quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fiscalismo

O aumento da carga fiscal anunciado pelo actual Governo foi classificado pelos comentadores políticos da nossa praça como “brutal”, “napalm”, um “tsunami”, um “assalto” entre outros mimos. Não é coisa para menos. A subida de impostos nunca é uma medida que as pessoas aceitem de ânimo leve, mas desta vez foi especialmente dura. Por um lado, o agravar do aperto em que já estão os portugueses com este aumento extraordinário, por outro, a ideia generalizada de que quem o impõe não está seguro do que está a fazer e, por fim, o visível despesismo que continua e que os cidadãos comuns – os esmifrados do costume – já não compreendem, nem aceitam.

É inegável que uma sociedade só funciona com impostos e que a ideia, muito comum no nosso país, de que quem a eles consegue fugir é um herói está completamente errada. No entanto, longe se ser um esforço comum, a carga fiscal incide cada vez mais sobre os mesmos. Refiro-me à classe média – essa fatia que na nossa sociedade se arrisca a tornar-se uma “espécie em vias de extinção” – que continua a sustentar a situação. É claro que muitos continuam a acreditar neste modelo político e social, mas vai havendo cada vez mais que só continuam a pagar porque não têm escapatória.

Por outro lado, os que governam têm no agravamento fiscal uma ferramenta fácil e sempre à mão, que em alturas difíceis não hesitam em utilizar. O problema é quando o seu uso, que normalmente é um abuso, é feito sem qualquer estratégia.

O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, com o seu discurso pausado, convenceu muita gente que sabia o que estava a fazer. Agora, depois de tantas hesitações governamentais, de tantos avanços e recuos, são poucos os que ainda depositam a sua confiança em quem parece vai conduzindo o País com medidas avulsas, por tentativa e erro.

Mas o mal não é só nosso, evidentemente. Estamos a ver que a milagrosa receita da ‘troika’ não passa afinal de um logro e que até a responsável pelo FMI considera que toda esta austeridade é demais.

O fiscalismo continua a ser uma arma contra o povo, enquanto este permanecer sereno. E quando já não houver onde ir cobrar?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Sem comentários:

Enviar um comentário