo, título e apelido – tornou-se o alvo principal da ira dos surfistas. Acusam-no de se mover apenas pelo dinheiro. Um dos treinadores, José Maria Pyrrait, citado pela Lusa, afirmou: “É uma invasão de propriedade privada. Penso que não estamos num estado comunista – a câmara decretou utilidade pública para montar um centro de negócios pior do que o que cá está”.

É óbvio que o que motiva este texto não é uma questão de amizade, nem de amor a um desporto que não pratico. É antes a suspeita de mais um caso da uniformização a que tem sido sujeito o nosso litoral.

Alguns dos que protestam afirmam que já viram o projecto da câmara e que este prevê a construção de mais um ‘resort’ turístico igual a tantos outros. A confirmar-se, só o podemos lamentar.

Veja-se o caso dos chamados apoios de praia. Para acabar com muitos que não passavam de verdadeiras barracas sem condições, impuseram-se modelos de construção. Com todos os benefícios que possam ter trazido, não deixaram de prejudicar uma diversidade que se deve respeitar e assegurar.

A nossa oferta turística não pode assentar na uniformização, não pode oferecer o mesmo que é possível encontrar noutros lados. Pelo contrário, deve valorizar as saudáveis diferenças regionais e locais que nos caracterizam enquanto todo. Quem nos visita deve ver Portugal, não deve passar por mais um ‘resort’.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Forças especiais

A principal razão pela qual este filme tem dado que falar é o facto de ter a representar, para além de actores profissionais, membros das famosas unidades especiais da Marinha norte-americana SEAL e SWCC que estão ao serviço. Algo que mostra a aposta no realismo de um filme de acção e pouco mais.

Há assim uma tentativa de história que serve, na realidade de desculpa para filmar quatro longas e pormenorizadas missões especiais em várias partes do mundo. A seguir a um atentado numa escola internacional na Filipinas, que provoca várias vítimas, incluindo o embaixador americano e o seu filho, perpetrado por um terrorista checheno que consegue fugir, um agente da CIA é morto e outro capturado por criminosos às ordens de um grande traficante. Os dois casos estão afinal ligados e a partir deles se descobre que a segurança dos próprios EUA está em perigo.

A partir daqui as forças especiais vão partir em operações de resgate e ataque internacionais. Para os apreciadores, há um verdadeiro desfile de equipamento militar de topo em acção. Também as rápidas sequências de combate, em parte filmadas numa perspectiva que recorda os ultra-realistas videojogos de guerra, farão as delícias de um público, principalmente adolescente, que aprecia o género.

Tudo isto imbuído num espírito laudatório dos EUA e da sua superioridade militar e moral face aos males que afligem o mundo, muito ao estilo dos filmes semelhantes durante a Guerra Fria. Claro que agora o perigo é o terrorismo e os atentados em solo norte-americano.

Sem dúvida que há quem goste, mas em termos de cinema esta não é uma aposta ganha. Para fazer um filme de acção não basta apenas acção... Por outro lado, para ficar a conhecer forças especiais, o seu equipamento e modos de operar, há documentários. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 5 de agosto de 2012

A propósito de Jesse Owens

Em plenos Jogos Olímpicos, ainda por cima repletos de "casos" persecutórios relacionados com a chamada "extrema-direita", há sempre uma história que vem à baila: a de Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim, 1936.

Lutz Long e Jesse Owens

O problema é que, como acontece com tantos outros assuntos, a imprensa e os seus papagaios de café, limitam-se a perpetuar uma versão tão fictícia quanto conveniente. A este propósito leia-se o excelente e oportuno texto do Bruno Oliveira Santos, intitulado "A Carta Olímpica e a extrema-direita". Obrigatório!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Amigos para sempre

Seth MacFarlane é um nome que associamos imediatamente à irreverência e às piadas sem tabus. Começou a sua carreira famosa Hanna-Barbera, trabalhando em séries animadas como “Johnny Bravo”, “Cow and Chicken”, “Dexter's Laboratory” e “I Am Weasel”. Já aqui mostrava a sua marca, nestes desenhos animados que saíam completamente dos cânones a que estávamos habituados.
Decidiu depois continuar na animação, mas fazendo uma série para adultos (ou melhor, jovens adultos), chamada “Family Guy”. Seguiram-se “American Dad!” e “The Cleveland Show”, também no mesmo registo, criando um novo estilo que se associa automaticamente ao nome Seth MacFarlane. Estas séries demonstravam já um certo paradoxo, pois eram uma animação que parecia para crianças, mas com um humor ácido, palavrões e situações para adultos. Pareciam algo de um rapaz num corpo de adulto, ou de um homem que nunca deixou de ser criança.

É esse espírito que o leva à sua primeira longa-metragem, “Ted”. Num filme que cruza actores reais com animação digital, conta-nos a história de um rapaz de Boston, John Bennet, que não tem amigos. Perante esta situação que tanto o afecta, John decide pedir um desejo – que o urso de peluche que recebeu no Natal ganhe vida.

