quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Frase do dia

“o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) não reduz, antes amplia, o desacordo entre a palavra e a linguagem escrita.”

Francisco Miguel Valada
in “Público”

A polémica do Acordo Ortográfico continua...

Desta vez foi o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, a afirmar, na televisão: "Do ponto de vista teórico, a ortografia é uma coisa artificial. Portanto, podemos mudá-la. Até 2015 podemos corrigi-la, temos essa possibilidade e vamos usá-la. Nós temos que aperfeiçoar o que há para aperfeiçoar. Temos três anos para o fazer". Sobre a recente atitude de Vasco Graça Moura no CCB, disse: "Vasco Graça Moura escreverá como quiser. (...) Todos os portugueses têm a possibilidade de escolher a sua ortografia. Não há uma polícia da língua, há um acordo, que não implica sanções graves para ninguém".

Mais uma vez, ao contrário do que querem alguns (poucos), esta é uma polémica que está longe de ter terminado. Felizmente! A nossa Língua agradece.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Frase do dia

"As ‘quotas femininas’, seja em que roupagem for, são um insulto às mulheres porque reduzem critérios de qualidade à existência de uma vagina."

João Pereira Coutinho
in "Correio da Manhã"

"O impossível acordo"

Este é o título do excelente e imperdível artigo de António Guerreiro, publicado no suplemento "A(c)tual" do semanário "Expresso" de ontem, sobre o Acordo Ortográfico, disponível na íntegra aqui.

Deixo algumas passagens:

"Em várias e competentes instâncias, o AO foi criticado, desautorizado enquanto documento técnico-científico, considerado inepto e nefasto. Em sua defesa, porém, o mais que pudemos ler foram artigos em jornais, refugiados nas questões genéricas das supostas vantagens de um acordo, sem responderem aos argumentos dos críticos. É fácil perceber que a impermeabilidade à crítica e a imunidade do AO estavam garantidas pelo facto de se tratar de um instrumento político para servir a estratégia ideológica da lusofonia."


"Um breve exame ao que se passa nos locais e instituições que adoptaram o Acordo mostra que a sua aplicação fica sujeita a normas locais, casuísticas e decididas arbitrariamente."

"Como vai ser possível ensinar a ortografia nas escolas? Como reagirão os alunos quando um professor os ensinar a escrever uma palavra de uma determinada maneira e um outro professor os ensinar de maneira diferente? A inexistência de um Vocabulário Ortográfico Comum (prometido para janeiro de 1992 e que era um dos requisitos da entrada em vigor do Acordo) torna tudo ainda mais complicado. Ou será que esse Vocabulário Ortográfico Comum não existe porque não pode existir e não passa de uma enorme falácia?"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O estudo da História

Pormenor de "A Arte da Pintura",
de Johannes Vermeer, c. 1666.
A disciplina em que me formei tem vindo, cada vez mais, a ser alvo do desprezo dos que só pensam na "carreira garantida" e nas "oportunidades profissionais". A todos eles, mas também aos que escolheram a História como formação, recomendo vivamente o excelente artigo de Pacheco Pereira, intitulado "A nova luta de classes". Para não me repetir aqui, aconselho também a (re)leitura do meu editorial "História e ignorância". E que Clio vos inspire...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Natalidade

O problema é grave e não é de hoje. Tem vindo a arrastar-se perante a passividade de políticos e governantes, que ultimamente pioraram a situação. A sustentabilidade demográfica e a natalidade nacional são temas há muito descurados pelos que deviam assegurar as condições necessárias para a nossa vitalidade enquanto Povo.

Há muito que se caminha para um individualismo que vai afastando, progressivamente, a família enquanto modelo e base da sociedade. Ao mesmo tempo, o egoísmo consumista faz com que muitos vejam os filhos como uma mera fonte adicional de despesas e prefiram os bens materiais da “felicidade” efémera anunciados pela publicidade omnipresente. Depois, há sobretudo uma falta de sentimento de comunidade na qual esteja presente o dever da continuidade.

Um estudo científico recente sobre a fecundidade em Portugal veio revelar algo de que nos apercebemos todos os dias. As famílias portuguesas têm menos filhos porque não têm dinheiro, apesar de muitas delas terem vontade.

Na semana passada, Cavaco Silva abordou o problema numa conferência, afirmando que são necessárias “políticas de estímulo à natalidade”. O Presidente fez bem em trazer o assunto para a ordem dia, mas a questão é muito mais profunda. Não bastam medidas pontuais, a pensar nas próximas eleições, ou em reacção a notícias ou estudos. A demografia é um dos pilares de um projecto nacional. Sem uma renovação de gerações o País está condenado a um envelhecimento generalizado.

Uma nação sem filhos não tem futuro.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

As paixões de Edgar

Este não é um filme sobre o FBI ou uma biografia extensiva sobe o homem que o dirigiu durante quase meio século, servindo oito presidentes norte-americanos. É antes uma perspectiva intimista das suas paixões e como estas influenciaram a sua vida. Daí a queda, no título, do apelido Hoover, nome ainda hoje associado à inovação de métodos e princípios de investigação criminal e ao controlo da informação, e que se confunde com o próprio FBI. O realizador, Clint Eastwood afirmou “este não é um filme de política, é uma história de amor”.

Já nos seus últimos dias, J. Edgar começa a ditar as suas memórias e é a partir daí o enredo vai ziguezaguear temporalmente. A construção do filme está bem feita porque, por um lado, vemos a sua história “oficial”, por outro, entramos dentro do seu universo pessoal.

As paixões de Edgar são a ordem e a segurança, como vemos na sua dedicação ao cargo e ambição profissional, mas também os seus amores pessoais: a mãe (Judi Dench), a sua referência máxima, Helen Gandy (Naomi Watts), a sua fiel secretária, e Clyde Tolson (Armie Hammer), o seu companheiro de trabalho e de amor.

Muito se tem falado da forma como o filme “revela” a homossexualidade reprimida de Hoover. No entanto, não há aqui “militância gay”, já que o próprio percebe, para além de avisado pela mãe, que para a manutenção da ordem que tanto deseja, tal é algo que deve ficar bem oculto.
Para além do óptimo trabalho de Leonardo DiCaprio no papel principal, há a destacar as representações de Naomi Watts e de Judi Dench em dois papéis secundários, mas que nem por isso deixam de ser essenciais.

