sexta-feira, 30 de março de 2012

Zemmour e a palavra "raça"


A propósito do post anterior, qui fica o vídeo da excelente crónica radiofónica de Éric Zemmour sobre a intenção de François Hollande de propor ao parlamento francês que retire a palavra "raça" da Constituição, caso ganhe as eleições presidenciais. Irónica, acutilante e arrasadora.

Palavras proibidas

François Hollande, o candidato socialista à presidência francesa, afirmou recentemente, em campanha, que a primeira medida a tomar, caso seja eleito, será pedir ao parlamento para suprimir a palavra “raça” da Constituição da República Francesa. O caso pode até parecer um ‘fait-divers’ que pouco nos diz respeito, mas este é um fenómeno que se começa a manifestar em muitos países europeus e com tendência para acentuar-se.

Em primeiro lugar, a ideia de querer acabar com o racismo por genocídio gramatical é simplesmente absurda. Não é eliminando uma palavra que se acaba com a discriminação. Em segundo lugar, a palavra “raça” está em várias constituições de diversos países, bem como na Declaração Universal dos Direitos do Homem, exactamente para combater o racismo.

Como questionou ironicamente a jornalista francesa Élizabeth Lévy, uma das vozes críticas nesta polémica, “vamos também suprimir a palavra sexo para acabar com o sexismo?” De facto, até em Portugal se começa a fazer isso mesmo. A esquerda apresentou já propostas para que, na nossa Constituição, se substituísse “raça” por “etnia” e “sexo” por “género”. Depois do falhanço na criação do “homem novo”, lança-se agora na construção da “novilíngua”, tal como na distopia orwelliana “1984”...

Curiosamente, os que andam agora nesta sanha proibicionista, são os mesmos que há não tanto tempo gritavam “é proibido proibir”.

A criação de um ‘index’ de palavras proibidas não é apenas um caminho errado, o pior é que se trata de um caminho sem fim.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 29 de março de 2012

Jean Mabire – In Memoriam

Definia-se a si próprio como “normando e europeu”, Jean Mabire foi jornalista, escritor, historiador, crítico literário e activista político. Deixou uma extensa obra publicada e uma influência marcante. Muitos querem hoje esquecê-lo, ou considerá-lo um dos “malditos”. Mas este é um autor que paira acima da mesquinhez. Na semana em que passam seis anos da sua partida para o mundo dos mortos, aqui fica um excerto da homenagem que lhe dediquei na última edição do semanário "O Diabo".


Jean Mabire (Paris, 8/2/1927 — Saint-Malo, 29/3/2006) foi desde cedo apaixonado pelas letras e pela escrita, tendo fundado uma revista regionalista pouco depois de se formar. Cumprido o serviço militar como pára-quedista, foi mobilizado para a Argélia, onde combateu e foi condecorado, experiência que inspiraria uma das suas obras mais conhecidas. Colaborou em variadíssimas revistas e escreveu mais de uma centena de livros. O leque de temas abrangidos foi vasto, da Normandia ao paganismo, da História, em especial a História militar, à política, dos romances ao mar e aos marinheiros. Foi também crítico literário e as suas biografias de autores foram publicadas em vários volumes. Defensor da “Europa das Pátrias Carnais”, esteve na fundação de um movimento regionalista normando e participou na criação do GRECE e da chamada “Nova Direita”. É ainda hoje uma referência para o Movimento Normando, para a associação Terre et Peuple e, para preservar e defender a sua obra, existe a Associação dos Amigos de Jean Mabire.

Presente!
Quando Mabire morreu, um jornalista amigo meu, que na altura estava em Paris em trabalho, escreveu: “As edições ‘on-line’ de hoje dos três grandes jornais franceses — ‘Libération’, ‘Figaro’, ‘Le Monde’ — não tinham uma linha sobre a morte de Jean Mabire. Significativamente, a peça mais destacada na secção de Cultura do ‘Libération’ levava o título ‘Os Kékélé, cantores da rumba congolesa’”. É uma belíssima imagem do que se passa hoje em dia, quando a brigada do “politicamente correcto” faz constantemente o “culto do outro” preterindo a nossa cultura e as nossas tradições populares. Autores “incorrectos”, como este, devem então ser votados à censura pelo esquecimento. O que os censores hodiernos talvez não tenham presente é que fazer entrar alguém para o panteão dos “escritores malditos” é também uma forma de reconhecimento do seu talento.

