quinta-feira, 26 de julho de 2012

Extensão do Domínio da Luta


Aqui fica a imagem da capa da edição portuguesa de "Extensão do Domínio da Luta", o primeiro romance de Michel Houellebecq, de 1996, do qual citei uma passagem aqui. Foi publicado entre nós em 2006, pela Quasi edições, com tradução de Paula Lourenço.

Da divulgação histórica

A morte do carismático Prof. José Hermano Saraiva provocou aquele fenómeno ambivalente que normalmente acontece no nosso país. Quem parte habitualmente torna-se óptimo, ainda que os que o choram lhe desconheçam a obra. Por outro lado, há sempre os que aproveitam esta altura para tecer as maiores criticas, quando não insultos.

Sobre este segundo aspecto, muitos foram aqueles que, prontamente e quase sempre sob o cómodo anonimato da internet, disseram que o Prof. Hermano Saraiva não era um historiador, mas um “contador de histórias” e, se tal não bastasse, que era uma “figura do antigo regime”.

Não me cabe aqui falar da sua obra de investigação e devo dizer apenas que, caso se entenda, esta deve ser criticada academicamente, em local próprio, e nunca em tiradas de café.

Acontece que ele era um comunicador nato como existem poucos. Tal permitiu-lhe chegar a um público extremamente alargado, para inveja dos guardiões da ortodoxia da Academia. É que, ao contrário do que estes querem – mas sabem – é muito mais difícil falar para muitos que para poucos.

A divulgação histórica tem uma importância fundamental na formação de um Povo e no fortalecimento da sua identidade. Por muito que se queira que a História seja uma ciência, ainda que social, não deixa de ser sempre uma interpretação.

Os gregos antigos sabiam-no muito bem. Não era Clio, cujo nome vem de “cantar”, musa da História e da poesia heróica?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Psicanálise

«No geral, não há nada a dizer sobre mulheres sujeitas a estas sessões. Uma mulher entregue às mãos de psicanalistas fica definitivamente impró­pria para uso, o que vim a constatar inúmeras vezes. Este fenómeno não deve ser considerado como um efeito secundário da psicanálise, mas sim como a causa principal. Sobre o pretexto da reconstrução do eu, os psicanalistas procedem na verdade a uma escandalosa destruição do ser humano. Inocência, generosidade, pureza... tudo isto é rapidamen­te triturado por entre essas mãos grosseiras. Os psicanalistas, regala­damente remunerados, pretensiosos e estúpidos, exterminam de modo conclusivo toda a aptidão para o amor nos seus pacientes, tanto mental como física; comportam-se com efeito como verdadeiros inimigos da humanidade. Impiedosa escola de egoísmo, a psicanálise está apetrecha­da com o maior dos cinismos à conta das corajosas raparigas miseráveis para as transformar em ignóbeis parvalhonas de egocentrismo delirante, que pode apenas suscitar a mais profunda agonia. Não se deve confiar, qualquer que seja o caso, numa mulher que tenha passado pelas mãos de um psicanalista. A mesquinhez, o egoísmo, o disparate arrogante, a completa falta de sentido moral, a incapacidade crónica de amar: eis o retrato exaustivo de uma mulher “psicanalizada”.»

Michel Houellebecq
in “Extensão do Domínio da Luta”.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

De volta ao liceu

“Rua Jump, 21” foi uma série televisiva norte-americana de finais dos anos 80 do século passado, que foi exibida em Portugal na década de 90. A história baseava-se numa unidade de polícia composta de agentes com um aspecto jovem que se infiltravam liceus e universidades para investigar casos de tráfico de droga, entre outros. A série funcionou como rampa de lançamento para o actor Johnny Depp, que se tornaria um dos mais famosos do mundo.

Este filme, com o título homónimo no original, é uma adaptação desse ambiente, mas centrada em dois agentes.

Morton Schmidt (Jonah Hill) e Greg Jenko (Channing Tatum) são colegas de liceu. O primeiro é o “totó”, que não consegue as raparigas e é gozado pelos outros; o segundo é o “cromo” que os outros querem ser, mas que acaba por ser prejudicado pelo seu mau comportamento.

