quinta-feira, 31 de maio de 2012

Grandes e pequenos

Nos últimos tempos, como consequência directa da crise, temos vindo a assistir a um aumento exponencial de todo o tipo de controlos. Seja pelas Finanças, relativamente aos impostos, seja pela ASAE relativamente ao comércio, seja pela Polícia, relativamente ao trânsito automóvel, entre tantos outros. Os casos são inumeráveis, mas são um sinal de um “apertar” que sentimos diariamente.

Obviamente, não se pode fazer – nem se fará – aqui a defesa do incumprimento. É claro que a fiscalização tem que existir e desempenhar o seu papel. Os prevaricadores não podem ser considerados como exemplo, muito menos numa altura de crescentes sacrifícios, como esta em que vivemos.

A questão fundamental está nos alvos de todo este controlo. Mais uma vez – convém também acrescentar que cada vez mais –, os principais visados são os “pequenos”. São os cidadãos, as famílias, o pequeno comércio e as pequenas empresas.
Por outro lado, os “grandes”, as empresas multinacionais e os grandes grupos económicos, parecem não só escapar, como reforçar o seu poder. É por isso muito difícil falar em verdadeira competitividade e em empreendedorismo, normalmente apontados como solução para a crise económica.

Esta situação não é exclusiva de Portugal, passa-se em todos os países europeus, com diferentes intensidades. Será que estamos finalmente a viver o cenário proposto por tantos filmes de ficção científica onde multinacionais gigantescas controlam o mundo através de um sistema securitário? Ainda não, mas esse é um risco crescente. Cabe-nos a nós evitá-lo.
Está longe de ser uma tarefa fácil, mas não seria a primeira vez na História em que os pequenos vencem os grandes.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Minoria

Muito se fala de “minorias”, na sua necessidade e, principalmente, na sua “defesa”. Na maior parte dos casos, estas não passam de minorias instrumentalizadas – quando não criadas – por movimentos ou partidos, quase sempre das esquerdas, para atingir objectivos políticos.

Mas há minorias fundamentais e, de facto, a considerar. As que lêem, reflectem e agem, por exemplo. Veja-se uma estatística de leitores de jornais relativamente à população nacional e percebe-se automaticamente que quem lê estas linhas pertence a uma minoria. Será que o seu reduzido número lhe retira importância?
Muito pelo contrário. São essas minorias que alteram o curso a História, que são a ignição das revoluções e as provocadoras da mudança.

Claro que nem sempre – é melhor dizer raramente, para não dizer nunca – conseguem obter os resultados exactos que pretendiam. O que não é de estranhar, já que o futuro é naturalmente desconhecido e inesperado. Mas o sonho deve estar sempre presente, tal como a vontade de actuar, de não se acarneirar e de recusar sempre um conformismo imobilista e imobilizador.

A democracia moderna encerra em si própria, entre outros, o perigo da “tirania da maioria”, para o qual alertaram vários autores, nomeadamente Alexis de Tocqueville, na sua obra incontornável “Da Democracia na América”. São por isso necessárias minorias que se arrisquem ao mais perigoso exercício de todos – pensar.

Não podemos nunca vergar-nos à lógica redutora do número. O número não é sinónimo de razão ou de vitória. Há factores incalculáveis que influenciam, quando não definem, o destino dos povos.

O nosso exemplo, ancorado na preciosa herança da nossa História europeia, não é o dos milhares de persas, mas dos 300 de Esparta.

Podemos ser uma minoria, mas somos maiores.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Escapem!

Stephanie Plum (Katherine Heigl) vê-se sem emprego e afogada em dívidas. Decide dar uma volta à sua vida, mas para tal tem que conseguir um trabalho que lhe dê muito dinheiro rapidamente. Vendo que não é fácil encontrar uma saída, convence o seu primo, que tem uma agência de fianças, a torná-la uma caçadora de recompensas.

A coincidência que faz a história é Stephanie começar por perseguir Joe Morelli (Jason O`Mara) um antigo conhecido que a seduziu e abandonou nos tempos de liceu. Joe é um polícia acusado de homicídio de um bandido desarmado.

Enquanto tenta capturá-lo, Stephanie vai envolver-se em situações perigosas e meios que desconhece, sempre com o à-vontade de uma descerebrada. No entanto, ao longo do filme, ela convence-se que é bastante boa no que faz. E que em poucos dias consegue desempenhar com sucesso tão arriscadas funções. O problema é que em toda esta idiotice, sem piada de qualquer espécie, acabam por dar-lhe razão.