O desejo concretiza-se e Ted torna-se o melhor amigo de John. Juntos vão atravessar a infância, a adolescência e chegar à idade adulta. Esse é o primeiro choque que a história nos dá. Ted já não é um ursinho carinhoso, mas alguém que consome drogas, bebe álcool, pensa em sexo e diz palavrões.
Os tempos de miúdos já lá vão e o paralelo de um adulto continuar a viver com um ursinho fala por si. A presença de Ted (Seth MacFarlane) começa a perturbar a relação de John (Mark Wahlberg) com a sua namorada Lori (Mila Kunis), com quem as coisas se tornam mais sérias. A questão fundamental coloca-se: Ted ou Lori? A vida de criança ou a de adulto?

Uma decisão bastante complicada, já que estes são dois companheiros que viveram uma vida juntos e juraram amizade eterna. Este é, aliás, um filme sobre a amizade. É também uma reflexão sobre as fases da vida, nomeadamente a passagem à idade adulta. Se o filme acabasse um pouco mais cedo, seria uma perfeita analogia. Mas, infelizmente, há lugares comuns do cinema norte-americano a que nem os mais irreverentes resistem.

Nem por isso o filme deixa de ser bastante divertido, apesar de abusar de um estilo de comédia juvenil que parece estar em voga, onde abundam as festas, a embriaguez e o uso de drogas. O MacFarlane politicamente incorrecto que esperamos está lá, nas piadas étnicas, sexistas, religiosas, ou sobre qualquer outro tema tido por inconveniente. O melhor mesmo são os diálogos, havendo alguns simplesmente maravilhosos, conferindo uma humanidade ao urso que, passado pouco tempo, começamos a aceitar como qualquer outra personagem.

Outro ponto alto, em especial para quem viveu a sua infância nos anos 80, são as inúmeras referências a esse período. Uma delas é o filme “Flash Gordon”, que Ted e John definem como símbolo da sua amizade. Mais, foi o que os ajudou a distinguir o certo do errado e o bem do mal. O cúmulo é a aparição de Sam Jones, o actor que encarnou Flash Gordon, numa sequência tão delirante como hilariante. Há até uma cena em que John está a ler um álbum de Tintin.

Um filme irresistível para trintões que guardam com saudade um tempo em que podiam sonhar com tudo. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Para compreender a Argélia

No ano em que se cumprem 50 anos do fim da Guerra da Argélia, expressão que durante muito tempo foi recusada pela República Francesa, que só a oficializou por voto da Assembleia Nacional em 1999, a revista francesa “La Nouvelle Revue d’Histoire”, dirigida por Dominique Venner, decidiu dedicar o seu quarto número especial à história desta “terra trágica”.


Num número com a elevada qualidade a que esta revista, disponível nos quiosques nacionais, nos tem habituado e muito bem organizado, podemos fazer um viagem pela História da Argélia e pelos principais acontecimentos que a marcaram. Com natural destaque para a Argélia francesa, podemos ler artigos como “Franceses da Argélia: uma história ignorada”, de Christian Brosid, “Argel 1942-1945. Génese da Guerra”, de Dominique Venner”, “Quando LArteguy invonteu os Centuriões”,de Bruno Cessole, “Abandono e massacre dos harkis”, pelo general Maurice Favre, “A lenda do 17 de Outubro de 1961”, de Bernard Lugan, e “Argélia 1962-2012: a independência confiscada”, por Péroncel-Hugoz, entre outros. De seguida, temos uma perspectiva histórica da Argélia, com a entrevista com o africanista Bernard Lugan, que regressa às origens para falar sobre os berberes, mas também artigos sobre a África romana e a presença dos vândalos e dos bizantinos, bem como sobre a conquista muçulmana e árabe e o domínio turco. Depois, podemos ver uma cronologia da conquista francesa, o papel do marechal Bugeaud, a revolta de Mokrani e o nascimento do nacionalismo argelino.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Estio

A entrar no mês de Augusto, adivinhamos sem esforço o que se passará no País durante um mês. Portugal abranda o ritmo, quando não pára por completo. Que ignorância – para não dizer desrespeito – da inspectiva ‘troika’ em vir cá nesta altura para mais uma vistoria rotineira!

O assunto mais importante será o dos incêndios que, por certo, continuarão a devorar o nosso verde. Mas, até aqui, pese embora grandes responsabilidades humanas, o fogo mostra-nos, enquanto elemento de uma catástrofe natural, que nem na sociedade pós-industrial o Homem consegue dominar a Natureza. Uma implacável chamada à realidade, à terra, para mostrar que nessa luta eterna devemos recordar-nos do nosso lugar, para assim atingirmos um equilíbrio fundamental.

Para além disso, a inevitável praia… O País vai a banhos, deslocando-se e aglomerando-se nas zonas costeiras, cumprindo um costume historicamente recente. Transforma a paisagem humana de certas paragens, reproduzindo comportamentos e hierarquias, mas em trajes menores. É o “merecido descanso”, como se não houvesse outro.

Filho da capital, sempre gostei desta altura em que é possível apreciar a cidade de outra maneira, em que parece termos parte dela só para nós. Lisboa fica mais agradável – habitável – e podemos apreciar de outra forma os pequenos prazeres, os verdadeiros luxos da vida. É quando me sabem melhor coisas tão singelas como ler uns capítulos de um livro, a seguir ao almoço, num banco de jardim, resguardado à sombra de um plátano frondoso, numa das avenidas nobres de um bairro que é um dos nossos expoentes urbanísticos, onde outrora se projectou uma Nova Lisboa.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».