Anos mais tarde, ambos se reencontram no curso de formação de agentes de polícia. Apesar do seu passado de antítese, vão entreajudar-se para conseguir concluir com êxito. Schmidt ajuda na parte do estudo e Jenko na parte física. A associação funciona e, uma vez polícias, começam a fazer patrulhas juntos. Mas, na sua primeira detenção, Jenko esquece-se de ler os direitos ao detido, como obriga a lei dos EUA, invalidando a acção. Ambos são repreendidos pelo superior e, devido ao seu aspecto jovem, enviados para a unidade que funciona na Rua Jump, 21”.

De volta ao liceu, desta vez para investigar uma nova droga, vêem como as coisas mudaram. O que era “fixe” antes, deixou de ser. Este novo ambiente vai provocar uma curiosa inversão de papéis dos dois amigos.

A partir daí, o filme é uma comédia juvenil sem grande novidade e nem mesmo os ‘cameos’ de dois actores da série televisiva original são inesperados. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Doutores

A mania dos títulos académicos é uma das peculiaridades nacionais que nada abona a nosso favor. Conhecemos bem a necessidade que tantos portugueses sentem de ser “doutores” para aumentarem o seu estatuto social.

Infelizmente, o que para muitos interessa não é a procura do conhecimento, mas apenas umas letrinhas antes do nome.

A burguesia que tinha dinheiro para mandar os filhos estudar para Coimbra criou este sistema de títulos próprio que se arrastou até aos nossos dias. Muito dificilmente o abandonaremos, apesar de hoje fazer cada vez menos sentido.

Convém lembrar que, com Bolonha, tratamos pessoas que fizeram um curso de três anos como se fossem doutorados. Tal devia bastar para nos apercebermos do ridículo da coisa.
A Universidade deve ser um lugar de cultura, de aprendizagem, de pensamento. Não pode ser reduzida a uma loja de canudos. Encará-la desta forma é descredibilizá-la totalmente.

Mas pouco importa, porque o que continua a interessar não é saber, mas “ser”. Mesmo quando já se está numa posição de destaque, como em cargos políticos relevantes. E, mesmo com as polémicas habituais sobre a atribuição duvidosa de graus, é este o (mau) exemplo que continua a vir de cima e a ser seguido por muitos.

O novo regime do ensino superior, por muito boas intenções que tivesse, apenas veio agravar a situação. Cada vez teremos mais “turbo-diplomados”, graças ao sistema de creditações. Obviamente que nem todos os casos são iguais, mas a ideia generalizada é a do facilitismo. Assim, teremos mais doutores, engenheiros, arquitectos... Pelo menos de nome.

Continua bastante actual a famosa tirada de Almeida Garrett: “Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Bolonhesa

Parece que em Portugal, recentemente, quando se quer levantar um escândalo com um ministro basta averiguar o seu percurso académico. O último visado, como é sabido, foi o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas. Em causa está o facto de ter concluído em apenas um ano a licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa, por ter obtido 32 equivalências e tendo apenas de fazer exames a quatro disciplinas. A Universidade esclareceu prontamente que tal creditação é totalmente legal e que já houve 89 casos como este numa década.

Claro que quem estudou vários anos, fazendo todos os exames necessários, se revolta perante este aparente facilitismo.

Mas sejamos honestos. Se a lei o permite, a culpa é de algum deles? Se andarmos a 120 km/h numa auto-estrada a culpa é nossa ou do Código da Estrada? Relvas e os outros puderam acelerar o curso e fizeram-no.

O importante neste caso é perceber por que o puderam fazer. Nada como uma polémica mediatizada para que os portugueses vejam como o chamado processo de Bolonha está a descredibilizar o ensino superior no nosso país.

As licenciaturas foram reduzidas para três anos, com a desvalorização natural que tal significa. Generalizaram-se os mestrados, para que os estabelecimentos de ensino superior possam lucrar, que na maior parte das vezes são uma mera continuação dos cursos. Em certas áreas, preocupadas com a qualidade da formação, começou a exigir-se o chamado curso integrado, como Arquitectura, Engenharia, Medicina ou Direito. Mas o mal está feito. É óbvio que é melhor haver mais portugueses com formação superior, mas tal não pode ser à custa de um nivelamento por baixo.

