sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Lusofonias

Fui este ano pela primeira vez ao Rio de Janeiro, cidade de uma beleza natural espantosa que já foi capital de Portugal. Observando as pessoas e os seus hábitos, houve algo que me deixou perplexo. Mesmo sabendo que o brasileiro comum não entende bem a nossa pronúncia, não deixei de ficar chocado – a palavra é mesmo esta – com o facto de a maioria deles não perceber sequer que língua é que falamos! Perguntaram-me se eu era italiano ou argentino e alguns responderam-me em espanhol (por este termo entenda-se o castelhano com sotaque e termos sul-americanos)!

Claro que basta abrir as vogais, mudar o tempo verbal para o gerúndio e usar alguns termos locais para se ser entendido. Mas a adaptação tem que ser nossa.

Estabelecida a comunicação, verifica-se que há um carinho e uma admiração por Portugal. Mas não nos deixemos iludir. O cidadão comum conhece muito pouco do país que lhes levou a língua e onde um dia aportou uma corte europeia, algo único na História. Apesar de demonstrar curiosidade e interesse.

Esta experiência pessoal leva-me à questão de fundo da lusofonia. Conceito a partir do qual quase tudo se tem defendido. Incluindo o famigerado Acordo Ortográfico, que em nada aproximou, nem aproximará, os países lusófonos.

Este é um assunto de elevada importância que não deve ser descurado. A lusofonia é uma área de influência geopolítica natural de Portugal e que deve por nós ser utilizada na afirmação da nossa cultura e posição internacional, mas há que recordar que não pode ser deixada a outros. Nunca pela lusofonia devemos submeter-nos a interesses alheios. Pelo contrário, devemos ter sempre presente que a nossa gloriosa gesta lusa foi mais uma das projecções da Europa. Não podemos esquecer o poder e amplitude da forma como tocámos o mundo, mas o que não podemos mesmo fazer é esquecer o nosso país e o nosso povo em nome dessa projecção.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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