Esta é supostamente ser uma comédia, mas a tentativa de humor que é aqui feita não passa de um exercício entediante de tiradas e situações básicas, sem graça e que se tornam insuportáveis. A acção passa-se em Jersey e, claro, o filme tem algumas ‘private jokes’ – que nem por isso são boas ou engraçadas – para norte-americanos, que brincam com especificidades locais e de pronúncia, que não são facilmente percebidos por muitos estrangeiros.

De resto, banalidades. Uma não-história, maus desempenhos e maus actores que, na prática, transformam o tempo dispendido a ver esta película numa hora e meia de tempo absolutamente perdido. A evitar. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Do património

Na semana passada passou-se mais um caso nosso país relativamente ao património que, infelizmente, está longe de ser o primeiro, nem será certamente o último.

Na aldeia de Chãs, freguesia de Regueira de Pontes, concelho de Leiria, a Capela de Nossa Senhora das Necessidades foi demolida, por não ter sido classificada pela autoridade competente, o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar). Tratava-se de um edifício que remontava pelo menos ao século XVII. Várias vozes críticas se levantaram em defesa da capela, nomeadamente a Ordem dos Arquitectos, bem como outras associações.

O problema é que, tal como noutras situações análogas, a população e os dirigentes locais estavam contra a preservação e ansiosos pela demolição. Desta vez, o presidente da Junta local, Amílcar Gaspar, afirmou mesmo que a igreja se tratava de “um mono e um estorvo”.

Em primeiro lugar, em casos destes, os defensores do património são normalmente externos e impessoais. Por demasiadas vezes tratam os locais como ignorantes que nem precisam de ser ouvidos. Por outro lado, é comum que as populações estejam cegas com a enganadora ideia de progresso. “Se temos um novo, para quê um velho?” Estamos sempre perante o complicado desafio de encontrar um equilíbrio. Não se pode optar por um sistema “de redoma”, que corta o acesso das pessoas ao seu património, nem pela pura destruição de qualquer coisa que soa a ”ultrapassada”.

A atitude perante a conservação do património tem mudado, naturalmente, ao longo dos tempos. Mas é essencial que as pessoas se sintam identificadas com ele enquanto comunidade. Que não o entendam como peças de um museu, mas como elementos presentes que nos ligam ao passado e que deixaremos para o futuro.

O património pertence-nos – é nosso. O que apenas aumenta as nossas responsabilidades enquanto portugueses de o conservar e de o viver.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Portugal e o Estado

Diariamente ouvimos falar no Estado, provavelmente nunca nos questionando acerca da sua origem mais remota.”O Estado em Portugal (séculos XII-XVI)” (capa mole, 236 páginas, 16,96 euros) é uma óptima síntese, bem sustentada cientificamente, feita por uma académica, mas acessível ao público interessado. Judite Gonçalves de Freitas, Professora Catedrática da Universidade Fernando Pessoa, leva-nos às raízes medievais do chamado “Estado Moderno” para melhor percebemos como aqui chegámos.




Felizmente que há muito que se vem dissipando a ideia errónea de olhar para a Idade Média como sendo a “das trevas”, ao mesmo tempo que a própria divisão da História em períodos estanques deixa de ter sentido. Não só os tempos medievais foram de desenvolvimento, de descoberta e até do que podemos considerar uma “revolução científica”, como a História implica em si própria uma continuidade. Pese embora haja marcos incontornáveis e a separação por períodos facilite a análise é exactamente passando por cima destes que se é bem sucedido na procura das origens. A autora define muitíssimo bem esse exercício no subtítulo desta obra – “Modernidades Medievais”.

De facto, como afirma a autora, “a construção moderna do Estado implicou um conjunto de modificações lentas, edificadas dentro dos limites do domínio territorial da monarquia”. Para chegar a esta conclusão, Judite Gonçalves de Freitas traça a evolução das estruturas políticas e sociais desde o Portugal Medieval até ao início da Época Moderna. Esse trajecto está dividido em quatro grandes unidades temáticas, a saber: Realeza, Governo e Poder dinástico; Monarquia, Parlamento e Direito; Estado, Poder e Administração e, finalmente, Estruturas do poder político: a monarquia renovada.

Uma obra que não ignora os principais trabalhos produzidos sobre o tema e que assenta em fontes e bibliografia, cuidadamente discriminadas no final de cada capítulo. Inclui ainda dois mapas e três organogramas das instituições políticas, bem como uma útil cronologia dos principais acontecimentos políticos.

