sexta-feira, 29 de junho de 2012

O barulho das luzes

Esta é uma expressão, bastante utilizada, que aparentemente não faz sentido. Mas a sabedoria popular, na sua divertida forma característica, explica muitas vezes as coisas melhor que longos tratados.

Voltando ao “ruído”, o que se ouve mais neste momento é o do futebol. O campeonato europeu e os resultados da selecção nacional sobrepõem-se a qualquer outro assunto e fazem esquecer a nossa lista de prioridades. É, portanto, a altura ideal para que certas notícias, nomeadamente decisões políticas, venham a público e passem ao lado.

Em plena euforia futebolística actual, vejam-se dois exemplos. O primeiro foi a promulgação, pelo Presidente da República, das alterações ao Código do Trabalho, que tanta discussão geraram. A segunda foi a admissão pelo ministro das Finanças de mais dificuldades. Vítor Gaspar afirmou que os dados disponíveis sobre a execução orçamental traduzem “um aumento significativo nos riscos e incertezas”.

É obviamente legítimo celebrar as vitórias dos que têm como missão representar o País no dito desporto-rei, da mesma maneira que há que admitir que existem ‘timings’ para decisões e anúncios políticos que não podem aguardar. Mas reconheçamos que, no mínimo, tem havido uma enorme coincidência.

Trata-se de uma estratégia deliberada dos “políticos” para ludibriar a populaça, ou de total ignorância e cegueira por parte dos cidadãos? Como reza o ditado: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

Como é sabido, as luzes não fazem barulho e, assim, quando esta expressão é utilizada pressupõe um conhecimento de ambas as partes. O “barulho das luzes” é tão útil para quem o usa como camuflagem, como para quem dele se serve como desculpa.
Não nos deixemos iludir, mas também não nos façamos de iludidos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Família perfeita

Kate, Steve, Mick, and Jenn Jones formam uma família aparentemente perfeita que se muda para uma zona residencial de luxo, onde vivem os abastados. São uma imagem de sucesso e felicidade que rapidamente impressiona os novos vizinhos. Tudo parece bom demais para ser verdade… E, de facto, não passa de uma enorme e cuidada encenação.

Como explica Kate (Demi Moore), não são uma família, mas uma “unidade”, da qual ela é a chefe. Neste caso são uma equipa de ‘marketing’ que trabalha infiltrada na comunidade. O seu objectivo não é apenas vender produtos, mas impor um estilo de vida e criar modas. Vender o “sonho americano”, que se concretiza através da posse de bens de topo. Todos os membros da “unidade” têm objectivos a atingir e os seus resultados são medidos periodicamente.

Apesar de nos EUA a febre do consumo ser naturalmente elevada, por cá também conseguimos perceber muito bem esta tendência. Cada vez mais há a ideia errada de que somos aquilo que temos e que, por isso, devemos ter.

Há um pormenor interessante, que passará ao lado de muitos. O título original do filme é o nome da família, mas faz referência à expressão idiomática anglo-saxónica “keeping up with the Joneses”, que significa manter o ‘status’ social através dos bens materiais.

É claro que nem tudo vai correr bem e neste mundo falso há lugar para o amor e as relações reais. Será que é possível conciliar os dois mundos? Será que é possível separá-los totalmente?

A questões que podiam ser aprofundadas, este filme responde com o expectável. A ideia não deixa de ser interessante, já que na guerra pelo consumo também deve haver lugar para unidades especiais, que trabalham atrás das linhas. Mas o resultado não impressiona. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Elogio do imaginário


É este o tema do amplo ‘dossier’ que a revista francesa “Magazine Littéraire” deste mês dedica ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Dos vários artigos que lhe são dedicados, destaque para “O outro Senhor dos Anéis”, de Vincent Ferré, sobre o interesse de Borges pela mitologia nórdica, e”A Internet antes de tempo“, de Luc Vigier, que vê na “Biblioteca de Babel”, com todas as suas ligações e trocas, um admirável modelo para a Internet. Para além de outros artigos, inclui ainda uma cronologia, uma entrevista com Alberto Manguel, subordinada ao tema “O mundo como livro e o sagrado do leitor”, e cinco textos do próprio Borges.

