sábado, 28 de abril de 2012

Frase do dia

«Sócrates foi um delinquente político»

Maria Filomena Mónica
in "i"

Oito anos

Depois de tanto tempo na blogosfera chego àquela conclusão óbvia  —  manter um blog é um acto de teimosia. Que é como quem diz, esta casa vai continuar a ser habitada, por mim e por quem me lê. Obrigado a todos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Frase do dia

«A dívida transformou-se no verdadeiro quarto “d” do regime democrático e na coveira da nossa liberdade.»

José Manuel Fernandes
in "Público"

Abrilices

«A Associação 25 de Abril junta velhos militares que há quarenta anos fizeram um golpe de Estado. Por muito que esse golpe de Estado tenha sido benéfico — e sem dúvida que o foi — isso não lhes trouxe qualquer espécie de legitimidade democrática. Alguns julgaram que sim e, em nome dela, fizeram ou colaboraram no PREC, que a maioria do país radicalmente condenou. O que eles pensam agora sobre a situação portuguesa ou sobre a gente que nos governa vale tanto como o que pensa a Associação Nacional de Xadrez ou a Federação de Futebol.»

Vasco Pulido Valente
in "Público"

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pensar a Civilização

Niall Ferguson é hoje um dos historiadores mais conhecidos e influentes no mundo. Os seus trabalhos recentes sobre História financeira e económica têm chamado a atenção do público. Várias das suas obras são também séries de televisão bastante populares. É o caso de “Civilização – O Ocidente e os Outros” (capa mole, 512 páginas, 18,90 euros), publicado agora entre nós.



De uma forma provocatória, o autor afirma que se em 1411 déssemos uma volta ao mundo ficaríamos maravilhados com as civilizações do Oriente e nunca imaginaríamos que o Ocidente viria a dominar os Outros durante a maior parte da metade do milénio seguinte. Foi o que aconteceu e, segundo Niall Ferguson, tal só foi possível porque Ocidente desenvolveu seis “aplicações-chave” que os Outros não possuíam: competição, ciência, democracia, medicina, consumismo e ética de trabalho.

A grande questão é saber se hoje o Ocidente perdeu o seu monopólio nestas seis áreas. Principalmente, desde que os Outros começaram a dominar essas aplicações, nomeadamente a China. Se assim for, avisa Ferguson, podemos estar a viver o fim da ascendência ocidental. Mas será que esse declínio se deve à ameaça das outras civilizações ou a nós próprios? Uma causa fundamental, muito bem observada pelo autor, é a ignorância histórica. Como ele afirma: “Durante os últimos trinta anos, incutiram aos jovens das escolas e universidades ocidentais a ideia de uma educação liberal sem a substância do conhecimento histórico. Ensinaram-lhes 'módulos' isolados, não lhes ensinaram narrativas e muito menos cronologias. Foram treinados na análise das fórmulas de excertos documentais e não na competência-chave de ler muito, de forma generalista e depressa. Foram encorajados a sentir empatia por centuriões romanos imaginados ou pelas vítimas do Holocausto mas não a escrever ensaios sobre os 'porquês' e os 'comos' das respectivas condições.”

Esta edição portuguesa tem uma boa tradução e várias notas do tradutor, que são bastante úteis para enquadrar o leitor menos preparado nestes temas. Tem também um aspecto negativo, que é o facto de a editora ter aderido ao famigerado Acordo Ortográfico.

Na análise deste historiador escocês, nota-se uma acentuada perspectiva anglo-saxónica que talvez justifique muitas das suas interpretações. Ainda assim, esta é uma obra feita para o grande público que, mesmo não se concordando com os seus pressupostos e conclusões, tem o mérito de trazer a discussão e a reflexão sobre a Civilização, numa altura em que a superioridade do Ocidente está a ser posta em causa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril

Sendo filho do ‘baby boom’ marcellista, não tenho idade para ter vivido o 25 de Abril de 1974. Contam os meus pais que passei esse dia num pranto inexplicável e gosto de brincar com esta história familiar dizendo que, talvez como os animais, os bebés pressentem a vinda das catástrofes.