Um livro bem construído e clarificador. Uma reflexão necessária para compreendermos a formação do Estado no nosso país. Como escreveu no Prefácio Martim de Albuquerque, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, “este livro ostenta, de facto, uma discursividade atraente, inclusive sedutora. Claro, sistemático, lógico. São três adjectivos que ocorrem naturalmente e a propósito. Concitar tantos autores portugueses e estrangeiros, os respectivos contributos de forma coerente e em concatenação, sem os desvirtuar, antes em encaixe admirável uns nos outros e sem jamais perder de vista as  fontes da época respectiva, constitui um desafio que a autora acatou e venceu, todavia, sem dificuldade aparente.”

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Super-mulher


Como se faz um ‘blockbuster’ de acção? Com uma trama simples, de preferência já comprovada, passada em várias partes do globo, dá-se uma dose exagerada de tiroteios com armas variadas, bastantes perseguições alucinantes e correrias desmesuradas e, claro está, cenas de pancadaria especializada, porque os entusiastas das artes marciais já não se contentam com qualquer coisa. Nem é preciso cenas de amor… Bom, talvez uma pitadazinha. Juntam-se umas caras conhecidas para dar credibilidade e filma-se tudo “prego a fundo”.

Soderbergh sabe a receita, aplicou-a e, desta vez, tem como protagonista uma verdadeira “super-mulher”. Mallory Kane (Gina Carano) é uma operacional de topo de uma empresa de ‘civil contractors’ – nome a que nos habituamos nos recentes conflitos do Iraque e do Afeganistão, por exemplo – que é escolhida para uma difícil missão de recuperação de um refém. Claro está que nestas áreas nada é o que parece e Mallory vê-se ludibriada e perseguida. Torna-se uma ‘rogue agent’ – a história clássica deste tipo de filmes – e ninguém a consegue parar. Aceleradamente, vai fugindo, espancado, disparando e perseguindo, com extraordinária eficácia, de Barcelona a Dublin, passando pelo Novo México, entre outras paragens.

A história, que é de nível baixo na escala da conspiração, sabemo-la através do relato que ela faz a um jovem no carro de quem foge. É um piscar de olhos ao público adolescente, colocando-o no filme.

No que respeita à actuação, os grandes nomes só aqui estão para dar a cara e pouco esforço. Gina Carano, lutadora profissional de artes marciais mistas e que está longe ser uma grande actriz, enquadra-se perfeitamente no género. É, seguramente, um nome que voltaremos a ver nestes ambientes.

Se gostar da acção pela acção, este é um filme a não perder. Se procura algo mais, quando acabar de o ver com certeza repetirá a última linha de diálogo. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Frase do dia

"A conclusão importante a tirar do 6 de Maio é que em dois países da União Europeia - a França e a Grécia - confirmou-se a tendência da quebra do apoio popular ao centro europeísta, parlamentar e globalizante - e cresceram 'à esquerda' e 'à direita' as forças que contestam o pensamento dominante."

Jaime Nogueira Pinto
in "Sol".

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Descobrir Portugal

É comum dizer-se que só valorizamos uma coisa quando lhe sentimos a falta. Como portugueses, devemos sabê-lo melhor que ninguém, em especial quando se trata da nossa terra. É esse o sentimento que está na origem de algo tão nosso – mas que é muito mais profundo e amplo que a mera falta – que é a Saudade.

É bastante comum vermos como as nossas comunidades emigradas lá fora têm a preocupação em preservar o nosso património. Pelo contrário, parece que, para quem cá está, Portugal representa tudo o que “está mal”. Certo é que, quando saímos, sentimos automaticamente o pulsar de uma ligação imemorial. A este propósito, recordo aqui um exemplo paradigmático.
O aclamado escritor John dos Passos, conhecido especialmente pela sua trilogia americana, escreveu um livro que entre nós recebeu o título “Portugal – três séculos de expansão e descobrimentos”. Foi um trabalho de pesquisa sobre a nossa História, mas, mais importante que isso, foi um reencontro. No prefácio à edição portuguesa, escreveu: “Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai nunca se esqueceu de que era meio português. (...) Para o meu pai, que guardava apenas meia fidelidade para com a deslumbrante América interesseira em que passava a vida, estes laços com a tradição significavam muito. Ao tornar-me mais velho, também eu tomei consciência dessa parte da herança portuguesa que me corria nas veias. Este livro é, de certo modo, um sacrifício feito sobre os altares ancestrais”.