Fora do ‘dossier’, referência para a interessante reflexão subordinada ao tema “Podemos aprender a emancipar-nos?” e a grande entrevista com o filósofo francês Michel Onfray. Destaque para o artigo sobre o nascimento da ‘Beat Generation’, concretamente sobre o romance escrito em 1945 por Jack Keruoac e William S. Burroughs, “And the Hippos Were Boiled in Their Tanks”, mas que só foi publicado pela primeira vez em 2008.

sábado, 23 de junho de 2012

Um futuro presente

No início deste mês faleceu um dos autores cuja obra mais conhecida muito me marcou. Refiro-me a Ray Bradbury e à sua distopia “Farenheit 451”, publicada em 1953 e, mais tarde, em 1966, passada magistralmente ao cinema por François Truffaut.

Este tornou-se um dos livros de ficção científica mais conhecidos e, como não podia deixar de ser, alvo das mais variadas interpretações. A história passa-se numa sociedade norte-americana do futuro onde os livros foram proibidos. Como há quem continue a tê-los e lê-los, existem brigadas de bombeiros cujo objectivo é queimar a casa que os contém.

Rapidamente, muitos viram aqui uma crítica à censura de Estado, enquanto outros procuraram justificar esta obra com a queima de livros feita no III Reich ou com a intenção censória do Macartismo – período que ficou conhecido como uma “caça às bruxas” de índole anti-comunista liderada pelo senador Joseph McCarthy – em relação a alguns títulos.

Tão prontos a descobrir causas políticas, ignoraram as sociais. Se algo impressionava prontamente na visão deste futuro era o alheamento das pessoas em relação aos livros e a ignorância generalizada. Aliás, como é dito, neste mundo os bombeiros raramente eram necessários, já que as pessoas haviam deixado de ler por si próprias.

Em 2007, Bradbury esclareceu definitivamente a questão, dizendo que tinha sido mal interpretado. “Farenheit 451” era um livro contra a cultura da televisão, dos factóides, algo a que ele assistia naquela altura e previa que se agravasse.

Para não deixar dúvidas, Bradbury afirmou na mesma entrevista que estávamos hoje a viver o mundo que ele descrevera no seu romance. Inclino-me a concordar, pelo menos no
fundamental. Mas esta constatação não deve ser um lamento.

Pelo contrário, devemos inspirar-nos no exemplo de Guy Montag.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Frase do dia

"Em França, todos os partidos são iguais, mas a Frente Nacional é menos igual que os outros e os seus representantes precisam, cada um, de mais dois milhões de votos."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol"

Fim de um mundo

Esta é a segunda longa-metragem realizada por Oren Moverman, depois de “O Mensageiro” (2009), que desta vez contou com a ajuda de James Ellroy como co-argumentista. A história baseia-se no chamado “escândalo de Rampart”, que aconteceu no final da década de 1990 e revelou uma série de ilegalidades praticadas nessa divisão da Polícia de Los Angeles.

O filme centra-se em Dave Brown (Woody Harrelson), um agente que personifica todos os defeitos que imaginamos em alguém envolvido na corrupção policial. Acha-se no cumprimento do seu dever e que os fins – mesmo que sejam para proveito próprio – justificam os meios. Argumenta sempre numa perspectiva de superioridade, recordando o seu passado, seja como veterano da Guerra do Vietname, seja pelo longo tempo de serviço. Confia nos seus conhecimentos dentro da estrutura para o safar dos abusos e acha que as coisas vão continuar como sempre foram.

Um dia, enquanto em patrulha, um carro choca contra o seu. Dave persegue o condutor do outro veículo e espanca-o brutalmente. A situação é filmada, passa para as televisões, Dave torna-se o símbolo do abuso policial e ninguém parece disposto a ajudá-lo. Ao mesmo tempo, enfrenta problemas familiares. Tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas, uma de cada casamento. Ele tenta “manter a família junta”, mas continua a ser mulherengo, promíscuo e a abusar da bebida.

O ponto mais alto aqui é sem dúvida a excelente representação de Woody Harrelson, num papel que parece feito à sua medida. Nota negativa para a tradução portuguesa do título. Para além de optar pela reprodução do original, algo bastante em voga mesmo quando não se justifica, gera confusão imediata pela sugestão de que Rampart se trata do “renegado”. Há casos, como este, em que mais vale deixar-se como veio.