Ironias à parte e analisando à distância, só posso concluir pela inevitabilidade do fim do Estado Novo. Ao contrário do que muitos se convenciam, não havia uma especificidade do caso português que evitasse o fim do Império, nem solidez política nos que achavam que tudo iria continuar na mesma na “terra dos brandos costumes”.

É por isso que quando oiço falar no “mérito dos militares de Abril” me lembro das palavras de António Marques Bessa, na apresentação do livro “Alvorada Desfeita” – uma ficção histórica alternativa que especula sobre o falhanço do golpe militar do 25 de Abril –, que cito de memória: “Têm o mesmo mérito de quem dá um pontapé numa coisa podre. A coisa cai e não é necessário grande esforço”.

O que é facto é que se tornou um símbolo “pronto-a-usar” para os nossos políticos. Muitos não se cansam de recordar até à exaustão as “conquistas de Abril”, esquecendo sempre os “conquistados de Abril” – aqueles que tanto perderam e foram injustiçados pelos que tomaram o poder.

A discussão sobre esta questão, apesar de necessária, está viciada à partida. Mas o que a torna verdadeiramente impossível é o facto de as gerações mais novas nada saberem sobre esse período.

Para não cair mais uma vez naqueles discursos teóricos sobre a ignorância generalizada, recordo aqui um caso paradigmático a que assisti há uns anos. Numa daquelas peças televisivas em que se fazem perguntas a estudantes à porta das escolas – feitas normalmente para conseguir as respostas mais disparatadas – questionavam-se alunos sobre o que era o 25 de Abril. Uma rapariga, bastante convicta, afirmou: “é feriado”. O repórter insistiu, perguntando se ela sabia porque é que era feriado. Mais uma vez, com a mesma segurança, respondeu: “Porque não há escola e não se trabalha”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Da felicidade

Na sociedade da abundância em que vivemos, há uma obsessão relativamente à “felicidade”. Vêem-se amiúde manchetes de revistas, normalmente destinadas ao público feminino, que se dirigem imperativamente aos seus leitores dizendo-lhes “Seja feliz!”. Também no campo dos chamados livros de “auto-ajuda”, há inúmeros títulos que explicam “técnicas” ou “passos” para ser “feliz”.

Como se não bastasse, a coisa contaminou a imprensa e as análises dos “especialistas”. Recentemente, alguns jornais nacionais falavam no “índice de felicidade” dos portugueses, comparando-o a outros. Há escalas de felicidade? É possível ser feliz?

Em primeiro lugar, a felicidade não é mensurável, e nem nesta era da técnica, à qual nos submetemos, se descobrirá um aparelho capaz de o fazer. Como tão bem sabiam os nossos antepassados, a felicidade está no “fim do arco-íris”. Ou seja, está numa busca incessante. Tal como a vida. Morrer é a única certeza que temos e tal não nos impede de viver, pelo contrário.

Em segundo lugar, tal não significa viver em constante “depressão”, outro estado em voga, nestes tempos simplistas de classificação binária. Como escreveu Robert Brasillach, no seu maravilhoso “Como o Tempo Passa...”, “a felicidade é, antes de tudo o mais, uma rotura, um isolamento de toda a banalidade dos dias, e forma uma espécie de recife um tanto monstruoso mas habitável”.

Na era da alienação mental e da afirmação pessoal através de bens materiais que é suposto fazerem-nos “felizes”, é necessário regressar às nossas raízes. Urge retomar o espírito trágico do homem europeu. O mesmo que lhe deu a vontade para aqui chegarmos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Frase do dia

«O AO consegue a proeza de dividir de facto e de jure os países de expressão oficial portuguesa»

António Emiliano
in "Público".

Aborrecimento juvenil

Depois do sucesso literário de “Os Jogos da Fome”, de Suzanne Collins, era uma questão de tempo até os senhores da indústria cinematográfica tratarem da sua passagem ao grande ecrã, conquistando o público adolescente, em busca de mais um sucesso de bilheteiras.

O problema é que parece que, talvez por segurança ou comodidade, estes êxitos juvenis obedecem quase sempre ao mesmo esquema. Nestes modelos pré-formatados, já de si maus, há duas características que os tornam não só aborrecidos como insuportáveis – o simplismo e a previsibilidade.