Hoje, que cada vez mais sentimos falta de Portugal em Portugal, pode ser que não seja necessário sair fisicamente da nossa Pátria para a descobrirmos.

Um Povo que descobriu outros mundos ter o dever de, numa altura em que está perdido e sem rumo, descobrir-se a si próprio.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A mãe do assassino

As notícias de horríveis massacres em escolas já não são novidade, apesar de bastante perturbantes, dada a sua frequência. Também já não se restringem aos Estados Unidos da América, tendo ocorrido em países europeus. Um fenómeno que é aparentemente do mundo ocidental e que tem merecido as mais diversas análises. O primeiro ângulo pelo qual se observam estes acontecimentos trágicos é o dos perpetradores, para tentar perceber o caminho que os levou até à sua decisão assassina e os motivos que a consolidaram.

Desta vez, a realizadora britânica Lynne Ramsay optou por nos mostrar como é a vida da mãe de um assassino desses. Tanto as extremas dificuldades que atravessa depois do sucedido, onde é ostracizada pela comunidade, que não resiste à tentação de a culpar também. Como pela conturbada relação que ela teve com o seu filho desde que ele nasceu. Uma criança estranha que, desde muito nova, revela traços de sadismo ou mesmo de uma maldade intrínseca, que consegue monopolizar a família e aterrorizar a sua progenitora.

Um dado muito curioso neste filme e que talvez passe ao lado dos menos atentos é a arma utilizada por Kevin para levar a cabo o seu massacre escolar. Como sabemos, este tipo de crimes tem sido bastante utilizado para as campanhas contra as armas de fogo, nomeadamente nos Estados Unidos da América. Acontece que aqui o instrumento de morte é um arco através do qual são disparadas certeiras setas. Algo que, para além de impressionar, mostra que independentemente da arma é o massacre e o seu autor que devem ser condenados.

Um filme intenso, bem realizado e ritmado, com planos muito bem conseguidos, que nos traz uma abordagem nova e diferente. Destaque para as boas actuações de Tilda Swinton, no papel da mãe, e de Ezra Miller, no papel de Kevin quando é adolescente.

Uma reflexão não só sobre o homicídio juvenil, mas principalmente sobre a relação entre mãe e filho, que por vezes pode ser tão difícil e até obscura. Será que, como diz o ditado, “quem sai aos seus não degenera”? Será que não há nada como o amor de mãe? [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Frase do dia

“O euro foi uma espécie de 50% Pingo Doce a uma escala gigantesca.”

Vasco Pulido Valente
in “i”

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Marine determinante

O socialista François Hollande ficou à frente na primeira volta das eleições presidenciais francesas e o actual Presidente da República, Nicolas Sarkozy, ficou em segundo lugar. Mas foi Marine Le Pen, que se impôs em terceiro lugar e se tornou o candidato determinante da segunda volta. Depois dos erros das sondagens, do primarismo da classificação política e da surpresa dos menos atentos, é tempo de analisar os resultados, perceber o que está em causa e tentar ver o quem será o próximo inquilino do Eliseu.



Com 18 por cento dos votos, a candidata da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, tornou-se uma peça incontornável na decisão da segunda volta das presidenciais francesas. Há quem lhe chame o “árbitro”, mas as suas intenções vão muito além deste acto eleitoral. A política em França está a mudar. Os socialistas europeus, desacreditados politicamente, esperam a vitória de Hollande, para relançar a esquerda. Sarkozy tenta, a todo o custo, manter-se no cargo, mas a tarefa não é fácil. O actual cenário político francês ajuda a compreender as alterações na política contemporânea na Europa.

O esperado
A vitória do candidato do Partido Socialista, François Hollande, não surpreendeu. Depois dos desentendimentos entre os socialistas, foi este o escolhido para derrubar o actual Presidente. A seu favor jogaram a crise económico-financeira, o crescente desemprego, as questões sociais e, especialmente, a animosidade gerada por Sarkozy. Com 28,63 por cento dos votos, Hollande conta, em princípio, com os votos da esquerda na segunda volta. Ainda assim, e apesar de a maioria dos analistas o apontarem como favorito na segunda volta, nada está, obviamente, garantido. Ainda assim, Hollande pisca o olho aos valiosos eleitores da FN. Em declarações à RTL, afirmou: “Num período de crise, que nós conhecemos, a limitação económica da imigração é necessária, indispensável. Eu quero lutar contra a imigração clandestina no plano económico”.

