terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Oeste nada de novo

Há 12 anos, estava eu na Florida, quando se decidiu, numa eleição controversa que implicou uma decisão judicial, a vitória de George W. Bush. Foi curioso observar a forma como as pessoas comuns vivem uma campanha nos EUA. Não querendo nem podendo ser exaustivo, refiro apenas um pormenor que na altura me chamou automaticamente a atenção: o facto de muitos estabelecimentos comerciais assumirem o seu candidato e afixarem a respectiva propaganda nas montras. As recordações dessa altura foram mantidas vivas pela observação de um continuado processo a que podemos chamar, numa generalização simplificadora, “americanização”. Tal ocorre tanto nos outros países ocidentais, como no resto do mundo. Muitas transformações sociais ocorridas reproduzem o modelo norte-americano, que continua a ser visto como “moderno” ou um “progresso”. No entanto, apesar disso, a realidade dos EUA continua a ser muito diferente de todo esse mundo que influencia, ainda que indirectamente. Quem olha de fora para a potência que saiu vencedora da Guerra Fria, cai normalmente em erros de análise crassos.

Veja-se como exemplo a eleição de Obama. As esquerdas europeias congratularam-se, numa histeria que mais fazia lembrar um artista musical. Escusado será dizer que entre o Partido Democrata norte-americano e as esquerdas europeias há uma distância quase tão grande como o Oceano que os separa. Por outro lado, a partir de Bush, em especial com os ‘neo-cons’, e depois com o Tea Party, o Partido Republicano é apresentado por cá como uma espécie de “perigosa extrema-direita”. Assim, para os bem-pensantes europeus, aqueles representam o protótipo do norte-americano ignorante. Se é verdade que “Dubya” (designação irónica dada a Bush Filho) era pródigo nesses tropeções, acontece que este é um fenómeno recorrente e explorado em ambos os lados. A última ‘gaffe’ desta campanha até foi protagonizada por um democrata, quando Joe Biden, referindo-se a Obama, afirmou num comício que “não houve um único dia em que se tivesse orgulhado de ser seu vice”.

Numa eleição em cuja campanha o assunto central foi a economia e em que pouco se debateu a política externa, a maioria dos comentadores prevê a reeleição de Obama, apesar de as sondagens colocarem Romney bastante perto. Mas será a diferença entre os dois – para nós, evidentemente – assim tão grande? A Oeste nada de novo.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Sem comentários:

Enviar um comentário