Desta vez, somos levados a uma América do Norte pós-apocalíptica, dividida em distritos, onde as diferenças sociais são acentuadíssimas. Anualmente realiza-se um jogo, televisionado à laia de concurso, onde os “tribunos” – jovens representantes sorteados de cada distrito – têm que sobreviver e lutar uns contra os outros até ficar apenas o vencedor.

Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) vai ser a heroína anunciada desta história, não só pela sua coragem como pelo seu amor. Mas o pior é que, apesar de uma rebeldia aparente, nem consegue ser verdadeiramente anti-sistema. O mundo retratado é tão ridículo quanto inverosímil. Um autoritarismo apalhaçado, nos quais os ricos se vestem com trajes efeminados e as suas mulheres como bonecas de porcelana. Tudo num registo de uma tentativa primária de ficção científica.

No fraco nível da actuação, a única excepção é Jennifer Lawrence, que até vai bem no papel da protagonista, mas nem isso safa o filme. Esta é uma daquelas estopadas, ainda por cima bastante longa, que se deve evitar a todo o custo. Ainda para mais porque, como sempre acontece, a sequela já está anunciada. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

Todos diferentes...

Ao contrário do que afirmava Charles Darwin, as expressões faciais não são universais. Esta é a conclusão de um estudo científico levado a cabo pela equipa da psicóloga Rachael Jack, da Universidade de Glasgow, na Escócia. Segundo a notícia do jornal Público, publicada na edição do passado dia 17 de Abril, para os europeus, as expressões faciais das seis emoções básicas utilizavam grupos de músculos bastante distintos. Enquanto isso, nos asiáticos há uma grande quantidade de sobreposição nos músculos usados nas emoções — principalmente no caso da surpresa, do medo, nojo e raiva. Rachael Jack não tem dúvidas: “Mostrámos que as expressões faciais não são universais, como toda a gente pensa desde o trabalho fundador de Darwin”.


Mais informações na página da Universidade de Glasgow.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Frase do dia

«O "eduquês" de serviço ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal.»

Vasco Graça Moura
in "Diário de Notícias".

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Descubra as diferenças

Nas notícias sobre o julgamento do assassino Breivik, algum iluminado "descobriu" que ele fez uma "saudação de extrema-direita" (?) na sala de audiências. O problema deve ser meu, mas o punho fechado lembra-me outras coisas...


De facto, na nossa História recente, esta "saudação" já foi utilizada. Quem se recorda do Famoso "juramento de bandeira revolucionário" feito no RALIS, no dia 21 de Novembro de 1975? Os recrutas, de punho fechado, juraram "estar sempre, sempre ao lado do povo" na luta "pela vitória da Revolução Socialista"...

sábado, 14 de abril de 2012

Outras direitas

Num país onde ainda se fala na "Direita" como um todo, nomeadamente quando é o termo é utilizado como insulto vindo das esquerdas, é sempre bom ler alguém que escreve sobre "As (outras) direitas". Ainda para mais numa altura em que "direita" e "esquerda" se tornaram classificações cada vez mais difíceis de aplicar. Veja-se a conclusão da coluna de Jaime Nogueira Pinto, no "Sol":

"A busca de valores de orientação permanente, a reafirmação da permanência e da prioridade do político, o entendimento da importância estratégica da nação, são também consequências e causas da afirmação desta direita nova e diferente. Um fenómeno que tarda a chegar aos países da Península Ibérica, talvez pela persistência tardia dos autoritarismos pessoais de Franco e Salazar, que incorporavam alguns destes valores políticos, na sua versão tradicional. Mas já lá vão 40 anos."