Apesar de todos estes aspectos, o filme ficou foi “esquecido” pela Academia e não teve uma única nomeação para os Óscares. Algo que dá que pensar… [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

"O Acordo Ortográfico mutila o pensamento"

A frase, lapidar, é do filósofo José Gil e é parte da conclusão de um excelente texto publicado na revista "Visão". Aqui fica: "o Acordo mutila o pensamento. A simplificação das palavras, a redução à pura fonética, o «acto» que se torna «ato», tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação. Todo o mistério essencial da escrita que lhe vem da opacidade da ortografia, do seu esoterismo, desaparece agora. O fim das consoantes mudas, as mudanças nos hífenes, a eliminação dos acentos, etc, transformam o português numa língua prática, utilitária, manipulável como um utensílio. Com se expusesse todo a seu sentido à superfície da escrita. O AO afecta não só a forma da língua portuguesa, mas o nosso pensamento: com ele seremos levados, imperceptivelmente, a pensar de outro modo, mesmo se, aparentemente, a semântica permanece intacta. É que, além de ser afectiva, a ortografia marca um espaço virtual de pensamento. Com o AO teremos, desse espaço, limites e contornos mais visíveis que serão muros de uma prisão onde os movimentos possíveis da língua empobrecerão. Como numa suave lavagem de cérebro."

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Frase do dia

"Obama não fez grande coisa, excepto evidentemente ser eleito."

Vasco Pulido Valente
in "Público".

Carnaval


Pedro Passos Coelho decidiu não dar tolerância de ponto neste Carnaval, justificando o acto com as “medidas de contenção e austeridade” a que a crise obriga. Logo choveram críticas, mas caso tivesse optado por manter este semi-feriado seria igualmente criticado. A escolha do primeiro-ministro foi acertada porque não podia ser outra. Há uma mentalidade que tem que ser alterada. O pior foi parte da administração pública ter-se, pura e simplesmente, borrifado para o Governo e decidido fazer gazeta como sempre. Mas nem todos optaram pela brincadeira. Na Assembleia da República não haverá Carnaval... Pelo menos por um dia.

Uma visita à Lello

Uma passagem pela cidade do Porto tem uma paragem obrigatória, a Livraria Lello e Irmão, considerada uma das mais belas do mundo e referida em diversos guias turísticos. Um local de História e cultura a visitar.



Percorrendo o centro do Porto num Sábado à tarde, nota-se o grande número de turistas que visitam a cidade, provavelmente atraídos pelos guias que agora a apontam como um destino de eleição, pela oferta diversificada e pelos preços baratos. Entrando na obrigatória Livraria Lello e Irmão, o movimento de pessoas é grande e são os turistas curiosos que mais se vêem. A maioria deles vem ver a extraordinária beleza deste espaço comercial e alguns até param para ver os livros.

Este afluxo de estrangeiros parece ser incómodo para a casa, já que há vários anúncios espalhados a informar que é proibido fotografar ou filmar. Algo bastante difícil nesta era tecnológica, em que um pequeno telemóvel serve também de câmara fotográfica. Os funcionários estão permanentemente a chamar a atenção das pessoas para essa interdição e são deveras insistentes. Um deles dizia asperamente para um jovem espanhol: “Isto é uma livraria. No teu país também não tiras fotografias a uma livraria”. Acontece que a Lello não é apenas mais uma livraria e os seus funcionários, melhor que ninguém, deviam sabê-lo. Outro incómodo, especialmente devido à grande circulação de pessoas, é a colocação de vários livros no chão, fazendo com que quase tropecemos neles.

Críticas à parte, este é um local de uma beleza maravilhosa onde a estética e o saber se encontram. Uma homenagem à cultura. Para além dos livros, a Lello tem também uma parte de galeria de arte e um pequeno espaço para tomar café. Um ponto de encontro cultural que merece ser visitado de todas as vezes que se passe no Porto.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A luta continua

Há dias mostrei a um jovem jornalista a primeira edição de “O Diabo” dirigido pela sua fundadora Vera Lagoa. Foi bastante interessante ver como ele notou, automaticamente, a diferença para os jornais de hoje. Tanto pelo estilo e pela a riqueza da escrita, mas, principalmente, pela forma como se vivia e sentia a política. Os tempos eram outros e o País estava ao rubro. Os ânimos inflamavam-se, o destino de Portugal preocupava as pessoas e o combate político mobilizava as opiniões. É impossível não fazer um paralelo com os tempos conturbados que atravessamos hoje, mas onde parece que a apatia reina e o futuro da Pátria não diz respeito aos seus cidadãos.

O jornalismo independente e de coragem é essencial para inverter esse estado de coisas. A imprensa livre, capaz de denunciar os abusos e atropelos dos que detêm o poder não pode deixar de existir.

No dia 10 de Fevereiro de 1976, Vera Lagoa, no seu primeiro editorial, fez uso de uma frase de quando começou o anterior “O Diabo”, em 1895, que mostrava bem a linha a seguir: “Cavalheiros! Parece-me que lhes vejo os narizes torcidos! Pois destorçam-nos que eu vou falar”. A fundadora deste jornal era uma verdadeira “mulher de armas” e recordou nesse texto o seu passado de luta e que “O Diabo” foi sempre conhecido como um jornal de combate e cultura. Terminou escrevendo: “Já destorceram os narizes? Continuem com eles destorcidos. Porque eu tenciono continuar a falar”. E continuou. Depois da sua morte, “O Diabo” continuou e continuará a falar.

Cada vez mais é preciso “O Diabo”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O espectáculo continua

Os míticos Marretas preenchem ainda o imaginário infantil de uma geração que hoje já tem filhos e gosta de lhes passar algum do seu passado. As produtoras sabem bem disso e, ultimamente, têm apostado na revitalização desses pedaços de juventude. Este filme é mais um desses exercícios onde uma geração que se deliciou com estes bonecos os reencontra e uma mais nova os descobre.
A grande novidade é a introdução de uma nova personagem, Walter, que é o maior fã dos Marretas. Na companhia do seu irmão Gary (Jason Segel) e da namorada deste, Mary (Amy Adams) vai de férias a Los Angeles para visitar o Teatro dos Marretas. Mas Walter descobre o terrível plano de Tex Richman (Chris Cooper), um homem do petróleo sem escrúpulos que quer o quer demolir.

