quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A queda

A mensagem mais importante a reter das recentes manifestações contra as medidas de austeridade e o Governo é a de que a mobilização, apesar da habitual tentativa de colagem e aproveitamento dos partidos das esquerdas, se deveu a um distanciamento do sistema.

Pode até parecer um palavrão sem sentido, mas o que é facto é que um número considerável dos presentes afirmava claramente estar ali porque o acto, pelo menos para eles, “nada tinha que ver com partidos ou sindicatos”.

O que está aqui em causa é o desacreditar da representação democrática tal como está instituída. Perante o empobrecimento generalizado e a ameaça do agravar da situação, a classe média urbana, sustentáculo do regime, põe em causa a manutenção do ‘statu quo’ e pode abrir as portas a uma alteração política profunda.

O caso não é apenas nacional, obviamente, e um processo de mudança radical só poderá verificar-se num contexto europeu, como aliás temos assistido historicamente.

No entanto, por cá, vamos tendo cada vez mais demonstrações de que as instituições governativas estão desacreditadas. Exemplo disso é o resultado da sondagem, divulgada pela imprensa, que revela que 87 por cento dos portugueses estão desiludidos com a democracia. Ao mesmo tempo, vemos que há uma ampla crença de que o futuro vai ser pior e os partidos do chamado “arco do poder” caiem nas intenções de voto.

Tal como em 1926 e em 1974, as massas não sabem o que querem, mas sabem muito bem o que não querem. Uma insatisfação cuja reacção pudemos assistir no 28 de Maio e no 25 de Abril.

Nas elites, a desconfiança também grassa. O ambiente interno nos grandes partidos é caótico – a falta de dinheiro para as prebendas põe em causa o tachismo. Por outro lado, muitos são os que propõem um governo tecnocrático, nomeado à revelia de eleições, à semelhança do que aconteceu noutros países europeus. Em nome da manutenção do bem-estar possível, ou crível, instaura-se a ditadura económico-financeira dos credores internacionais.

Não nos iludamos. Os sinais são claros. Estamos a assistir à queda.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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