Mais que um filme sobre o abuso e a corrupção policial ou os dramas pessoais de um agente da autoridade, esta é a imagem do fim de um mundo. Do fim do domínio de um tipo de homens. Como diz a filha mais velha de Dave, antes de apontar todos os defeitos que vê no pai: “és um dinossauro”…

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Passagem

Inaugurada no passado dia 6 de Junho, num evento por onde passaram cerca de 500 pessoas, a exposição “Foto-Síntese” estará patente até 1 de Julho na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. É o regresso de João Marchante às exposições, confirmando-o como um dos grandes talentos da fotografia contemporânea no nosso país.




Como se julga o trabalho de um Amigo? Com a maior das exigências e o mesmo sentido de justiça. A resposta é para mim tão óbvia como imediata. Mas, vivendo no que é para muitos (demasiados)o “país das cunhas”, impõe-se um esclarecimento. Conheço o João há muitos anos e o encontro com este homem de cultura, com o qual rapidamente me identifiquei em tantas paixões comuns, como os livros, o cinema ou a fotografia, gerou uma amizade da qual muito me orgulho. Sempre fui um apreciador do seu trabalho de fotografia artística. A sua genuinidade, aliada a uma genialidade provocatória, conquistaram-me. Naturalmente, estava ansioso por esta exposição e com as expectativas bastante elevadas, mas não me desiludi.

Pelo contrário, vi, revi e vivi aquela série maravilhosa. Entrei nas fotografias pela minha porta, por aquela interpretação egoísta que nos exalta verdadeiramente o sentir. Dei conta das minhas impressões ao autor, conversámos, concordámos e discordámos. Apenas houve um ponto de encontro total: faltava ali um Amigo comum que infelizmente já deixou o mundo dos vivos…

O espaço da exposição não podia ser mais apropriado, já que o ambiente ‘rough’ das paredes em cimento se conjuga na perfeição com o grão das imagens, conseguidas com uma câmara Polaroid, recorrendo à película fabricada pela Impossible Project. Têm todas 100 x 124 cm e estão correctamente iluminadas. Ao entrar na sala percebemos instintivamente como se entra naquele percurso para o qual o João nos convida através da sua musa.

Cada fotografia é um verbo, uma acção, e, assim, vamos interagindo e aproximando-nos,em dez passos. Há uma ideia de transição nestas imagens de uma figura feminina que parece fazer a passagem à idade adulta. Mas não se fica por aí. Certas situações, certos objectos, certas perspectivas, certos pormenores, sugerem também uma passagem à idade dos adultos. A um tempo ao qual seria impossível chegar, da mesma forma que não podemos chegar totalmente àquelas imagens a cores com um aspecto anos 60, mas tiradas hoje. Há o encontro de dois mundos, com várias janelas por onde podemos espreitar e poucas portas por onde tentar entrar.

Da intromissão de “Filmar” à submissão de “Ver”, há uma provocação progressiva que nos conduz implacavelmente num crescendo sensorial. Um percurso quase inebriante, no qual nos deixamos levar para onde queremos. Uma experiência que não podemos de forma alguma perder.

O João Marchante, para além de fotógrafo, é realizador, autor e professor, leccionando actualmente Imagem e Estética na ETIC. Não expunha fotografia desde 2007… Como valeu a pena a espera!

terça-feira, 19 de junho de 2012

PS com maioria absoluta em França

Num cenário que não se via há mais de trinta anos, mas que muitos antecipavam, o Partido Socialista francês conseguiu a maioria absoluta na segunda volta das eleições legislativas no passado domingo. A Assembleia Nacional sofreu uma clara inversão, com os socialistas a não precisarem dos Verdes ou da extrema-esquerda.
Nesta onda de sucesso houve ainda um caso polémico. Ségolène Royal foi batida pelo socialista dissidente Olivier Farlorni e disse que havia sido “traída”, porque grande parte dos votos do seu vencedor vinham “da direita”.
A UMP foi severamente penalizada e o partido continua a ser associado ao anterior presidente Nicolas Sarkozy, à sua postura e às suas políticas. Com o crescimento da extrema-direita, os tempos são de reflexão e mudança para a Direita francesa.
A maioria dos eleitores franceses mostra que deseja as alterações políticas prometidas pelo recém-eleito François Hollande, que se opôs durante a campanha eleitoral à austeridade e contenção. Agora, os socialistas têm um presidente, uma maioria e um parlamento. Vejamos como esta alteração pode mudar a situação na Europa.