Walter sente-se na obrigação de impedir a concretização deste plano malvado e dirige-se a Cocas, contando-lhe o que descobriu. A partir desse momento inicia-se a reunião dos Marretas que se haviam separado, seguindo diferentes caminhos. Para salvar o Teatro precisam de 10 milhões de dólares e a única forma de os conseguirem é dando um espectáculo à antiga. Há momentos bem divertidos quando se vê o rumo que a vida de alguns deles levou. Miss Piggy vive em Paris e é editora de moda na Vogue. O Animal está num centro a fazer terapia de controlo da raiva. Gonzo é um bem sucedido empresário do ramo das loiças sanitárias.

Um filme que é fiel à série original, sem grande novidade, mas contando com a participação de muitas celebridades de agora, reconhecíveis pelos mais novos.

Antes dos “Marretas” é projectada em complemento a curta-metragem da Pixar “O Pequeno Buzz”, onde Buzz Lightyear, herói da série de filmes “Toy Story”, é abandonado num restaurante de ‘fast food’ quando uma versão brinde do Buzz, toma o seu lugar. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sagres, a história de um símbolo nacional


O navio-escola Sagres actualmente ao serviço é o terceiro com esse nome na história da Marinha Portuguesa. Foi construído nos estaleiros da Blohm & Voss, em Hamburgo, em 1937, tendo, na altura, sido baptizado com o nome “Albert Leo Schlageter”. No final da Segunda Guerra Mundial, coube, juntamente com o seu navio-irmão “Horst Wessel” (hoje “Eagle”, ao serviço da Guarda Costeira norte-americana), aos EUA como despojos de guerra. No entanto, acabou por ser cedido à Marinha brasileira, onde recebeu o nome Guanabara. Em 1961 foi comprado por Portugal, para substituir a antiga Sagres, que, curiosamente, também havia sido navio alemão.

O navio Albert Leo
Schlageter (1937)
Foi no dia 8 de Fevereiro de 1962, no Rio de Janeiro, que teve lugar a cerimónia oficial de entrada do NRP Sagres para a Marinha Portuguesa, tendo o Capitão-tenente Silva Horta assumido o comando do navio. Com esta aquisição, atingiu-se o principal objectivo, que era o de garantir a existência de um navio-escola veleiro português, que assegurasse a formação marinheira dos seus futuros oficiais, complementando-se assim as componentes técnica e académica ministradas na Escola Naval.

Albert Leo Schlageter
Schlageter
O nome Albert Leo Schlageter pouco dirá aos portugueses, mas, como qualquer história, tem as suas curiosidades. Schlageter foi um herói dos Freikorps, fuzilado pelos franceses após a Primeira Guerra Mundial, elevado a mártir pelos nacionais-socialistas, no início do III Reich. Não só o seu nome foi dado a este navio, como a um esquadrão da Luftwaffe, a duas secções das SA e a um quartel. Teve também direito a um monumento em sua memória que foi destruído pelos Aliados depois da Guerra.

No entanto, há uma curiosidade ligada ao seu nome que deu origem a uma má citação que se tornou recorrente. Por diversas vezes vemos atribuída a Hitler, Goebbels, ou Goering a frase “Quando oiço falar de cultura, puxo logo da pistola”. Na realidade, tal é a deturpação de um diálogo da peça “Schlageter”, escrita pelo dramaturgo Hans Johst em 1933, na qual Thiemann, outra personagem, diz para o jovem Schlageter: “Quando oiço a palavra cultura, tiro a segurança da minha Browning”. Afirmação que espanta Schlageter, apesar de o contexto, neste caso, ser o de não se deixar desarmar por discursos ideológicos.

Hoje
O navio-escola Sagres tornou-se num símbolo nacional, que apela à nossa vocação marítima e nos recorda a grande gesta lusa das Descobertas. É uma autêntica embaixada itinerante do País que transporta as cores portuguesas para os quatro cantos do mundo, tendo visitado até à data 60 países, 166 portos estrangeiros e feito três viagens de circum-navegação. É um ex-líbris da nossa Marinha, reconhecido e apreciado pelos portugueses, que se espera continue a cruzar os mares antes navegados pelos nossos antepassados.

Apanhados


As televisões fartaram-se de mostrar o vídeo da TVI que captou uma breve conversa entre o ministro das Finanças português e o seu homólogo alemão. Muitos viram nas imagens, que mais pareciam uma situação do programa de câmara oculta “Apanhados”, a subserviência de Portugal à Alemanha. Realmente, Vítor Gaspar parecia um menino a dizer à madrinha que se tinha portado bem e que, por isso, queria o folar da Páscoa. Mas houve um pormenor que escapou. Foi bastante curioso, surpreendente até, ver como o nosso ministro das Finanças não... fez... uso... daquele... seu... tom... pausado... com... que... fala... aos... portugueses.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Consumidores


O primeiro hipermercado em Portugal foi o Jumbo que se localizava na Estrada de Catete, perto de Luanda. A fotografia é de 1973 e podemos pensar que as pessoas que na altura faziam as suas compras estavam longe de imaginar a mudança profunda que em breve se daria. O mesmo podemos pensar hoje. Será que quem se passeia agora nos templos do consumo tem a noção do que se avizinha?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Debandada geral

Já muito se falou dos elevados níveis de emigração atingidos no nosso país nos dias que correm. Ao contrário de tão criticados períodos anteriores, desta vez, quem sai, são os mais jovens e mais qualificados. Também já é conhecido o fenómeno de regresso acentuado de vários imigrantes, que descobrem no seu país de origem melhores condições laborais.

Acontece que tudo isto não se passa nas notícias dos jornais – esse mundo que por vezes é tão distante da realidade –, mas à frente dos nossos olhos, com pessoas que conhecemos e com quem lidamos diariamente.