O derrotado
Sarkozy não teve um primeiro mandato fácil. A sua presidência foi bastante criticada pelos vários sectores políticos franceses. Em plena campanha, quando a sua popularidade estava em baixa, beneficiou do caso do chamado assassino de Toulouse. Endureceu o seu discurso e apostou em temas como a segurança e a islamização de França. Era uma clara tentativa de conseguir chegar aos tradicionais eleitores da FN. A estratégia não resultou. Atingiu os 27,18 por cento e tenciona agora tornar-se o unificador da direita para ser reconduzido no cargo. Mas este é um objectivo bastante complicado. Apesar de se ter tentado distanciar, sabe que precisa daqueles que votaram Marine para continuar no Eliseu.

O ajudado
Jean-Luc Mélenchon, o candidato da extrema-esquerda, foi desde o início acarinhado pelos meios de comunicação social e, segundo as sondagens, era apontado como aquele que conseguiria o terceiro lugar na primeira volta. No fim de contas, a montanha pariu um rato. O seu resultado pouco ultrapassou os 11 por cento. Há que dizer que Mélenchon, tal como Eva Joly, defenderam sempre o voto em Hollande, oue seja, a unidade das esquerdas contra Sarkozy. Podia ser uma justificação para os fracos desempenhos destes dois candidatos, mas o que aconteceu contrariou as análises dos que se convenceram de que a política em França não havia mudado.

A “surpresa”
A grande vencedora desta primeira volta foi Marine Le Pen, filha do histórico líder da FN Jean-Marie LePen. Muitos consideraram o seu expressivo resultado de 18 por cento, superior ao conseguido pelo seu pai na segunda volta de 2002, como uma surpresa. De facto, nenhuma sondagem previu tais números. Mas há que ter uma análise fria e atenta da situação política francesa. Marine iniciou, com sucesso, o chamado processo de desdiabolização da FN. Com todas as críticas que lhe possam ser apontadas, Marine fez-se valer como opção para grande parte do eleitorado. Assumiu-se como chefe da oposição e está decidida a mostrar que a cena política francesa se alterou. Ela é um dos novos actores e ninguém pode alterá-la. A sua posição sobre a segunda volta será anunciada no dia 1 de Maio, data em que a FN faz a sua tradicional homenagem a Joana d’Arc. Mas o seu objectivo claro são as legislativas. Recorde-se que, quando o sistema era proporcional, a FN conseguiu eleger 35 deputados à Assembleia Nacional. A partir daí, apesar das votações expressivas, a FN foi arredada da representação no parlamento pelo novo sistema a duas voltas. Agora, com este crescimento, Marine espera voltar o feitiço contra o feiticeiro.

As Direitas
Na maior parte dos casos, a imprensa portuguesa, para não falar de outros casos, continua a tratar a FN como um partido de extrema-direita. Com este simplismo, parece que se trata de um pequeno partido marginal e que extrema-direita equivale, necessariamente, a fascismo. Tal entendimento só pode demonstrar ignorância ou má-fé. Fazendo uma análise séria, é impossível remeter a FN para os lugares-comuns do costume, normalmente inquinados ideologicamente. Em primeiro lugar, espectro dos seus eleitores é amplo. Um dado curioso, para os menos atentos, e bastante incómodo para as esquerdas, é que a FN é o partido que em França colhe a maior fatia de apoio dos operários. Também tem grande adesão nas camadas mais jovens, assumindo-se como uma força anti-sistema. Em segundo lugar, há que ter em conta o panorama das direitas francesas. Se olharmos para o programa do RPR dos anos 80 do século passado, descobrimos automaticamente grandes semelhanças com o do FN hodierno. Tal não acontece por acaso. A fractura da grande família direitista em França continua. Como muito bem classificou René Rémond, na sua tipologia das direitas francesas, assistimos ainda hoje à luta entre orléanistas e bonapartistas pelo domínio desta grande família política. Marine está a inverter o jogo de forças. Um fenómeno ao qual devemos estar atentos, para melhor compreender as mudanças em curso, não só em França, mas em toda a Europa.

