quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O fardo do Homem branco

O título do poema de Rudyard Kipling transformou-se numa expressão que normalmente se associa ao dever que os povos de origem europeia tinham de desenvolver os outros povos, considerado como uma manifestação de um racismo eurocêntrico.

Hoje o “fardo” é outro. Incrivelmente, passados tantos anos, os europeus continuam a ser repetidamente culpabilizados pelo actual estado dos países que outrora dominaram.

No seu livro “Civilização”, o historiador Niall Ferguson fala do domínio do Ocidente sobre os outros e escreve: “Nenhum autor sério poderá afirmar que o reinado da civilização ocidental foi imaculado. Contudo, há quem afirme que não teve absolutamente nada de bom. Esta posição é absurda”.

Numa das suas últimas entrevistas, o historiador Vitorino Magalhães Godinho explicou que, por não existir “a ideia de nação” em África, os novos países construíram “um passado próprio”, passando “a dizer que tudo quanto os colonizadores tinham trazido era mau, que eram todos uns criminosos, que tinham que pedir desculpa. E os europeus desataram a pedir desculpa.” Recusando tais pedidos de desculpa, afirmou: “O que é condenável é esconder o que se passou. Mas eu não tenho nada que ver com o que fizeram os homens do século XV. A culpa não se transmite de pais para filhos, não é hereditária.”

Sobre o polémico tema da escravatura, disse que esta “existia entre os povos africanos, os portugueses utilizaram as redes de escravaturas existentes. Os régulos gostavam muito de vender os seus negros como escravos. E isso permanece”. Traçou ainda a continuidade dessa postura até aos “actuais chefes políticos dos estados africanos, a cujos bolsos vão ter os subsídios atribuídos aos seus países”.

É tempo de acabar de vez com o fardo da culpabilização unívoca.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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