Venho assistindo a esta fuga há algum tempo, mas recentemente tenho visto um agravamento acelerado, em círculos bastante próximos. Por vezes, é uma saída forçada, mas normalmente é apenas a natural e recorrente busca de melhores condições de vida.

Relato três casos distintos, e por isso exemplificativos, que presenciei nos últimos tempos. No primeiro, uma familiar minha, bastante bem colocada numa multinacional, viu o seu talento reconhecido e conseguiu um lugar de topo, com um salário correspondente, na sede da empresa, na Suíça. Depois, um amigo meu, engenheiro numa grande empresa nacional, foi informado que a fábrica onde trabalhava será encerrada em breve. A “solução” proposta ao pessoal especializado foi a ida para Angola, Brasil, Polónia ou Roménia. Por fim, um brasileiro residente em Portugal há dez anos, recebeu uma proposta de trabalho na sua terra natal, onde auferia consideravelmente mais do que cá. Não hesitou e partiu com a família.

Todos, à sua maneira, reflectem as consequências nefastas do denominado “mercado global”, onde tudo se pode mudar. As raízes amputam-se em nome do conforto ou da estabilidade. Para trás ficam os teimosos, os menos preparados, ou, pior, os aproveitadores do costume. Aqueles que “raparam” e continuam a “rapar o tacho” até ao fim. Triste sina…

Portugal precisa de portugueses.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Da Grécia sem amor

O novo cinema grego tem boas surpresas, como foi o caso do peculiar “Canino”, de 2009, realizado por Giorgos Lanthimos. Mas, desta vez, Athina Rachel Tsangari, que realizou e escreveu “Attenberg”, não vai além de uma colecção de situações, ambientes e personagens bizarras.

O título do filme é uma corruptela do apelido do famoso documentarista da vida animal David Attenborough, cujos programas são vistos por Marina (Ariane Labed), sozinha ou em companhia do seu pai, que depois faz imitações dos animais. Mas esta não é a única bizarria do filme. Outra, e talvez a mais engraçada, são os passeios que Marina faz com a sua única amiga, Bella (Evangelia Randou), mimetizando os ‘silly walks’ dos maravilhosos Monty Python.

A abertura mostra-nos que estamos a entrar num mundo estranho. As duas amigas estão frente a frente e Bella, a promíscua, tenta ensinar Marina, a frígida sem experiência sexual, a beijar. Esta última sente-se enojada e não demonstra qualquer jeito para o exercício.

O ambiente onde tudo se passa é uma cidade industrial costeira de arquitectura modernista, que mais parece quase fantasma. É neste ambiente humanamente árido que nos apercebemos da frieza natural de Marina, que vai acompanhando o seu pai, que sofre de uma doença terminal, ao hospital. Entre pai e filha também se nota um afastamento e uma comunicação distante.

Um dia, Marina conhece um engenheiro (Giorgos Lanthimos) e decide iniciar a sua vida sexual. Mas não se espere uma mudança, antes as mesmas situações estranhas a que o filme recorre. A história, essa, não existe. Nesta colagem não há um fio condutor e a realização reflecte exactamente isso.

Apesar de alguns pormenores interessantes e até curiosos, “Attenberg” deixa-nos sempre distantes e acaba por tornar-se enfadonho. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Idade Média a sério

Este é o primeiro de quatro volumes de referência sobre a Idade Média, com organização de Umberto Eco e colaboração dos mais importantes medievalistas de diversas disciplinas a que nos leva numa viagem envolvente e surpreendente através da sociedade, arte, história, literatura, música, filosofia e ciência deste período intenso da História da civilização europeia.



Esta é uma obra monumental e essencial para compreender um período histórico ainda tão desconhecido e, principalmente, sobre o qual se criaram ideias feitas completamente erradas. Como escreve Umberto Eco: “Pesam sobre a Idade Média muitos estereótipos, e por isso será conveniente precisar, antes de mais, que a Idade Média não é o que o leitor comum pensa, o que muitos manuais escolares compostos à pressa fazem crer e que o cinema e a televisão têm apresentado”. Depois de esclarecer que esta não é a “Idade das Trevas”, não ignorou a cultura clássica, nem repudiou a ciência da Antiguidade, e muito menos é uma época de castelos torreados como os da Disneylândia, Eco analisa o que a Idade Média nos deixou e como foi radicalmente diferente do tempo em que vivemos.

Numa belíssima edição, este primeiro volume, “Bárbaros, cristãos e muçulmanos” (capa dura, 790 páginas, 37,90 euros), divide os conteúdo em capítulos dedicados à História, à Filosofia, à Ciência e tecnologia, à Literatura e teatro, às artes visuais e à música, e está também extremamente bem subdividido. Inclui ainda várias ilustrações e uma agradável e útil cronologia auxiliar. Infelizmente, a editora decidiu seguir o malfadado Acordo Ortográfico, mas o mérito desta obra e da sua edição em Portugal é indiscutível.

Um livro de qualidade e bem fundamentado, que nos transporta a uma Europa em transformação. Como nos diz Laura Barletta na introdução, estes “são também os séculos em que se define uma identidade europeia perante o Islão e o Império Romano do Oriente, que, e não por acaso, é melhor dizer bizantino, e com novas vagas de bárbaros que pressionam as fronteiras orientais”.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Vive la France quand même !"

Robert Brasillach (31/3/1909 - 6/2/1945)

Os incompreendidos

O título deste post é a tradução brasileira de "Les 400 coups", o filme de 1959, realizado por François Truffaut, cineasta francês que o Google recordou hoje a propósito do seu 80.º aniversário. No nosso país, tal como na maior parte dos sítios, o título foi traduzido literalmente e chamou-se "Os 400 golpes". Algo no mínimo estranho, já que a expressão francesa "faire les quatre cents coups" é o equivalente em português a "fazer trinta por uma linha". Fica a nota sobre estes golpes incompreendidos...

Filme para hoje


Farenheit 451, François Truffaut, 1966.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Frase do dia

"Se este Governo suspender a aplicação do acordo ortográfico, o Governo terá dado um contributo inestimável à cultura portuguesa."