Felizmente, estes “apagadores da História” não conseguem eliminar a extensa e rica obra de um escritor que foi sempre um lutador e um exemplo, nem muito menos a sua influência que ainda vive. O seu espírito continua entre todos aqueles que o sentem presente, mas também naqueles que, não o conhecendo, prezam a sua terra e o seu povo, defendem-nos e sabem a importância dessa ligação sagrada.


Mabire dizia categoricamente: “Nós não mudaremos o mundo, não nos iludamos, não somos nós que o vamos mudar, mas o mundo não nos mudará.”

quarta-feira, 28 de março de 2012

Uno di noi!


Rodrigo Emílio de Alarcão Ribeiro de Mello
(18 de Fevereiro 1944 ― 28 de Março de 2004)

Shakespeare entre nós

O talentoso e reconhecido actor britânico Ralph Fiennes aventura-se no seu primeiro trabalho de realização com um desafio que está longe de ser fácil. “Coriolano” é a passagem ao cinema da tragédia shakespereana homónima, com uma diferença fundamental – passa-se nos tempos modernos.
Quem vir a sequência inicial, com as cenas de combate militar urbano, repletas de tiroteios com armas automáticas, pode pensar que está perante mais um filme de guerra. Mas há um pormenor que rapidamente mostra que estamos perante algo completamente diferente. Apesar dos cenários, os diálogos são “de outro tempo” e de outro nível.

A história, fiel ao original, passa-se numa Roma fictícia dos nossos dias. Os senadores, engravatados, sentam-se num hemiciclo moderno ou falam na televisão. Os militares, com fardas actuais, têm espingardas de assalto e blindados. O herói de guerra Caio Márcio Coriolano (Ralph Fiennes) é respeitado pelos cidadãos e candidata-se a cônsul. Mas este não é um homem habituado às guerras da política, com todas as suas jogadas de bastidores, as suas regras e os seus costumes. Logo começa a ser desacreditado pelos seus inimigos, acaba derrotado e, furioso, insulta o senado. Sai de Roma e segue para Antium, onde acaba por aliar-se àqueles que combateu – os volscos, que são apresentados com um aspecto balcânico e armados com kalashnikovs. Desejando vingança, junta-se a Tullus Aufidius (Gerard Butler) e ataca Roma.

O filme conjuga bem o regresso aos clássicos com a actualidade das movimentações políticas e da manipulação e controlo da opinião pública.

Do elenco de luxo, há a destacar as prestações formidáveis de Ralph Fiennes, à volta de quem tudo gira, e de Vanessa Redgrave.

Um bom e arrojado princípio de carreira de Fiennes como realizador. A mostrar que o grande mestre das letras britânico não só continua vivo como visita o nosso mundo. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sábado, 24 de março de 2012

MEC e o AO

Quem se lembra de Miguel Esteves Cardoso nos tempos da feroz campanha contra o Acordo Ortográfico no semanário "O Independente", sabe que o tema não podia passar ao lado na entrevista feita por Pedro Mexia e publicada hoje na revista "Única", do "Expresso".

O "Público" não aderiu ao Acordo Ortográfico; se aderisse pedia para porem lá aquela notinha no fim, de objecção de consciência? Pedia para escrever na ortografia antiga. Se me deixassem, escrevia; se não me deixassem, não me ia embora.

Mas é uma questão importante? É importantíssima. Sobretudo quando mais ninguém quer aderir, é uma coisa de meia dúzia de pessoas, e está a tornar-se um embaraço. Podíamos fingir que não aconteceu.

Talvez se o ministro dos Negócios Estrangeiros recuasse... Desiludia-me muito que não o fizesse. Ele era completamente contra o Acordo Ortográfico, agora tem que ser coerente.

Frase do dia

"Em 2012, depois de 70 anos de um esforço inútil, já não vale a pena examinar a cabeça dos comunistas."

Vasco Pulido Valente
in "Público".

sexta-feira, 23 de março de 2012

La Nouvelle Revue d’Histoire n.º 59


A escassez de revistas de divulgação histórica portuguesas tem que ser compensada com títulos que vêm do estrangeiro e se encontram à venda entre nós. Há entre eles um que merece especial destaque. “La Nouvelle Revue d’Histoire” (67 páginas, 7,90 euros) é uma publicação de elevada qualidade, com um alto nível de análise e de colaboradores. Com um grafismo simples mas atractivo e uma bela e útil ilustração dos artigos, traz-nos bimestralmente temas interessantes, pertinentes e actuais.

