sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Refundação

Não deixa de ser curioso ouvir falar em “refundação” nos tempos que correm. É mesmo irónico, já que é exactamente do que Portugal precisa. O problema é que há uma confusão semântica nesta afirmação.

Quando o primeiro-ministro fala em “refundação do Estado”, o que parece querer dizer é reforma da Administração Pública. Senão, vejamos: o que está em causa é a redução de funcionários públicos e uma série de cortes no chamado Estado social. Ou seja, apesar de tais alterações poderem provocar modificações no funcionamento da máquina estatal, o regime continua a ser o mesmo.

Podemos considerar que da última vez que o Estado português foi “refundado” – para muitos foi, pelo contrário, “reafundado” – tal se deveu ao golpe militar de 25 de Abril de 1974. Será que os nossos políticos querem alterar o que foi instituído nessa altura?

Não temos D. Afonso Henriques com a sua determinação em tornar o Reino livre e independente. Já nem esperamos D. Sebastião, último rei do mundo antigo, que deve estar sempre presente no nosso espírito. Definhamos numa pobreza a todos os níveis depois de a ditadura do consumo e do conforto nos ter amolecido enquanto Povo.

A vontade de mudança não surge em períodos de abundância. Durante a bonança não sopram os ventos que enchem as velas e nos fazem mudar de rumo – que nos fazem avançar.
É nestes períodos conturbados que surgem os homens providenciais, aqueles que se destacam dos funcionários, dos técnicos, dos sujeitos mecânicos. Verdadeiros comandantes de navio, são eles que despertam os conformados da sua sonolência e que lhes mostram que onde há uma vontade há um caminho.

Esperemos que esta crise acabe por fazer emergir uma tão necessária refundação. Que neste processo se possa reaportuguesar o País e que tomemos consciência do nosso destino comum.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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