João Pereira Coutinho
in "TVI24".

O (des)Acordo Ortográfico na ordem do dia

A corajosa decisão de Vasco Graça Moura teve principalmente o mérito de trazer o disparate do Acordo Ortográfico (AO) para a ordem do dia, coisa que os seguidistas - com o falso e estafado argumento da "inevitabilidade" - tanto querem evitar.

Hoje, ao ler o jornal "i", para além da peça que fez a manchete "Graça Moura tem razão", deparei-me com três textos de opinião que referem o AO. O primeiro é o excelente editorial, de António Ribeiro Ferreira, que reza assim: "Seguro, com a mesma voz indignada e compungida, a clamar contra Vasco Graça Moura, que erradicou do Centro Cultural de Belém um aborto chamado Acordo Ortográfico. O líder da oposição, entalado entre a troika e a pesada herança socrática, tenta sempre refugiar-se em assuntos fúteis e em fantochadas nos intervalos dos imensos lugares-comuns que atira para o ar a propósito de cimeiras europeias, tratados, austeridade e crescimento económico. Assim vai a pátria falida e decrépita."

O segundo é de André Abrantes Amaral, que afirma: o "que se quer com o acordo ortográfico é decretar a rua a seguir os gabinetes. Ora, que mais não é uma língua que muda por decreto, que uma língua morta?"

O último, de José Couto Nogueira, diz: "É evidente que o acordo ortográfico, tão do desagrado de muitos intelectuais e profissionais da escrita (inclusive o autor desta coluna), está para ficar; é letra de lei, os livros didácticos já foram modificados, seria moroso e diplomaticamente desagradável voltar atrás. Também é evidente que foi um disparate, um imposição comercial sem reflexo na evidência de que o Brasil e Portugal tendem a afastar os idiomas. Só fica bem a Graça Moura este gesto quixotesco de última barricada."

Obviamente que não me identifico com o tom derrotista, ou conformado, do último texto, mas o que é notório em todos eles é a oposição ao AO. Sinais de que a questão está longe de estar encerrada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Da Democracia

A igualdade não consiste em os pobres possuírem mais poder do que os ricos ou serem os únicos detentores da soberania, mas terem todos, uns e outros, por igual, de acordo com o número. Deste modo poderiam considerar que estavam asseguradas na Constituição a igualdade e a liberdade.
Aristóteles, A Política, III

Citações como esta são usadas ainda hoje para explicar e exemplificar a democracia. O regresso aos clássicos é sempre aconselhável e salutar, mas como em qualquer assunto não pode ser descontextualizado.

A democracia clássica, nomeadamente a ateniense, é apontada como exemplo e origem do sistema que hoje temos no mundo ocidental e que muitos insistem em disseminar pelo mundo, numa verdadeira atitude prosélita, por vezes pela força. Acontece que esta democracia era bem diferente do que vivemos hoje. Recorde-se que estava reservada apenas aos cidadãos, ou seja, aos homens adultos que tivessem cumprido o serviço militar. Excluídos estavam as mulheres, os escravos e os metecos, cidadãos estrangeiros residentes na ‘polis’. O próprio Aristóteles, apesar de filósofo e homem de cultura reconhecido, viveu como meteco em Atenas durante dezenas de anos e nunca foi considerado cidadão ateniense. Aos olhos dos bem-pensantes de hoje, tal mais parece um regime “racista e xenófobo”. Por outro lado, para um grego clássico, o que vivemos hoje seria provavelmente uma oligarquia, regime onde o poder está nas mãos dos mais ricos.

Baseada na justiça e na liberdade, a democracia deve ser o poder do povo, melhor dizendo, da comunidade. Mas onde encontrar as comunidades quando estas se têm vindo a dissolver gradualmente no magma uniformizador da globalização?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Um exemplo!


«Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico

Entrevista com Nuno Rogeiro (II)

Conclusão da publicação da entrevista com Nuno Rogeiro ao semanário “O Diabo”, iniciada aqui.


Mudando de tema e falando do nosso país, como vê a política nacional hoje?
Vejo, como todos os portugueses vêem, aquilo que a minha geração vinha dizendo há bastante tempo: que Portugal estava a ser vendido aos pedaços e que tinha desistido dos seus maiores trunfos, que era o facto de poder produzir nacionalmente aquilo que consumia. O facto de termos desmantelado a nossa indústria, as nossas pescas e a nossa agricultura em troca de subsídios. E o facto de não termos aproveitado bem os subsídios estruturais injectados pela União Europeia. Tudo isso consumou aquilo que estamos hoje a ver.

Como aconteceu?
A actual III República não insistiu numa estratégica nacional de preservação da nossa agricultura, das nossas pescas e de parte da nossa indústria. A estratégia nacional de um desenvolvimento autónomo e sustentado, como hoje se diz, não existiu. Esse é o princípio de todos os nossos males. A questão de como chegámos aqui é uma questão menor.

Qual é a alternativa?
Só há duas soluções. Uma é ficar na União Europeia e dentro do Euro e, como se costuma dizer, fazer aquilo que nos consentem e consentir tudo o que nos fazem. Fora da UE e do Euro, talvez houvesse soluções, mas será que os portugueses estão dispostos a andar 30 ou 40 anos para trás?
E mesmo assim, dizer isto é um erro, porque como já escrevi, referindo um artigo na “Independent Review” de um professor canadiano, os grandes anos de desenvolvimento económico em Portugal foram entre 1959 e 1973. Algo que chocará muita gente. Mesmo que se considere que o desenvolvimento nessa altura era mais fácil por existir África, nós nunca explorámos verdadeiramente os chamados recursos ultramarinos.

Como assim?
Em 1974, Angola estava no começo da sua exploração de petróleo, ainda não era o gigante petrolífero que é hoje. Imaginemos o que seria Portugal, voltando atrás, mas tendo a capacidade e o petróleo barato de Angola...

E politicamente?
Há sempre o problema político, mas nós já vimos noutros sítios que quando há dinheiro é possível resolver muitos problemas políticos. Mas não é possível voltar a esse tempo, quando Portugal tinha mais opções. Agora, o que talvez seja possível, é voltar a um tempo no qual Portugal vai ser obrigado a viver com um bolo que tem que ser melhor repartido por todas as pessoas.