O número mais recente, relativo aos meses de Março e Abril, disponível nas bancas nacionais, tem como tema central “Crimes de Estado e escândalos políticos” e oferece um óptimo ‘dossier’ onde podemos encontrar artigos desde o assassinato de César até ao enigma da morte do presidente norte-americano John F. Kennedy.

Do extenso e variado conteúdo, merecem ainda destaque o artigo de Aymeric Chauprade sobre Friedrich Ratzel e o nascimento da Geopolítica e as entrevistas com o historiador Jean des Cars sobre “os caminhos da velha Europa” e com o director da revista, Dominique Venner, sobre “o imprevisto na História”, tema que dá o título ao seu último livro.

Uma revista incontornável para todos os entusiastas desta disciplina fascinante que é a História.

Frase do dia

"O fim de velhos hábitos de consumo e edição de livros está a deixar-nos mais pobres."

José Manuel Fernandes
in "Público".

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um livro actual

A polémica em torno do famigerado Acordo Ortográfico (AO) não morreu e está longe de estar terminada. Em 2008, quando este foi promulgado, Francisco Miguel Valada publicou um pequeno livro onde rebate com argumentos linguísticos este desastre que se abateu sobre a nossa Língua. “Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico”, não podia estar mais actual.



Depois entrar em casa dos portugueses o Acordo Ortográfico (AO) voltou a ser um tema que está na ordem do dia e a oposição a este disparate é cada vez maior. Francisco Miguel Valada é intérprete de conferência em instituições comunitárias e reside em Bruxelas. Tem sido um incansável opositor ao AO, denunciando-o desde a primeira hora em vários debates e artigos publicados na imprensa. O semanário "O Diabo" publicou uma grande entrevista com ele, no dia 6 de Março de 2012, onde afirmou que o seu livro “deu o seu contributo na tentativa de chamar a atenção para um problema que muita gente teima em defender sem ler o AO. E através do livro, pelo menos, consegui que algumas pessoas que me disseram ser, em princípio, a favor do AO, declarassem publicamente a mudança de opinião. A estabilidade de uma norma ortográfica não se põe em causa com argumentos falaciosos”. Continua a dar. Bem fundamentado e acessível ao público em geral, é essencial para percebermos o que está em causa com a imposição do AO.

No posfácio escreveu: “Tocqueville dizia que a procura da igualdade criava a ilusão de um objectivo jamais atingível. O mesmo dizia Pascal sobre o divertimento. A unidade da ortografia da língua portuguesa é a igualdade de Tocqueville e o divertimento de Pascal. Nada mais do que isso”.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Regresso ao passado

No prefácio do livro “Roteiros VI”, que publica as principais intervenções do Presidente da República (PR) no primeiro ano do seu segundo mandato, Cavaco Silva disse que o anúncio do PEC IV o apanhou de surpresa porque o então primeiro-ministro não lhe tinha dado conhecimento e “pelo contrário, a informação que era fornecida referia uma situação muito positiva relativamente à execução orçamental nos primeiros meses do ano”.

Acusou, por isso, Sócrates de “falta de lealdade institucional”. A reacção dos socialistas foi a esperada, dizendo que o PR estava a fazer um ajuste de contas extemporâneo. Pedro Silva Pereira, o ‘sidekick’ do ex-primeiro-ministro, disse que Cavaco “não tem infelizmente autoridade moral para acusar quem quer que seja de lealdade institucional” e José Lello repetiu a tirada do “foleiro”.

Realmente, parece que o PR está a enviar à mesa aquele prato que se serve frio. Mas o azedar de relações entre os inquilinos de São Bento e de Belém durante a chamada crise política de 2011 está longe de ser uma novidade.

Quais as intenções do PR com esta manobra? Será que é para ficar bem com a sua consciência e perante os portugueses? Acontece que as responsabilidades de Sócrates são bem conhecidas e não parece que seja por esta “revelação” que os cidadãos vão mudar a sua opinião sobre o papel apagado e quase ausente de Cavaco nessa altura.