Le Pen no Parlamento
Apesar de ter sido dada quase como certa a eleição da presidente da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, esta acabou por ser ultrapassada pelo candidato do PS, Philippe Kemel, por pouco mais que cem votos. Marine pediu uma recontagem, mas ao mesmo tempo congratulou-se com o regresso do seu partido à Assembleia Nacional, algo que não acontecia desde 1986, muito devido ao sistema eleitoral. Desta vez, os eleitos foram Marion Maréchal-Le Pen, sobrinha de Marine e neta do histórico líder Jean-Marie Le Pen, que com apenas 22 anos se tornou a mais jovem deputada da V República, e o advogado Gilbert Collard.
A extrema-direita conseguiu ainda outro eleito, o presidente da Liga do Sul, Jacques Bompart, autarca de Orange e antigo quadro da FN.

Dia d'O Diabo

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Do futebol

É inegável a influência do futebol na nossa sociedade. Reflexo directo é a sua omnipresença nos meios de comunicação social. Agora, com o campeonato europeu de futebol, esta nota-se muito mais. Ainda assim, este ano há uma diferença substancial para o Euro 2004.

Nessa altura viveu-se uma verdadeira embriaguez colectiva. É claro que foi uma demonstração de que conseguíamos realizar um grande evento desportivo internacional no nosso país. Respondendo ao apelo de um seleccionador estrangeiro, Portugal foi decorado com bandeiras nacionais. Foi quase uma euforia ingénua de quem sentia que a partir desta festa tudo iria correr bem. Aconteceu o contrário. Hoje, essas manifestações pouco se notam e os portugueses, na sua maioria, percebem que nem Portugal não se resume ao futebol, nem o futebol resolve os problemas do País.

Muitos consideram o futebol como um escape. Mas não o devemos entender como uma mera fuga às preocupações do dia-a-dia ou uma forma divertida de esquecer a crise.
O chamado desporto-rei é uma projecção moderna das batalhas, talvez por isso os ânimos se exaltem tanto nesta competição e assistamos amiúde a uma violência que, à primeira vista, parece inexplicável. Como num antigo torneio, onde representantes de cada uma das partes vão lutar por um conjunto. Quando se trata de desafios entre selecções nacionais, esse simbolismo é evidente.

Quem vê aqui um perigo, garante-nos que o futebol se deve caracterizar pelo ‘fair-play’ e que serve para combater o racismo e a xenofobia. Mas estas aparentes boas intenções chocam com as declarações de altas figuras da sociedade e com a postura de muita imprensa.

A propósito do jogo contra a selecção alemã, muitos foram os que por cá quiseram, desta forma, atingir Angela Merkel ou “expulsar a Alemanha do Euro”, entre outros “mimos”. E este é só um exemplo, já que há casos semelhantes relativamente a todos os países.
Apesar do seu peso, tantas vezes exagerado, o futebol não pode ser um desígnio nacional. Que a crise e as presentes dificuldades nos recordem que os países são muito mais que equipas de futebol milionárias.

A defesa da pátria não é um espectáculo desportivo.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sábado, 9 de junho de 2012

Moralização

Todas estas alterações no Estatuto do Aluno, que prometem polémica, são um passo necessário para a moralização do ensino público em Portugal. Há muito que se criou a ideia errada que as escolas são depósitos de crianças e jovens e que os pais já não são responsáveis pela educação dos seus filhos, nem pelas suas acções nos estabelecimentos escolares.

Urge acabar com tal sentimento de impunidade. Há que aproximar os pais da escola e aproveitar o seu valioso contributo na educação dos filhos fora de casa.

O respeito aos professores não se pode desligar do respeito aos pais. As relações de hierarquia na transmissão dos conhecimentos são tão importantes como imemoriais.

Por outro lado, o facilitismo a que nos (mal) habituaram governos anteriores, ansiosos por melhorar estatísticas para mostrar lá fora, tem que terminar. A cultura da escola deve ser a do mérito e da disciplina – a busca da excelência.

Esta moralização interessa a todos. São os nossos filhos, a nossa juventude, o nosso futuro que estão em causa. Trata-se do futuro de Portugal.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Foto-síntese


Fui à exposição do João e gostei – muito, mesmo –, mas os comentários estão prometidos para mais tarde. Entretanto, vão até lá e vejam. Vale a pena.

Solidariedade

As recentes declarações de Christine Lagarde, a antiga ministra das Finanças do Governo do primeiro-ministro francês François Fillon, sob a presidência de Nicolas Sarkozy, que se tornou a directora do Fundo Monetário Internacional (FMI) após o escândalo sexual que provocou o afastamento do anterior detentor do cargo, Dominique Strauss-Khan, provocaram bastante polémica e fizeram correr muita tinta.