Uma última palavra sobre “O Diabo”...
Não tenho acompanhado o destino do jornal nos últimos anos, mas desejo-vos obviamente as maiores felicidades. Acho que é preciso, em Portugal, que as pessoas possam discutir mais e ler mais jornais. Estive ligado a “O Diabo” nos melhores tempos da minha vida, quando era jovem. Passei uma grande parte da minha vida ligado a “O Diabo”, primeiro como colaborador, depois como subchefe de redacção, chefe de redacção e por fim como director-adjunto. Isto entre os anos 80 e finais dos anos 90. Foram quase vinte anos. Foi a minha pequena contribuição para uma luta nacional que eu acho que ainda não acabou.

Publicado na edição de «O Diabo», de 24/1/2012.

Herdeiros

No início de "Os Descendentes", o protagonista, Matt King (George Clooney), explica-nos: “Os meus amigos pensam que lá por eu viver no Havai, vivo no paraíso. Que estamos todos aqui a bebericar Mai-Tais e a apanhar umas ondas”. Mas como veremos, apenas o cenário é diferente, porque os problemas da vida são exactamente iguais. Matt parecia ter a vida perfeita, mas um dia tudo desaba. A sua mulher tem um acidente de barco e fica em coma. A partir desse momento, passa a ser ele o responsável pelas suas duas filhas, algo a que não estava habituado. Para piorar as coisas, descobre ela o enganava com outro homem.

Ao mesmo tempo, a família de Matt é descendente de um comerciante que casou com uma princesa havaiana, o que lhes deu uma considerável herança. Matt é o responsável pela venda do último pedaço de terra que ainda resta desse património – um magnífico e paradisíaco terreno junto ao mar, muito cobiçado pelos agentes imobiliários.

Apanhado por este turbilhão de acontecimentos, Matt começa a questionar-se. Sobre a sua vida de casado, a relação distante com as suas filhas, a identidade do homem que o substituiu e a venda da terra de família. Neste percurso emocional, recheado de peripécias, mas com uma carga sentimental muito forte, pressente-se – deseja-se – que o final seja um reencontro familiar.

Óptima realização de Alexander Payne, que conjuga muito bem esta comédia dramática com os particularismos havaianos, e nas representações uma nota obrigatória para os excelentes desempenhos do veterano George Clooney e da jovem Shailene Woodley.

Um história de continuidade familiar, com todas as atribulações e dúvidas que não poderiam faltar, onde apesar de tudo resiste o respeito à linhagem e à terra. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Entrevista com Nuno Rogeiro (I)

Nuno Rogeiro é um comentador político com larga experiência jornalística, passou por vários meios de comunicação, incluindo pelo nosso “O Diabo”, onde chegou a director-adjunto. Tornou-se especialista em questões internacionais e é actualmente responsável pelo programa “Sociedade das Nações”, da Sic Notícias. Publicou recentemente “Na Rua Árabe - Causas e Consequências das Revoltas no Médio Oriente”. Fomos a sua casa entrevistá-lo.


O DIABO – Como é que começou realmente esta “Primavera Árabe”? Já que, como afirma no livro, tudo começou fora da “rua árabe”...
Nuno Rogeiro – Creio que assisti aos primórdios da “Rua Árabe”, fora do mundo árabe, no Irão. Quando visitei este país, descobri que por debaixo de uma unanimidade e homogeneidade aparente, característica destas sociedades, havia, de facto, uma pluralidade de pontos de vista e opiniões que poderiam chegar a grandes radicalizações. Por isso é que se costuma dizer que a sociedade iraniana é das “mais democráticas” que há. No sentido de que há sempre uma discussão profunda, mas que não é pública. Muitas das vezes, sendo o próprio Estado a fazer com que essa discussão não seja pública. Fui então percebendo as algumas sociedades muçulmanas não eram aquilo que pareciam. Por trás da aparente unidade existia uma grande série de opiniões que só não eram expressas de uma forma mais positiva porque havia pressões de outros Estados – do ponto de vista militar, financeiro, etc. – ou porque muitas destas sociedades árabes e muçulmanas não são sociedades livres do ponto de vista dos seus direitos civis. E quando não há esta liberdade as opiniões acabam por não passar para o público em geral.

Há um efeito de panela de pressão?
O “Rua Árabe” é a descrição de uma panela de pressão. Mais tarde ou mais cedo as tendências que eram observáveis e que eu encontrei no Irão e noutros países acabariam mais tarde ou mais cedo por vir ao de cima. A questão era saber como é que o governantes controlam esta panela de pressão. Podem controlá-la de várias formas e foi tentado por vários regimes em todo o mundo árabe mas, em geral, não deu resultado.

O que é que está a dar resultado?
Nos países onde as coisas têm decorrido de uma forma menos violenta, como é o caso de Marrocos, tem havido uma tentativa de abertura dos regimes. Que pode dar resultado, evitando para já banhos de sangue. Em outros países, como é o caso da Argélia, onde os militares estão no poder, têm tido resultados até agora. Não se sabe é quanto tempo aguentam mais. Nos outros países em que se tentou uma mistura de abertura e força militar não resultou, que foi o caso do Egipto ou da Tunísia.

O que aí vem será mesmo democracia?
Pode não ser. Estamos a fazer esta entrevista no dia em que alguns institutos de sondagens dizem que os portugueses em geral acreditam cada vez menos na democracia tal como a conhecemos. Portanto, vamos perguntar que democracia. Uma democracia que se traduz no voto maioritário das pessoas e depois a ausência das liberdades civis? Aquilo a que em outros tempos os politólogos chamaram democracia totalitária. A possibilidade de uma democracia do voto em que além disso não há qualquer espaço para a opinião? Poderá ser uma democracia em que há no fundo o semblante de liberdades civis, mas que na prática essas liberdades só estão escritas nas constituições e não podem ser garantidas. Uma coisa que este livro tenta fazer é não forçar uma explicação do fim da história. Nós não sabemos dizer verdadeiramente qual será o fim da história. Há muitas hipóteses em aberto, muitas delas são no sentido de haver mais liberdades civis, outras são no sentido de a actual panela de pressão substituir a antiga. Em que os laicos ou os militares são substituídos por islamitas.

