domingo, 16 de setembro de 2012

Sete Cavaleiros

A trilogia dos “Sete Cavaleiros” juntou dois grandes talentos: um grande romancista, Jean Raspail, e um grande autor de Banda Desenhada, Jacques Terpant. O resultado não podia ser melhor e os álbuns, de extraordinária qualidade e beleza, transportam-nos para um mundo trágico que é uma alegoria ao nosso.

Jean Raspail é um grande romancista francês e autor de uma extensa obra. Foi também explorador e viajou durante trinta anos conhecendo pequenas civilizações em vias de desaparecer. A sua obra mais famosa e mais polémica foi “Le Camp des Saints”, que seria traduzido e publicado em Portugal pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”. Publicado em 1973, em França, o livro foi uma verdadeira bomba incendiária. De uma qualidade literária indiscutível, versava sobre um tema polémico e provocou um intenso debate. Esta parábola sobre o futuro da Europa, na qual um milhão de pobres vindos do terceiro mundo desembarcavam nas costas francesas, alterando com a sua invasão pacífica toda uma civilização, foi considerada “racista” pelos sectores do costume e viria a revelar-se verdadeiramente profética. Depois de vários anos sem ser publicado, o livro foi recentemente reeditado, alcançando um êxito de vendas considerável. Numa entrevista recente, Raspail afirmou que sabe muito bem o que é uma civilização que vai desaparecer e que esta “se deve defender antes de desaparecer”.

A história agora vertida à Nona Arte é retirada do seu romance “Sete cavaleiros deixaram a cidade ao crepúsculo pela porta do Oeste que já não estava guardada”, publicado em 1993.

Jacques Terpant, é um ilustrador, pintor e autor de Banda Desenhada, conhecido pelas séries “Messara”, passada na Antiguidade, e “Piratas”, publicada pela Casterman. Os “Sete Cavaleiros” valeram-lhe o Prémio Saint-Michel para o Melhor Desenho, em Bruxelas, no ano passado.

O primeiro volume da trilogia dos “Sete Cavaleiros” foi publicado em 2008 pelas edições Robert Laffont, mas como considerou o próprio Jacques Terpant estes “reveleram-se como totalmente incompetentes na sua difusão”. Tal motivou a mudança para a Delcourt que, no ano seguinte, reeditou o primeiro tomo, com oito páginas suplementares ilustradas com notas complementares sobre “O Mundo dos Sete Cavaleiros”, publicou o segundo, intitulado “O preço do Sangue”. Em 2010 a saga era concluída com a saída do último tomo, “A ponte de Sépharée”.

Como o título da obra original indica, a história é a de sete cavaleiros que deixam a cidade do Margrave hereditário que outrora foi próspera e pacífica, mas que agora está ameaçada. Este punhado de homens, bastante diferentes e simbólicos, mas unidos entre si na disciplina, na fé e na preservação do seu reino, tem como missão encontrar a soberana herdeira, a Margravina Myriam. Na sua senda, vão encontrar resistentes isolados e fiéis aos costumes antigos, bem como várias ameaças tanto internas como externas, já que “do outro lado das montanhas” está quem avança para destruir e conquistar a sua civilização. Uma sociedade europeia moribunda que depende destes homens, movidos apenas pela esperança e pelo sentido do dever. Como afirmou Terpant, “a cidade do Margrave hereditário é ao mesmo tempo tangível e imaginária, um reino que pode ser no fim do século XIX, nos confins da Europa e da Ásia, uma Sildávia de Jean Raspail”.

Tudo se passa num cenário maravilhosamente construído pelo talento e cuidado de Jacques Terpant, que dá uma atenção extraordinária ao pormenor, conferindo aos álbuns uma riqueza gráfica impressionante. Nota para um pormenor curioso, a ilustração do Margrave hereditário é feita a partir do próprio Jean Raspail. Uma bela homenagem a um autor de referência.

A união destes dois raros talentos produziu uma obra-prima. Felizmente, não se ficou por aqui. No ano passado saiu “Oktavius”, o primeiro dos quatro volumes da série “Os Reinos de Bóreas”, baseado no romance homónimo de Raspail, publicado em 2003 e traduzido e editado entre nós pelas Publicações Europa-América, em 2005. Aguardemos a continuação deste óptimo encontro.

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