Lagarde disse que os gregos deviam pagar os seus impostos e que pensava “mais nas crianças de uma escola numa pequena aldeia no Níger, que têm duas horas de aulas por dia e têm de dividir uma cadeira por três e que estão muito interessadas em obter educação”.

A primeira afirmação, perante a cultura de evasão fiscal que há muito caracteriza a Grécia, parece sensata e até óbvia. Apesar de a própria Lagarde, beneficiando de um estatuto especial, não pagar impostos sobre o seu salário milionário, superior ao do presidente dos EUA.

Quanto à suposta preocupação com as crianças da África subsaariana, mais parece uma manifestação de pseudo-solidariedade que se tornou comum nas sociedades ocidentais. Ou seja, o mesmo é dizer que não se preocupa com uns nem outros.

De facto, no mundo ocidental, vimos aparecer uma espécie de “solidariedade” de tipo ‘fast-food’. Muitas são as ofertas que garantem que 5 dólares, ou euros, salvam uma família num qualquer país longínquo, sobre o qual os que contribuem pouco sabem. É como se tomassem um comprimido para o alívio rápido da consciência.

É mais fácil para quem vive na sociedade da abundância achar que está a ajudar um desconhecido numa terra distante, do que olhar para o lado e ver aqueles que entre nós estão realmente necessitados. É mais uma das consequências nefastas da perda do sentimento de comunidade.

As dificuldades que nos esperam vão exigir de todos a entreajuda de compatriotas. Esta é tão necessária para garantir a sobrevivência aos que menos têm, como para reforçar uma coesão nacional que se tem vindo a perder.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ditadura ou "ditamole"?

No início de “O Ditador”, vemos uma dedicatória “Em memória de Kim Jong-Il” e sabemos que vamos entrar numa paródia às ditaduras contemporâneas.

Ao contrário do que assistimos em trabalhos anteriores como “Borat” (2006) e “Bruno” (2009), aqui não há situações de interacção com pessoas reais, numa espécie de “apanhados” extremos.

Baseando-se em Kadhafi e outros “grandes líderes”, o protagonista é o ditador de um país norte africano chamado Wadiya. É o almirante-general Aladeen e tem todos os defeitos – explorados ao máximo – que imaginamos numa personagem do género. Exploração do povo, execuções gratuitas, perseguições, intolerância generalizada, a pretensão de ser uma potência nuclear e uma vida de opulência caracterizam o seu regime.

À boa maneira de Sacha Baron Cohen, este é um filme recheado com piadas politicamente incorrectas. Aqui usa-se e abusa-se de comentários depreciativos em relação às raças, às mulheres, à democracia, etc. Mas o prato forte, como não podia deixar de ser, são as críticas aos Estados Unidos da América. Há uma cena maravilhosa onde o ditador, para explicar as vantagens da ditadura, descreve exactamente o que se passa na América. Mas o interesse fica-se pelos ‘gags’, com alguns que valem umas gargalhadas, e fica-se por aí.

Quando a história se torna “séria”, com momentos amorosos e tudo, a coisa não corre bem. Nem em termos de enredo, com os lugares-comuns estafados a que estamos habituados, nem no que respeita à actuação, onde se percebe que Sacha não está bem fora do seu registo característico.

Apesar de alguns momentos bem conseguidos, o filme no seu conjunto não impressiona. Quem vê o ‘trailer’ percebe o que o espera e o resto é palha para encher.[publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 60


Como habitualmente, recomendo esta revista que é uma referência na divulgação histórica. “La Nouvelle Revue d’Histoire”, dirigida por Dominique Venner, está disponível nas bancas nacionais e é de leitura obrigatória para os apaixonados por esta disciplina fascinante.

O número 60, referente aos meses de Maio e Junho, actualmente em quiosque, tem como tema central as “Campanhas da Rússia” e oferece um excelente ‘dossier’, com diversos artigos, entrevistas e cronologias. Para além da invasão napoleónica de 1812 e da Operação Barbarossa ordenada por Hitler, em 1941, e de Estalinegrado, em 1942, o destaque vai para a atenção dada à nova Rússia e à sua geopolítica. Como afirma Dominique Venner no seu editorial: “Pedimos ao passado para esclarecer o presente”.