Há o perigo islamita, até através do voto?
A questão da vontade democrática é só uma: ou se decide jogar o jogo até ao fim e tem que se aceitar o voto independentemente do resultado ou simplesmente uma democracia em que aceitamos uns resultados e outros não. A questão é esta. Quando se abre um processo deste tipo é muito difícil voltar a fechá-lo. Até porque nós estamos habituados através da história de que quando os povos desejam algo mais do que pão para a boca - e desejam por exemplo liberdades civis – é muito difícil dizer-lhe “tomem lá o pão e agora esqueçam a liberdade”.

No caso da Líbia, como se explica a mudança repentina da visão da Europa sobre Khadafi?
A atitude europeia foi determinada somente por dois ou três países que se adiantaram. Um deles foi a França, que se adiantou devido a questões de calendário eleitoral. A questão na política internacional é que quando se tomam decisões geralmente essas decisões acarretam consequências. Poderíamos perguntar se a França tinha a noção exacta daquilo que estava, no fundo, a fazer: a forma como estava a acelerar a História. A verdade é que houve uma consequência para a “precipitação” do Sr. Sarkozy, em parte devido ao facto de achar que tinha estado no lado errado da História no que respeita à Tunísia. Tentando desta vez estar do lado certo. Pela primeira vez os europeus tiveram um papel muito mais predominante numa acção deste género que os americanos.

Qual foi, então, o verdadeiro papel e interesse americano nestes países?
Continuo a achar, e há provas nas diversas declarações, que os EUA fizeram, desde o 11 de Setembro, uma aposta extremamente arriscada. Digo arriscada porque podia dar ou não resultado. A aposta era esta: canalizar os ímpetos revolucionários e até violentos de muitos grupos extremistas e salafistas contra os regimes corruptos. O que foi curioso porque ultrapassou todas as expectativas que a Al-Qaeda pudesse ter de todos estes regimes. É uma estratégia arriscada? É uma repetição daquilo que aconteceu no Afeganistão? Esse é o risco, sem dúvida. Qual era a alternativa? Era continuarmos com uma quantidade de regimes que não tinham qualquer tipo de aceitação política, sob a ficção de serem regimes que eram necessários para preservar uma espécie de paz pública e tranquilidade regional.

Qual é o perigo para a Europa caso os islamitas subam ao poder?
Agora há um ajuste de contas dentro do mundo islâmico. Ou seja, o Islão vai ajustar contas consigo próprio. Pela primeira vez nas últimas dezenas de anos, o Islão tem resolver a sua própria casa. O resultado, muito provavelmente, vai traduzir-se em que grupos islamitas vão ganhar eleições em todos estes países. Não tenho muitas dúvidas sobre isso. Já ganharam na Tunísia e no Egipto. No entanto, não acredito na tese de uma conspiração de um círculo islamista que esteja espalhado por todos estes países. O que eu tento demonstrar no livro é que todos estes países têm grupos islamistas diferentes.

Quais as consequências para a Europa?
A primeira consequência para a Europa, que está demonstrada em estatística, foi o afluxo de refugiados para a Itália. Em números que ultrapassaram largamente os que a Itália poderia alguma vez comportar. A segunda, prende-se com as comunidades islâmicas na Europa. Estas comunidades fortaleceram-se nos últimos dez anos, sobretudo na França, na Bélgica, de certa forma também em Itália, e todas elas estiveram a apoiar estas revoltas árabes. É muito difícil pensar nas revoltas egípcias ou sírias sem pensar nas comunidades destes países a viver, por exemplo, em Paris. A terceira, é haver uma pressão de vários Estados fundamentalistas que possam querer avançar com um cenário militar contra a Europa. Já o vi descrito em vários sítios, pessoalmente não acredito e acho que é uma possibilidade extremamente remota. Simplesmente porque estes Estados querem tratar da sua própria vida e não embarcar numa aventura militar contra a Europa.

Como comenta a atitude da chamada “direita populista” europeia que se baseia num discurso anti-islâmico?
A Direita tem “as costas largas”... Muitos dos grupos que se têm oposto à vinda sem controlo de imigrantes para a Europa, dos países do Norte de África e dos países islâmicos em geral, têm olhado para estas revoltas de uma forma ambivalente. Por um lado, acham que se as revoltas correrem mal, temos novas vagas de imigração sem controlo. Mas, por outro lado, se este regimes derem resultado, essa será uma forma de fixação dos candidatos a imigrantes. Se o Islão conseguir resolver a sua própria situação, haverá menos pressão sobre a Europa.

É um Choque de Civilizações?
Se há 30 anos alguém dissesse que o Islão era o grande problema do Ocidente, ninguém acreditava. Ninguém previa que no final do século XX haveria uma guerra por causa da religião. Todos achavam que os problemas seriam outros: económicos, territoriais, derivados da Guerra Fria, etc. Apesar do conflito de Civilizações, aquilo que sai das revoltas árabes, é que as pessoas queriam aquilo que quiseram no Ocidente há 200 ou 300 anos atrás. Ou seja, a possibilidade de elevarem o seu estatuto económico, de falarem livremente, de educarem os seus filhos nas escolas que quisessem, de viverem sem medo. As chamadas liberdades e os direitos civis e económicos foi o que esteve na mesa no primeiro momento da revolta árabe. Se assim vai continuar, não sei. Mas sei que não foi a religião o grande motor destas revoltas. Se fosse uma revolta religiosa teria consequências totalmente diferentes. [Conclui amanhã]

Publicado na edição de «O Diabo», de 24/1/2012.

Os escritores e a Ocupação


O último número do "Magazine Littéraire" tem um excelente dossier sobre "Os escritores e a Ocupação". A não perder.