Ou será que Cavaco quer avisar o actual Governo? Se é, não tem grande efeito. Será, talvez, que é para atacar o PS? Se sim, apenas conseguiu o contrário – uma unidade efémera entre as várias tendências internas desavindas, agora juntas contra um ataque externo. Este lavar de roupa suja mostra apenas o estado terminal de um regime, dos seus representantes e das suas instituições.
Este é um regresso ao passado que nos mostra que o futuro não pode ser uma continuação deste estado de coisas.

Portugal merece melhor.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 14 de março de 2012

O vício do sexo

“Vergonha” é a segunda longa-metragem do realizador britânico Steve McQueen depois de “Fome” (2008), onde nos levou à greve de fome de Bobby Sands na prisão, em 1981. Não é um filme “fácil”, nem entretenimento. Novamente com uma especial atenção ao detalhe, desta vez entramos na vida de um viciado em sexo.

Para além da sua vida profissional, parece não haver outro interesse para Brandon Sullivan (Michael Fassbender) que não o sexo. Da masturbação ao recurso a prostitutas, passando pelas relações fortuitas depois de uma ida a um bar, sem esquecer, claro, a pornografia vista através da Internet, este adicto passa pelas mais variadas experiências sem qualquer inibição.
O sexo pelo sexo está sempre presente, mas as cenas mais fortes nem são as explícitas. Há uma, fantástica, passada numa carruagem de metropolitano, onde Brandon e uma desconhecida trocam olhares e aproximações que está muito bem filmada e conseguida. É, sem dúvida, uma das marcas do filme.

A característica fundamental destes “relacionamentos”, se é que podem ser considerados como tal, é o total desprendimento e a frieza de Brandon. Este ainda tenta uma relação “normal” com uma colega de trabalho, mas esse parece não ser o seu mundo.

É um solitário que vive apenas com a sua obsessão. Mas a chegada da irmã, Sissy (Carey Mulligan) vem perturbar esta sua ordem estabelecida. Quebra-se a segurança aparente da sua solidão e distanciamento.

Fassbender tem um desempenho formidável e Carey Mulligan não lhe fica atrás. Esta é uma obra que vale sobretudo pelas actuações e pelos pormenores extraordinários e tons frios tão bem conseguidos pelo realizador. Há também os silêncios e os diálogos parcos ou ásperos. Mas é isso e pouco mais. O que é pena. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Entrevista com Francisco Miguel Valada (II)

Aqui fica a conclusão da entrevista que fiz com Francisco Miguel Valada publicada na última edição de «O Diabo».


Como comenta as atitu­des de Vasco Graça Moura e de Mota Amaral?
Com uma ovação de pé. Os três deputados do PSD-Açores vão ao âmago da questão e têm toda a razão quando falam em “degradação da escrita da língua portuguesa”. Acho interessantes as reacções de determinadas pes­soas relativamente à louvável ati­tude de Vasco Graça Moura. Não ouvi essas pessoas pronunciarem-se sobre os pareceres da consulta que o Instituto Camões (sob tu­tela do MNE) levou a cabo em finais de 2005 e que estiveram a acumular bolor numa gaveta. Proponho que se pergunte aos deputados que votaram favora­velmente o 2.º Protocolo Modi­ficativo se leram esses pareceres, em que os professores Ivo Castro e Inês Duarte recomendavam que este não fosse votado e que o processo do AO fosse suspenso… Note-se que o último parecer chegou ao destino em meados de 2006 e só por iniciativa da deputada Zita Seabra é que os pa­receres foram tornados públicos, em 2008, quando o 2.º Protocolo Modificativo foi votado. Como Vasco Graça Moura leu esses pareceres, é natural que tenha feito o que fez. Outra atitude seria impensável.

E as recentes declarações de Francisco José Viegas?
Percebeu as consequências negativas do AO. Aliás, essa per­cepção não é inédita. O actual secretário de Estado da Cultura já tinha aludido a essa hipótese em Outubro do ano passado. As pessoas esquecem-se de que a pas­ta da Cultura está na dependência directa do primeiro-ministro e que não é o cidadão Francisco José Viegas quem está a manifestar opi­nião. Agora, o Governo, depois de demonstrar sensatez, tem de assumir rapidamente uma posi­ção, dizer quais são as alterações que tem em mente, suspender a aplicação do AO e impedir o desastre completo. Não nos pode­mos dar ao luxo de deixar arrastar este dossier. Deve evitar-se a todo o custo esta fragmentação a que actualmente assistimos. Já se viu que o AO é uma caixa de Pandora ortográfica. Logo, o dossier deve ser imediatamente encerrado.