Uma nota especial vai para a excelente entrevista com o romancista profético Jean Raspail, que aqui revela as fontes históricas da sua inspiração. Escritor e explorador, é autor de uma vasta obra onde se inclui o romance visionário, saído em 1973, “Le Camp des Saints”, que no nosso país foi publicado pela Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”.

Destaque ainda para o artigo sobre o recém-falecido Hervé Couteau-Bégarie, professor que reagiu contra o anti-militarismo da Universidade francesa e renovou o pensamento estratégico em França. Também de referir os artigos sobre Hjalmar Schacht, explicando como um conservador se tornou o improvável ministro da Economia de Hitler, e sobre Pierre Schoendoerffer, autor e admirável realizador de cinema que filmou a guerra e que faleceu recentemente. Para além de outros artigos e entrevistas, a revista inclui ainda um passatempo, criticas a livros, novidades e a crónica habitual de Péroncel-Hugoz.

sábado, 2 de junho de 2012

As três idades do Arquitecto

É impossível pensar na Casa Portuguesa sem pensar em Raul Lino. Homem da cultura e das artes, amava a Pátria e a Natureza e procurou sempre uma identidade arquitectónica nacional. Bernardo d’Orey Manoel, arquitecto e docente na Universidade Lusíada de Lisboa, procura os “Fundamentos da Arquitectura em Raul Lino” através das três casas que o próprio projectou para viver com a família. São: “Três casas. Três obras de arte. Um só arquitecto. Uma vida.”



O autor divide esta obra em três capítulos, referentes às casas onde Raul Lino viveu, que para ele correspondem aos estádios propostos por Kiekegaard para descobrir o sentido da existência: estético, ético e religioso.

O primeiro trata da Casa do Cipreste. Para Bernardo d’Orey Manoel, esta “é o sonho de um jovem. É um sistema construído, um edifício de transições, conflitos, emoções, um jogo de luz. É a vida de Raul Lino inscrita na pedra, porque a paixão deixa sempre marcas. Funciona como um todo, um todo vivo. Tudo nasce no pátio. É a partir da intimidade deste pátio que todo o outro espaço se organiza, quer seja o espaço construído quer o espaço conquistado. O gesto do arquitecto instituiu um mundo novo”.

O segundo leva-nos às Azenhas do Mar e à Casa do Marco, aquela que Raul Lino decidiu construir porque achou que as suas filhas precisavam de sol. Este é, assim, “o abrigo de descanso do guerreiro e da sua família na mãe-natureza. A casa, as plantas, a arriba, o céu e o mar constroem momentos de relação. É a possibilidade do exercício da liberdade, expressão da ética na sua autenticidade. Uma casa da tradição portuguesa, que espreita o oceano e resiste ao vento. Integra as plantas no seu espaço, na construção do seu próprio mundo”. Mas o autor vai mais longe e afirma que esta “pode bem ser a casa portuguesa que Raul Lino perseguia”.

Por último, a Casa da Rua Feio Terenas, em Lisboa. Projectada e construída quando as filhas de Raul Lino estavam já casadas, “é um gesto amadurecido, sentido das coisas, verdadeira sustentabilidade da arquitectura em que tradição e modernidade se entrelaçam no acontecer. No interior da cidade a intimidade, o saber, os valores, o modo cuidado de Raul Lino fazer arquitectura. É o seu estilo em pedra transfigurado”.

Bem alicerçado nas fontes, em especial no Arquivo da Família de Raul Lino, este livro oferece-nos ainda vários Anexos que o enriquecem. Estes incluem uma bibliografia, uma cronologia ilustrada, alguns textos inéditos de Raul Lino e várias imagens referentes às três casas tratadas.

Em termos da edição, o livro está bem composto e bastante ilustrado com fotografias e reproduções das plantas. Pena que não se tivesse feito uma edição em formato maior que privilegiasse o aspecto gráfico, já que este trabalho daria um óptimo álbum.

Mas sabemos como os custos limitam as edições, principalmente as universitárias. Apesar deste pormenor, a Universidade Lusíada Editora está de parabéns pela publicação deste trabalho, tão útil para melhor chegarmos até um dos maiores arquitectos nacionais.

Neste trabalho vemos as três idades de um arquitecto e de um homem de raro talento que marcou para sempre a Arquitectura portuguesa. Como escreveu Raul Lino: “A Arquitectura, por ser uma Arte do corpo social, reflecte sempre a cultura do espírito de uma época. As suas obras representam um estado colectivo visto através de um temperamento individual”.