Futebolice


O futebol, à semelhança do resto do País, também entrou na senda o endividamento. Notícias da semana passada revelaram o que já se suspeitava – a falência. Perante as notificações do fisco para o pagamento das dívidas do chamado “Totonegócio II”, os clubes ameaçaram paralisar todas as competições nacionais se o Governo não estiver disponível para encontrar uma solução negociada. Ou seja, o futebol quer uma situação privilegiada – de excepção – para continuar o circo. Se os clubes são empresas, devem ser tratados como tal. E se a distracção da bola parar, talvez os portugueses prestem mais atenção ao estado do País.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Frase do dia

"Não se pense que isto [CCB] vai ser um centro de projecção das vanguardas. Recorrerá às vanguardas como às retaguardas, sem nenhuma espécie de complexo."

Vasco Graça Moura
in "Públco"

"Che" para toda a obra

Um recente caso de utilização publicitária da imagem de “Che” Guevara gerou polémica. A fotografia estilizada do argentino tornou-se um ícone dos tempos modernos para muita gente, que na sua maioria nem sabe quem ele foi. Das  ‘t-shirts’ aos cigarros, passando pelos preservativos, hoje é possível encontrar o “Che” em quase tudo. Aquele que queria ser um revolucionário anti-capitalista, tornou-se numa marca comercial bastante lucrativa.




Numa recente apresentação da Mercedes em Las Vegas, nos EUA, os publicitários tiveram uma ideia que pensavam “revolucionária”, mas que é usada nos mais variados produtos – a conhecida imagem de “Che” Guevara com a estrela da marca alemã na boina. Tudo se passou na Consumer Electronics Show, uma feira comercial anual dedicada à electrónica de consumo, e na presença do presidente da Mercedes-Benz, Dieter Zetsche. Em causa estava a apresentação de uma nova aplicação que facilita o ‘car-sharing’, a partilha de automóveis, diminuindo assim o trânsito e as emissões de dióxido de carbono. Zetsche disse que “alguns colegas pensam que partilhar o automóvel ronda o comunismo” e acrescentou “viva a revolução”. Esta “revolução” não foi bem vista, em especial pela comunidade cubana exilada nos EUA, que rapidamente protestou e apelou a um boicote à marca germânica. A congressista republicana Ileana Rós-Lehtinen, presidente da Comissão de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que “obviamente os criadores do anúncio têm uma imagem errada de Che Guevara”, acrescentando que “Che era um cobarde corrupto e sedento de sangue que matou incontáveis cubanos inocentes no princípio do regime de Castro”.
A utilização da imagem de “Che” está longe de ser uma novidade. Para além da sua presença nas manifestações dos mais variados movimentos e partidos políticos, o uso comercial generalizou-se. São bastante comuns as ‘t-shirts’ e as mais variadas peças de vestuário. Casacos, calças, chapéus, sapatos ténis, ou até ‘bikinis’, são ilustrados com a famosa imagem. Toda esta parafernália é habitualmente apreciada pelos jovens. No entanto, muitos deles desconhecem totalmente quem foi “Che”, o seu percurso de vida, a sua ideologia política e as consequências da sua aplicação.

História de uma imagem
A conhecida imagem de “Che” tem origem numa fotografia do cubano Alberto Korda, intitulada “Guerrillero Heroico” (Guerrilheiro Heróico), tirada a 5 de Março de 1960, em Havana, quando Guevara tinha 31 anos. A redução dessa fotografia, apenas com o busto de “Che” em alto contraste, começou a ser usada em larga escala pelos meios de comunicação social de todo o mundo. Dos ‘media’ ao uso comercial, foi um salto.
Korda nunca reivindicou direitos de autor sobre a imagem, opondo-se apenas uma vez a que esta fosse usada num anúncio de uma conhecida marca de vodka. Comunista assumido, Korda pretendia evitar a exploração comercial da imagem. Chegou a afirmar à imprensa: “Como defensor dos ideais pelos quais Che Guevara morreu, não me oponho à sua reprodução por aqueles que desejam difundir a sua memória e a causa da justiça social por todo o mundo.” Também a filha de “Che”, Aleida Guevara, chegou a contratar advogados para processar judicialmente as empresas que utilizassem a imagem do seu pai. Afirmou que não queria dinheiro, mas “o fim do abuso”, acrescentando, “ele pode ser uma pessoa universal, mas respeitem sua imagem”.
Como é bem visível hoje em dia, tal não aconteceu e o fim para que a imagem é usada vai muito para além da política. Para além da utilização da imagem nas mais variadas peças de vestuário, referida atrás, o “Che” serve também como marca para os mais inacreditáveis produtos. Cerveja, cigarros, relógios, porta-chaves, fivelas, canecas e copos, isqueiros, bonecos e até preservativos! Uma marca comercial de sucesso e bastante lucrativa.

Che e a extrema-direita
Politicamente, se a utilização de “Che” Guevara e da sua imagem é amplamente sabida à esquerda, o facto de chegar até à chamada extrema-direita é quase desconhecida do grande público. À primeira vista parece estranho, quase impossível, mas os grupos da direita radical que reclamam esta figura admiram-no por ser um “revolucionário” e pela sua oposição ao “imperialismo norte-americano”. Em vários países europeus, grupos e militantes nacionais-revolucionários louvaram ou usaram “Che”, mesmo antes da sua morte. O país onde este fenómeno teve e ainda tem mais expressão é Itália. Desde os anos 60 do século passado que grupos da direita radical se apropriaram de “Che”. Mario de la Ferla, autor do livro “L’altro Che – Ernesto Guevara Mito e Simbolo della Destra Militante” (O Outro Che – Ernesto Guevara Mito e Símbolo da Direita Militante), escreve que: “Existe um outro aspecto do amor por Ernesto Guevara que não é inédito, mais é mais difuso. O amor à direita, aquele dos jovens nacionais-revolucionários, os fascistas vermelhos, que amavam o Che ainda antes da sua morte e para quem se tinha tornado mito e símbolo a partir de 68. A paixão por Guevara à direita é uma heresia, uma provocação, uma apropriação indevida mas perdoada.” Mas também na vizinha Espanha, na Bélgica, com Jean Thiriart, em França, com Jean Cau, por exemplo, que afirmou que “O Che batia-se para libertar o seu continente da ocupação americana, da opressão oligárquica e das injustiças”, assistimos a situações semelhantes.

Publicado na edição de «O Diabo», de 24/1/2012.