Inútil e prejudicial

Mais um excelente artigo sobre o famigerado (des)Acordo Ortográfico, publicado no "DN", da autoria de Anselmo Borges. O título diz tudo "O Acordo Ortográfico: inútil e prejudicial", mas aqui fica a esclarecedora conclusão:

"Sem querer pormenorizar (o espectáculo é cada vez mais triste, pois já não tem espectadores, mas "espetadores" e os egípcios são cidadãos do "Egito"; quando um aluno escrever "a recessão do texto", para dizer "a recepção do texto", como explicar-lhe que não é recessão, se é de recessão que constantemente ouve falar?), considero-o isso mesmo: inútil. Que vantagens trouxe? Assim, em tempos de crise, para quê gastar tanto dinheiro na sua implementação? Afinal, quem lucrou, e muito, com ele?
Mas não é só inútil. Veja-se esta antologia de escrita, colhida em trabalhos académicos: "se vi-se-mos", "há-dem ver" (mas isto até ministros dizem), "se nos entretermos", "o homem dasse a conhecer", "deve-se dizer não há violência", "há-ja compreensão", "isso nada tem haver com o real", "à muito que é assim", "tratam-se de questões complexas", "é assim; senão vejamos"; "haviam imensos erros". Se é assim, sem o Acordo, o que vai ser com a confusão em curso do Acordo? Ele não é, portanto, apenas inútil: é prejudicial."

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Felicidade


“Uma ilha – isto é: a imagem mais perfeita que o homem já pôde formar da sua própria felicidade, porque a felicidade é, antes de tudo o mais, uma rotura, um isolamento de toda a banalidade dos dias, e forma uma espécie de recife um tanto monstruoso mas habitável. A vida do homem a quem o destino tenha permitido várias vezes saborear a felicidade é uma sucessão de ilhas. E de repente, depois de ter nadado muito tempo, ei-lo que aborda uma delas, e nela habita, e nela sorri, e nela come, às vezes por uma hora apenas, às vezes por dez dias. E sabe, enquanto está na ilha, que há-de deixá-la um dia, mas não é próprio da ilha representar um escândalo e qualquer coisa de insólito? Que venha a ilha a seguir, que possa lá chegar-se morto de fadiga, que possa lá adormecer-se. E nem sequer é necessária uma extraordinária conjunção de astros e de circunstâncias para criar a ilha: às vezes ela surge do nada, porque a felicidade não é mais do que uma filha casual da sorte, que importa aceitar sem perguntar de onde vem.”

Robert Brasillach
in “Como o Tempo Passa...”

quinta-feira, 12 de abril de 2012

“Ir à terra”

Esta é uma expressão bastante conhecida dos portugueses e foi o que fiz no passado fim-de-semana. No meu caso, fui a Santa Comba Dão, terra dos meus avós paternos e à qual me prendem ligações familiares e afectivas. Cidade do centro do País que esteve recentemente nas bocas do mundo a propósito do seu filho mais famoso, algo que não incomoda minimamente os locais, pelo contrário. A Páscoa é nesta zona a festa por excelência e, tal como era hábito fazer durante tantos anos, regressei nesta altura.

É sempre bom reencontrar amigos e ver como, apesar das várias mudanças e do exagerado crescimento urbano que aconteceram um pouco por todo o País, se mantêm ainda vivas as tradições populares, como a procissão ou a queima do Judas.

São ritos ancestrais, que marcam o fim de um ciclo e o início de um novo. Momentos em que a comunidade se reúne para o assinalar e para se reencontrar. É esse o sentido profundo da festa, que não se resume apenas a mera diversão como muitos pensam hoje.

Em especial nesta altura tão complicada e bastante difícil que atravessamos, enquanto portugueses devemos preservar a nossa ligação à terra, não esquecer as nossas origens e ter sempre presente a ideia de um renascimento.

Nestes tempos conturbados de perigosa indecisão e total ausência de um verdadeiro projecto nacional, recordemos todos a nossa terra – Portugal. É a Pátria, a terra onde estão sepultados os nossos antepassados que nos deve mover.

Só sabendo de onde viemos, saberemos quem somos e, então, podemos e devemos reencontrar-nos enquanto povo e Nação.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ferramenta anti-AO


Este novo site, cujo autor está de parabéns, é mais uma frente de luta contra a aberração que é o Acordo Ortográfico. Mais especificamente, será o site oficial de suporte e divulgação ao método para colocar o seu Firefox a mostrar textos em acordês como se estivessem escritos de acordo com a norma do AO45, que é aquela que todos conhecemos muito bem e estamos familiarizados. Isto é feito com recurso ao extra FoxReplace, para o Firefox.

sábado, 7 de abril de 2012

Acordo Ortográfico: polémica sem fim

O secretário de Estado da Cultura usou o argumento da xenofobia contra quem se opõe ao Acordo Ortográfico (AO), mas foram Portugal e Brasil que avançaram sem esperar por Angola e Moçambique. Ministro da Educação angolano quer rectificações. Em entrevista, Miguel Esteves Cardoso pede coerência a Paulo Portas. A polémica continua e a questão está longe de estar terminada.