E agora?
Aquele que pode ser considerado o bloco das direitas (Sarkozy, Le Pen, Dupont-Aignan) tem, em teoria, 47 por cento dos votos. O da esquerda (Hollande, Mélenchon, Joly, Poutou, Arthaud), por seu lado, dispõe de 44 por cento. Claro que a forma como se vão repartir os nove por cento dos eleitores que votaram no centrista François Bayrou é importante e difícil de adivinhar. No entanto, as contas estão longe de ser fáceis. Uma coisa é certa, a atitude dos eleitores de Marine Le Pen será determinante na decisão de quem será o próximo Presidente francês. Alguns preferirão, mesmo que contrariados, o candidato da direita. Outros o da esquerda, conforme muitos já declararam. Mas há sempre aqueles que optam pela abstenção. Como afirmaram vários frentistas, com estes candidatos na segunda volta, no dia do acto eleitoral da segunda volta preferem “ir à pesca”. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Suspense?

A atracção de Hollywood é, de facto, muito forte. Muitos são os que se rendem aos encantos desta Meca do Cinema mas, infelizmente, não aproveitam para ir mais longe e explorar as suas capacidades. Esta conversão é quase sempre uniformizadora e põe os realizadores a fazer o que já foi feito e repetido até à exaustão, sujeitando-se a um modelo pré-formatado, tal como um menu de uma qualquer cadeia de ‘fast-food’.

Foi o que se passou com o brasileiro Heitor Dhalia, ao realizar uma tentativa de filme de suspense na qual não se encontra nada de novo, nem de interessante. Será que vale mesmo a pena – excepto financeiramente, talvez – ir para os Estados Unidos só para se tornar “mais um”?

A história de “Gone” é bastante simples. Jill Parrish (Amanda Seyfried) está convencida que a sua irmã, Molly (Emily Wickersham), foi sequestrada pelo mesmo assassino em série de quem escapou no ano anterior e tem a certeza que, ao pôr-do-sol, Molly será morta. Tem por isso 12 horas para a salvar, como nos diz o título português. O problema é que a polícia não acredita na sua versão, pois acha que ela está psicologicamente perturbada e que tudo não passou de um delírio seu. Sozinha, Jill decide que salvará a irmã e não descansará enquanto o seu captor não for morto.

A questão que se põe é saber se tudo não passa de uma fantasia da sua cabeça ou, pelo contrário, é ela a única que está segura da verdade, mesmo perante a dúvida de todos. A resposta é dada bastante cedo, pelo menos para quem já viu filmes deste género. Mas o pior é que tudo acontece tal e qual como se espera.

Amanda Seyfried tem talento e tenta, mas o que a rodeia não podia dar grande resultado. O que é uma pena para esta actriz, que se tem vindo a perder em filmes medíocres. Merecia melhor… [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 1 de maio de 2012

Idade da Pedra

Datas como o 25 de Abril ou o 1.º de Maio trazem sempre à discussão a questão dos chamados “direitos dos trabalhadores”. Normalmente apresentados, abusivamente, como uma “conquista da esquerda”. Pouco importa que hoje muitos desses senhores das esquerdas, outrora defensores da melhoria da dita classe trabalhadora, estejam muito bem acomodados à frente de grandes empresas e desfrutando dos privilégios inerentes.

Com um discurso estafado, insiste-se na defesa dos “direitos adquiridos” – como se se acreditasse na imutabilidade da sociedade e do mundo – normalmente fazendo verdadeiras marchas jurássicas, que mais lembram dinossauros em fuga após a chuva de meteoritos.

Acontece que o cenário mudou completamente. Mesmo com a partida de tantos portugueses, os que cá ficam já se aperceberam que nada está garantido. Esta afirmação não é teórica, baseia-se na minha observação prática e directa, bem como nos inúmeros testemunhos que me vão chegando de pessoas que trabalham nas mais diversas áreas.

Chegámos a um ponto em que, como diz o povo, “são sete cães a um osso”. E não me refiro a uma competição salutar, onde quem sobressai é o que tem mais competências. Também já não se trata da mera sobrevivência do mais forte. Pelo contrário, é a via daquele que tem menos escrúpulos – do que está disposto a tudo.

Esta constatação pode ser entendida como um alarmismo catastrofista, em especial pelos optimistas de serviço, mas os sinais estão todos lá. Basta querer vê-los e saber lê-los, porque já os sentimos há bastante tempo.

Numa era de inversão de valores, honra, respeito, verdade, solidariedade, entre outros, rareiam. É o anúncio claro de um fim de ciclo, com tudo o que isso acarreta. Claro que outro se seguirá, mas por agora há que estar atento e prevenido.
Voltámos à Idade da Pedra e quem sobrevive é quem lasca melhor a sua faca de sílex…

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».