O actual Governo tem vários membros que se dis­seram contra o AO, mas no entanto não o suspendeu. Porquê?
Porque foi apanhado a meio do processo, com uma Reso­lução completamente abstrusa nos braços. Contudo, deste Go­verno, a única coisa que espero é que suspenda este processo e que devolva o AO à proce­dência. Não há um único argu­mento técnico válido a favor do AO. Se me disserem que o AO é uma questão política, pergunto então por que razão se dirigiram à ACL para negociar o AO, por que motivo pediram a opinião da Associação Portuguesa de Linguística e das universidades. Telefonavam aos embaixado­res, perguntavam a opinião dos ministros e pronto. Poupavam dinheiro, não roubavam tempo precioso a quem dedica gran­de parte da vida ao estudo e o resultado seria exactamente o mesmo. As respostas dos acadé­micos foram para a gaveta, os políticos não leram nem o AO nem os pareceres e tudo ficou como dantes. Até agora.

Há alguma vantagem para a lusofonia com o AO?
O conceito “lusofonia” é a primeira e mais óbvia vítima de todo este processo. Já tive colegas brasileiros que me per­guntaram porque é que “nós” já não escrevemos ‘aspecto’ com cê ou ‘recepção’ com pê. Pois… Es­távamos unidos pelo “aspecto” e pela “recepção” e agora deixá­mos de estar. A única vantagem para a “lusofonia”, e se entender­mos “lusofonia” como a esfera da CPLP, é a de se perceber a falta de rigor como matérias sé­rias são tratadas. Uma decisão sensata da CPLP seria abandonar imediatamente o AO.

Isso explica as reservas de Angola e Moçambique?
Isso e não só. Em Moçam­bique, queixam-se de falta de clareza sobre o que se pretende com o AO e têm toda a razão. Além disso, apresentam argu­mentos económicos e fizeram a avaliação dos custos, coisa que ninguém se lembrou de fazer em Portugal. Repare: Moçambique não adoptou o AO e tem uma estimativa. Pergunte a qualquer responsável português quanto custa o AO. Não sabem, não fazem ideia. Não sou diplomata, mas quando os defensores do AO passam a vida a dizer que há um motor da língua, um centro da lusofonia, que há quase 200 milhões, esquecem-se de que Angola e Moçambique têm uma palavra a dizer. Quando num editorial do “Jornal de Angola” se diz que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes”, acho que já percebemos que a fa­laciosa conversa dos dez milhões que não podem ter autonomia ortográfica pode convencer al­gumas almas em Portugal, mas que não convence quem tem meios para se tornar uma potên­cia de facto. Trata-se de matéria diplomática, sensível, mas que foi tratada a camartelo.

O que acha dos jornais, como “O Diabo”, que recu­sam o AO?
Na minha opinião, prestam um autêntico serviço público e são sensatos, ao contrário de ou­tros, que, apesar de discordarem e ainda por cima profundamente do AO, se rendem, em vez de tentarem esclarecer os leitores.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Entrevista com Francisco Miguel Valada (I)

Aqui fica a primeira parte da entrevista que fiz com Francisco Miguel Valada publicada na última edição de «O Diabo».

Agora que começa a entrar em casa dos portugueses, o Acordo Ortográfico (AO) está a gerar cada vez mais polémica e começa a levantar-se uma oposição crescente. Francisco Miguel Valada é intérprete de conferência em instituições comunitárias e reside em Bruxelas. Tem denunciado o AO em vários debates e artigos publicados na imprensa e é autor do livro “Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico”. O DIABO entrevistou-o