Francisco José Viegas, depois de ter admitido correcções ao Acordo Ortográfico (AO), veio afirmar que “uma parte das pessoas que se manifestam contra o Acordo tem uma posição xenófoba em relação ao Brasil”. Parece que o actual secretário de Estado da Cultura decidiu recorrer a um argumento que não colhe, já que Portugal e Brasil não esperaram por Angola e Moçambique para ratificar o AO. A este respeito, Vasco Graça Moura, numa entrevista concedida ao jornal brasileiro “O Globo”, afirmou: “acho que no acordo se cometeu, por omissão, um crime neo-colonialista, uma vez que não se criaram regras para a grafia de vocábulos das línguas africanas que foram ou venham a ser incorporados no português. Portugal e o Brasil puseram e dispuseram a seu bel-prazer e convenceram os representantes dos outros países a assinar praticamente de cruz”. A questão da “xenofobia” veio também a lume, ainda que indirectamente, quando lhe perguntaram: “Muitos opositores do acordo em Portugal dizem que a língua é dos portugueses. O que o senhor acha dessa afirmação?” O actual director do Centro Cultural de Belém respondeu categoricamente: “Não tem pés nem cabeça. A língua portuguesa é património de todos que a falam como língua nacional.”

A vigência do AO
Vasco Graça Moura há muito que tem alertado para o facto de o AO não estar em vigor. Ao mesmo jornal brasileiro explicou: “Quem comete a ilegalidade é quem está a aplicar o acordo. Qualquer constitucionalista poderia ter informado o governo de que o acordo, enquanto tratado internacional, não entrou em vigor na ordem jurídica internacional por não ter sido ratificado por Angola e Moçambique. Mas, mesmo que estivesse, o acordo não poderia ser aplicado: o seu artigo 2 obriga à elaboração de um Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, com intervenção de todos os países signatários. Ora, esse vocabulário não existe e não está em vias de ser elaborado. Nenhum vocabulário nacional pode substituí-lo. Por esta razão, o acordo não pode ser aplicado. E quando, se alguma vez acontecer, existir o tal vocabulário, continuará a ser impossível aplicar o acordo por razões de deficiência técnica e utilização de conceitos cientificamente ultrapassados.”

Angola quer rectificações
Entretanto, VII reunião de ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o ministro da Educação angolano afirmou, à imprensa, que a aplicação em Angola do acordo ortográfico assinado entre Portugal e o Brasil está dependente da rectificação de algumas “questões técnicas”. Mpinda Simão disse que Angola concluiu, após um estudo, que há dificuldades na aplicação do acordo ortográfico por razões técnicas e afirmou: “Ultrapassados estes constrangimentos, com a introdução das melhorias necessárias, Angola pode ratificar o acordo por se tratar de um instrumento necessário para o desenvolvimento da língua e da comunidade”.

MEC pede coerência a Portas
Em entrevista à revista “Única”, do semanário “Expresso”, feita por Pedro Mexia, o histórico opositor ao Acordo Ortográfico desde os tempos da feroz campanha movida no extinto semanário “O Independente”, Miguel Esteves Cardoso afirmou que se trata de uma questão “importantíssima”, acrescentando: “Sobretudo quando mais ninguém quer aderir, é uma coisa de meia dúzia de pessoas, e está a tornar-se um embaraço. Podíamos fingir que não aconteceu.” Por fim, perante a possibilidade de um recuo por parte do actual ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, seu companheiro de luta contra o AO no “Independente”, disse: “Desiludia-me muito que não o fizesse. Ele era completamente contra o Acordo Ortográfico, agora tem que ser coerente.”