Esta é mais uma área fulcral em que pomos em causa o futuro de Portugal. Os “doutores da mula ruça” não podem passar a ser a norma.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 11 de julho de 2012

No mundo de Bruegel

Pieter Bruegel, “O Velho”, um dos mais extraordinários pintores flamengos, assinou em 1564 uma das suas maiores obras, com 124 x 170 cm, intitulada “Subida ao Calvário”, que hoje se encontra no Kunsthistorisches Museum, em Viena. Em 1996, o crítico e historiador de arte Michael Francis Gibson publicava uma análise detalhada do quadro, cuja tradução em inglês viria a chamar-se “The Mill and the Cross”. No ano passado, o realizador polaco Lech Majewski decidiu passar a obra de Bruegel ao cinema, através do livro de Gibson, com quem co-escreveu o argumento. O resultado foi um filme bastante diferente do que estamos habituados e, por isso, tenha tido uma boa recepção no Festival de Sundance, onde foi a sua estreia.

A ênfase está, como não podia deixar de ser, na imagem. “O Moinho e a Cruz” é um formidável e elaborado espectáculo visual. Consegue fazer-nos entrar não só no trabalho de Brugel, como no mundo que ele presenciou, assim como nas suas intenções simbólicas ao pintá-lo. Os diálogos são raros e o ritmo é lento.

Impressionante é o retrato da Flandres do século XVI, sob domínio de Espanha. Dos afazeres diários domésticos às brincadeiras das crianças, ou dos diversos trabalhos da gente do campo às perseguições implacáveis das milícias espanholas. Este é um mundo violento e cruel, onde a convivência com a morte e a violência é uma constante.

É para este cenário que Bruegel (interpretado por Rutger Hauer) transpõe a história da Paixão de Cristo e explica ao seu patrono e coleccionador de arte Nicholas Jonghelinck (Michael York) o simbolismo da obra que está a pintar.

Aqui, um quadro ganha vida num filme que, apesar de não ser para todos, é bastante interessante. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

País encerrado

As recentes notícias sobre as intenções governamentais de encerrar vários tribunais pelo País fora, são mais um passo no caminho que Portugal faz, apenas numa direcção, virando costas à sua outra metade.

Há muito que se têm vindo a diminuir substancialmente as infra-estruturas de interesse directo para os cidadãos no chamado Interior. Afectam todas as pessoas e de todas as idades, pois são maternidades, centros de saúde, escolas, entre vários outros serviços públicos.

Claro está que a justificação é a mesma de sempre – “racionalização” para contenção da despesa. Ainda para mais, com a inspectiva ‘troika’ sempre à espreita e os “bons alunos” ansiosos de mostrar que fizeram os trabalhos de casa...

É óbvio que não há soluções perfeitas e que, certamente, há diversos casos merecedores de uma “racionalização”. Acontece que esta não pode ser a dos cortes cegos, baseados em relatórios anónimos, onde as pessoas são números e tudo é tratado da mesma forma, como se todas as situações se equivalessem.

Mais: estas medidas chocam de frente com o objectivo de fixar as populações em todo o território nacional. Algo com o qual teríamos todos a ganhar. O problema é que esses são ganhos a longo prazo e hoje, mercê de calendários eleitorais ou de subjugações externas, tudo se vê a curto prazo.

Em breve, o único grande investimento público de que o Interior beneficiará serão as auto-estradas que nos rasgaram a paisagem, deixando cicatrizes de asfalto. Mas, mesmo essas, servirão apenas como meio de fuga.

A fuga, em primeiro lugar é para o Litoral e para as maiores cidades. E depois? Certamente para outro país, como já acontece em números consideráveis, neste novo fenómeno emigratório a que temos vindo a assistir.

Qualquer dia não será apenas o Interior que estará encerrado, mas todo o País.
O nosso caminho não se faz parado. Parar é morrer. E Portugal não pode parar.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».