O DIABO – O que o mo­tivou a escrever um livro contra o Acordo Ortográfico (AO)?
Francisco Miguel Valada – Motivos exclusivamente lin­guísticos. O AO é um disparate científico, uma precipitação. O AO é uma teoria que não foi aceite pela comunidade cientí­fica. Acontece a muitas teorias. Mas esta teve direito a tapete vermelho. Por si só, esse motivo basta para o AO ser suspenso. A única entidade que não ma­nifestou reservas quanto à apli­cação do AO foi a Academia das Ciências de Lisboa (ACL). A ACL é o órgão consultivo do Governo em matéria linguística e foi a responsável pelo projecto AO em nome do Estado portu­guês. Agora, pense numa obra pública. Quem foi o responsável pela construção da ponte inter­nacional do Guadiana, um pro­jecto internacional? O LNEC? Não. O LNEC emite pareceres e faz estudos. A quem foi ad­judicado o projecto da ponte, ao LNEC? Claro que não. Foi a uma empresa espanhola e à Teixeira Duarte. Imagine que o Estado português decidia con­sultar diversas entidades, a Tei­xeira Duarte tecia loas à ponte e o LNEC sugeria a imediata interrupção do projecto, porque detectara problemas estruturais. Algum dos responsáveis políti­cos deste país que defendem o AO defenderia a construção da ponte? Não creio. Mas defen­dem o AO, sem perceberem os enganos do processo, sem terem lido os pareceres, enfim, muitos sem terem lido o próprio AO.

O seu livro teve boa re­cepção?
O livro deu o seu contri­buto na tentativa de chamar a atenção para um problema que muita gente teima em de­fender sem ler o AO. E através do livro, pelo menos, consegui que algumas pessoas que me disseram ser, em princípio, a favor do AO, declarassem publi­camente a mudança de opinião. A estabilidade de uma norma ortográfica não se põe em cau­sa com argumentos falaciosos. Estas três dúvidas têm exacta­mente o mesmo valor: “como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que concep­ção tem pê mudo e correcção tem cê mudo?”, “como é que um jovem de 15-16 anos pode compreender que Sócrates foi mestre de Platão e que Platão foi mestre de Aristóteles?” ou “como é que um homem de 39 anos pode compreender que Borges Coutinho foi presiden­te do Benfica , João Moutinho joga no FCPorto e José Mouri­nho treina o Real Madrid?”. A resposta que os autores do AO dão à primeira dúvida posso dar eu às duas outras: “à custa de um enorme esforço de me­morização”. E qual é o valor da minha resposta? Zero. Onde está a prova da minha respos­ta? Nenhures. Qual a reacção do poder? Fuga para a frente. António Caeiro traduziu para português a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Quem quiser sa­ber o valor de uma fuga para a frente, encontra-o na página 86, se não me engano.

Acha que a questão do AO passou ao lado dos por­tugueses?
Passou evidentemente ao lado dos portugueses. A prova disso são políticos que utilizam a norma europeia do português e que estão directamente liga­dos à promoção do AO. Pedro Santana Lopes foi quem assinou o acordo ortográfico, em 1990, e em 2012 continua a achar que facto passa a fato; o cidadão Pinto Ribeiro, meses depois de deixar de andar a promover o AO na qualidade de ministro, dizia que «Ato [sic] jurídico é fácil, agora “fato” em vez de “facto”...»; Gabriela Canavi­lhas, em estreia na Assembleia da República, para além de di­zer que o debate ficara lá para trás, disse que se calhar daqui a uns anos ainda escreveria facto com cê. São um núcleo duro, o “grupo do fato”. Se o AO passou ao lado de quem o decidiu, parece-me ainda mais evidente que passou ao lado dos outros portugueses.

Mas parece que agora muitos estão a despertar...
Porque deixou de ser um problema teórico, uma mera possibilidade, para afectar o dia-a-dia das pessoas. Os autores do AO esqueceram-se de que a sociedade portuguesa é grafo­cêntrica. Temos palavra escrita por tudo quanto é sítio. Vera Curiel, minha colega, duran­te a apresentação que António Emiliano fez do meu livro em Lisboa, disse que a morte do AO aconteceria quando este come­çasse a ser aplicado. Nunca dese­jei que este momento chegasse, mas chegou. Esperemos que a profecia se concretize.

Livro para hoje


"Demain, la décroissance ! Penser l'écologie jusqu'au bout", de Alain de Benoist.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Um ano

Depois de um período de colaboração regular, foi-me dada a honra de dirigir “O Diabo”, jornal com o qual literalmente cresci, como escrevi no meu primeiro editorial como director, no dia 1 de Março do ano passado. Foi um desafio que aceitei, perfeitamente ciente da enorme responsabilidade de assegurar um título histórico em Portugal, que representa a imprensa verdadeiramente livre e, por isso, sempre necessária. Uma herança de peso, por onde passaram grandes figuras do jornalismo português, a respeitar e continuar.