Polémica continua
A polémica sobre o AO continua e em força. Nos dois países impulsionadores, Portugal e Brasil, continua a discórdia, em especial no nosso, onde a oposição ao AO continua a crescer. Quanto aos restantes países lusófonos, Angola e Moçambique ainda não o ratificaram e os países que o fizeram, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e Timor, não tomaram quaisquer medidas para o implementar.
A “unificação” prometida está, assim, muito longe de se concretizar. O desacordo a que assistimos dá, assim, razão aos que afirmam que a riqueza de uma língua multi-continental tem que estar na sua diversidade, nunca numa imposição uniformizadora sem sentido. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Independente

A oposição ao fim do feriado do 1.º de Dezembro continua a alastrar e a movimentar pessoas de diferentes áreas políticas. Felizmente, não se trata aqui de defender mais um dia de “folga”, mas de ir ao essencial – ao significado dessa data. Para um país que vê, de dia para dia, a sua independência a desaparecer, comemorar e assinalar a Restauração é recordar que já houve homens que defenderam Portugal perante todas as adversidades. São exemplos nacionais e, como tal, devem inspirar-nos. Ancorados no passado, devem estar presentes para, depois, poderem projectar-se no futuro.

Na actual era do todo económico e da produtividade a todo o custo, a questão da eliminação de feriados surge, para alguns, como uma medida acertada. Mas será que se deve trocar o dia da Restauração da Independência por um dia de trabalho como os outros? A resposta está longe de ser simples, já que hoje muitos portugueses nem sabem o que se celebra nessa data. Tal não justifica, só por si, a sua eliminação. A polémica em torno desta questão tem pelo menos o mérito de trazer o 1.º de Dezembro à discussão.

Um exemplo de coerência, raro nos tempos que correm, foi dado por Ribeiro e Castro, ao votar na Assembleia da República contra o Código Laboral, exactamente por prever a eliminação deste feriado. O deputado do CDS-PP fê-lo contra a “democrática” disciplina de voto imposta pelo partido e afirmou: “Eu tirei uma consequência política de ter uma discordância fundamental, que viola aliás o mandato pelo qual fui eleito e que viola valores fundamentais a que eu pertenço e o meu partido também.” Uma atitude que é um exemplo e uma postura que é de louvar.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Alcateias

Os apreciadores dos programas televisivos sobre sobrevivência extrema com certeza vão gostar de analisar este filme, em busca de erros e de falhas na forma como se consegue passar dias num ambiente gelado e adverso.

Um pequeno grupo de trabalhadores de uma refinaria no norte do Alasca sobrevive a um acidente aéreo. Por entre os destroços e os cadáveres, começam a organizar-se e reúnem-se à volta de John Ottway (Liam Neeson), um caçador contratado pela empresa petrolífera para matar os lobos selvagens. Para agravar a situação, o grupo começa a ser atacado por uma alcateia de lobos que os persegue quando estes se põem em fuga. É um duelo entre alcateias, uma de humanos, que tenta defender-se, outra de lobos que protege até ao fim o seu território, recusando os intrusos. Ambas têm os seus machos-alfa e as suas tácticas e cedo se percebe que esta luta só terminará com a morte.

As filmagens não foram feitas no Alasca, mas na província canadiana da Colúmbia Britânica. Ainda assim, as condições atmosféricas, mesmo as tempestades de neve, e as terras geladas são verdadeiras e sem recurso a imagens geradas por computador, por isso, a rodagem demorou apenas quarenta dias. Pelo contrário, a contrastar com este realismo que se nota e enriquece o filme, os lobos parecem saídos de uma série televisiva para adolescentes sobre lobisomens.
O facto de os lobos serem aqui retratados como predadores agressivos para homem, provocou o protesto e o boicote do filme por parte de várias organizações ecologistas. De facto, segundo especialistas em comportamento animal, a situação retratada seria praticamente impossível de acontecer na realidade.

Por fim, há uma tentativa de reflexão filosófica sobre a vida, a morte e o divino. Parece um esforço de querer dar ao filme alguma profundidade, mas simplesmente não consegue. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Thorgal


O jornal "Público" inicia hoje a distribuição de uma colecção inédita em português de 16 álbuns de capa dura de "Thorgal", uma excelente banda desenhada escrita por Jean Van Hamme e ilustrada por Grzegorz Rosiński.