sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Uniformizar

Guardo vários amigos dos tempos do liceu que são apaixonados pelo surf e sempre tiveram na Ericeira uma segunda casa. Alguns falaram-me do caso, que chegou às notícias, do encerramento compulsivo do ‘surf camp’ de Ribeira d’Ilhas.

Até onde me foi possível apurar, a Câmara de Mafra desencadeou um processo de expropriação para aí fazer as obras previstas no Plano de Ordenamento da Orla Costeira. O edil local – que consegue ser Presidente, Engenheiro e Ministro, de cargo, título e apelido – tornou-se o alvo principal da ira dos surfistas. Acusam-no de se mover apenas pelo dinheiro. Um dos treinadores, José Maria Pyrrait, citado pela Lusa, afirmou: “É uma invasão de propriedade privada. Penso que não estamos num estado comunista – a câmara decretou utilidade pública para montar um centro de negócios pior do que o que cá está”.

É óbvio que o que motiva este texto não é uma questão de amizade, nem de amor a um desporto que não pratico. É antes a suspeita de mais um caso da uniformização a que tem sido sujeito o nosso litoral.

Alguns dos que protestam afirmam que já viram o projecto da câmara e que este prevê a construção de mais um ‘resort’ turístico igual a tantos outros. A confirmar-se, só o podemos lamentar.

Veja-se o caso dos chamados apoios de praia. Para acabar com muitos que não passavam de verdadeiras barracas sem condições, impuseram-se modelos de construção. Com todos os benefícios que possam ter trazido, não deixaram de prejudicar uma diversidade que se deve respeitar e assegurar.

A nossa oferta turística não pode assentar na uniformização, não pode oferecer o mesmo que é possível encontrar noutros lados. Pelo contrário, deve valorizar as saudáveis diferenças regionais e locais que nos caracterizam enquanto todo. Quem nos visita deve ver Portugal, não deve passar por mais um ‘resort’.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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