Nestes tempos de crise, que também atinge significativamente os meios de comunicação social impressos, manter um jornal que não depende de publicidade, de grandes grupos empresariais, ou de interesses económicos, é bastante difícil. Mas o que nos faz continuar o caminho, com o reconfortante sentimento do dever cumprido, é a confiança e fidelidade de quem nos lê.
Para além dos apáticos, dos desligados, ou dos conformados, há um público interessado que não se contenta com aparências, que exige e reconhece a independência.

Sabemos para onde queremos ir e temos a vontade para prosseguir o nosso trabalho, com brio e dedicação. Também não esquecemos Portugal, nesta altura em que as dúvidas sobre o futuro nacional são cada vez mais e maiores. Este é o sentimento patriótico de um punhado de portugueses que se recusa a baixar os braços. Que tem profunda consciência de que a luta nacional é sempre necessária e que nesta é de extrema importância a existência de um órgão de informação livre e independente.

Termino com um sincero e sentido agradecimento à redacção e aos colaboradores – entre os quais fiz verdadeiros Amigos – e especialmente aos leitores. Este jornal é nosso.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 6 de março de 2012

Frase do dia

"Não será tempo de Portugal ser governado por portugueses de lei em vez de lusófonos cripto-brasilianos e castelhanos da língua?"

António Emiliano
in "O Diabo"

Tensão no Governo


Álvaro: "Levas com um pastel de nata!"

Gaspar: "Essa... afirmação... merece-me... dois... comentários. Primeiro comentário... é um desperdício. Segundo comentário... é contra... as medidas... de austeridade... aprovadas.

Paz?


"EUA não hesitarão em atacar o Irão", afirma o Nobel da Paz. "Guerra é Paz", já dizia o Ministério da Verdade da distopia orwelliana "1984"...

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 5 de março de 2012

O estudo da História (II)


É um tema ao qual regresso eternamente. Ainda há pouco tempo falei dele aqui. Desta vez, ao ler o livro "Civilização - O Ocidente e os Outros", de Niall Ferguson, deparo-me com uma passagem que não resisti a reproduzir: "Durante os últimos trinta anos, incutiram aos jovens das escolas e universidades ocidentais a ideia de uma educação liberal sem a substância do conhecimento histórico. Ensinaram-lhes 'módulos' isolados, não lhes ensinaram narrativas e muito menos cronologias. Foram treinados na análise das fórmulas de excertos documentais e não na competência-chave de ler muito, de forma generalista e depressa. Foram encorajados a sentir empatia por centuriões romanos imaginados ou pelas vítimas do Holocausto mas não a escrever ensaios sobre os 'porquês' e os 'comos' das respectivas condições."

Novo "Público"

O "Público" celebrou hoje o seu 22.º aniversário oferecendo o jornal nas bancas. A iniciativa tinha também o objectivo de dar a conhecer o novo formato e o novo grafismo, formas de tentar contrariar a crise pela qual passa a imprensa. A edição de Domingo vinha sendo um tubo de ensaio desta mudança, que agora se concretizou. O filósofo José Gil foi director por um dia e o tema principal saiu do habitual dos jornais quotidianos. Apesar de várias alterações, o "Público" não mudou radicalmente. Parece-me que o seu público continuará a ser exactamente o mesmo.

Uma curiosidade. De manhã cruzei-me com um amigo e disse-lhe que o "Público" hoje era grátis. Já se aproximava a hora de almoço e ele duvidou que a banca ainda tivesse exemplares. Enganou-se. Nos tempos que correm, nem oferecendo o jornal se consegue esgotar uma edição.

domingo, 4 de março de 2012

sábado, 3 de março de 2012

Do casamento à adopção 'gay'

Já se sabia que a consagração do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal era apenas uma “meia-dose”, ou um prato inacabado. Foi mais uma manobra ilusória do ex-primeiro-ministro José Sócrates, bem orquestrada para distrair a populaça. Mais tarde ou mais cedo, alguém levantaria a questão da adopção por casais homossexuais. Foi o que fizeram, agora, o Bloco de Esquerda e o Partido Ecologista “Os Verdes”, que viram chumbadas no parlamento as suas propostas nesse sentido. Já no PS e no PCP acha-se que é necessário mais debate. Ou seja, as esquerdas tendem realmente para o mesmo lado nesta questão.

Vários analistas têm afirmado que hoje a diferença fundamental entre esquerda e direita é a família. Há muito que deixou de ser o sistema económico ou político. Pior, a esquerda tem-se vindo a esvaziar ideologicamente e a agarrar-se a “causas” como esta. Acontece que nem o assunto interessa à maior parte dos cidadãos, mais preocupados com o estado do País e com a sua situação económica, nem está a ser abordado da forma correcta.

O principal na adopção devia ser o interesse da criança, mas pelos vistos é relegado para segundo plano face à “orientação sexual”, como agora se diz. Luís Villas-Boas, director do Centro Aboim Ascensão, que, em 2004, presidiu à Comissão de Acompanhamento da Revisão da Lei da Adopção, afirmou: “A homossexualidade deve ser respeitada, mas os direitos da criança também. Tecnicamente, uma criança não pode viver de forma equilibrada, feliz, harmónica e bem tipificada sexualmente com um casal do mesmo sexo. O complexo de Édipo fica mal resolvido”. Mas pouco importa e comentários como este são considerados “politicamente incorrectos”. Mesmo à direita prefere-se normalmente o silêncio.

Seguimos, assim, o caminho do “progresso social”, como querem alguns. Mas até onde e a que custos? Parece que depois de querer fazer o “homem novo”, as esquerdas querem hoje fazer a “família nova”. Os resultados só podem ser igualmente maus.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 2 de março de 2012

Krugman

A propósito da recente vinda de Paul Krugman a Lisboa, para receber um doutoramento honoris causa “conjunto” da da Universidade de Lisboa, da Universidade Nova e da Universidade Técnica (!), Vasco Pulido Valente questiona hoje na sua coluna no “Público”: “uma realidade, pouco agradável, vai pouco a pouco aparecendo, ainda hesitantemente, sob forma de pergunta: “E se não existissem os meios para o Estado social (e ramificações), que o país tirou da sua miséria com os salvíficos ‘fundos’ da ‘Europa’ e com uma dívida externa que não consegue, ou conseguirá, suportar?” Ou pior do que isso: “E se os 30 anos desta próspera e feliz democracia não passassem, no fundo, de um enorme exercício de irresponsabilidade, em que se enganaram os nativos, mas não se enganou mais ninguém no mundo?” O sr. Krugman volta para Nova Iorque e não leva os nossos problemas (nem mesmo se ofereceu para pôr na ordem a sra. Merkel). Nós ficamos, tristonhos, por aqui: “E se for preciso ‘refundar’ o regime, como se faz?”

Frase do dia

"Não cabe aos tribunais definir uma verdade histórica."

Francisco Teixeira da Mota
in "Público.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Regresso ao passado

Este é o reencontro do realizador Jason Reitman com a argumentista Diablo Cody depois de “Juno” (2007), que ganhou o Óscar para o melhor argumento. Apesar desta dupla, o filme não vai muito além da banalidade e do previsível.

Mavis Gary (Charlize Theron) tem 37 anos, está divorciada, abusa da bebida e escreve livros para um público classificado como “jovens adultos”. A meio de um bloqueio de escrita quando tenta redigir o último livro da série, recebe uma mensagem de correio electrónico do seu antigo namorado de liceu, anunciando o nascimento da sua filha.

Sentindo-se frustrada com a sua vida, Mavis de a grande cidade de Minneapolis para voltar à pequena Mercury, onde cresceu, decidida a reconquistar Matt (Patton Oswalt). Esta é uma viagem a um tempo onde era a miúda mais gira e popular da escola, que desprezava os outros e era invejada por todos. Mas, obviamente, este regresso impossível não vai correr como ela esperava. Devia ser fácil para aquela que vingou, que conseguiu fugir da terriola, voltar e vencer, mas a realidade é bastante diferente. É aqui que o filme começa a deixar de ser uma comédia ligeira para passar a uma tragédia pessoal, associada a uma crítica social.

Aqui há, ao mesmo tempo, uma passagem para a idade adulta. O choque de Mavis no seu regresso ao passado vai fazê-la finalmente deixar de ser a “jovem adulta” dos seus livros. Este aspecto, talvez o mais interessante, é o que é menos explorado, o que é pena.

O filme não surpreende. Está tudo lá, tal como esperamos, o que acaba por torná-lo aborrecido, por vezes. No final, dá vontade de deixarmos de ser “jovens adultos” do cinema e passar para outros filmes. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]